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ENTREVISTA I CONSUELO LINS
Professora Titular da Escola de Comunicação e integrante do Comitê Científico da sociedade brasileira de Estudos de Cinema e Audiovisual

 

Por Ana Beatriz Magno e Kelvin Melo
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Não foi só uma consequência dramática do descaso ou uma tragédia anunciada e denunciada meses antes pelos funcionários e autoridades do Ministério Público. O WhatsApp Image 2021 08 06 at 21.42.10incêndio da Cinemateca, na noite de 29 de julho, integra um projeto criminoso de queimar todo e qualquer polo crítico, criativo, inteligente, emancipatório no Brasil. “Há uma guerra cultural em curso. O governo Bolsonaro declarou guerra contra qualquer coisa que seja crítica, libertária e criativa. A cinemateca é simbólica disso tudo”, resume Consuelo Lins, professora titular da Escola de Comunicação da UFRJ, e usuária assídua dos acervos da Cinemateca para suas pesquisas.

Documentarista e estudiosa da produção audiovisual brasileira, Consuelo está inconformada com os efeitos das chamas. “O fogo consumiu toda a memória de algumas instituições federais de fomento ao cinema, como a Embrafilme. Toda memória que se tem de todas as produções feitas por esta instituição tão importante foi queimada”, lamenta. “É desolador. Como dizia Darcy Ribeiro, é um projeto de desmonte, não é uma incompetência, é deliberado”.

Pesquisadora do papel da memória na construção cultural, Consuelo ressalta que o incêndio não destruiu apenas o passado. “Elas queimaram também o futuro. Construímos o futuro a partir do passado, a partir de imagens registradas no passado e guardadas em instituições como a Cinemateca. Por isso, essas instituições são tão importantes, porque são essenciais para a construção do futuro”, lamenta a docente em entrevista ao Jornal da AdUFRJ. “No atual momento, é urgente uma política de redução de danos. É o possível. E o mais rápido possível. Ainda há muitas outras coisas com potencial não só de serem queimadas, mas de serem perdidas por falta de preservação”.


WhatsApp Image 2021 08 06 at 21.45.56Jornal da AdUFRJ: A cinemateca pegou fogo ou foi incendiada?
Consuelo Lins: Foi incendiada. É a crônica total de um crime anunciado.

O que significa perder essa memória da produção cultural, não só do cinema?
É uma possibilidade de futuro. Potencialmente, você tem uma multiplicidade de possibilidades naquele material. Não é só cinema. É história, antropologia. Tem imagens dos índios, no começo do século XX. Por mais que a gente possa problematizar essas imagens. A memória não está ali pronta. É um material que a gente tem que trabalhar de variadas maneiras. No Brasil, já é difícil a preservação. Muita coisa já se perdeu. E, de repente, se você queima isso, você não pode mais reconfigurar as coisas. Potencialmente, você acaba com essa multiplicidade de possibilidades.

A senhora lembra do exato momento em que recebeu a notícia do fogo no galpão da Cinemateca? O que sentiu naquela hora?
Recebi a notícia por mensagem de uma amiga, Patrícia Machado, da PUC-Rio, que trabalha com imagens de arquivo. Ela estava em estado de choque. Eu lembro que falei: “Não, não é possível”. Mas é possível. Neste governo, as notícias terríveis são tão cotidianas...

A cinemateca já pegou fogo antes. Houve um grande incêndio em 1957...
n Agora é diferente dos anos 1950, porque hoje a gente tem mais consciência da preservação. É um momento muito particular, de ter um presidente partidário da necropolítica, no sentido amplo. Não só em deixar morrer uma boa parte da população, seja por covid-19, seja por pobreza. Isso inclui também a memória do Brasil. A situação estava complicada na Cinemateca há muitos anos. Mas as coisas estavam funcionando até o Bolsonaro ser eleito. Não existe nenhuma empatia dele com nada que acontece no Brasil de trágico. É um projeto mesmo de incendiar, de acabar. A Cinemateca é muito simbólica disso.

O que fazer para impedir mais destruição na Cinemateca?
Claro que precisa ter uma política de longo prazo, independentemente de governos, precisa de mais verbas. No atual momento, é política de redução de danos. É o possível. E o mais rápido possível. Ainda há muitas outras coisas com potencial não só de serem queimadas, mas de serem perdidas por falta de preservação. Espero que consigam fazer esse deslocamento (da gestão) para o governo do estado ou que volte a ser da associação dos amigos da Cinemateca. Ela passou a ser subordinada ao Ministério da Cultura, quando o governo estava interessado em investir em Cultura. Mas, com a mudança de governo, isso é terrível.

Por que os bolsonaristas odeiam tanto a Cultura e a Ciência?
São milhares de razões. Há uma guerra cultural em curso. O governo Bolsonaro declarou guerra contra qualquer coisa que seja crítica, libertária e criativa. A cinemateca é simbólica disso tudo. Uma guerra que não é só no Brasil. Mas, no Brasil, as coisas são mais toscas, mais caricaturais.

O que se perdeu?
Ainda estão fazendo o levantamento. O mais importante é toda a memória de algumas instituições federais de fomento ao cinema, como a Embrafilme. Toda memória que se tem de todas as produções feitas por esta instituição tão importante foi queimada.

Qual sua relação com a cinemateca?
Já frequentei vários festivais de cinema lá ou seminários acadêmicos. Existe uma associação acadêmica, a Socine, a Sociedade Brasileira de Estudos de Cinema e Audiovisual, que muitas vezes fez suas reuniões na Cinemateca. Quem trabalha com cinema, na academia ou na prática, frequenta ou frequentou a Cinemateca em algum momento da vida. Em 2009, ganhei um edital do ministério da cultura para fazer um curta-metragem sobre as babás. Além de falar daquele momento no Brasil, poucos anos antes da regulamentação da profissão das empregadas domésticas, havia essa pesquisa. Eu queria buscar imagens nos arquivos familiares e nos arquivos públicos. Vim a São Paulo (Nota da Redação: a professora estava na capital paulista, quando concedeu esta entrevista). As funcionárias que me atenderam foram absolutamente ágeis e competentes. Fizeram uma seleção de materiais. Fiquei dois, três dias assistindo a imagens dos anos 1910, 20 e 30 e consegui imagens muito legais.

Como essa sua experiência ajuda a explicar a importância da Cinemateca?
Eu encontrei imagens, mas não com essa rubrica “babás” ou “trabalho doméstico”. As famílias com posse compraram câmeras e filmaram batizados, casamentos. E essas pessoas que eram tão presentes no cotidiano das famílias apareciam tão pouco. O fato de os negros aparecerem tão pouco nessas imagens é um dado a ser trabalhado. O que essas imagens não revelam também é fundamental, mas elas precisam existir.

Por que a UFRJ ainda não tem um curso de graduação de cinema?
Precisamos de uma reestruturação maior. De mais equipamento, de mais técnicos. Temos aula de roteiro, de edição, de montagem, mas não conseguimos organizar algo como existe na USP ou na UFF. Vamos continuar nesta batalha, mas agora é tentar se manter de pé com o que é possível. Depois, a gente volta a tentar avançar nestas questões.

  1. WhatsApp Image 2021 08 04 at 09.40.37Ele foi nosso ponto de encontro e nos ajudou a atravessar momentos muito difíceis! Nos últimos tempos, sobrecarregados com tantas lives, reuniões e aulas remotas, suspendemos a nossa programação. Esse convite é para um reencontro, para renovarmos nossas forças pois em breve iniciaremos a campanha eleitoral para a nova diretoria da AdUFRJ.
  2. Para participar é fácil, a partir das 17h15 você envia uma mensagem para o whatsapp da AdUFRJ (21) 99365-4514 pedindo para participar e nós te enviamos o link de acesso à nossa sala no ZOOM. Se você ainda não conhece o aplicativo, acesse zoom.come instale em seu computador ou celular.

WhatsApp Image 2021 07 30 at 21.03.44Lucas Abreu e Silvana Sá

A Olimpíada é a maior expressão do esporte mundial. Os Jogos reúnem histórias de homens e mulheres que superam obstáculos físicos, rompem muralhas sociais e culturais, se entregam, semeiam exemplos e encantam torcidas. Num tempo de enorme desesperança mundial, com pandemia e horrores políticos, as Olimpíadas de Tóquio, sem torcida e com muita emoção, aceleram corações por todo o globo. No Brasil, as manhãs e madrugadas estão mais alegres com nossos heróis olímpicos nos presenteando com performances e biografias impressionantes.
O filho de pescador, dono do ouro, que surfava numa tampa de isopor; a fada do skate que conquista sua primeira medalha aos 13 anos; a mulher negra que encantou uma arena ao som de “Baile de Favela” e nos trouxe a primeira medalha da história no individual geral da ginástica olímpica. Estes são alguns exemplos de como esporte e emoção andam juntos. Mas não só.
Ao longo das últimas décadas, cresceu também a participação da ciência e da tecnologia para melhoria do rendimento dos atletas de ponta e também aumentou o controle para evitar disputas desleais, como o uso de substâncias proibidas que melhoram químicamente o desempenho do corpo.
“Estamos falando da preservação de valores éticos na nossa sociedade”, pontua o professor Henrique Marcelo Gualberto Pereira, do Laboratório Brasileiro de Controle de Dopagem (LBCD), que está em Tóquio e nos concedeu uma entrevista exclusiva. O Jornal da AdUFRJ foi em busca dele e de outros especialistas que nos ajudam a mostrar como a UFRJ, a ciência e a tecnologia atuam para tornar o espetáculo cada vez mais perfeito.

“Não dá para realizar treinamento de atleta sem tecnologia e pesquisa científica”

Silvana Sá

Imagine repetir um movimento tantas vezes e por tantas horas até que seja impossível errar qualquer milímetro. Esse era basicamente o princípio de treinamento dos atletas de alto rendimento no Brasil e no mundo até bem pouco tempo atrás. A ideia era reproduzir o que acontecia nas competições como meio de aperfeiçoar as equipes de qualquer modalidade esportiva. Mas, com o avanço da ciência do esporte, treinamentos exaustivos e repetitivos estão dando lugar a treinos focados e que buscam otimizar o rendimento do indivíduo, ao invés de cansá-lo. Além de melhorar o desempenho, as técnicas minimizam os riscos de lesões por esforços prolongados. “Não dá para realizar treinamento em atleta sem ciência e tecnologia”, enfatiza o professor Alexandre Palma, vice-diretor da Escola de Educação Física e Desportos da UFRJ.
A UFRJ tem uma longa tradição no mundo dos esportes. A então Escola Nacional de Educação Física da Universidade do Brasil foi fundada em 1939 por ninguém menos que a professora – e maior nadadora da nossa história – Maria Lenk. A docente também foi a primeira mulher a dirigir a unidade. O passado glorioso inspira o presente. “Estudamos efeito de cargas de treinamento, aspectos fisiológicos. A gente está antenado com tudo isso”, revela Alexandre Palma. “Estudos sobre genética, também feitos na universidade, tentam associar determinados treinamentos com polimorfismos genéticos”, aponta o pesquisador. Outras linhas de pesquisa investigam enzimas que estão associadas com o perfil de mais força ou mais aeróbico de um atleta. “Com conhecimento mais seguro sobre isso, é possível influenciar na escolhas de atletas de alta performance para determinadas modalidades”, sugere. “A ciência vai alimentando a intervenção dos treinadores”.
“Somos uma das universidades mais evoluídas no conceito de ciência do esporte”, completa o professor Renato Alvarenga, do Departamento de Biociências da EEFD. “A Escola é uma das primeiras da América Latina nessa área”, orgulha-se. “A gente contribuiu muito para mudar o conceito da educação física, em função das pesquisas que desenvolvemos nas últimas décadas”, revela o pesquisador.
Para o docente, um dos principais aspectos que geraram o salto qualitativo dos últimos anos é a ciência do movimento. “A biomecânica, muito mais computadorizada, permite avaliar cada giro, cada movimento, cada salto do atleta para melhorar sua performance, para que tudo seja otimizado de forma que ele não faça nada que seja desnecessário ou que vá machucá-lo”, detalha. Tamanha precisão de dados gera treinamentos mais específicos e elaborados por modalidade.
Equipamentos capazes de medir enzimas como a CK, que surge na circulação sanguínea sempre que a musculatura de um atleta apresenta fadiga, permitem controlar o treino e evitar lesões. “Hoje também temos câmeras termográficas que observam como está o músculo do jogador. A cor mais avermelhada permite verificar se o músculo tem, por exemplo, micro lesões e em que lugares estão, o que também contribui para a recuperação desse indivíduo”.

Teoria e prática
Uma das pesquisas em andamento na EEFD envolve o time de vôlei feminino Sesc RJ Flamengo. A investigação, coordenada pelo professor Eduardo Portugal, do Departamento de Jogos da Escola, utiliza a tecnologia Vert, capaz de mensurar todos os deslocamentos e alturas de saltos de cada atleta. “Isso permite chegar para uma atleta e orientar que ela salte menos, porque na semana anterior ela saltou muitas vezes e isso pode comprometer ligamentos, pode resultar numa lesão desnecessária”, explica. “É uma ferramenta incrível. Não é mais só o que o técnico acha. Ele recebe uma série de informações e vai trabalhando em cima delas”, afirma o pesquisador.
A mesma tecnologia também está sendo aplicada no futebol. “Estamos fazendo estudo parecido com jogadores de futebol, medindo a velocidade do atleta e as distâncias percorridas. Dá para fazer isso de forma individualizada, mesmo o esporte sendo coletivo. É uma revolução! Até pouco tempo atrás isso não existia”, conta Portugal.
Também com investigações na área esportiva – mas não só – o Laboratório de Biomecânica, do Programa de Engenharia Biomédica da Coppe, pesquisa o desenvolvimento de um calçado que seja capaz de reduzir o desgaste do usuário para longas caminhadas. “O sujeito tem que fazer uma marcha de 10 quilômetros com uma mochila de 15kg, como fazer com que essa pessoa se desgaste menos com o calçado, que tenha menos lesão, gaste menos energia? Como o calçado pode devolver uma parte da energia para o usuário?”, indaga o professor Luciano Menegaldo, coordenador do laboratório.

Investimento necessário
Tanta tecnologia tem um alto custo financeiro e coloca na frente da corrida os países mais ricos. Uma das consequências mais evidentes, nas Olimpíadas, é o número de premiações de cada país. “Os países desenvolvidos, consequentemente, têm ampla vantagem no quadro de medalhas. Muitas vezes, não se trata só de ser um país que investe em esporte, mas uma consequência do investimento em ciência e tecnologia”, afirma o professor Alexandre Palma. “Quem investe menos vai ficando para trás”.
Outra face da falta de investimentos é o abandono de equipamentos esportivos. Os Jogos do Rio, em 2016, geraram uma série de instalações que hoje estão degradadas pela falta de manutenção e recursos.  “Viraram elefantes brancos”, observa o professor, que cita entre seus exemplos os campos de hóquei e rugby, na Cidade Universitária. “Esses espaços se deterioraram, por falta de recursos. Estamos fazendo um processo de recuperação da piscina e também das áreas externas, mas tropeçamos no orçamento”, lamenta o vice-diretor. “Estamos numa área com muitas crianças no entorno. Seria uma oportunidade de potencializar a utilização dos equipamentos para a sociedade”, critica. “Quando a gente pensa no esporte não pode ter em mente só a formação de atletas”.
Eduardo Portugal concorda. “O esporte tem uma vertente mais importante, como meio de inclusão social, como manifestação cultural, como lazer, como saúde. É dever do Estado fomentar a prática esportiva dentro dessas vertentes. É um ponto chave para o desenvolvimento da nossa sociedade”. (Silvana Sá)

Tóquio faz história

O torneio de Tóquio já entrou para a história como o mais diverso desde a invenção das Olimpíadas. É a primeira vez que a competição tem 49% de atletas femininas. O maior percentual de mulheres competindo numa Olimpíada havia sido registrado no Rio, em 2016, com 45% de participação. Também é a primeira vez que uma atleta transgênero integra a equipe de um país. Laurel Hubbard, do levantamento de peso da Nova Zelândia, obteve o direito depois de cumprir rígidas normas e provar que seus índices de testosterona estavam abaixo do estabelecido pelo Comitê Olímpico Internacional. Estreantes nos Jogos,  surf e skate ganharam projeção e trouxeram medalhas para o Brasil. As Olimpíadas 2020 também bateram recorde no número de atletas declaradamente LGBTQIA+: ao menos 166. Em 2016 eles eram 56 e, em 2012, apenas 23.
Tanta diversidade colocou na pauta dos Jogos de Tóquio debates absolutamente contemporâneos e coube às mulheres o protagonismo: elas saltaram com macacão para protestar contra a sexualização de seus corpos na ginástica artística; entraram em campo com braçadeira de capitã com as cores do arco-íris; se ajoelharam em protesto contra o racismo e o assassinato sistemático de pessoas negras no mundo; abandonaram a competição para presevar a saúde mental.
Especialista em Psicofisiologia do Exercício, o professor Eduardo Portugal, da EEFD, estuda a relação entre corpo e mente e como as emoções podem interferir no desempenho esportivo – para o bem e para o mal. “A pressão que um atleta desse nível recebe para se manter no topo é enorme”, opina. “Eu consigo mensurar quando o atleta teve mais sucesso e o que afetou sua performance. É um olhar holístico para o desempenho, estamos vendo o indivíduo como um todo, para focar em cada pessoa”, explica. “É uma tentativa de humanizar as estratégias de treinos”.

ENTREVISTA I Henrique Marcelo Gualberto Pereira
Coordenador do Laboratório Brasileiro de Controle de Dopagem da UFRJ

“Estamos falando da preservação de valores éticos na nossa sociedade”

Lucas Abreu

WhatsApp Image 2021 07 31 at 10.19.54Em 2016, o Laboratório Brasileiro de Controle de Dopagem (LBCD), ligado ao Instituto de Química da UFRJ, foi responsável por fazer os testes antidoping dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro. Agora, a universidade leva a sua excelência para Tóquio. O professor Henrique Marcelo Gualberto Pereira, coordenador do LBCD, comanda o time de pesquisadores que foram representar o laboratório da UFRJ no centro de testagem antidoping, coordenado pela Agência Internacional de Testes. Diretamente do Japão, onde está desde o dia 23 de julho, o professor Henrique contou sobre o trabalho que está sendo feito durante os jogos.

Jornal da AdUFRJ - Há quanto tempo o senhor atua nessa área de testes antidoping? Como começou esse trabalho?
Henrique Marcelo Gualberto Pereira - Iniciei na área da Ciência Antidopagem como aluno do mestrado do Instituto de Química da UFRJ, em 1997. Tenho a felicidade de completar, em 2021, 24 anos no que hoje é conhecido como Laboratório Brasileiro de Controle de Dopagem.

Qual o maior desafio de trabalhar na área da ciência antidoping?
O maior desafio é a necessidade constante de evolução metodológica, o que requer grande investimento em pesquisa, mão de obra ultra qualificada e equipamentos modernos. Para se manter em pé de igualdade em relação aos laboratórios de países economicamente mais desenvolvidos, existe a necessidade de investimentos constantes.

Foi a sua experiência à frente do LBCD na Rio 2016 que fez o senhor ser convidado para Tóquio 2020?
Sim. Tive a honra de ser convidado para trabalhar como especialista internacional nos Jogos de Tóquio, compondo um painel de diretores de laboratórios acreditados pela Agência Mundial Antidopagem (WADA). Hoje existem apenas 30 laboratórios acreditados na WADA no mundo. O LBCD é o único na América do Sul. No total, cinco membros do LBCD participam das análises antidopagem nos Jogos Olímpicos e Paralímpicos de Tóquio. Além de mim, estão incluídos no projeto Gustavo Cavalcante, especialista na análise de esteroides anabolizantes, Gustavo Ramalho, especialista na análise de peptídeos e proteínas por espectrometria de massas, Fábio Azamor, especialista na análise de esteroides por IRMS (sigla em inglês de Espectrometria de Massa de Razão Isotópica), e Rachel Santos Levy, especialista na análise de eritropoietina.

Em 2016, o LBCD foi o responsável pelos testes antidoping nos Jogos Olímpicos e Paralímpicos. Qual o papel do laboratório nas Olimpíadas de Tóquio? O que o Brasil leva de expertise para o Japão?
O número de amostras analisadas nos Jogos Olímpicos é extraordinariamente grande. Um complicador é a necessidade de liberação de resultados em até 24 horas. Nenhum laboratório acreditado pela WADA reúne condições de realizar tal tarefa sem o apoio de especialistas internacionais de outros laboratórios. Instituiu-se assim a tradição de apoio técnico-científico ao laboratório anfitrião. Como o LBCD foi o responsável pelas análises nos últimos Jogos Olímpicos, houve grande interação entre o LBCD e o Laboratório Olímpico do Japão. Essa interação muito nos honra, sendo um bom parâmetro do nível de inserção internacional alcançado pelo LBCD.

Quantos testes antidoping serão feitos, aproximadamente, ao longo dos Jogos Olímpicos e Paralímpicos de Tóquio?
No pico da competição, esse número possivelmente chegará a 450 amostras por dia. O número total pode chegar a seis mil amostras, ou até mais. Tudo depende do planejamento da Autoridade de Controle de Dopagem, que coordena as atividades de coleta e inteligência.

Enfrentar o doping exige pesquisas permanentes e trabalho contínuo de aperfeiçoamento, já que os artifícios utilizados para burlar os testes sempre avançam rápido. Como manter essa preparação?
Para trabalhar na área antidopagem é interessante ter a percepção da importância que o esporte tem na saúde do indivíduo e na construção de uma sociedade com padrões éticos elevados. Assim, o surgimento de novas estratégias de dopagem serve, na verdade, como motivação, pois estamos falando da preservação de valores éticos na nossa sociedade.

E como os laboratórios se preparam para lidar com estes avanços?
Investimento em pesquisa é absolutamente fundamental para a evolução dos métodos e estratégias de detecção de agentes dopantes. Sem dúvida, esse é o caminho para que seja possível antecipar as estratégias de dopagem, que costumam estar um passo à frente da antidopagem.

Do ponto de vista pessoal, como é fazer parte de uma Olimpíada? Afinal, estamos falando de um evento que preza pela união e a competição justa, e seu trabalho é ser um dos mantenedores dessa justiça.
Fazer parte de um evento desta magnitude é um prazer, uma honra, mas também uma grande responsabilidade. O princípio do Olimpismo, dentro de uma perspectiva histórica, é algo realmente singular. Apesar de não ser um atleta, gosto de pensar que eu, bem como os demais colegas do LBCD, represento o Brasil aqui em Tóquio. Somos um país com um potencial extraordinário, e a capacidade intelectual do brasileiro não deve nada a nenhum povo do mundo. Quando despertarmos como sociedade para o fato de que os países mais desenvolvidos só o são pelo investimento pesado em educação e ciência, o Brasil não conhecerá limites para suas realizações.

WhatsApp Image 2021 07 31 at 10.03.07ESTÁTUA do bandeirante Borba Gato, em São Paulo, foi incendiada em ato isoladoDiretoria da AdUFRJ

Nada mais definidor das políticas públicas para a Ciência e a Arte do atual governo do que a semana que se encerra: CNPq fora do ar, com um servidor queimado e a notícia de que teria se perdido todo o seu enorme banco de dados (incluindo aí os nossos Lattes) e o incêndio em um dos galpões da Cinemateca Brasileira, com a possibilidade de perdas irrecuperáveis da memória do cinema nacional. Junte-se a isso o achado da antropóloga Adriana Dias, divulgado em matéria do Intercept, que, por acaso, se deparou com as conexões entre grupos neonazistas e o atual presidente da República datados de 2004. Alguém ainda tem dúvida sobre o horror que nos governa? O bafo imundo da besta sopra no Planalto Central, desafia, mente e escarnece as instituições do país. Institui do alto de suas prerrogativas a mentira e a falsificação como norma, e reduz o já vergonhoso toma-lá-dá-cá, ou o famoso “é dando que se recebe” da fisiologia parlamentar, ao mais abjeto colaboracionismo. “O tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações e espera”, drummondianamente falando. Mas não só. Porque sábado foi dia de rua, ato, grito e muitos “Fora, Bolsonaro!”. Nem tão grande nas capitais como gostaríamos, mas surpreendente em tantas cidades pelo país.
O que fere e queima num país que convive com mais de meio milhão de mortos na pandemia? Não queremos explosões descontroladas, dispersas e pouco efetivas. Precisamos de organização, sensatez, persistência e disciplina para nos mantermos no jogo. Aproveitemos a semana olímpica e o belo baile da favela que entrou pela casa de tantas pessoas em todo o mundo. Rebeca entrou com tudo, Daiane lembrou que faz muito pouco diziam que ali não era lugar para elas. Mas elas foram e ocuparam. E Rebeca ocupou sem concessões: mulher, negra, favelada finca o pé na festa esportiva de todos os povos, queimando na pira olímpica mais um tanto de racismo e preconceito. Tivemos até fadinha, com direito a esperança num mundo melhor.
E, no meio do caminho, uma estátua incendiada. Muita polêmica em torno dela, porque roubou a cena dos atos organizados, porque deu argumentos para os conservadores, porque foi uma decisão autoritária de um pequeno grupo. E também porque não se queimam monumentos, não se queima a história... E por aí segue o fio de uma grande lista de argumentos contra o ato da autointitulada Revolução Periférica. Mas não é do passado que estamos falando, pois a questão é que Borba Gato está mais vivo do que nunca. Escravista e aventureiro, predador extrativista, parece que seu espírito volta a nos assombrar, rondando a vida política brasileira, hoje sustentada por madeireiros ilegais, garimpeiros e toda sorte de contrabandistas e atravessadores. Por isso a discussão é urgente, mas ela é muito maior do que refutar o passado colonialista, é ainda lutar desesperadamente para que ele seja de fato um passado a ser criticado.
Sigamos nessa conjuntura cada vez mais complexa, sem perder o rumo da prosa: unidade de todas as forças democráticas, em defesa da vida. Não é pequeno o que temos pela frente, não cabe qualquer ilusão que projete para um futuro próximo uma eleição redentora de todos os males. Cada dia é preciso conter o avanço desse projeto autoritário, em todas as frentes, onde for possível. Estamos iniciando o processo eleitoral para a nova diretoria da AdUFRJ. As inscrições de chapas estão abertas até o dia 12 de agosto. Que este seja um momento de reorganizarmos nossas forças. Vamos fortalecer o nosso sindicato. A velha máxima ainda está valendo: todos juntos somos fortes.

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