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Alexandre Medeiros, Ana Beatriz Magno, André Hippertt e Silvana Sá

WhatsApp Image 2026 03 11 at 20.13.10Professoras e alunas foram as primeiras vítimas na guerra do Irã. Na madrugada de 28 de fevereiro, primeiro dia do conflito que amedronta Ocidente e Oriente, ataques militares destruíram a escola de Minab, no Sul iraniano, e assassinaram 168 pessoas, a maioria meninas com menos de 12 anos. A ONU pediu apuração rigorosa, imagens do desespero materno cruzaram fronteiras, protestos se multiplicaram, mas o confronto só piora dia após dia. Uma aflição que atravessa oceanos.

No campus do Fundão, uma professora da Matemática e uma aluna da Coppe, ambas iranianas, acompanham com angústia as notícias do confronto. “Era uma escola de Ensino Fundamental, com crianças entre 7 e 12 anos, localizada em uma cidade pequena e não estratégica. É muito preocupante quando civis, especialmente crianças, se tornam vítimas de um conflito”, desabafa Maral Mostafazdehfard, professora de Matemática da UFRJ desde 2019. Três anos depois, sua terra natal implodiu em conflitos detonados justamente pela revolta de mulheres com a multiplicação de perseguições pelo regime dos aiatolás. “O governo proibiu oficialmente as mulheres de ingressar em 77 diferentes áreas de estudo, incluindo Engenharia e Física Nuclear, alegando que seriam “inadequadas” para mulheres. Mesmo quando temos excelentes resultados nos exames, cotas frequentemente limitam nossa admissão em favor dos homens”, lembra Maral.

Se no Irã as escolas e as universidades são vítimas explícitas da violência, no Brasil os campi se esforçam para combater o machismo e a misoginia. O esforço ainda é pouco. Uma pesquisa inédita, cujos resultados o Jornal da AdUFRJ obteve com exclusividade, mostra que 74% dos servidores da UFRJ já foram vítimas de assédio moral, sendo a maioria (67%) de mulheres. Há ainda um agravante sintomático. Menos de 24% das vítimas denunciam o assédio, entre outros motivos por não confiar nos canais de denúncia ou descrer da punição dos algozes.

Há sofrimento, há medo, mas há também o que celebrar. Esta edição do Jornal da AdUFRJ traz uma homenagem especial às professoras, alunas e técnicas da UFRJ, que juntas transformam dor e receio em luta e esperança. No Ensino, na Pesquisa, na Extensão, na Gestão, na vida acadêmica como um todo, elas ampliam sua presença, enfrentando barreiras que parecem intransponíveis, mas, por acreditar que não são, elas persistem, aprendem, ensinam, educam. A elas, as nossas saudações.

Clique nos links abaixo para ler as matérias especiais da edição.

Elas são diversas e querem viver sem medo

'Efeito tesoura' ainda é desafio na academia

Com a palavra, a docente mais jovem da UFRJ

A força feminina para além dos muros da UFRJ

Assédio moral é barreira à ascenção na carreira

Entrevista | Leili Babashahi, 41 anos, iraniana, mestranda da COPPE

Entrevista | Maral Mostafazadehfard, 42 anos, professora I Local de nascimento: Teerã, Irã

Para ascender na carreira na UFRJ, sobretudo no campo da gestão universitária, as mulheres têm que enfrentar um obstáculo muitas vezes silencioso, mas que pode se mostrar instransponível: o assédio moral. É o que revelam os resultados da pesquisa inédita “Assédio moral e outras violências laborais na UFRJ”, aos quais o Jornal da AdUFRJ teve acesso com exclusividade. De acordo com o levantamento, 74% dos entrevistados declararam já terem sido vítimas de assédio moral, tendo essa prática se repetido três vezes ou mais, e 67% das vítimas são mulheres.

Iniciada em abril de 2025, com apoio da PR-4 e da Ouvidoria, a pesquisa contou com 823 participantes, sendo 61,84% de técnicos e 38,15% de docentes — percentuais compatíveis com o total de servidores ativos da UFRJ, onde os docentes representam 39,21%, e os técnicos, 60,79%. Para a professora Alzira Guarany, responsável pela pesquisa e coordenadora do Laboratório de Estudos em Políticas Públicas, Trabalho e Sociabilidade (LEPPTraS) da Escola de Serviço Social (ESS/UFRJ), há outro dado alarmante: apenas 23,65% das vítimas de assédio denunciaram a prática. “Elas alegaram falta de confiança nos canais ou na responsabilização do culpado. Isso é muito grave”, diz Alzira.

REFLEXOS NA SAÚDE
Entre as vítimas do assédio, 54,12% declararam que o assediador foi o superior hierárquico. As práticas mais corriqueiras são humilhação na frente dos outros ou em particular, respostas rudes, violência verbal ou ter seus resultados positivos atribuídos a outras pessoas. E mais um dado impressionante: 84,40% afirmaram que ter passado por essa experiência afetou sua saúde física e mental, com o desenvolvimento de ansiedade, depressão, insônia e outros distúrbios. De acordo com um estudo de 2018 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), as vítimas de assédio moral apresentam quatro vezes mais probabilidades de desenvolverem depressão, e o dobro de chances de ficarem estressadas.

Segundo a professora Alzira Guarany, a OIT está revendo a necessidade de reiteração para qualificar o assédio moral. “Como pesquisadora e estudiosa do tema, eu avalio que a violência laboral é gravíssima, independentemente da reiteração. Mas as consequências de ser vítima reiteradamente me parecem muito mais graves no médio e no longo prazos, inclusive com atentados contra a própria vida, temos relatos de situações assim”, pondera Alzira. Ela defende uma política única de enfrentamento ao assédio em toda a universidade. “Isso se reflete no baixo percentual de vítimas que fazem a denúncia. Além da falta de confiança, há um desconhecimento dos canais. Se a Escola de Serviço Social tem uma política, o CFCH tem uma, o CCS outra, isso deixa o servidor inseguro. Acho que isso é sintomático”.

CULTURA DE RESPEITO
Para a mulher que ocupa o mais alto posto na administração central da UFRJ, o enfrentamento ao assédio é urgente. Vice-reitora, a professora Cássia Turci recorre à sua própria experiência para tratar do tema. “Falar sobre a presença feminina na gestão não é apenas falar de representatividade, mas de uma mudança necessária na cultura institucional. Minha trajetória na gestão, como diretora do Instituto de Química, decana do CCMN e, agora, como vice-reitora, permitiu-me observar de perto que os desafios vão muito além do acesso ao cargo. Ocupar esses espaços exige uma resiliência dobrada”, diz Cássia.

Para a professora, as mulheres gestoras ainda enfrentam “formas severas de assédio moral e tentativas de esvaziamento de suas funções”. “Ser uma exceção, como no caso da minha gestão no IQ/CCMN, evidencia que o sistema ainda é desenhado por e para homens. A cultura de respeito tem que ser uma política de Estado na UFRJ. Precisamos converter a paridade em uma política institucional permanente, e não apenas uma escolha circunstancial. Isso inclui mecanismos efetivos de proteção contra retaliações e o fortalecimento de redes de apoio entre gestoras. A presença feminina humaniza a gestão e prioriza os direitos humanos. Nossa meta não é apenas chegar ao topo, mas exigir condições plenas, respeito e autonomia em cada passo do caminho”.

Para a professora Fabiana Valéria da Fonseca, chefe de gabinete da reitoria, a presença feminina na gestão da universidade ainda é desproporcional. Embora ela aponte que as mulheres ocupem 14 dos 24 principais cargos da alta administração, a vivência da “dupla jornada” para a mulher ainda é a realidade a ser enfrentada. “A mulher sempre precisou trabalhar, seja em casa ou fora. Somos poucas nos cargos de poder em relação à nossa presença na base da universidade. Há alguns entraves para aumentar essa presença, um deles é o tempo. Nós acumulamos responsabilidades familiares, domésticas, e isso impacta a nossa vida no trabalho. Já me peguei fazendo três ou quatro atividades ao mesmo tempo, hoje tento evitar isso. E a mulher ainda tem que lidar com a culpa. Sempre quis estar com meu filho, acompanhar de perto as atividades dele. E quando não conseguia fazer isso, vinha aquela culpa e a vontade de fazer em dobro”, reflete Fabiana.

Ex-diretora da Escola de Química, Fabiana destaca que as mulheres vêm avançando na presença em espaços de poder até então reservados ao universo feminino. “Como na direção da Petrobras, por exemplo. Na UFRJ vamos tentar ampliar mais, fortalecer nossas políticas institucionais de participação. A Denise (Pires de Carvalho) ter sido a primeira reitora de nossa história foi emblemático. Assim como a Claudia (Morgado) como a primeira diretora da Escola Politécnica. São mulheres que romperam essa barreira, mostraram sua capacidade de gestão. Não gosto da palavra empoderamento. Estamos ocupando os lugares que temos que ocupar”.

A QUESTÃO RACIAL
Para a superintendente-geral de Ações Afirmativas, Diversidade e Acessibilidade da UFRJ, Denise Góes, não é possível tratar da presença feminina na gestão universitária sem abordar a questão racial. Militante do Movimento Negro Unificado há três décadas, Denise diz que a estrutura da universidade reflete a realidade brasileira. “Existe um modus operandi da sociedade brasileira secular em relação ao papel da mulher. Mas a mulher negra está numa estratificação bem menor do que a mulher branca, bem menor do que o homem branco, principalmente dentro das universidades públicas federais”, aponta.

Para Denise, a população negra, em especial a mulher negra, sofreram durante muito tempo um processo de invisibilização na vida acadêmica. “A universidade sempre viveu num mundo branco, num mundo não inclusivo, num mundo elitista. A partir do advento das políticas públicas, temos outra UFRJ que começa a se movimentar. Mas essa movimentação só acontece com pessoas de carne e osso. Não adianta que as leis sejam promulgadas se a gente não tiver pessoas dispostas a enfrentar essa batalha cotidiana. Somos nós que temos que contar a nossa história”.

A titular da SGAADA afirma que há avanços concretos, mas há ainda muito a avançar. “Tenho 36 anos de universidade e lembro perfeitamente da administração central somente formada só por homens, do reitor aos superintendentes. A posse de Denise Pires de Carvalho como a primeira reitora em 100 anos de UFRJ nos colocou em outro patamar. Hoje nós temos mais mulheres do que homens na administração central. Mas apenas quatro mulheres negras. Temos que ter mais equidade. Acho que não tem mais como invisibilizar o gênero feminino dentro da universidade, mas a gente precisa de representatividade de todos os segmentos. Representatividade trans, homossexual, de mulheres negras, de quilombolas e de indígenas”.

Denise acredita que a SGAADA terá um papel fundamental nessa virada de chave. “O movimento que a SGAADA vem fazendo é para ampliar a discussão sobre o racismo na universidade e na sociedade. Avançamos muito com as políticas públicas de inclusão e hoje temos um perfil étnico-racial mais abrangente, pelo menos entre o corpo discente. Mas precisamos caminhar muito em relação aos servidores. Acho que a UFRJ tem que pensar com celeridade em transformar essa superintendência em uma pró-reitoria, e nem precisa estar sob meu comando, porque a gente se aposenta. Nós não cabemos mais numa estrutura de superintendência, temos aí exemplos em várias universidades federais que instituíram pró-reitorias nesse campo”.

WhatsApp Image 2026 03 11 at 20.17.58

WhatsApp Image 2026 02 13 at 21.28.22LIGIA BAHIA
Presidenta da AdUFRJ

Quem é professor da UFRJ, seja quem ingressou mais recentemente, ou com carreira mais consolidada, sabe, ouviu falar ou presenciou divergências durante eleições e no dia a dia da AdUFRJ. É fato. Há docentes que disputaram em 2025 a diretoria com distintas orientações teóricas, ideológicas e pragmáticas sobre o que é uma associação docente, quais são suas prioridades, que compromissos deve assumir.
A atual diretoria, integrada por colegas que compartilham acepções sobre a garantia da participação nas decisões da entidade, as traduziram mediante a realização de duas assembleias remotas, ambas com presença expressiva dos associados da AdUFRJ.
Evidenciamos, tal como em experiências de diretorias anteriores, que, quando viável, os docentes comparecem.
Defensores do voto mal denominado presencial (porque seja como for vai existir presença) contestaram os resultados da assembleia que definiu a delegação da UFRJ para o Congresso do Andes (sindicato nacional). Corremos o risco de manter um debate raso, se ficarmos na oposição entre aparições mais ou menos corporificadas. Não é disso que se trata.
Na realidade discordamos em relação a: o que é e para quem é a AdUFRJ.
Para nós, a associação se situa em um espaço dialógico e na contemporaneidade. Pretendemos levar adiante um projeto de universidade pública inclusiva e de excelência, valorizar nossa carreira, tornar nosso trabalho menos árduo e calibrar nossa atuação aos tempos de crise climática, tensões geopolíticas e ameaças da extrema direita.
Temos intenção de dedicar parte da agenda da entidade, em 2026, ao debate para influenciar programas de governo. Teremos um ano desafiante, que exigirá respostas acertadas ao negacionismo científico.
Compreendemos que a AdUFRJ é uma associação de professores universitários críticos em relação ao mundo, ao conhecimento que produzem e difundem. Autonomia acadêmica e o compromisso inarredável com a pluralidade do pensamento, do conhecimento e saberes são essenciais para manter, ampliar e articular instituições de ensino e pesquisa com as agendas de desenvolvimento social sustentável e igualdade social.
Nesse sentido, o da irrevogável natureza contraditória das universidades, que por sua vez são inerentes aos avanços da busca por melhores experiências e evidências, a representação de seus professores perde potência, quando, equivocadamente, se confunde com doutrinas de tendências sectárias.
O não reconhecimento pelo Andes da assembleia da AdUFRJ é um desacerto grave. Não tratamos professores universitários que se alinham em torno de valores democráticos como inimigos e esperamos reciprocidade.
É hora de unidade em torno da defesa da universidade pública, gratuita e de qualidade.

Da Redação

A Semana da Mulher começou com um domingo de sol, muita poesia, luta e dor. O 8 de Março carioca reuniu mulheres de todas as idades na orla de Copacabana para denunciar o feminicídio e todas as formas de violência de gênero. Enquanto gritavam pela vida, a 45 quilômetros de distância, Tatiana de Carvalho Paulino era assassinada a facadas pelo ex-namorado Alessandro da Silva Carvalho, no Jardim Catarina, em São Gonçalo. Ele não aceitava o fim da relação.

“A AdUFRJ apoia integralmente a pauta do feminicídio zero”, afirma a presidenta Ligia Bahia. “Esta é uma agenda central, sobretudo neste ano eleitoral de 2026”. O Brasil é o 5º país que mais mata mulheres em todo o mundo. O feminicídio é a consequência final das violências de gênero — físicas e simbólicas — que ainda encontram eco na sociedade e reverberam até mesmo em espaços destinados à diversidade e ao conhecimento, como as universidades. “A universidade não é uma ilha”, observa a ouvidora da Mulher, professora Angela Brêtas.

Esta edição especial do Jornal da AdUFRJ convida a uma importante reflexão sobre os avanços conquistados pelas mulheres na carreira científica e os desafios que ainda insistem em permear o ambiente acadêmico. Ouvimos professoras, servidoras e pós-graduandas que carregam um sentimento em comum: a coragem de mudar suas trajetórias e impactar a vida das próximas gerações.

Dados do MCTI mostram que mulheres são maioria das matrículas ativas na pós-graduação. Elas são 57% do total de mestrandos e doutorandos do país. No entanto, no decorrer da carreira acadêmica, o número se inverte. Entre bolsistas de produtividade 1A do CNpq, elas são apenas 23%.

A baixa representatividade é sentida, sobretudo, em cargos de liderança. Um dos entraves a essa ascenção na carreira é o assédio. Pesquisa inédita revela que 74% dos servidores da UFRJ já sofreram assédio moral no ambiente de trabalho. A maioria das vítimas (67%) é de mulheres. Apenas 23% denunciaram a prática. “Elas alegaram falta de confiança nos canais ou na responsabilização do culpado”, diz a professora Alzira Guarany, responsável pela pesquisa.

Se as barreiras são grandes, a força de ultrapassá-las é ainda maior. Especialmente diante do horror da guerra. É o que demonstra a professora Maral Mostafazadehfard. Docente do Instituto de Matemática há sete anos, ela saiu do Irã em busca de liberdade acadêmica e anseia pela paz. “Precisamos continuar tentando, aprendendo e acreditando que é possível construir caminhos de paz”.

Também iraniana, a aluna de mestrado da Coppe, Leili Barbashi, traduz as dores de ser estudante e mulher no regime dos aiatolás. “No Brasil, universidade é um lugar para encontrar sua voz; no Irã, é um lugar onde você aprende a silenciá-la”.

O desejo de seguir construindo caminhos é o que inspira Annah Pinheiro. Aos 26 anos, ela é a professora mais jovem da UFRJ. “Se hoje posso estar aqui, é porque muitas professoras vieram antes e abriram caminhos. Meu desejo é que possamos seguir construindo esse espaço juntas”.

WhatsApp Image 2026 02 13 at 21.15.36A AdUFRJ deu um exemplo de ampliação da participação de professores na escolha da delegação ao 44º Congresso do Andes, que acontece no início de em março, na cidade de Salvador (BA). No dia 4, a seção sindical realizou a maior assembleia de sua história recente para eleição de delegados, com 387 votantes. A assembleia foi remota, com votação pelo sistema eletrônico Helios. O Andes, no entanto, não considerou a representatividade dos votos e formalizou na terça-feira, 10, o veto à delegação, impedindo a participação da maior seção sindical do Andes na intância máxima de deliberação da categoria docente.
O grupo identificado como de oposição à diretoria da AdUFRJ não indicou nomes. O argumento foi de que só indicariam representantes se a assembleia e o voto fossem presenciais. “O estatuto do Andes é uma legislação que devemos seguir. Como professora do Direito, não posso me furtar a apontar a importância de seguir as normas que regem o nosso sindicato. Se há um regimento, temos que seguir uma formalidade”, defendeu a professora Luciana Boiteux, da FND.
Na mesm linha argumentou a professora Cristina Miranda, aposentada do Colégio de Aplicação. “É muito importante que a AdUFRJ seja representada por uma delegação no congresso, sobretudo em um ano eleitoral tão importante.”, disse. “A gente pode discordar do estatuto, mas a gente não pode desrespeitá-lo”, afirmou.
Diretor do Instituto de Economia, o professor Carlos Frederico Leão Rocha argumentou que o regimento do Andes é uma norma interna, mas não está acima da lei. “Acima dele está a lei sindical, está a Constituição. O estatuto não é uma lei magna do sindicato”, afirmou. “Existe um entendimento alternativo e o estatuto não é salvo-conduto para restringir a participação de professores”.
Vice-presidenta da AdUFRJ, a professora Maria Tereza Leopardi lembrou que duas seções sindicais (Adunifesp e Adufg) realizaram assembleias e votações remotas para escolher, inclusive, as suas diretorias. “Foram processos ocorridos após a mudança do estatuto do Andes e o sindicato não contestou. Se temos autonomia, podemos escolher sobre nossos procedimentos decisórios”, argumentou. “Ao decidir sobre esse formato de assembleia, nós estamos reafirmando a nossa autonomia. O coerente é que o Andes tome a mesma decisão que tomou em relação a essas seções sindicais”.
Ex-diretor da AdUFRJ, o professor Antonio Solé apontou a contradição dos argumentos apresentados pelos professores que representam a oposição e lembrou que em sua gestão o grupo organizou um abaixo-assinado on line para exigir assembleia presencial. “É meio irônico utilizar um instrumento remoto para pedir uma atividade presencial”, apontou. “O mesmo acontece com o Andes, quando diz que não pode ter eleição remota, ‘a não ser que o meu grupo vença a eleição’, como aconteceu em São Paulo e em Goiás”.

MAIOR DOS
ÚLTIMOS ANOS

A assembleia do dia 4 foi a maior da história recente da AdUFRJ específica para aprovação de delegação para congressos do Andes. Se candidataram 23 docentes. Os 15 mais votados pelos colegas compuseram a delegação da AdUFRJ (veja lista abaixo). A listagem foi enviada ao Andes no próprio dia 5. O sindicato nacional recusou o credenciamento dos professores da UFRJ na terça-feira, 10.

Veja os eleitos

Delegados
Andréa Parente
Antonio Solé
Carlos Frederico Leão Rocha
Daniel Negreiros Conceição
Eleonora Ziller
Leda Castilho
Ligia Bahia
Luisa Ketzer
Maria Tereza Leopardi
Marta Castilho
Michel Gherman
Pedro Lagerblad
Ricardo Medronho

Observadoras/Suplentes
Ana Lúcia Fernandes
Claudia Pinto Figueiredo

EXIGÊNCIA DE ASSEMBLEIAS PRESENCIAIS É DESAFIO PARA OUTRAS SEÇÕES SINDICAIS

Em todo o país, é flagrante a baixa presença de professores e professoras nas assembleias que definiram delegações para o congresso do Andes. A Adusp, por exemplo, representa professores da Universidade de São Paulo. Maior e mais conceituada do país, a USP possui cerca de dez mil docentes, entre ativos e aposentados. Já seção sindical tem 2.500 filiados distribuídos em oito campi universitários, mas sua delegação foi aprovada por apenas 0,4% dos sindicalizados. Apenas dez compareceram à assembleia.
O mesmo ocorreu com outras seções sindicais ouvidas pela reportagem. Das que puderam nos disponibilizar os seus dados, nenhuma obteve um número expressivo de votos. A apuração é reveladora da representatividade da assembleia da AdUFRJ, que elegeu sua delegação com 387 votos. Um número mais de oito vezes maior que a da assembleia da Asduerj, coirmã estadual que teve 47 docentes presentes na escolha de seus delegados – maior representatividade dentre as que nos informaram os dados. Essas informações foram pedidas formalmente pela diretoria da AdUFRJ à diretoria nacional, mas até o fechamento desta edição, não havia resposta à solicitação.
A exigência do Andes por assembleias presenciais afeta especialmente os aposentados e os professores que atuam em campi afastados da sede. Quanto mais interiorizada a universidade, maior o desafio da participação sindical. Problema que poderia ser resolvido com modelos que permitissem a atuação remota. É o que defende a professora Karina Lima, coordenadora-geral da Seção Sindical dos Docentes da Universidade do Estado da Bahia (Aduneb).
As assembleias presenciais se tornaram um impedimento real à participação dos 1.200 filiados distribuídos em 27 campi universitários e 31 departamentos. “Além de termos muitos aposentados, nosso estado tem uma extensão territorial imensa, que inviabiliza assembleias simultâneas em todos esses espaços”, argumenta a dirigente. “Temos campi a quase 900 quilômetros de Salvador”, exemplifica. “Para garantir a isonomia, precisaríamos ter estrutura para constituir uma assembleia em cada um desses locais que atuassem conectadas em rede. É uma logística impossível para nós”, diz.
Sem ter condições concretas de atuação, o resultado se traduz em assembleias pouco representativas. “Normalmente, nossas assembleias são muito esvaziadas, com cerca de 30 pessoas. No caso da última assembleia que definiu a delegação ao congresso, foram cerca de 20 pessoas”, conta.
A possibilidade de realização de assembleias remotas ou híbridas, para ela, permitiria a ampliação da presença dos colegas. “Nós temos por hábito abrir um link para a participação virtual de filiados e filiadas que não podem estar no local da assembleia, mas eles só têm direito a voz, não podem exercer o voto”, explica. “Já tivemos em várias ocasiões assembleias com 30 pessoas no local e mais de 300 acompanhando remotamente”, conta. “Há muitos questionamentos da nossa base sobre esse sistema que impede o voto das pessoas que acompanham on line, mas a gente tenta explicar que é uma restrição do estatuto do Andes, não nossa”.
A professora Karina é um exemplo vivo dessa dificuldade de deslocamento. Ela é professora de Literaturas no campus de Teixeira de Freitas, que fica no extremo Sul da Bahia. Para chegar a Salvador, ela precisa fazer uma viagem de 16 horas de ônibus. “Eu vou semanalmente à sede, mas fiz essa opção de atuar na coordenação da Aduneb. Muitas vezes faço bate e volta. É extremamente cansativo, mas, como disse, eu fiz essa opção. Mas a exigência da presencialidade é muito injusta para os nossos colegas que estão na multicampia”.
Ela afirma que é importante fortalecer a discussão sobre mecanismos de participação remota dos professores. “Precisamos atuar mais fortemente nessa direção de permitir assembleias híbridas. A exigência da presencialidade física impede o exercício pleno da democracia sindical”, critica.

Números das assembleias

Levantamento do Jornal da ADUFRJ sobre as assembleias que, desde 2013, escolheram delegação para o Congresso do Andes aponta maior participação dos professores em meio remoto. Na reunião dos dias 4 e 5 de fevereiro deste ano, 387 docentes definiram os delegados e observadores para o Congresso de Salvador (BA). Já em 11 de fevereiro de 2022, 82 assinaram a lista de presença via chat do encontro que escolheu os representantes do sindicato no 40º Congresso, em Porto Alegre (RS) — o primeiro após a pandemia de Covid-19.

Os números das assembleias presenciais são mais modestos. A maior delas alcançou 64 participantes em novembro de 2019. Mas a pauta, além da escolha de representantes da ADUFRJ para o 39º Congresso de São Paulo, no início do ano seguinte, contava com outros pontos que mobilizavam a categoria à época: a discussão sobre progressões múltiplas; a ação judicial dos 26,05% (Plano Verão) e o indicativo de estado de greve para março de 2020. Na menor assembleia, de 4 de fevereiro de 2015, apenas 11 professores compareceram para a escolha da delegação ao 34º Congresso do Andes, realizado poucos dias depois, em Brasília (DF).

Em defesa da assembleia remota

A diretoria da ADUFRJ realizou, no dia 04/02/26, uma Assembleia especificamente convocada para escolher delegados de nossa Seção Sindical para participar do 44o Congresso do ANDES-Sindicato Nacional.
Coerentes com o programa pelo qual fomos eleitos – que incluía a defesa de procedimentos decisórios que propiciassem o aumento da participação dos associados nas decisões da ADUFRJ – a assembleia ocorreu pela plataforma ZOOM e contou com a presença de mais de 60 pessoas, conseguindo mobilizar 387 associados que votaram na escolha de delegados pelo sistema Helios.
Malgrado os questionamentos apresentados – a sistemática de reuniões com participação remota e votação eletrônica estaria em desacordo com o Estatuto do ANDES – reafirmamos que o procedimento adotado é absolutamente legítimo.
A defesa de meios remotos de participação tem feito parte dos programas das diretorias eleitas para a ADUFRJ nos últimos 10 anos. Temos apoio de nossos representados, portanto. Tal defesa não ocorre à toa nem por preguiça: a UFRJ tem uma categoria geograficamente dispersa; a viabilização da participação remota comprovadamente amplia a participação dos professores nas decisões da ADUFRJ.
Esse aumento de participação propiciado pelos meios remotos está em perfeita sintonia com um dos objetivos declarados no Estatuto do próprio ANDES:
art. 5oO ANDES-SINDICATO NACIONAL tem por objetivos precípuos:
...
IV - incentivar a participação do(a)s sindicalizado(a)s nas reuniões, assembleias e demais atividades inerentes à entidade...
...
O efeito prático de assembleias presenciais é a exclusão de parte dos associados do processo decisório. Toda vez que foram adotadas votações eletrônicas, os quóruns foram muito mais significativos.
Não há voto mais qualificado que outro... Há quem possa (ou queira) estar presente em Assembleia; há quem não possa (ou não queira):todos têm iguais direitos de voto.
O Estatuto do ANDES foi modificado em 2025, em particular para tentar proibir o voto não presencial em decisões da entidade e de suas seções sindicais e ADs-Seções Sindicais (alterações no art. 9, §§ 2o e 3o, e art. 48, §§ 3o a 5o). Mas não há justificativas objetivas para essa proibição.
De fato, o motivo que não ousa dizer seu nome parece ser um só: a tentativa de inviabilizar estratégias (bem sucedidas) de ampliação da participação docente por parte grupos de oposição à Diretoria do ANDES...
Como legitimar uma medida que evidentemente tem como resultado a diminuição da participação? E, ainda mais, em contradição com os próprios objetivos da entidade, lembre-se.
Uma incoerência importante aparece para fortalecer essa suspeita: houve, em 2025, pelo menos duas Associações de Docentes cujas eleições foram realizadas por sistemas eletrônicos de votação - a ADUNIFESP e a ADUFG e não consta que o ANDES tenha impugnado tais eleições....
Ao decidir por convocar uma assembleia remota com votação pelo sistema Helios, a Diretoria da ADUFRJ está reivindicando sua autonomia, garantida inclusive pelo próprio Estatuto do ANDES:
“Art. 44 ...
§2oA S.SIND ou a AD-S.SIND tem autonomia política, administrativa, patrimonial e financeira...”
Negar reconhecimento aos resultados da escolha dos associados da ADUFRJ de delegados para o 44o Congresso do ANDES significa, na prática, negar a autonomia política e administrativa que a Diretoria eleita deve ter no encaminhamento de seus processos decisórios.
Além de contraditaro princípio da autonomia das ADs, a vedação em questão também poderia ser vista como regra geral não necessariamente aplicável à escolha de delegados para Congresso/ANDES, que diz o seguinte:
“Art. 17. O(a)s delegado(a)s... sãoeleito(a)s em Assembleia Geral convocada expressamente para tal finalidade, nos termos do seu regimento, ou por votação direta e secreta do conjunto dos sindicalizados....”.
...
Enfim, entendemos que uma norma estatutária do ANDES não tem legitimidade para impedir o aumento da participação dos professores nas decisões. Não é admissível que uma regra casuística se sobreponha aos princípios da autonomia das ADs e da busca pela maior participação.
Não há por que ignorar a vontade de maioria que se manifesta por meio eletrônico. Não restringiremos a participação de nossos associados exigindo presença física num determinado local.

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