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WhatsApp Image 2022 07 30 at 15.10.41A maior federal do país faz contas e aperta o cinto para sobreviver a 2022. Esta semana, a reitoria recolheu R$ 9,5 milhões da receita distribuída para decanias e unidades usarem em gastos do dia a dia, o chamado “orçamento participativo”. Os recursos, que seriam utilizados na compra de materiais de consumo ou na contratação de pequenos serviços, agora serão remanejados para despesas do funcionamento básico da universidade. Mas a medida só garante uma caminhada nada tranquila até meados de setembro. “E ainda nos faltando cerca de R$ 17 milhões para fechar aquele mês”, afirmou o pró-reitor de Finanças, professor Eduardo Raupp, à plenária de decanos e diretores do dia 26.
“Sabemos que as demandas são crescentes em todas as áreas, após dois anos de fechamento pela pandemia. Há uma série de atividades que precisam ser realizadas para recompor, minimamente, as condições de funcionamento”, disse Raupp. “Mas essa situação nos leva a priorizar os contratos de alimentação, segurança, limpeza”.
Não foi o primeiro corte no orçamento participativo. E, talvez, não seja o último. Em junho, quando o governo anunciou o bloqueio na verba das universidades, a reitoria já havia recolhido R$ 1,3 milhão. Com a mais recente perda — que será linear —, a verba disponível das decanias e unidades caiu para apenas R$ 7,2 milhões. Só serão preservados os empenhos. Ou seja, valores já indicados para alguma despesa.
A nova “tesourada” está prevista para o fim de setembro. “Teremos que fazer uma revisão. O que não tiver sido empenhado pelas unidades provavelmente será recolhido para fazer frente aos contratos”, alerta Raupp. “Não faria sentido ter algum recurso parado na universidade que não esteja aplicado no seu funcionamento”.
Os gestores das unidades se solidarizaram com a reitoria, mas não deixaram de manifestar preocupação com as atividades acadêmicas do segundo semestre letivo. Diretor do Instituto de Química, o professor Claudio Mota teme que a unidade não consiga manter as aulas práticas com o corte no orçamento participativo. “Estamos há dois anos praticamente sem oferecer disciplinas experimentais. Há uma fila grande de alunos que não puderam fazer estas disciplinas”, disse. “Estas aulas demandam reagentes químicos, cujo preço é em dólar. Que está lá em cima”.WhatsApp Image 2022 07 30 at 15.28.53
A reitoria respondeu que ajustes poderão ser feitos. “Claro, a gente terá sensibilidade com situações específicas. Podemos fazer ajustes com um pouco de reserva orçamentária que temos”, disse Raupp. “O recolhimento tem que ser linear, por que, na PR-3, não conseguimos fazer o julgamento de onde o orçamento participativo é mais importante”. A administração tem R$ 2 milhões de reserva orçamentária para emergências e R$ 1,8 milhão para garantir que obras não parem. “É muito pouco para a UFRJ, mas é o que a gente consegue manter”, completou o dirigente.
O professor José Garcia Abreu, diretor do Instituto de Ciências Biomédicas (ICB), avaliou o cenário de subfinanciamento não só da Educação, mas também da Ciência. “Estamos vivendo um cenário de cortes que é muito mais amplo. Além disso, nós servidores da universidade estamos sem qualquer reajuste salarial há muito tempo. É um projeto de destruição da universidade”, afirmou. O dirigente ressaltou a necessidade de a UFRJ ampliar a divulgação desta crise. Para fora e para dentro de seus muros. “É importante que os professores, nas suas aulas, alertem seus alunos. Uma eventual parada forçada não impacta só a UFRJ, impacta a sociedade brasileira”, concluiu.

UNIVERSIDADE NEGOCIA COM EMPRESAS

Além do recolhimento do orçamento participativo, não estão descartadas outras medidas drásticas para evitar o “shutdown” da instituição. A universidade estuda a suspensão do pagamento de grandes fornecedores, como Águas do Rio e Light. Reuniões estão sendo agendadas com as empresas para tentar evitar a interrupção do serviço e, ao mesmo tempo, garantir mais um mês de funcionamento da universidade.
Outra opção é, mais adiante, suspender o pagamento dos demais contratos, jogando o passivo para o próximo ano. Pela lei de licitações, as empresas contratadas pelo serviço público devem manter os serviços por até 90 dias, mesmo sem receber. “É uma medida extrema. Esperamos não chegar até lá”, afirma o pró-reitor. A decisão esbarra na própria fragilidade econômica das firmas nos últimos anos e na reduzida previsão orçamentária de 2023 — na proposta do governo, ainda em tramitação no Congresso, a UFRJ teria apenas R$ 320,9 milhões, R$ 8,3 milhões a menos que em 2022.
Se não houver melhoria dos números da UFRJ na votação da lei orçamentária, a agonia deve prosseguir por mais alguns meses do ano que vem, mesmo com a mudança do atual governo. “As alterações no orçamento, provavelmente, só seriam viáveis pelo meio do ano. O Legislativo só toma posse em fevereiro. As comissões serão montadas a partir daí”, explicou Raupp. “O orçamento do primeiro semestre do ano que vem, independentemente do governo que tivermos, será exatamente o que estiver previsto na lei”.
Raupp lembrou que não existe saída sequer pela arrecadação própria da universidade, basicamente resultante de aluguéis de terrenos. O governo reduziu o limite de gasto com estas receitas para R$ 33 milhões, já superado. O excedente é recolhido aos cofres da União e não há garantia de que voltará para a UFRJ. “Semana que vem, já alcançaremos R$ 10 milhões de superávit”, informou.

MAIS UM CORTE À VISTA
Educação e Saúde devem sofrer novos cortes nos próximos dias. O secretário do Tesouro, Esteves Colnago, já disse que as pastas serão afetadas, após a aplicação de um novo bloqueio no orçamento da União (de R$ 6,7 bilhões) para atender ao teto de gastos públicos. O decreto com o detalhamento da “tesourada” ainda não foi divulgado.

WhatsApp Image 2022 07 22 at 19.23.18 1Diretoria da AdUFRJ

Não é uma escolha difícil. Decidir entre Lula e Bolsonaro é optar entre a democracia e a barbárie, entre a ciência e o obscurantismo, entre a esperança e a violência. Não é apenas apertar o botão do menos pior. Evidentemente que os governos do PT cometeram erros, mas a disputa de outubro não é um plebiscito sobre o passado, mas sobre o presente. Será a mais importante eleição da história do Brasil. Poderá nos devolver a normalidade democrática ou nos empurrar para o mais amargo dos círculos do inferno, o do arbítrio, da censura, da exceção, temporada que conhecemos intimamente e que deixaram profundas cicatrizes na universidade. Acentuar essa responsabilidade com a civilidade parece algo trivial e óbvio num ambiente acadêmico como o nosso. Porém não é.

Na semana passada, o Andes, sindicato nacional que pretensamente representa os professores das universidades federais e estaduais do país, decidiu ficar neutro, isento, nas eleições presidenciais, e rejeitou a proposta de declarar apoio a Lula. Somos adultos, car@s colegas. Já sabemos que não há neutralidade na política e que os supostamente isentos já escolheram seu lado. A situação é tão anacrônica que até a pop Anitta está na frente dos nossos representantes sindicais docentes.
“Essa posição do Andes precisa ficar registrada nos anais. No futuro, as pessoas vão estudar uma eleição que aconteceu antes de um golpe ou de um episódio de violência política, e saber que o sindicato nacional dos professores não discutiu isso, não marcou posição para a eleição, não apoiou o candidato com maior viabilidade eleitoral contra o autoritário que vai perseguir e silenciar todos nós”, reiterou a vice-presidente da AdUFRJ, Mayra Goulart, no encontro do Andes que optou por não se engajar na única campanha com chances reais de derrotar o fascismo bufônico de Bolsonaro. “Estamos diante da eleição mais importante da nossa história recente, diante de uma possibilidade de recrudescimento real do regime, silenciamento das universidades e perseguições às pessoas”, disse Mayra.
A diretoria da AdUFRJ compreende a gravidade histórica do momento, avalia que não há espaço para principismo infantil e que é dever de quem tem responsabilidade com o futuro deste país se engajar diuturnamente na campanha de Lula. Isso não significa aparelhar entidades nem ruptura com autonomia sindical. Mas compromisso com a democracia. Podemos nos alinhar com a oposição à Lula no dia seguinte à posse, caso discordemos de sua gestão. Mas, até para isso, é preciso democracia. Sem ela, não há oposição. Conclamamos nossos colegas e nosso sindicato nacional a rever o sectarismo e trocar a radicalidade pela unidade na luta. O argumento de que o primeiro turno é o espaço para pluralidade de programas não se adequa ao atual contexto brasileiro, contribui para a desmobilização e abre as portas para um perigoso flerte com o autoritarismo. Sem dúvida, há maior facilidade de contestação dos resultados com uma vitória no segundo turno. Por isso, convidamos todos, todas e todes a se somar ao Comitê de Luta da UFRJ que reúne professores, estudantes e técnicos dispostos a derrotar o bolsonarismo e toda a barbárie que ele representa. A campanha presidencial precisa começar. Vamos juntos.
Boa leitura !

fachada PVEstela Magalhães

A UFRJ caiu da 10ª para a 11ª posição no ranking Times Higher Education (THE) das universidades da América Latina. A queda ocorreu mesmo com uma melhoria da pontuação geral desde 2016 (73,3 para 80,7), quando a maior federal do país figurava no quinto lugar. Para voltar a subir na classificação, a instituição trabalha para evitar a subnotificação de indicadores.
“Nossa pontuação final tem aumentado, mas oscilamos na posição porque o ranking é o que se chama de ‘jogo de soma zero’. Às vezes, uma instituição tem desempenho melhor em um determinado ano, e, para uma subir, outra tem que descer”, afirma a professora Daniela Uziel, coordenadora do Escritório de Gestão de Indicadores de Desempenho (GID).
Criado em 2020, o GID atua na unificação dos dados para o preenchimento de rankings e no diagnóstico das formas de melhorar o desempenho da universidade. “Temos uma equipe que está compilando os dados de diferentes fontes para cada categoria avaliada. Estamos gerando rotinas para que as próximas equipes que venham a nos substituir, nas próximas gestões, possam seguir a mesma metodologia e ter um dado consistente ano a ano”, diz.

SUBNOTIFICAÇÃO
Pelo menos por enquanto, o subfinanciamento crônico da UFRJ não é a justificativa para a centenária instituição ficar atrás de outras universidadesWhatsApp Image 2022 07 22 at 19.32.05 menores e mais novas. O problema está na falta de padronização de dados ou ausência de informação à reitoria sobre as atividades realizadas.
O THE classifica as universidades com base em alguns parâmetros que tentam refletir suas principais missões: citações, ensino, internacionalização, investimento de indústrias e pesquisa. A UFRJ vai bem nas duas últimas categorias. No financiamento de indústrias, apresenta pontuação máxima pela primeira vez no ranking; na pesquisa, ocupa o quarto lugar no ranking, com 97.3 pontos. “A gente viu um aumento da entrada de dinheiro proveniente de empresas, principalmente na área da saúde, que foi o investimento relacionado à atuação da universidade contra a covid-19”, explica Daniela Uziel.
Já na categoria das citações, a UFRJ apresenta uma pontuação bem abaixo da média nacional. O parâmetro mede o impacto das publicações da instituição a partir das vezes que ela é citada nacional e internacionalmente em cada área. Ao considerar apenas esse aspecto no THE, a UFRJ ocupa a 76ª posição, com 52.1 pontos.
“A UFRJ tem uma variabilidade de nomes. Já encontramos cinco páginas de diferentes formas pelas quais a universidade é citada. Desde o ano passado, unificamos as citações de algumas bases de dados, e o aumento na pontuação das citações foi devido a isso, mas ainda estamos bem abaixo da média”, diz Daniela. Com o objetivo de uniformizar as citações, a Pró-Reitoria de Pós Graduação e Pesquisa lançou a campanha #AfiliaçãoPadrão, que conscientiza a comunidade científica sobre a importância de registrar suas publicações com o nome “Universidade Federal do Rio de Janeiro”.
A menor pontuação da UFRJ é registrada na internacionalização, que mede o número de estudantes e professores estrangeiros da instituição, bem como sua colaboração internacional. “Estamos fazendo um trabalho de conscientização na universidade da importância de que os dados sejam comunicados oficialmente, para que haja rotinas de oficialização dessas iniciativas e coleta dos dados reais”, diz o professor Amaury Fernandes, Superintendente Geral de Relações Internacionais. “Existem projetos de internacionalização que sequer são comunicados às direções das unidades. As pessoas fazem eventos internacionais, trazem colegas, promovem debates e não comunicam a ninguém”, completa.
O setor de relações internacionais da UFRJ não existia de forma institucionalizada antes da atual gestão da reitoria. A superintendência redigiu e aprovou o documento da política de internacionalização da universidade, que existe pela primeira vez em mais de 100 anos. “Estamos criando as condições que vão permitir a gestão dessas políticas de forma autônoma pela universidade. São formas de melhorar esses documentos, que têm metas a serem alcançadas e estratégias a serem utilizadas. Tentamos ordenar institucionalmente a internacionalização nos últimos três anos”, explica.

UFSC NA SEXTA POSIÇÃO
Na edição de 2022 do THE para a América Latina, chamou a atenção o salto da Universidade Federal de Santa Catarina, de 11º para 6º lugar no ranking. Os principais parâmetros de melhoria da universidade foram a pesquisa e a verba proveniente de indústrias. “O que contribuiu para esse resultado foi a capacidade da universidade de adotar medidas de ajuste durante a pandemia, que asseguraram condições para que os pesquisadores pudessem dar continuidade ao seu trabalho em condições adequadas”, diz o professor Jacques Mick, pró-reitor de Pesquisa da UFSC.
“É melhor entender o ranking mais pelo contexto do que por uma política específica e supostamente bem sucedida tocada por uma universidade. Grandes mudanças em curto espaço de tempo são inviáveis, dada a escassez de recursos e o fato de que temos que enfrentar constantemente a oposição do próprio governo”, completa Mick.
A PUC do Chile lidera o ranking, seguida pela USP e pela Unicamp.

WhatsApp Image 2022 07 22 at 19.25.26Após dois anos de encontros apenas pelas telinhas de smartphones e computadores, a maior festa científica do país volta a ser presencial. De 24 a 30 de julho, a Universidade de Brasília recebe a 74ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) com tudo que tem direito: sessão de pôsteres, palestras, conferências, exposições, atividades para crianças e, claro, muita política.
“As reuniões da SBPC sempre foram um espaço de afirmação democrática muito importante. Em especial, desde a época da ditadura”, afirma o presidente de honra da entidade e professor do Instituto de Física da UFRJ, Ildeu Moreira.
A proximidade com as eleições também influencia a programação. “Este ano, deveremos ter candidatos à presidência para expor seus pontos e também para receber as sugestões da SBPC”, explica Ildeu. A entidade organiza um conjunto de propostas discutidas com especialistas dos mais variados temas e que serão apresentadas a todos os candidatos a cargos executivos e ao Legislativo.
A SBPC convidou os três principais candidatos à presidência da República que lideraram as pesquisas de intenção de voto até junho: Lula, Bolsonaro e Ciro Gomes. Até o fechamento desta edição, apenas o pedetista havia confirmado presença.
De olho no futuro do país, é preciso aprender com as lutas do passado. A reunião também será o cenário de lançamento do livro “SBPC e a Constituição brasileira”, com organização do próprio Ildeu e dos historiadores Bruno de Andréa Roma e Áurea Gil. A obra recupera o papel da entidade na formulação de artigos importantes da Carta de 1988. Também há registro da atuação do movimento docente e das universidades àquela época. “Ajudamos a construir concretamente as propostas que hoje estão consagradas na Constituição. Infelizmente, muito não tem sido cumprido”.
Outro exemplo do tom político desta edição será a realização de uma mesa-redonda sobre a história das urnas eletrônicas — tão atacadas pelo atual governo — no dia 29. O debate vai contar com o ministro aposentado do STF e ex-presidente do TSE, Carlos Velloso. Haverá o lançamento do livro “Tudo o que você sempre quis saber sobre a urna eletrônica brasileira”. A publicação já está disponível para download gratuito no site da SBPC.

INDEPENDÊNCIA REAL
O evento, que será realizado em meio às comemorações dos 60 anos da UnB, terá como tema “Ciência, Independência e Soberania Nacional”. “Independência é uma discussão atual. O que a ciência, o conhecimento rigoroso, a saúde, o meio ambiente e a educação podem fazer para garantir que o nosso país seja realmente independente, para que tenha realmente soberania nacional?”, questiona o presidente da SBPC, professor Renato Janine Ribeiro, no vídeo-convite para a Reunião Anual.
Ex-diretora da AdUFRJ e secretaria regional da SBPC, a professora Ligia Bahia pretende apontar alguns caminhos em direção a este Brasil realmente soberano e independente. A docente será uma das palestrantes da mesa “Quem é responsável pelas mortes decorrentes da covid-19 no Brasil, no dia 27. “Sabemos quem são os responsáveis. Mas pretendo avançar, na minha exposição, com propostas para que isso não ocorra de novo. Como nós podemos nos organizar para enfrentar uma próxima emergência sanitária, a partir de agora”, afirmou.

NÚMEROS
A Reunião Anual terá 117 atividades presenciais e 110 online. Estão programadas 44 conferências (27 presenciais), 80 mesas-redondas (50 presenciais), 54 painéis (2 presenciais), 14 webminicursos, 10 sessões especiais (presenciais), um encontro (presencial), uma assembleia (presencial). Haverá o lançamento de cinco livros e seis exposições. De forma experimental, a SBPC também levará à UnB 30 atividades presenciais do programa SBPC vai à Escola, destinadas aos estudantes e professores da educação básica. Com inscrições gratuitas ainda abertas, o número de participantes só será conhecido ao final do evento.

GOVERNO BOLSONARO QUER FAZER MAIS ESTRAGO na C&T

Sem diálogo com a comunidade acadêmica, o governo Bolsonaro quer enviar ao Congresso Nacional um projeto de lei para instituição de um Sistema Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação. A minuta do PL, que seria acompanhada de um decreto sobre a política científica do país, já sofre duras críticas das entidades do setor.
“A proposta é muito fraca. A SBPC, a Academia Brasileira de Ciências e a Andifes fizeram um documento com uma crítica muito cuidadosa”, afirma o presidente de honra da SBPC, professor Ildeu Moreira. Entre vários pontos, o texto do governo não considera artigos da própria Constituição Federal, como o que estabelece tratamento prioritário do Estado para a pesquisa científica básica e tecnológica. Também falta ao documento uma visão de cuidado com o ambiente, sustentabilidade e desenvolvimento social. “Mas o ponto central é que não existe discussão acumulada. Isso não pode ficar restrito aos gabinetes de Brasília. Ninguém está sabendo disso nas universidades, na Fiocruz, nos institutos de pesquisa”, completou Ildeu.
“Não vejo muito sentido em ter uma lei para aprovar o Sistema Nacional de Ciência e Tecnologia no final de um governo que negou a ciência o tempo todo”, reforçou o ex-ministro de Ciência e Tecnologia do governo Lula, Sérgio Rezende (de 2005 a 2011), em audiência sobre o tema na Comissão de Ciência e Tecnologia do Senado, dia 14. “Quero sugerir ao Senado Federal que segure este projeto para que o próximo governo, a partir de janeiro, discuta com mais calma”, completou.
Vice-presidente da Comissão de Ciência e Tecnologia do Senado, Jean Prates (PT-RN) não acredita que o projeto de lei do governo será votado em 2022. “Certamente não acontecerá este ano. É o tipo de coisa que não deixa de passar por pelo menos duas comissões do Senado, se for proposto aqui, mais o plenário, mais a Câmara”, disse, acrescentando as dificuldade de tramitação durante o período eleitoral.

LEI PINGUELLI
No Rio de Janeiro, já existe um precedente para as preocupações da comunidade científica com a legislação federal. No dia 30, a Alerj aprovou uma lei — batizada com o nome do professor Luiz Pinguelli Rosa, falecido este ano — que instituiu o sistema estadual de Ciência, Tecnologia e Inovação. O texto não incorporou as principais sugestões apresentadas pela SBPC em audiências públicas. “Ninguém rebateu nossos argumentos e, no entanto, continuou quase tudo igual ao projeto que havia antes”, afirmou Ildeu.
Uma das propostas da SBPC não atendidas estabeleceria a liberação de orçamento da Faperj em duodécimos para sua privativa administração. A medida evitaria transferência de recursos da agência de fomento para outras finalidades e ajudaria no planejamento das ações.
Ainda existe a possibilidade de emendar a lei. “Mas agora é muito mais difícil”, lamentou Ildeu.

amorimDeputado Rodrigo Amorim (PTB) - Crédito: Twitter de Elika TakimotoMenos de uma semana após o assassinato de Marcelo Arruda, tesoureiro do PT em Foz do Iguaçu (PR), pelo policial penal federal bolsonarista Jorge Guaranho, no domingo retrasado (10), a violência política voltou a ditar o tom da campanha eleitoral. No sábado (16), uma caminhada pacífica do deputado federal Marcelo Freixo, pré-candidato a governador do Rio pelo PSB, junto a aliados e militantes, foi perseguida e encurralada por um grupo liderado pelos irmãos bolsonaristas Rodrigo e Rogério Amorim — respectivamente deputado estadual e vereador pelo PTB — na Praça Saens Peña, na Tijuca, Zona Norte do Rio. Segundo relatos colhidos pelo Jornal da AdUFRJ, os bolsonaristas estavam armados e ameaçaram a comitiva de Freixo.
A deputada federal Jandira Feghali (PCdoB-RJ) estava na caminhada e tem convicção de que o grupo dos irmãos Amorim queria intimidar. “O que aconteceu foi um comando por parte do deputado bolsonarista Rodrigo Amorim e seu irmão, com quinze homens armados, para nos intimidar. Eles partiram para quebrar e rasgar bandeiras, empurrando as pessoas. Teve agressão moral, verbal, física, com palavras de baixo calão, desqualificando as pessoas”, conta Jandira.
Para a parlamentar, o episódio faz parte de uma escalada de violência que é estimulada principalmente pelo discurso de ódio de Jair Bolsonaro. “Ele é o principal incitador dessa violência. Bolsonaro só fala de incitação ao ódio, em aniquilamento do adversário, em agressão a quem pensa diferente”, avalia. Jandira acha que a resposta deve ser dada nos campos jurídico e político: “Fizemos o boletim de ocorrência na 19ª DP (Tijuca), demos entrada no TSE e no TRE-RJ. Vamos também apresentar uma representação contra o mandato do deputado Rodrigo Amorim, além de acionar o Ministério Público. Ao mesmo tempo, temos que dar a resposta política. E a primeira resposta é não sair das ruas. A rua é da festa cívica que é o processo eleitoral”.
Pré-candidata a deputada federal pelo PSB, a professora Tatiana Roque, do Instituto de Matemática e ex-presidente da AdUFRJ, estava na caminhada e diz que não houve confronto, mas sim uma agressão. “A gente estava fazendo uma manifestação política pacífica na Praça Saens Peña, e eles chegaram armados, truculentos, em bando para nos intimidar. Eles nos cercaram no meio da praça. Não foi um confronto, como alguns veículos de imprensa chegaram a dizer, como se fosse uma briga de rua. Não foi. Foi realmente um movimento de intimidação e de tentar cercear a nossa liberdade de manifestação. Eles fizeram questão de mostrar que estavam armados, vieram pra cima, quebraram bandeiras, foram muito violentos”.
Para Tatiana, cuja pré-candidatura foi lançada oficialmente na quinta-feira (21), a esquerda tem que se preparar para o recrudescimento da violência política. “Acho que a esquerda deve enfrentar isso sem violência, mostrando nossa diferença em relação a eles, mas ao mesmo tempo sem nos deixar intimidar. A gente não deve sair da rua porque o que eles querem é impedir a gente de fazer campanha, de nos manifestarmos politicamente, principalmente agora que eles estão perdendo e estão desesperados”.

DA PAZ AO TUMULTO
O vereador Reimont (PT), pré-candidato a deputado federal, saiu da praça poucos minutos antes da confusão e disse que, até então, o clima era de paz. “Nós temos uma banquinha permanente ali aos sábados no calçadão do Banco do Brasil desde 2009. Era um dia de festa, de caminhar e conversar com as pessoas, prestar contas do que temos feito e apresentar o nosso pré-candidato a governador a quem ainda não o conhecia. Tudo estava em paz”, descreve o vereador.
Para Reimont, o momento é muito difícil e a esquerda tem que estar preparada. “O que ocorreu foi uma mostra da continuidade daquilo que aconteceu com nosso tesoureiro em Foz do Iguaçu, que é o que tem sido proposto pelo atual governo, esse discurso de ódio que sempre termina com morte. Na campanha, temos nos orientado a caminhar sempre em grupos para ter mais segurança. Não permitiremos que nos oprimam, seremos firmes, sem jamais sermos violentos. A truculência virá para as ruas e nós temos que ter sabedoria para enfrentá-la”.
O músico e jornalista Tiago Prata, o Pratinha, pré-candidato a deputado estadual pelo PSB, viu a agressão dos bolsonaristas na Praça Saens Peña como mais um ato contra a democracia. “Foi muito sério, é a democracia em risco. Uma série de capangas de um deputado e de um vereador, que foram lá para isso, para gravar vídeos para as redes sociais deles dizendo que expulsaram Freixo e seus apoiadores da praça, como se o lugar fosse deles. É um fascismo tupiniquim. Marcelo não reagiu às provocações, ficou sereno e sorrindo, para não causar tumulto. Ficaram mostrando as armas na cintura. Foi revoltante”, lembra Pratinha.
O pré-candidato avalia que os bolsonaristas têm duas estratégias muito claras nesta campanha. “Elas se complementam. Uma é amedrontar. Outra, que foi até mais usada nesse episódio da Saens Peña, é fazer vídeos para as redes sociais usando uma narrativa falsa. A gente tem que ter as instituições funcionando, o TRE, o TSE, a Polícia, a Justiça para punir e até cassar candidaturas. Você impedir qualquer pessoa de fazer campanha na rua, provocar briga e morte, é uma tática para amedrontar. Isso não faz parte do jogo democrático. A esquerda tem que agir com sabedoria, ser firme, sem se acovardar”.

COMBUSTÍVEL DA VIOLÊNCIA
Para o cientista político Paulo Baía, professor do IFCS/UFRJ, a tendência é que a violência se acentue. “Essa eleição tem uma característica diferente. O presidente da República é uma pessoa avessa à democracia e faz tudo para diluir os mecanismos democráticos. Essa é uma intenção sempre clara do governo Bolsonaro em suas portarias, seus decretos e suas falas. Nós temos uma campanha que está efetivamente polarizada, e ela será violenta a cada momento porque interessa a Bolsonaro a tensão e a beligerância”, analisa Baía.
O professor crê que a escalada de violência amedronte parte do eleitorado. “Estamos no momento das convenções que vão definir os candidatos. O tom das campanhas para governador, para senador e para deputados federal e estadual será alimentado pelo combustível da violência. A disputas territoriais locais também ganham um tempero forte de violência. Os casos de Foz do Iguaçu e da Praça Saens Peña se inserem nesse contexto político local e nacional. Acredito que de agosto em diante, e sobretudo a partir de 10 de setembro, teremos atos muito contundentes de violência, no intuito de que as pessoas tenham medo de ir votar. Nos grupos qualitativos de pesquisa, já há indícios disso. Tem gente com medo de ir às ruas no dia da eleição”.
Em entrevista ao canal UOL News na segunda-feira (18), o deputado Rodrigo Amorim negou as acusações. “Naquele sábado, havia um encontro do meu partido, o PTB, em São Cristóvão. Eu moro a 300 metros da Praça Saens Peña, marquei na praça com apoiadores para que seguíssemos até São Cristóvão. Quando lá cheguei, havia um grupo de apoiadores do pré-candidato Marcelo Freixo e, assim que saí do carro, esse grupo começou a proferir xingamentos contra a minha pessoa, a minha família e contra o presidente Bolsonaro, de quem sou apoiador. As pessoas que estavam comigo também responderam a esses xingamentos, mas verbalmente. Não houve nenhuma agressão física”.
Mais conhecido pela quebra da placa de Marielle Franco, na campanha de 2018, do que por sua atuação parlamentar, Amorim também negou que ele e seus apoiadores estivessem armados. Ele registrou queixa na 19ª DP por injúria e difamação.
Na terça-feira (19), no lançamento da pré-candidatura de Pratinha, Marcelo Freixo falou sobre a agressão. “Não vai ser fácil governar esse país depois do bolsonarismo. Não podemos deixar o Rio de Janeiro ser um lugar de resistência do bolsonarismo. O Rio tem que ser o lugar da derrota do bolsonarismo. O que aconteceu na Saens Peña foi muito grave. Mas nós saímos da praça por uma razão: a gente não divide palco com a estupidez”, disse ele, sob aplausos.
Freixo reafirmou que a violência política será também derrotada nessa campanha. “A gente sabe que se vence o medo com o riso. O riso é um instrumento potente para vencer o medo. Quanto riso, quanta alegria. É com arte, com música, com união, com diálogo, com alegria que a gente vai fazer política e derrotar o ódio, o medo, o atraso. O Rio de Janeiro vai ser um dos lugares mais importantes para o governo Lula”, garantiu.

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