WhatsApp Image 2021 11 19 at 17.54.36A última sessão do CineAdUFRJ do ano – parceria do sindicato com o Grupo de Educação Multimídia, projeto de extensão da Faculdade de Letras – debateu a perspectiva freiriana da educação como elemento de transformação da realidade. A sessão foi a primeira da nova diretoria do sindicato. Cinco filmes foram discutidos. Um deles, um documentário de 33 minutos produzido pela Universidade Federal Rural do Semi-Árido (Ufersa). O projeto ouviu ex-alunos de Paulo Freire — que completaria 100 anos em 2021.
A professora Ana Lúcia Fernandes, diretora da AdUFRJ e docente da Faculdade de Educação, foi uma das debatedoras. Para ela, os filmes analisados apresentam uma perspectiva histórica de como a educação é vista na nossa sociedade. “Ao mesmo tempo em que a educação é essa força motriz de utopia, também aparece como sinônimo de progresso individual e coletivo”, avaliou.
Ana Lúcia defendeu que a escola também é ou deve ser espaço de experimentação e que a educação não deve ser encarada como única responsável por fracassos ou sucessos sociais. “Numa perspectiva histórica, há a crença de que a educação é a resolução de todos os problemas”, disse. “A educação transforma, sim, mas ela, por si só, não é capaz de transformar a realidade. Ela ajuda, mas há outros elementos estruturantes”, concluiu.
Márcia Lisboa, docente do Departamento de Letras da Uerj, também convidada da noite, apresentou a ideia de utopia, de Paulo Freire, como “o que ainda não é, mas vai ser”. “A imaginação utópica funciona para dizer aos nossos alunos que querem ser professores, às crianças que estão na escola, aos jovens que vão fazer o Enem nesse ano terrível que eles vão poder, ainda vai ter (espaço) para eles”, disse. “É preciso acreditar no futuro e é preciso que esse futuro seja verbo também. Acreditar que a educação ainda não é, mas vai ser”.
Professor recém-aprovado no Núcleo Interdisciplinar para o Desenvolvimento Social (Nides), do Centro de Tecnologia, Paulo Maia destacou as narrativas exibidas, todas, a seu ver, idealistas. “Os filmes geram uma identificação empática em relação ao tema. São narrativas que têm uma chave idealista”, defendeu.
Ele também pontuou a dualidade apresentada nas obras, entre o que chamou de cultura letrada e a dimensão prática da vida. São duas dimensões colocadas em contradição, que não é da escola, mas social. “Essa ideia não brota da relação professor aluno, nem brota na escola. É uma dimensão estrutural da sociedade”, afirmou. Para o professor, a narrativa apaga a lógica hegemônica social dos filmes e enfatiza a adesão emocional ao tema educação
Os filmes analisados na sessão do dia 18 de novembro foram: “Vida Maria” (2006), de Márcio Ramos; “Nunca me sonharam” (2017), de Cacau Rhoden; “40 horas na memória” (2013), do grupo Ufersa; “Madadayo” (1993), de Akira Kurosawa; e “Vocacional” (2011), de Toni Venturi. Para assistir às obras ou ao compilado de trechos, montado pela curadoria do cine, basta acessar o site do GEM. Todos os debates também ficam gravados no canal do grupo, no Youtube.

WhatsApp Image 2021 11 19 at 17.54.36 2HELEINE FERNANDES, escritora e doutora pela Faculdade de Letras da UFRJ"É importante reconhecer mulheres negras como pensadoras, lideranças fundamentais para que os saberes ancestrais sejam manifestados no Brasil”, afirma Heleine Fernandes, escritora e doutora pelo departamento de Ciência da Literatura da Faculdade de Letras da UFRJ. Na semana em que se comemora o Dia da Consciência Negra, o Jornal da AdUFRJ ouviu a autora sobre seu livro “A poesia negra-feminina de Conceição Evaristo, Lívia Natália e Tatiana Nascimento”, finalista neste ano do maior prêmio literário do país, o Jabuti.

“É uma pesquisa sobre poesia negra feminina contemporânea. Na primeira parte do trabalho, investigo a aparente inexistência dessas poetas”, conta Heleine. “Na segunda parte, investigo a obra poética delas, que pertencem a três gerações diferentes, de lugares fora do eixo Rio-São Paulo”, completa. Para a autora, muitas negras poetas poderiam compor o trabalho. “Escolhi três, mas existem muitas que fazem reverberar saberes não-ocidentais”, defende. “Também depois deste trabalho, foi quando pude me reconhecer como uma poeta negra contemporânea e publiquei um livro que se chama ‘Nascente’, pela Editora Garupa/ksa1”, afirma Heleine.
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A obra, selecionada entre as 10 melhores na categoria Ciências Humanas, uma das 21 temáticas do Jabuti, é fruto da pesquisa realizada por Heleine ainda na Faculdade de Letras. A escritora cursou graduação (desde 2005), mestrado e doutorado (até 2019) no Fundão. Para ela, a UFRJ foi fundamental para sua jornada. “Sempre tive bolsas, o que foi fundamental para que eu pudesse continuar a estudar”, conta. Por outro lado, o livro também funciona como uma crítica. “Essa tese também fala de um buraco. Durante minha formação inteira, nunca estudei uma autora negra. E minha tese vem para questionar essa universidade, que é uma das melhores do Brasil”, aponta a escritora.

E não foi nada fácil permanecer no curso. “Quando fiz vestibular, só a UERJ tinha a política de cotas. Quando entrei na universidade, não foi por cotas e há pouco tempo fiquei sabendo que existem cotas para pessoas negras dentro da pós, mas não aproveitei isso”, explica. “Sofri racismo durante minha formação e, diferente de hoje, não havia o coletivo de pessoas negras dentro da Letras”, conta.

Heleine agradece a permanência ao professor que a orientou, Alberto Pucheu. A família também sempre incentivou seus estudos. “Sou a primeira pessoa a fazer universidade pública, mestrado e doutorado. Meus avós são analfabetos e sempre investiram muito na minha educação, valorizaram isso”, diz.

Heleine não passou para a segunda fase do Jabuti, em que apenas cinco livros foram escolhidos para a grande final, na próxima semana. Mas a autora fica feliz por ter contribuído para o reconhecimento da poesia enquanto produção de conhecimento: “A minha pesquisa se soma muito a uma tentativa de criar ações, para estudantes negros e indígenas, que validem outras formas de formular o conhecimento e os saberes”, conclui.

Trabalho de incentivo à leitura está na final do Jabuti

WhatsApp Image 2021 11 19 at 17.54.36 3Já Miriane Peregrino, que também fez o doutorado na Letras (até 2019), aguarda com ansiedade a final do Jabuti, no dia 25. O trabalho coordenado por ela, enquanto editora do jornal “Literatura Comunica!”, os “Diários de Emergência covid-19”, foi selecionado entre os cinco finalistas na categoria inovação e incentivo à leitura.
“Tive a ideia dos diários quando estava em confinamento e o projeto foi crescendo. Esse ano fizemos a inscrição no Prêmio Jabuti e a Cynthia Rachel Pereira Lima ficou como a proponente responsável. Cynthia é uma das autoras dos diários e participa do (Jornal) Literatura também. Nos conhecemos quando atuamos em bibliotecas comunitárias: ela, na Baixada Fluminense, e eu, no Cerro Corá e na Maré. Ela também é de Letras, fez a especialização em literaturas africanas aqui na UFRJ”, conta.
Os diários foram publicados em cinco números ao longo do primeiro ano da pandemia. Todos estão disponíveis em formato online na página do jornal. “O Jabuti reconhece o que foi feito no ano anterior, neste caso, 2020. Nossa ação de fomento a leitura tem tudo a ver com a pandemia, o que fizemos foi estimular a leitura durante o confinamento da Covid-19”, reflete.
Ao todo, 63 autores, que residem ou não no Brasil, foram contactados por Miriane para se somarem à sua iniciativa, de março de 2020 a março de 2021. “Penso o Jornal Literatura Comunica como uma atividade de extensão, mas não necessariamente vinculada à universidade. Na pandemia, acabei lembrando dos diários de Anne Frank e de Lima Barreto, que são diários de confinamento escritos cada qual com sua especificidade”, explica.
Eleonora Ziller, ex-presidente da AdUFRJ, orientou Miriane durante o doutorado. “A Miriane é sensacional, daquelas meninas incríveis que a gente recebe de presente para orientar”, elogia. “No doutorado ela já fez uma mudança grande, quando propôs um doutorado-sanduíche em Angola. Abriu caminhos inusitados, conseguiu um trabalho como pesquisadora na Alemanha, quando aconteceu a pandemia, e ela sofreu isso tudo lá no estrangeiro”, conta.
Para Eleonora, o diferencial do trabalho de Miriane é a literatura atrelada à prática. “É a construção do fazer, com relações práticas e sociais transformadoras. Ela vive a literatura como um exercício de liberdade, compartilhamento. O trabalho dela é muito consistente”, acredita.
Eleonora enxerga a chegada de trabalhos como o de Miriane como a grande novidade do Jabuti deste ano. “É uma decisão de olhar diferenciado para coisas que não estavam na esfera. Ela estar entre as finalistas é muito importante”, acredita.

I Jornada Científica Favelades Universitáries

WhatsApp Image 2021 11 19 at 17.54.36 4Promover projetos e iniciativas produtoras de conhecimento, conduzidas por estudantes universitários e lideranças sociais moradores das favelas e periferias do estado do Rio. Esta é a proposta da primeira edição da Jornada Científica Favelades Universitáries, iniciada no dia 16 e com programação até amanhã (20). O evento tem organização da Pró-reitoria de Extensão da UFRJ, o Fórum Favela Universidade, o Centro de Estudos e Ações Solidárias da Maré/ Museu da Maré, a Casa Viva e a Fundação Oswaldo Cruz.
Na mesa de abertura, o convidado de honra foi o ex-deputado e escritor Jean Wyllys, que contou sobre sua passagem acadêmica na Universidade de Harvard. Com o tema “Quais caminhos levam os favelades à universidade e a universidade à favela?”, Wyllys discutiu os principais desafios enfrentados numa jornada científica ao exterior. “Não se sintam inferiores por não falar bem uma língua que não é sua, principalmente se estiverem nos Estados Unidos, porque as pessoas nativas de lá só falam a língua deles. E nós temos que correr atrás para falar outras línguas, numa realidade alijada de direitos, que torna tudo muito mais difícil”, disse.

Essa coluna, que estreia hoje, passa ser publicada quinzenalmente no Jornal da AdUFRJ

WhatsApp Image 2021 11 12 at 20.54.56 1MAYRA GOULART
Vice-presidente da ADUFRJ, professora de Ciência Política e de Yoga

Esse é um espaço para conversarmos sobre nosso bem-estar físico e mental. Um espaço de acolhimento, reconforto, mas, também, de autorreflexão e transformação. Uma transformação pela reconexão, com nosso corpo, nossa mente, sentimentos, medos, traumas, sem, contudo, cair na falácia da dualidade entre nós e o outro, entre indivíduos e natureza, homem e mundo, corpo e mente.

- Vamos falar sobre equilíbrio, sobre uma outra forma de entendê-lo, que destoa da tradição ocidental que nos forma e para a qual contribuímos enquanto intelectuais.

- Pensar no Ocidente como um sujeito relativamente coeso em termos de uma unidade capaz de ter uma origem e uma estrutura ética comum é um esforço fadado ao fracasso. São múltiplas histórias, origens, percursos e assimetrias. Não obstante, é possível situar as fundações éticas do pensamento ocidental na cultura helenística, enquanto escoadouro de uma paideia construída desde o período homérico, passando pelo período clássico, sendo possível observar no amálgama formado pelo aristotelismo, em geral, e pela doutrina do mesotês (justo meio), em particular, como o fator determinante para constituição de um substrato ético e político comum.

- Essa doutrina, que situa a virtude como o meio estático de um continuum em cujos extremos estão o excesso (hipérbole) e a falta (elleipsis), combina elementos presentes nas contribuições de poetas e pensadores que o precederam para os quais os excessos já eram associados à degeneração, à crise e à violência, sendo a ideia de moderação o antídoto para os males causados por esses vícios. Nas artes, ainda no século V, surge a ideia de que a determinação da beleza passaria por estabelecer uma linha mediana. Na mitologia, esse substrato ético surge na figura de uma divindade, Aidos (Aedos), que seria a personificação da modéstia, do pudor e do respeito, cuja principal qualidade seria a capacidade de se conter. Na medicina, essa mesma ideia aparece nas recomendações de Hipócrates (aproximadamente 460-377 a.C.) acerca da moderação no consumo de comida e bebida. Ao longo dos milênios que nos separam da antiguidade, essa disposição de medicalizar o sofrimento, o trágico, o desconforto, entendendo-o como doença, só se agravou, mediante a criação de padrões e expectativas cada vez mais inalcançáveis.

WhatsApp Image 2021 11 12 at 20.54.56- Na tradição budista, o termo utilizado para expressar uma atitude mental de equilíbrio é Tatramajjhattatâ, traduzido por equanimidade, cujo núcleo semântico é a imparcialidade, o desapego. Diferentemente da abordagem ocidental, que tem na moderação um imperativo que rejeita os extremos, na filosofia budista o excesso e a falta, o choro e o riso, o sucesso e o fracasso são aceitos como inexpugnáveis e, mais do que isso, como estados necessariamente impermanentes. Deste modo, enquanto mentes ocidentais, fomos educados a buscar uma conduta e uma vida de equilíbrio como estratégia para evitar o sofrimento e alcançar o sucesso, acreditando que estes seriam estados permanentes, uma vez alcançados viveríamos uma vida sem frustração, sem dor.

- Esta coluna buscará apresentar um outro ponto de vista, no qual o trágico e a dor não serão abordados (ou diagnosticados, o que é ainda mais grave) como resultado de uma conduta desequilibrada, doentia ou inadequada, como desvios de percurso. Acreditamos que este entendimento só aumenta o sofrimento, incluindo nele uma relação em cascata que a ele acrescenta outros sentimentos como culpa, vergonha, frustração e ansiedade.

- Um ponto de vista no qual o sofrimento é visto como algo constitutivo da vida, sem que isso se desenvolva em uma postura quietista com relação a ele. Ao contrário, nosso objetivo aqui será discutir formas de reduzi-lo através de práticas que aumentem nossa conexão com o mundo, com nosso corpo e mente, mas, sobretudo, que estimulem nossa consciência.

Ordem do Merito CientificoO governo Bolsonaro fez mais um ataque à Ciência brasileira, e recebeu uma resposta à altura da comunidade científica. Depois de o governo voltar atrás na nomeação dos pesquisadores Adele Schwartz Benzaken e Marcus Vinícius Guimarães de Lacerda para a Ordem Nacional do Mérito Científico, cientistas de todo o país se reuniram para condenar publicamente os expurgos. Na UFRJ, o movimento foi organizado pelos professores eméritos, que publicaram uma carta (ao lado, na íntegra) em repúdio à exclusão dos dois pesquisadores da lista de agraciados.
Adele Benzaken era diretora do Departamento de Vigilância Prevenção e Controle das IST, do HIV/Aids e das Hepatites Virais do Ministério da Saúde, e foi desligada em janeiro de 2019, por ter sido a responsável pela elaboração de uma cartilha destinada a pessoas trans. Marcus Lacerda foi um dos primeiros brasileiros a pesquisar o uso de cloroquina contra a covid-19, e suspendeu o estudo depois de verificar que o medicamento aumentava o risco de problemas cardíacos. A comunidade científica acredita que essas são as razões para o governo ter recuado na honraria aos dois pesquisadores.
Professor emérito da UFRJ e diretor da AdUFRJ, Ricardo Medronho disse que a carta é um reflexo da revolta da comunidade científica. Assinada até o fechamento desta edição por 57 professores eméritos, a carta é dura ao afirmar que a atitude de Bolsonaro, tratada como indigna, é “marca de governos autoritários, condizente com o negacionismo do atual governo”. Para Medronho, a revolta da comunidade científica é justa. “Estes pesquisadores foram excluídos meramente por perseguição política, porque suas pesquisas não estão em acordo com o pensamento do atual presidente da República”, defendeu ele na reunião do Consuni de quinta-feira (11). O conselho aprovou uma moção de solidariedade aos pesquisadores excluídos, apresentada por Medronho.
A Ordem Nacional do Mérito Científico, fundada em 1993, tem como finalidade homenagear personalidades que “se distinguiram por suas relevantes contribuições prestadas à Ciência, à Tecnologia e à Inovação”. A indicação dos membros é feita por uma comissão formada por três membros do Ministério da Ciência Tecnologia e Inovação, três indicados pela Academia Brasileira de Ciências e três integrantes da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC). A admissão na ordem é prerrogativa do presidente da República.
“O trabalho que a comissão faz é técnico, e garante que os agraciados são escolhidos pelo mérito científico deles”, explicou o professor Luiz Davidovich, presidente da Academia Brasileira de Ciências e professor emérito da UFRJ. “Não podemos dizer que os dois cientistas se opuseram ao governo, eles foram excluídos da lista porque fizeram Ciência. Então certamente foi uma atitude autoritária”, defendeu o professor.
Signatário da carta dos professores da UFRJ, Davidovich defende que a comunidade científica deve se manifestar com vigor. “Reagir contra isso é importante e necessário. É preciso cortar essa escalada autoritária antes que seja tarde demais”, salientou.

INDICADOS RECUSAM PRÊMIO
Um grupo de 21 cientistas indicados para receber a comenda também se manifestou publicamente, recusando o prêmio e publicando uma carta. “Não compactuamos com a forma pela qual o negacionismo em geral, as perseguições a colegas cientistas e os recentes cortes nos orçamentos federais para a Ciência e Tecnologia têm sido utilizados como ferramentas para fazer retroceder os importantes progressos alcançados pela comunidade científica brasileira nas últimas décadas”, diz um dos trechos da carta. “Em solidariedade aos colegas que foram sumariamente excluídos da lista de agraciados, e condizentes com nossa postura ética, renunciamos coletivamente a essa indicação”, diz outro trecho.
Dois pesquisadores da UFRJ foram indicados para receber a honraria, ambos do Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho (IBCCF): Fernando Garcia de Mello e Patricia Rieken Macedo Rocco. Fernando se juntou aos demais cientistas que recusaram a honraria.

PERSEGUIÇÃO
Para o pesquisador Marcus Lacerda, o movimento dos cientistas é uma tentativa importante de se contrapor diretamente à política do governo. “É triste como intervenções políticas no mérito estão gerando problemas. Não só na Ciência, mas na Saúde, como na pandemia, e na Educação. Isso mostra claramente que a política está se colocando acima do mérito em todas as áreas”, avaliou o professor. “É um absurdo que no momento em que o país está em crise e precisa mais de conhecimento estratégico, a Ciência seja apagada como tem sido”.
Não foi o primeiro ataque pessoal que Lacerda sofreu. Quando seu estudo sobre a cloroquina foi publicado, no ano passado, ele recebeu ameaças de morte de seguidores de Bolsonaro na internet. “Algumas pessoas acreditaram nessa grande fake news e que eu tinha matado pessoas de propósito com altas doses de cloroquina. Recebi uma avalanche de ameaças de morte, e esses ataques aconteceram imediatamente após a declaração do deputado Eduardo Bolsonaro de que o estudo precisava ser investigado, que tinha matado pessoas”, relatou o cientista, que chegou a precisar de escolta armada da Polícia Militar do Amazonas por dez dias.

OUTRAS MANIFESTAÇÕES
Mais de 270 cientistas e personalidades que já receberam a comenda da Ordem Nacional do Mérito Científico também divulgaram uma carta de protesto. O professor Ildeu de Castro Moreira, ex-presidente da SBPC e um dos organizadores da carta, criticou a postura do governo. “Estamos voltando à censura ditatorial. O autoritarismo e o arbítrio não cabem no Brasil, e a comunidade científica está se manifestando contra isso”, explicou Ildeu, que ainda fez um alerta para os demais setores da sociedade civil. “O cerceamento acontece primeiro em setores que se pronunciam mais junto ao público, como cientistas, jornalistas e artistas, mas isso se espraia e passa a ser uma censura à sociedade inteira”.
Outra manifestação foi organizada por ex-reitores de universidades federais, que também criticaram o que chamaram de “ingerência presidencial na liberdade de cátedra”, o que afronta a Constituição. Um dos mais de 50 signatários da carta é Nelson Maculan, ex-reitor da UFRJ. “Acho que o país tem reagido muito pouco, é importante essa reação para fazer avançar essas discussões. Nós representamos a Ciência do país, temos responsabilidades e precisamos dar exemplo”, defendeu Maculan.

CARTA ABERTA DOS PROFESSORES EMÉRITOS DA UFRJ EM REPÚDIO À CASSAÇÃO DE HOMENAGEM A CIENTISTAS

Os Professores Eméritos da Universidade Federal do Rio de Janeiro, abaixo assinados, vêm a público expressar a sua indignação e repudiar a injusta exclusão dos cientistas Adele Schwartz Benzaken e Marcus Vinícius Guimarães de Lacerda da lista de agraciados com a Ordem Nacional do Mérito Científico. Os seus nomes foram indicados por uma comissão paritária de membros do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações, Academia Brasileira de Ciências (ABC) e Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SPBC), o que garante que sua escolha se dê em virtude de seu mérito científico, fora de toda e qualquer injunção política.
Em decreto de 3 de novembro de 2021, o atual ocupante do Palácio do Planalto publicou a lista dos agraciados com a honraria e, em 5 de novembro de 2021, o Presidente da República, surpreendentemente, fez publicar novo decreto excluindo os dois cientistas acima mencionados, por pura perseguição política.
Essa atitude indigna é marca de governos autoritários, condizente com o negacionismo do atual governo, que, durante a pandemia de Covid-19, se posicionou e agiu contra todas as recomendações científicas dos especialistas em saúde pública do país. Somado a isso, cortes financeiros abusivos vieram sufocar o financiamento de universidades e centros de pesquisa brasileiros, mostrando a sua total falta de visão e desprezo pela ciência e pelo próprio desenvolvimento do país.
Assim, prestamos nossa solidariedade aos cientistas Adele Schwartz Benzaken e Marcus Vinícius Guimarães de Lacerda, excluídos da lista de agraciados por motivos políticos, bem como aos 21 (vinte e um) cientistas que renunciaram coletivamente às suas indicações. Estes 21 colegas deixaram muito claro que não se troca honradez por honrarias.
Rio de Janeiro, 6 de novembro de 2021

Adalberto Ramón Vieyra
Adelaide Maria de Souza Antunes
Andrea Viana Daher
Alda Judith Alves Mazzotti
Alice Rangel de Paiva Abreu
Ana Ivenicki
Anita Dolly Panek
Antônio Carlos Secchin
Antonio Flavio Barbosa Moreira
Antonio Giannella-Neto
Arthur Octavio de Ávila Kós
Basilio de Bragança Pereira
Cláudio Costa Neto
Dinah Maria Isensee Calou
Erasmo Madureira Ferreira
Francisco Antônio de Moraes Accioli Dória
Francisco Radler de Aquino Neto
Gilberto Barbosa Domont
Helio dos Santos Migon
Henrique Murad
Jayme Luiz Szwarcfiter
João Luiz Maurity Saboia
José Murilo de Carvalho
Jose Mauro Peralta
Krishnaswamy Rajagopal
Liu Hsu
Luiz Bevilacqua
Luis Felipe da Silva
Luiz Davidovich
Luiz Felipe Alvahydo de Ulhoa Canto
Luiz Pereira Caloba
Luiz Pinguelli Rosa
Marcello André Barcinski
Márcio Tavares d’Amaral
Maria Angela Dias
Maria Antonieta Rubio Tyrrell
Marieta de Moraes Ferreira
Mario Luiz Possas
Martin Schmal
Muniz Sodre Cabral
Nei Pereira Junior
Nelson Albuquerque de Souza e Silva
Nelson Maculan Filho
Nelson Spector
Nelson Velho de Castro Faria
Nizia Maria Souza Villaça
Nubia Verçosa Figueiredo
Otávio Guilherme Cardoso Alves Velho
Raquel Paiva de Araújo Soares
Ricardo de Andrade Medronho
Roberto Lent
Sandoval Carneiro Junior
Sergio Augusto Pereira Novis
Takeshi Kodama
Vivaldo Moura Neto
Walter Araujo Zin
Yvone Maggie de Leers Costa Ribeiro

WhatsApp Image 2021 11 12 at 20.52.03MUDANÇA Nicolle diz que perfil dos alunos nas salas de aula mudouCriada em 2012 e adotada pela UFRJ em 2014, a Lei de Cotas promoveu, numa das maiores universidades da América Latina, a mudança estrutural que faltava. Segundo um levantamento feito pelo portal de notícias G1, de 2013 para 2020 o número de estudantes autodeclarados pretos e pardos dentro da universidade aumentou em 71%. Se, em 2013 (um ano antes da adoção da lei pela UFRJ), as pessoas pretas e pardas eram minoria (21,3 mil), hoje elas são 36,6 mil, ocupando espaços científicos e administrativos dentro da universidade, que a cada dia aprimora estratégias para lidar com o racismo institucional, como a Câmara de Políticas Raciais e as Comissões de Heteroidentificação.
“A UFRJ foi uma das últimas universidades a aderir às cotas raciais. Num primeiro momento, ainda havia resistências, e também incompreensões. A academia se dividiu, houve manifestações contrárias e favoráveis. Ficou, durante um tempo, introjetada a questão meritocrática”, lembra Denise Góes, servidora que coordena a Câmara de Políticas Raciais. Para ela, o aumento de pessoas pretas e pardas na universidade ajudou a fazer crescer a consciência, de maneira geral, da importância da população afrodescendente ocupar espaços institucionais. “A entrada de um jovem ou pessoa mais velha, negra, modifica e altera o status quo. O fato de estar pisando na universidade é muito importante, tem uma qualidade espetacular”, acredita.
Denise é uma das pessoas empenhadas em tornar o acesso pelas cotas justo, sem fraudes. Na experiência com as Comissões de Heteroidentificação, ela reconhece que ainda existem caminhos a serem buscados para aperfeiçoar a entrada de estudantes negros. “O caminho a percorrer é fazer da lei um instrumento que garanta a vaga, e das comissões um instrumento para o sujeito de direito. A autodeclaração continua sendo importante. É preciso que as políticas de assistência estudantil sejam aprofundadas. É uma dicotomia permitir o acesso e ceifar a assistência estudantil”, afirma a servidora. “A UFRJ, como maior da América Latina, tem que criar um plano B para garantir a expansão e aprofundamento das políticas de permanência. Senão é como ficar com sede no deserto”, completa.

DIVERSIDADE
O secretário geral da Associação de Pós-Graduandos (APG) e docente do CAp-UFRJ, Jorge Marçal, é um dos muitos beneficiados pela Lei de Cotas. “Fui de uma das primeiras turmas de cotas na Biologia. Entrei em 2015.1, e peguei o começo dessa discussão na universidade, o início da formação dos coletivos de estudantes negros”, conta. “Me marcou muito estar na universidade no início desta experiência, porque as pessoas ainda estavam se adaptando, algumas discussões ainda estavam tomando força e eu pude participar dessas movimentações formando o coletivo de estudantes negros e negras da Biologia, que promovia eventos e fez parte do início da discussão das Comissões de Heteroidentificação”, completa.
Para Jorge Marçal, racismo institucional não é algo que se relaciona somente ao contexto interno das instituições, mas ao modo como as instituições respondem aos desafios que estão postos, de maneira geral, na sociedade. “O contexto político em que aprovamos as cotas raciais era outro, em relação ao que estamos agora. É um contexto de desmonte das universidades públicas e da assistência estudantil”, lembra. Jorge acredita que o reconhecimento institucional das pessoas pretas e pardas ainda precisa aumentar. “Nos conselhos superiores, ainda é uma presença negra muito tímida. Nas categorias docentes, essa representatividade ainda é menor. É uma discussão para se enfrentar com mais veemência”, reflete.
Na coordenação da APG, Jorge vê desafios no que considera o último reduto da universidade em que não se tem, de maneira institucionalizada para todos os programas da pós, as cotas raciais. “Temos que garantir que a Lei de Cotas continue existindo na reavaliação que será feita no ano que vem. A universidade precisa tomar isso como uma pauta sua, não só do movimento negro, dos coletivos”, considera. Em 2022, quando a lei completa dez anos, o Congresso Nacional vai rediscutir a legislação. Para ele, os dados do levantamento do G1 são cristalinos, e mostram o quanto a universidade mudou. “Havia também aquela preocupação com a redução da excelência da universidade, e isso não se concretizou. Os cotistas, de maneira geral, têm um desempenho melhor que os não cotistas”, diz. “Os dados mostram que as cotas são positivas para a universidade, e retirá-las seria um balde de água fria”, completa.
Prestes a se formar em Publicidade e Propaganda pela Escola de Comunicação, Nicolle Araújo sentiu o impacto da Lei de Cotas apenas quando ingressou na universidade, em 2017. “Antes de fazer pré-vestibular e pensar em entrar na faculdade, não entendia muito bem a importância das cotas. Não sabia o real peso disso tudo. Depois que entrei, hoje, quase me formando, consigo sentir a importância das cotas serem inseridas no processo de admissão”, conta. “Por mais que eu tenha tido uma educação bem estruturada, tive o privilégio de estudar em colégios públicos muito bons, consigo ver que se não tivesse usado a cota, talvez não conseguisse entrar”, afirma. Nicolle reconhece que a mudança nas salas de aula é perceptível, mas acha que ainda há muito a ser melhorado. “Houve um aumento de diversidade, tanto no quesito renda como na raça, na universidade como um todo. Porém vejo muitas pessoas que usam o benefício de maneira errada, fraudadores, o que ainda dificulta a entrada de pessoas que realmente têm esse direito”, acredita.
O professor Vantuil Pereira, diretor do NEPP-DH e um dos idealizadores do Coletivo de Docentes Negros e Negras da UFRJ, também sente o impacto das cotas na sala de aula. Quando começou a lecionar na universidade, em 2010, havia apenas três alunos negros na matéria que ministrava no curso de Relações Internacionais. Hoje, a realidade é outra. “Há uma combinação das cotas com o Sisu e o Reuni. É um movimento que aconteceu todo junto e levou ao crescente aumento de alunos. Em termos de professores, também está acontecendo, mas em menor proporção. Uma coisa que percebo é que há um grande numero de professores negros na universidade por conta do Reuni. Se agora temos cerca de 15% de professores negros, é por conta do Reuni, gente que saiu da pós-graduação entre 2005 e 2008, em um contexto de formação anterior às cotas. E agora temos essa feliz combinação, quando comparamos com o número de alunos”, diz.

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