WhatsApp Image 2022 01 14 at 17.20.08SIMPÓSIO DE QUÍMICA e Modelagem Molecular reuniu alunos, ex-alunos e colaboradores do professor Bicca, em 2013, quando completou 70 anos - Foto: Informativo IQUm cientista brilhante, de posições firmes, dedicado aos alunos. Um homem culto, elegante e querido por todos. Aos colegas e amigos de Ricardo Bicca de Alencastro, não faltam elogios para descrever o professor emérito, que faleceu em 16 de dezembro último. O Instituto de Química ainda chora a perda do multifacetado mestre, vítima de uma pneumonia, aos 78 anos.
“O professor Bicca deixa muitas saudades. Fui diretora do Instituto de Química por três gestões e ele participava de todas as reuniões de Congregação e eventos. Era muito colaborativo”, diz a professora Cássia Turci, decana do Centro de Ciências Matemáticas e da Natureza. “O professor Bicca amava a UFRJ. Muitas vezes, pegava carona com ele às 10 horas da noite, após as aulas nos cursos de licenciatura. Como eu, ele gostava de dar aula à noite também”, lembra. Quando completou 60 anos, o docente fez questão de fazer uma festa no Instituto de Química. “Estava muito feliz. Foi muita gente e ele me disse que ali estava a família dele”, observou Cássia.
Bicca era conhecido por falar pouco e baixo, mas a postura não o impediu de participar ativamente da vida política e administrativa da universidade. Chefiou o Departamento de Química Orgânica, ocupou o cargo de diretor do instituto entre 1976 e 1980, e integrou o Conselho Universitário por duas vezes. A primeira, quando era presidente do Diretório Central dos Estudantes da então Universidade do Brasil, em 1964 e 1965.
Em uma rápida pesquisa em edições digitalizadas do jornal Correio da Manhã, é possível encontrar registros do jovem dirigente do DCE, no início da ditadura militar, defendendo colegas da Faculdade Nacional de Direito de uma punição, criticando uma proposta de cobrança de anuidade aos alunos das federais ou propondo um fundo de assistência estudantil.WhatsApp Image 2022 01 14 at 17.19.54 3REGISTRO de uma viagem, no início de 2006, a Paris - Foto: Acervo pessoal/Carlota Parreira
O ex-líder do DCE, que se tornou professor em 1969, continuou a apoiar os estudantes. Bancava viagens para congressos, pagava bolsas e, às vezes, se tornava fiador daqueles que vinham de fora do Rio e precisavam alugar algum apartamento na cidade. Primeiro aluno de pós-doutorado dele, de 2000 a 2002, o hoje professor Osvaldo Andrade Santos Filho, do Instituto de Pesquisas de Produtos Naturais da UFRJ (IPPN/UFRJ), ainda sente bastante o falecimento do antigo mestre e é testemunha de sua generosidade. Ele recorda que, antes do surgimento do portal de periódicos da Capes, Bicca mantinha no laboratório um acervo atualizado, à disposição dos alunos e dos colegas docentes. O controle era feito de forma rigorosa por meio de um livrinho preto, com anotação do nome e data do empréstimo. “Naquela época, o acesso era mais difícil. Eram livros avançados que não podiam ser comprados em uma Saraiva, por exemplo. E ele fazia questão de importar esses livros, com dinheiro do próprio bolso, para o grupo de pesquisa”.
O professor Pierre Mothé Esteves, ex-aluno de Bicca nos anos 1990, também recorda de outro “mimo científico” do laboratório: um microcomputador PC-XT, modernidade da época, com livre acesso a todos, mesmo para quem não era aluno dele. “Era praticamente um ‘point’, um Jobi científico”, brinca, em referência ao famoso bar do Leblon. Hoje ocupando a mesma sala (a 622, do IQ), Pierre pretende manter o estilo do espaço. Herdeiro até de uma cadeira de escritório que pertencia a Bicca, o docente vai reformar o móvel como uma forma de homenagem.

LEGADO EXTENSO
Cientista brilhante, além de formar mestres e doutores que hoje lecionam na própria UFRJ ou em outras instituições, Bicca deixou extenso legado acadêmico. “O maior legado do professor foi como mantenedor da área de Química Estrutural e da Físico-Química Orgânica dentro da UFRJ. Ele sempre dizia que a função está na estrutura. Era um arquiteto molecular nato”, explica Pierre. “Ele nos fez perceber que estamos na era das ciências moleculares, ou seja, áreas do conhecimento que têm como objeto central as moléculas e os átomos, como Física Molecular, Biologia Molecular, Nanotecnologia, Gastronomia Molecular”, completa.
“Além das diversas traduções, escreveu livros, capítulos de livros ou artigos sobre temas como Nomenclatura de Compostos Orgânicos, História da Química no Brasil e Físico-Química Orgânica”, acrescenta a professora Magaly Girão Albuquerque, colega de Bicca no Departamento de Química Orgânica.
Magaly, orientada por Bicca no mestrado e no doutorado, na década de 1990, observa que o docente foi um dos pioneiros da modelagem molecular na área de Química Medicinal. “Foi um dos fundadores do Simpósio Brasileiro de Química Medicinal”.
A pandemia foi muito dura para o ex-orientador que, mesmo aposentado, frequentava o Fundão diariamente. E duas vezes por semana, após um acidente doméstico em que quebrou uma das pernas. Mas, com o início das medidas de distanciamento social, não voltou mais ao instituto. “Acho que isso o afetou muito”, lamenta. “Gosto de pensar que o professor Bicca não virou uma estrela; virou uma constelação. Ficará com certeza sempre na nossa memória, dos seus ex-alunos, colegas, amigos e familiares”, conclui Magaly.

AMANTE DA MÚSICA E DOS LIVROS
WhatsApp Image 2022 01 14 at 17.19.55 1EM 1997, mestre se apresentou no encerramento da JIC com um trecho da cantata Carmina Burana, de Carl Orff - Foto: divulgaçãoFora da UFRJ, Bicca também deixou uma legião de admiradores. A professora de inglês Carlota da Cunha Parreira ainda lamenta a perda de Bicca, amigo desde 1979. “O Ricardo foi a pessoa mais correta e honesta que eu conheci na minha vida”. Carlota revela um lado pouco conhecido do mestre para quem não fazia parte de seu círculo mais próximo de relações. “Ele cantou no coral da PUC e no coral de Câmara de Niterói”.
Também adorava ler. No horário do almoço, estava sempre com um livro a tiracolo em algum dos restaurantes ou trailers do Centro de Tecnologia. “O Ricardo amava poesia. O poeta preferido dele era o Fernando Pessoa e todos os seus heterônimos”, lembra.
O próprio docente escreveu poemas. E seis deles foram musicados por Guilherme Bernstein —professor de regência e prática de orquestra da UniRio — e transformados no livro “Rosto no espelho”. Apreciador de música clássica, Bicca frequentava concertos e não era incomum encontrar o ex-reitor Aloisio Teixeira nestas oportunidades. “Eles se davam muito bem”, conta Carlota.
A professora de inglês deu muitas aulas para ex-estudantes do professor Bicca que viajavam ao exterior e não tem dúvida sobre o amor dele à universidade. “A vida do Ricardo era a UFRJ. Ele não tinha filhos, mas acho que o laboratório e os alunos eram os filhos dele”, completa.

servidores buscam consolidar unidade luta por reajuste linear 323Reprodução Fonsasefe

Os servidores públicos federais começaram a estudar uma proposta de greve unificada em 2022. Os professores das universidades serão chamados à discussão em uma rodada de assembleias prevista para os dias 17 de janeiro a 11 de fevereiro. O calendário ficou definido em uma reunião virtual organizada pelo Andes-Sindicato Nacional, na quarta-feira (12).
A mobilização ganhou impulso após o governo articular um reajuste salarial para poucas categorias da área de segurança, em um cenário de inflação galopante — 10,06% somente em 2021, segundo o IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo). No orçamento deste ano, ainda não sancionado pelo presidente, seria reservado R$ 1,7 bilhão apenas para policiais federais, policiais rodoviários federais e carreiras do Departamento Penitenciário Nacional e do Ministério da Justiça. Pressionado pelo protesto dos demais servidores, Bolsonaro disse depois que nenhum reajuste estaria garantido.
Mas não será um debate fácil, como ficou demonstrado na própria reunião do Andes. A começar pela definição de um índice de reajuste linear que unifique todas as categorias. Há setores com os salários congelados há cinco anos, com perdas acumuladas em torno de 28%.
O professor Thiago Arruda (diretor da Associação dos Docentes da Universidade Federal Rural do Semi-árido, do Rio Grande do Norte), preocupado com o impacto do pedido na sociedade, ponderou se a mobilização deveria seguir o maior índice apresentado no debate, diante de um cenário de crise econômica e ainda em plena pandemia. “Se o patamar está em torno de 28%, talvez a gente deva atuar para reduzir esse patamar”.
A preocupação com a legislação de ano eleitoral, que restringe aumentos para os servidores, motivou a professora Erika Suruagy, diretora da Associação dos Docentes da Universidade Federal Rural de Pernambuco (Aduferpe), a elaborar outra proposta de índice. Segundo ela, só seria possível recuperar as perdas inflacionárias acumuladas no ano anterior. Justamente os 10,06% de 2021. “É algo que possibilita ampliar o diálogo com a população”, argumentou.
Ao final, prevaleceu a proposta apresentada pela diretoria nacional de que o índice seja discutido em uma reunião do Fórum das Entidades Nacionais de Servidores Públicos Federais (Fonasefe), marcada para o dia do fechamento desta edição (14). A ideia é que a greve unificada, além da recomposição salarial, também cobre melhores condições de trabalho e a revogação da Emenda Constitucional nº 95, que limita os gastos públicos.

DEMANDAS DA EDUCAÇÃO
Ainda na rodada de assembleias, os professores devem discutir a elaboração de uma pauta específica da área da Educação com as demais entidades que atuam nas instituições federais de ensino superior. Na reunião do Andes, alguns diretores sindicais já sugeriram a inclusão de um ponto contra a intervenção do governo na eleição de reitores das universidades.
Pela AdUFRJ, a professora Mayra Goulart defendeu uma pauta simples para a mobilização. “O tema da recomposição salarial encontra um momento de abertura, não só pelos últimos indicadores de inflação. Essa é a pauta do momento”, disse. “Em segundo lugar, o próprio governo Bolsonaro já mostrou fissuras no seu discurso neoliberal”, completou, citando a questão dos precatórios, do Auxílio Brasil e a previsão de R$ 1,7 bilhão para o reajuste do funcionalismo.
A docente argumentou que, ao tentar articular esta demanda com outras, embora relevantes, a mobilização pode perder aceitação na sociedade. Mayra também defendeu paralisações pontuais, em vez de uma greve. “Isso, num contexto de pandemia, pode ser confuso. Temos que ter propostas claras e, com isso, tentar uma maior capilaridade social para a nossa reivindicação sindical”, afirmou.
No caso das universidades, outro obstáculo apresentado até mesmo para o início da discussão é o calendário diferenciado. Enquanto algumas estão em plena atividade, as que se encontram em recesso ou período de férias teriam mais problemas para reunir os professores em assembleia.

ATO NO DIA 18
O ritmo de mobilização está em outro patamar entre os integrantes das chamadas carreiras típicas de Estado — entre eles, os auditores fiscais, que entregaram cargos em protesto contra a falta de reajuste no orçamento de 2022. Os funcionários do Banco Central também anunciaram uma paralisação no próximo dia 18.
Pelo lado do Andes, ficou definido que a data será proposta ao fórum das entidades de servidores como um dia de paralisação e luta para “construir onde for possível”.

AVALIAÇÃO
Presidente da AdUFRJ, o professor João Torres considera fundamental o processo de mobilização. Uma assembleia para discutir o tema da greve na UFRJ será amplamente convocada, dentro do calendário estabelecido. Os não sindicalizadostambém poderão se manifestar e votar, já que uma paralisação prolongada afetaria o cotidiano de todos os professores. “A diretoria quer ouvir a base”, disse. “Somos favoráveis a uma luta salarial, mas me preocupa muito a realização de uma greve no meio da pandemia”, completou. João disse ainda que a entidade vai participar de forma ativa das atividades do dia 18, distribuindo os materiais encaminhados pelo Sindicato Nacional.

WhatsApp Image 2022 01 07 at 21.03.15 2Foto: Fernando Souza/Arquivo AdUFRJA virada de ano veio acompanhada de uma má notícia para servidores, estudantes e pacientes do Hospital Universitário Clementino Fraga Filho. Com o fim de um convênio firmado com o Ministério da Saúde até 31 de dezembro passado, 850 profissionais contratados de forma temporária deixaram a unidade de saúde e 110 leitos foram desativados. Apenas 200 estão abertos, no momento.
“Mantivemos estes profissionais com o orçamento suplementar do Ministério da Saúde destinado à demanda Covid, que serviu para contratar pessoal e assegurar os leitos de referência abertos no Rio de Janeiro”, explicou, em nota, o diretor geral do HU, professor Marcos Freire.
De acordo com a mesma nota, os leitos agora fechados atendiam a diversas especialidades clínicas e cirúrgicas. Além disso, o hospital não conta mais com leitos exclusivos para pacientes infectados com o coronavírus. A unidade só atende pacientes que testem positivo e tenham prontuário ativo na unidade ou já estejam internados. Os espaços reformados para receber pacientes da pandemia estão sendo utilizados em outros atendimentos, exceto a área do CTI covid, que está desativada.
O diretor do hospital explica que a unidade sofre com um déficit significativo de pessoal, especialmente considerando sua capacidade ideal de funcionamento. “Para manter o atendimento e a qualidade de ensino, o ideal é que o hospital tenha 400 leitos. Mas, para isso, são necessários cerca de 1,9 mil profissionais — médicos, enfermeiros, outras especialidades e administrativos — além do efetivo atual, que é de 2,6 mil”, afirma Marcos Freire.
Para o coordenador do Complexo Hospitalar da UFRJ, Leôncio Feitosa, o fechamento dos leitos é “terrível para o sistema de saúde pública, para o SUS, para a universidade e para a sociedade”. Segundo ele, o hospital tentou renovar o convênio com o Ministério da Saúde, mas recebeu uma resposta negativa do governo federal. “Nosso desejo é que fosse renovado, mas, quando fizemos a solicitação, o momento era outro. Agora estamos vendo um recrudescimento da pandemia”, contou Leôncio, em referência ao avanço da variante ômicron no país.
A prefeitura do Rio pediu que o governo do Estado abra novas vagas para pacientes de covid-19 na sua rede de saúde. Leôncio afirma que o HU está pronto para abrir vagas, desde que haja um aporte de recursos na unidade. “A reitoria já apresentou ao governo federal, quando fez a proposta para a renovação do convênio, os valores necessários para a manutenção desse pessoal e dos leitos abertos”, contou.
Para Gerly Miceli, coordenadora do Sintufrj, não só o HU, mas todas as unidades de saúde que abriram novas vagas para atendimento de pacientes de covid-19, deveriam se empenhar para preservar estes leitos, de forma permanente. “Todos esses hospitais que tiveram um incremento de recursos para o enfrentamento da pandemia deveriam, via Complexo Hospitalar e reitoria, fazer uma forte campanha para que esses leitos fossem agregados aos da universidade para atendimento das especialidades”, defendeu a dirigente.
Gerly entende que seria uma nova oportunidade de unir a sociedade civil em defesa da UFRJ, como aconteceu em maio do ano passado, quando a reitoria denunciou o desmonte orçamentário da universidade. “Isso daria autoridade à UFRJ, junto à sociedade, para reivindicar concursos públicos, para servidores em RJU, dado que a universidade está oferecendo mais estes serviços”, explicou.
Diante da crise de recursos e de pessoal do Complexo Hospitalar da UFRJ, o Consuni aprovou, no fim do ano passado, a abertura de negociações com a Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (Ebserh), que administra 40 hospitais universitários por todo o país.

Painel Covid-19: mais de 2,5 mil atendidos

WhatsApp Image 2022 01 07 at 21.03.14ReproduçãoDesde que começou a receber pacientes com suspeita de contágio pela covid-19, no ano retrasado, o HU já atendeu 2.504 pessoas, das quais 1.656 foram internadas. Os dados são de um painel elaborado pela equipe de vigilância epidemiológica em conjunto com a equipe de Tecnologia da Informação (TI) do hospital, que informa em tempo real o número de casos, por sexo e faixa etária, atendidos e internados no hospital e os principais desfechos (altas, óbitos), além de indicadores hospitalares, como tempo médio da internação e taxa de mortalidade.
O painel surgiu a partir de um projeto que buscava utilizar ciência de dados para subsidiar a gestão na tomada de decisões. “Quando veio a pandemia, a programadora Ana Rangel desenvolveu um sistema de informação para o monitoramento dos casos de covid-19 que chamamos de VisualizaCOVID, e é integrado ao prontuário eletrônico do hospital”, contou Henrique de Castro Rodrigues, chefe do Serviço de Epidemiologia e Avaliação (SEAV) do hospital. “Nós adaptamos ao covid-19 para que, durante a pandemia, tanto a direção médica quanto a direção geral do hospital tivessem informação útil em tempo real para controle da situação e tomada de decisão”, explicou Henrique. “Graças ao painel, os gestores do hospital tinham em tempo real informação útil e atualizada. É o que esperávamos que o Sistema Nacional de Vigilância Epidemiológica do SUS pudesse oferecer para a sociedade, caso houvesse investimentos para isso”, resumiu.
Para Henrique, a experiência foi fundamental, especialmente pela maneira como os dados dos pacientes foram automatizados dentro da unidade. A apresentação dos dados por meio do painel, para o especialista, é apenas a ponta visível de um complexo sistema integrado de dados. “A ferramenta principal é a integração dos dados dos pacientes dos sistemas do hospital com os dados do monitoramento dos casos realizado pela equipe de vigilância epidemiológica”, afirmou. “Algo que facilitou tanto a circulação interna de informação, quanto o envio de informações para outros órgãos do sistema público de saúde”, explicou Henrique. Ele ainda exaltou o trabalho da equipe de TI do hospital. “Foi um trabalho brilhante deles, feito com uma equipe com déficit importante de pessoal”.

WhatsApp Image 2022 01 14 at 17.19.54Reprodução da internetPesquisadores e estudantes realizaram uma manifestação em defesa do Arquivo Nacional, na terça-feira (11), nas escadarias da sede da instituição, no Centro do Rio. No apagar das luzes de 2021, duas servidoras que expressaram suas preocupações com a política de gestão de documentos e arquivos do governo federal foram exoneradas de seus postos: Dilma Cabral da Costa, supervisora de Memória da Administração Pública Brasileira, e Cláudia Lacombe Rocha, supervisora de Gestão de Documentos Digitais e Não Digitais. A dispensa foi assinada pelo diretor-geral da instituição, Ricardo Borda D’Água de Almeida Braga, nomeado em novembro pelo presidente Jair Bolsonaro.
O dirigente — ex-chefe de segurança do Banco do Brasil, atirador esportivo e agraciado com o título de “colaborador emérito” do Exército — é considerado um estranho ao setor. “Esse desmonte impacta diretamente os trabalhos realizados, interrompendo projetos e ações do Arquivo Nacional voltadas para a Administração Pública Federal”, observou a Associação dos Servidores do Arquivo Nacional, em boletim eletrônico do dia 5.
Professora aposentada do Instituto de História da UFRJ, Jessie Jane Vieira de Sousa também divulgou uma nota sobre a importância daquela instituição. “Não se trata da preservação de ‘papéis velhos’ que, segundo alguns, podem ser descartados ou, uma vez classificados, podem virar ‘documentos digitais’. Trata-se de salvar acervos, produzidos no nosso longo processo histórico e que compõem não só a sonhada ‘memória nacional’, mas que dizem respeito às múltiplas memórias que forjaram a sociedade brasileira”, diz um trecho da nota.
Ex-presa política e uma das coordenadoras do projeto Memórias Reveladas, sediado no Arquivo Nacional, a docente vai além: “Infelizmente, ainda existem parcelas da sociedade que se recusam a aceitar a existência de múltiplas memórias presentes na construção do que chamamos de nação, construída na base do cancelamento de todas aquelas vozes trancadas e ainda perdidas na extensa documentação que se encontra sob a guarda do Arquivo Nacional”.

WhatsApp Image 2022 01 07 at 21.03.15As recentes tempestades no sul da Bahia levaram dor e destruição para mais de 660 mil pessoas em 165 municípios da região. A chuva que caiu por 20 dias seguidos deixou 153 cidades em situação de emergência, mais de 32 mil desabrigados, 57.531 desalojados, 25 mortos e 517 feridos. A fúria dos temporais fez novamente os cientistas acenderem o alerta para a sociedade sobre o quanto a ação humana colabora para que eventos extremos como esse aconteçam. Outra discussão é sobre a necessidade de investimento em sistemas que consigam prever com antecedência catástrofes como essa.
“A grande destruição na Bahia aconteceu já nas primeiras 12 horas de intensa chuva. Houve um efeito combinado de muitas variáveis meteorológicas que se somaram à Zona de Convergência do Atlântico Sul. Uma situação bastante complexa de prever”, explica o professor Wallace Figueiredo Menezes, do Departamento de Meteorologia da UFRJ. “Esse sistema permaneceu sobre a região por muitos dias e manteve centenas de cidades submersas”.
Para ele, o evento não pode ser classificado — ainda — como um resultado das mudanças climáticas. “Aquela região se tornou um ponto de intercessão entre vários fatores meteorológicos. Esta é uma análise meteorológica, algo que a gente chama de análise sinótica. A gente identifica ‘ingredientes’ que ajudam a formar uma tempestade. E eles passaram a coexistir numa mesma região”, explica.
A tempestade que colocou o sul baiano submerso, segundo o docente, foi agravada por fatores meteorológicos que se formaram muito rapidamente. “Esse tipo de evento mostra a importância de termos centros regionais de previsão de tempo”, afirma. “Sobretudo em locais propensos a certos tipos de fenômenos, o ideal é ter centros focados neles, para especificar eventos ou configurações meteorológicas que possam impactar tão fortemente a vida das pessoas”.

AÇÃO HUMANA
A Ciência já comprovou que o principal agente causador do aquecimento global, na escala que temos observado, é o ser humano. “Na Amazônia, a gente tinha um evento extremo a cada 20 anos, uma grande cheia ou uma grande seca. Nos últimos dez anos, esses eventos passaram a acontecer anualmente”, compara o professor Fabio Scarano, titular do Instituto de Biologia e especialista em ecologia e clima. “Estamos passando pela sexta extinção em massa do nosso planeta, sendo que é a primeira vez que é causada por uma única espécie: a nossa”, destaca.
Scarano acredita que, embora seja difícil atribuir alguns eventos às emissões de gases do efeito estufa, há pistas que levam a crer que as chuvas do sul da Bahia e do Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais, tenham relação com o aquecimento global. “Uma das formas de medir essa relação é avaliar a frequência desses acontecimentos, mas essas áreas inundadas são comumente mais secas. Então, tenho, sim, a impressão de que parte disso se deve às mudanças climáticas”, pontua o especialista.
Para o professor, é preciso agir agora. “A Ciência já traçou cenários desoladores para o planeta, caso a média das temperaturas ultrapasse 2°C acima da média registrada antes da Revolução Industrial”, ele afirma. “Derretimento das geleiras, das calotas polares, aumento do nível do mar. Temos 60% da população brasileira vivendo à beira-mar e a até 50 quilômetros da região costeira. Cidades como o Rio vão ser submersas”.
O passo para estancar ou reduzir esses impactos, segundo o especialista, depende de cada um de nós. “Se continuarmos com o atual padrão de emissões, teremos um planeta, em 2050, 3°C mais quente. Temos que mudar os padrões de consumo e produção. Nosso problema passa a ser de tempo. A gente precisa mudar drasticamente de postura até 2030 para chegarmos bem a 2050”.
Em relação ao Brasil, uma dessas mudanças é zerar o desmatamento. “Essa ainda é a principal causa de emissão de CO2 no nosso país. Não há como falar em descarbonização sem acabar com o desmatamento”, reconhece o professor André Lucena, do Programa de Planejamento Energético da Coppe. Ele é um dos pesquisadores que fazem parte da elaboração do próximo relatório do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC).
“O Brasil se comprometeu a tornar nulos até 2050 os efeitos das emissões, mas continuamos no sentido contrário, sobretudo pelo desmatamento crescente”, reforça. “Temos a tarefa de buscar formas de descarbonizar o setor energético e também outras áreas”, completa.
O investimento em energias renováveis é uma saída para descarbonizar o setor elétrico. “É imprescindível a adoção desse tipo de energia. Mas é preciso ter consciência de que elas, sozinhas, não são suficientes para zerar as emissões”, pondera o especialista em energias renováveis e professor de Engenharia do Centro Multidisciplinar de Macaé, professor Diego Malagueta.
Estimular pesquisas que busquem baratear o uso de energias como a eólica e a solar é uma tarefa do Estado, segundo o professor. “Precisamos buscar novas tecnologias para tornar o uso de energias renováveis uma realidade que alcance a população de maneira geral”, defende.

Ar-condicionado, efeito estufa e desigualdade

O aquecimento global gera uma consequência pouco discutida: o uso crescente de aparelhos de ar-condicionado, bem normal e desejado na sociedade contemporânea. Acontece que essa dinâmica pode representar um ciclo vicioso: quanto maior o calor, mais aparelhos ligados. E mais aparelhos ligados demandam mais energia elétrica, o que leva à ampliação da oferta de matrizes energéticas complementares. Parte dessas matrizes, como as movidas a carvão e gás, produz os chamados gases do efeito estufa, que tornam o planeta mais quente e levam mais pessoas a precisarem de ar-condicionado, o que necessariamente aumenta a demanda energética e assim por diante.
É aí que entra a Ciência: para buscar soluções que quebrem essa retroalimentação entre aquecimento e aumento de emissões de CO2 (dióxido de carbono). “O aquecimento global é inequívoco. Já estamos com temperatura 1.2°C acima da registrada na época pré-industrial”, destaca o professor André Lucena, do Programa de Planejamento Energético da Coppe/UFRJ. Ele foi um dos autores de um estudo que traça cenários de impacto do aumento do uso do ar-condicionado em quatro países emergentes nos próximos 20 anos: Brasil, Índia, Indonésia e México.
O artigo Climate change and air-conditioning: a rising emergency for emissions and inequalities (Mudanças climáticas e ar-condicionado: uma emergência crescente para emissões e desigualdades) foi publicado na revista Nature Communications e coordenado pela professora Enrica De Cian, da Ca’ Foscari University of Venice. O estudo indica que haverá aumento do uso dos aparelhos nos quatro países analisados. “Quem já tem ar-condicionado vai ligá-lo mais frequentemente, e a tendência é que o gasto de energia seja maior para reduzir as temperaturas. Conforme aumenta a renda, o uso e a compra do aparelho vão sendo mais estimulados”, ele afirma.
A Índia, que tem a sua matriz energética baseada no carvão, poderá sofrer mais com as emissões de CO2, mas o Brasil também tende a ampliar a emissão de dióxido de carbono com a introdução do gás natural no sistema energético. “A gente consegue frear ou mitigar os efeitos sobre o clima com eficiência energética dos equipamentos. Mas é preciso caminhar no sentido da descarbonização do setor elétrico. Isso vai precisar acontecer. É uma medida urgente”, afirma.
O artigo também aborda impactos sociais e econômicos nos países analisados. “De 64 a 100 milhões de famílias com acesso à eletricidade não serão capazes de atender adequadamente sua demanda por conforto térmico. A necessidade de sustentar os gastos com eletricidade em resposta a temperaturas mais altas também pode criar oportunidades desiguais de adaptação”, destaca trecho do artigo. Para ler a íntegra, acesse: www.nature.com/articles/s41467-021-26592-2.
(Silvana Sá)

Topo