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WhatsApp Image 2022 08 08 at 19.22.26Professora Maria Paula - Foto: Silvana Sá/Arquivo AdUFRJA historiadora e professora titular da UFRJ, Maria Paula Nascimento Araújo, se dedica a pesquisar o que se passou no Brasil nos tempos da ditadura militar. Mas, quando se trata de 1977, a docente não é apenas uma pesquisadora. Ela integra a História. Em 1977, Maria Paula fazia movimento estudantil e era presidente do Centro Acadêmico da PUC, um dos endereços de maior combatividade e resistência ao regime na época.
Na entrevista abaixo, ela analisa a Carta de 1977 e a compara com a missiva de hoje, que já conquistou mais de 800 mil assinaturas contra os desmandos autoritários do presidente da República.

JORNAL DA ADUFRJ - Qual o contexto político em que nasce a Carta de 1977?
Maria Paula
- Do lado da ditadura, há uma crise severa. O Pacote de Abril fecha ainda mais o país e coloca em xeque a promessa de Geisel de fazer uma distensão lenta e gradual, uma redemocratização por cima, pelas elites, pelo poder. Do lado da resistência ao regime, há um duplo movimento. Primeiro, um reconhecimento de que a luta armada fracassara e que produzira muitas mortes. E. segundo, era preciso abrir um diálogo com setores democráticos, não necessariamente de esquerda, para retomar a normalidade democrática no país.

O fato de a Carta ter sido lida por um professor de Direito, defensor do Estado de Direito, sinalizava o nascimento de uma frente?
A carta não é inaugural. Ela resulta também de um processo histórico que começa perto de 1973, com a profunda crise da luta armada. Aos poucos, quase todos os setores de crítica ao regime sentem a necessidade de conversar. Vai se formando uma frente. Essa articulação incluía diálogo entre grupos de esquerda, partidos de oposição como o MDB, e setores da sociedade civil como OAB, ABI e UNE. Os estudantes, aliás, tiveram um papel decisivo nesse processo. Tanto em São Paulo, onde nasceu a Carta de 1977, quanto no Rio. Aqui, nessa época na PUC, conseguimos fazer assembleias com cinco mil pessoas.

E qual a diferença para o momento de hoje, quando novamente os defensores da democracia assinam uma nova Carta?
Os militares dos anos 1970 tinham um projeto nacional. Era autoritário, mas era um projeto de construção de país. E do outro lado, pela esquerda, também tinhamos uma perspectiva de destruição da ditadura, mas de construção de um novo país, com a ampliação das liberdades democráticas. Hoje é diferente, O governo não tem um projeto. Seu projeto é a destruição. E nós estamos lutando contra a destruição da democracia. É isso que nos une, a restruturação do tecido democrático, porque, sem esse tecido, sequer nossas diferenças podem existir.

WhatsApp Image 2022 08 08 at 19.22.26 1Professor Goffredo Telles Junior - Foto: FOLHAPRESS/FOLHAPRESS“Nos recusamos, de uma vez por todas, a aceitar a falsificação de conceitos. Para nós a ditadura se chama ditadura, e a democracia se chama democracia. Os governantes que dão o nome de democracia à ditadura nunca nos enganaram e não nos enganarão. Nós saberemos que eles estarão atirando, sobre os ombros do povo, um manto de irrisão”.
O parágrafo acima é de uma atualidade acachapante, mas data de 1977 e integra a Carta aos Brasileiros. Trata-se de um documento histórico que marcou o processo de redemocratização e ajudou a fragilizar a ditadura militar, àquela altura comandada pelo general Ernesto Geisel.
Lida em 8 de agosto de 1977 no pátio da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, a carta nasceu da indignação de juristas com os rumos da ditadura que, quatro meses antes, baixava o chamado Pacote de Abril, fechava o Congresso e restringia ainda mais as parcas liberdades civis.
Destemido, de paletó, camisa branca e abotoaduras, o orador chamou a tortura de tortura e defendeu a democracia. Era o professor Goffredo da Silva Telles Junior. Tinha 62 anos e, com a voz pausada e solene, num pequeno palco improvisado, saiu das Arcadas uspianas e entrou para História.
A Carta de 4.096 palavras provocou a ira dos militares. Documentos revelam que a repressão chegou a monitorar o docente depois do discurso. Ele não era um revolucionário. Muito pelo contrário. Chegou a apoiar o golpe de 64, mas aos poucos foi se decepcionando com a sanha dos militares em continuar no poder.
Quando veio o Pacote de Abril, restringindo a liberdade de expressão e criando os senadores biônicos, Goffredo e os colegas aproveitaram a efeméride do aniversário de 150 anos dos cursos jurídicos no Brasil para criticar o regime e acordar o país para a importância da retomada das liberdades democráticas.
Goffredo era muito respeitado. Idolatrado pelos estudantes — mesmo por aqueles que reprovava —, desfrutava da amizade de Villa-Lobos, Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Lasar Segall e Tarsila do Amaral. Dava aulas de Filosofia do Direito e Teoria Geral do Estado.
“O Direito não nasce das cabeças dos deputados, das cabeças dos senadores. O Direito é como o amor, nasce do coração dos homens”, dizia aos alunos que, muitas vezes, aplaudiam o mestre no final das aulas, no famoso Largo de São Francisco, no Centro de São Paulo.

WhatsApp Image 2022 07 30 at 15.07.58Isadora Camargo

“Historicamente, as universidades pouco ou nada se interessaram pela educação nas escolas”, disse o professor António Nóvoa, ex-reitor da Universidade de Lisboa, em conferência realizada no Colégio Brasileiro de Altos Estudos (CBAE) da UFRJ, na quarta-feira (27), sobre a formação de professores. O debate marcou a inauguração da Cátedra Anísio Teixeira do CBAE.
Nóvoa criticou o distanciamento das universidades públicas, em todo o mundo. “Nas últimas décadas, quando o produtivismo acadêmico tomou conta, nos voltamos por inteiro, quase obsessivamente, para a publicação científica”, disse. “Enquanto isso, reclamamos que os alunos não sabem nada, vieram mal preparados, não estão prontos para os nossos cursos. Um lamento inconsequente que não provoca qualquer mudança na relação entre a universidade e a educação básica”, completou.
Nóvoa, que é Doutor Honoris Causa da UFRJ, destacou a importância da nova cátedra para firmar o compromisso da universidade em outra direção. “Espero que, a partir dessa cátedra, seja possível iniciar, ou melhor, continuar um movimento de transformação na formação de professores no Brasil. As universidades públicas precisam assumir uma responsabilidade muito maior, e espero que a UFRJ, junto com outras universidades de referência, possa avançar esse movimento nacionalmente”, afirmou Nóvoa, que se tornou titular da cátedra.

ALIANÇAS ESTRATÉGICAS
Aprovada em edital no início deste ano, a Cátedra Anísio Teixeira contou com a assinatura de 15 programas de pós-graduação em educação e ensino da UFRJ. Anísio Spínola Teixeira (1900-1971) formou-se em Direito na UFRJ e fundou a Universidade do Distrito Federal (atual Uerj). Seu nome foi escolhido por sua atuação política e como educador na concepção de uma educação básica integral, pública e obrigatória no Brasil.
A proposta é, a partir da cátedra, promover um conjunto de ações, como seminários e eventos, e atuar na coordenação das redes de pesquisa, com a abertura de novas disciplinas. As iniciativas serão pensadas em conjunto com os programas de pós-graduação e com professores da rede pública, e ocorrerão ao longo deste segundo semestre de 2022.
Outro objetivo é articular os projetos da universidade com as redes nacionais e internacionais envolvidas na questão. “Essa cátedra tem uma importância muito grande, por ser capaz de realizar alianças estratégicas com outros programas, outras universidades que pensam a formação docente. Isso amplia o alcance de um programa tão relevante, que pode reverberar mudanças fundamentais para o ensino no futuro” saudou a professora Ana Célia Castro, docente do Instituto de Economia e diretora do CBAE.

EDUCAÇÃO DEMOCRÁTICA
A inauguração da cátedra também marcou o início de uma nova etapa para o Complexo de Formação de Professores (CFP), política institucional iniciada na UFRJ em 2016. No programa, a Faculdade de Educação e o Colégio de Aplicação trabalham de forma integrada, em articulação com escolas parceiras da rede pública, e atuam na formação inicial e continuada de docentes da educação básica. A nova cadeira assume o compromisso de abraçar as demandas do CFP.
“Afirmar a potência do CFP é afirmar a importância do papel da universidade pública na formação docente, o lugar da escola pública como espaço de educação dos futuros professores, a docência como profissão com saberes específicos, e a licenciatura como curso de identidade própria. Afirmar, ainda, a qualidade da educação laica e democrática, tornada pública para as novas gerações”, concluiu a professora Carmen Teresa Gabriel, da Faculdade de Educação e coordenadora do CFP.

Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo Largo São FranciscoFaculdade de Direito da USP: berço das cartas de 1977 e 2022 - reprodução: internetSempre.
É com esse advérbio de tempo, o mais belo de todos, que se encerra a “Carta às brasileiras e aos brasileiros em defesa do Estado Democrático de Direito”, que será a epígrafe dos atos em defesa da democracia no próximo dia 11 de agosto e que reunia, até o fechamento desta edição, 801.012 assinaturas. Passados 37 anos de nossa redemocratização, após 21 anos de ditadura — de 1964 a 1985 —, nunca foi tão necessário reafirmar esse “sempre”, diante das ameaças golpistas emanadas diariamente do governo de extrema-direita de Jair Bolsonaro.
Há 45 anos, a “Carta aos Brasileiros”, que inspirou o atual manifesto, também foi ungida sob tempos sombrios. Corria o ano de 1977 e o governo do general Ernesto Geisel, que prometera uma abertura política “lenta, gradual e segura”, baixou o Pacote de Abril, pleno de retrocessos: fechou o Congresso, alterou regras eleitorais e criou a figura do “senador biônico” (leia mais sobre a Carta de 1977 na página 5). Naquele agosto de 1977, a carta lida na Faculdade de Direito da USP terminava com outro advérbio de tempo, então tão necessário quanto premente, em defesa do Estado Democrático de Direito. Já!
A Carta de 1977 ajudou o país a retomar o caminho da democracia, hoje tão agredida. O capitão que vê seu sonho de reeleição cada vez mais distante flerta desde o início de seu desgoverno com o autoritarismo. Faz ataques constantes ao Supremo Tribunal Federal e ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Levanta suspeitas sem provas contra as urnas eletrônicas e diz que não aceitará o resultado das eleições — fez isso, inclusive, em uma tão patética quanto acintosa exposição a embaixadores em Brasília, em 18 de julho.
A Carta de 2022 pode ser interpretada como um grito em defesa da preservação do arcabouço institucional que sustenta, desde 1985, a democracia brasileira. Ela defende o sistema eleitoral: “Nossas eleições com o processo eletrônico de apuração têm servido de exemplo no mundo. Tivemos várias alternâncias de poder com respeito aos resultados das urnas e transição republicana de governo. As urnas eletrônicas revelaram-se seguras e confiáveis, assim como a Justiça Eleitoral”.
Sem citar nomes, a carta refuta os ataques bolsonaristas à democracia e os compara ao que ocorreu após a eleição de Joe Biden, nos Estados Unidos, na invasão ao Capitólio insuflada pelo derrotado nas urnas, o ex-presidente Donald Trump, em janeiro de 2021. “Ataques infundados e desacompanhados de provas questionam a lisura do processo eleitoral e o Estado Democrático de Direito tão duramente conquistado pela sociedade brasileira. São intoleráveis as ameaças aos demais poderes e setores da sociedade civil e a incitação à violência e à ruptura da ordem constitucional. Assistimos recentemente a desvarios autoritários que puseram em risco a secular democracia norte-americana. Lá as tentativas de desestabilizar a democracia e a confiança do povo na lisura das eleições não tiveram êxito, aqui também não terão”.
O primeiro esboço da carta nasceu a partir da iniciativa de um grupo de ex-alunos da Faculdade de Direito da USP, com a intenção de homenagear os 45 anos da “Carta aos Brasileiros” de 1977. O esboço tomou como base a defesa do sistema eleitoral e o respeito ao resultado das urnas, sem viés partidário.
O grupo levou o esboço da carta ao diretor da Faculdade de Direito da USP, Celso Campilongo. Ele, que viu com seus olhos de estudante de Direito da USP a leitura da Carta de 1977, abraçou a ideia e se prontificou a hospedar o documento no site da faculdade. O curioso é que Campilongo ponderou ao grupo que “seria bom ter umas 200, 300 assinaturas já na largada, para fazer volume”. Foi de uma humildade premonitória. Quando foi postada no site, em 26 de julho, a carta já tinha mais de 3 mil adesões.
Em menos de 24 horas de exposição, o texto já acumulava 100 mil assinaturas, reunindo desde banqueiros e empresários a artistas, juristas, professores, profissionais de diversas áreas, aposentados e estudantes. Estão lá ex-ministros do STF, como Celso de Mello, Joaquim Barbosa e Sepúlveda Pertence; banqueiros como Candido Bracher, Pedro Moreira Salles e Roberto Setúbal; empresários como Horácio Lafer Piva (Klabin), Walter Schalka (Suzano) e Pedro Passos (Natura); artistas como Chico Buarque, Fernanda Montenegro e Dira Paes.
Na mesma medida em que angariava adesões, o documento suscitava a ira de Bolsonaro. Em 28 de julho, dois dias após a divulgação do manifesto, o presidente sentiu o golpe e postou em seu perfil no Twitter: “Carta de manifesto em favor da democracia. Por meio desta, manifesto que sou a favor da democracia. Assinado: Jair Messias Bolsonaro, presidente da República Federativa do Brasil”. Com a crescente adesão da sociedade civil à carta e a mobilização de várias entidades para os atos de 11 de agosto, o capitão, como é de seu feitio, foi perdendo a linha.
Incomodado com outro manifesto, este reunindo entidades empresariais e da sociedade civil, organizado pelo presidente da Fiesp, Josué Gomes da Silva, Bolsonaro criticou a iniciativa em uma live, em 28 de julho. “Eu não entendi essa nota, que foi patrocinada pelo nosso querido filho do vice do ex-presidente Lula, seu Josué Gomes da Silva. É uma nota política em ano eleitoral”, disse.
Na última terça-feira (2), Bolsonaro voltou a atacar ministros do STF e do TSE. Na véspera, na volta dos trabalhos do STF após o recesso de julho, o presidente da Corte, Luiz Fux, reafirmara a confiança no sistema eleitoral brasileiro, qualificando-o como “um dos mais eficientes, confiáveis e modernos de todo o mundo”, e o capitão perdeu as estribeiras em entrevista à Rádio Guaíba. “Com todo respeito ao Fux, de vez em quando nós trocamos algumas palavras aqui, ele é chefe de Poder. Mas, no mínimo, para ser educado, (foi) equivocado. Ou fake news (a declaração). Que deveria estar o Fux respondendo processo no inquérito do Alexandre de Moraes, se fosse um inquérito sério. E não essa mentira, essa enganação, que são esses inquéritos do Alexandre de Moraes”.
Na mesma entrevista, Bolsonaro atacou o ministro Luís Roberto Barroso por ter se posicionado contra a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que instituía o voto impresso: “Interferência direta do Barroso dentro do Congresso Nacional para não aprovar o voto impresso. Interferência política, isso é crime previsto na Constituição. O Barroso é um criminoso”, disparou. Por fim, ele atacou os que assinam o manifesto da USP: “Esse pessoal que assina esse manifesto (é) cara de pau, sem caráter”.
O desespero com a possibilidade de perder a eleição e, mais que isso, de ser preso, como já externou a colaboradores, tem atormentado o capitão. Ele tem convocado seus apoiadores para as comemorações do Sete de Setembro, data em que, no ano passado, elevou ao mais alto grau as suas ameaças golpistas.
Nesse contexto, a nova carta aos brasileiros e os atos de 11 de agosto são como antídotos. Em seu trecho final, diz a carta: “No Brasil atual não há mais espaço para retrocessos autoritários. Ditadura e tortura pertencem ao passado. A solução dos imensos desafios da sociedade brasileira passa necessariamente pelo respeito ao resultado das eleições. Em vigília cívica contra as tentativas de rupturas, bradamos de forma uníssona: Estado Democrático de Direito Sempre!”.
Não custa repetir o mais belo de todos os advérbios de tempo.
Sempre.

Carta às brasileiras e aos brasileiros em
defesa do Estado Democrático de Direito

Em agosto de 1977, em meio às comemorações do sesquicentenário de fundação dos cursos jurídicos no País, o professor Goffredo da Silva Telles Junior, mestre de todos nós, no território livre do Largo de São Francisco, leu a Carta aos Brasileiros, na qual denunciava a ilegitimidade do então governo militar e o estado de exceção em que vivíamos. Conclamava, também, o restabelecimento do Estado de Direito e a convocação de uma Assembleia Nacional Constituinte.

A semente plantada rendeu frutos. O Brasil superou a ditadura militar. A Assembleia Nacional Constituinte resgatou a legitimidade de nossas instituições, restabelecendo o Estado Democrático de Direito com a prevalência do respeito aos direitos fundamentais.

Temos os Poderes da República, o Executivo, o Legislativo e o Judiciário, todos independentes, autônomos e com o compromisso de respeitar e zelar pela observância do pacto maior, a Constituição Federal.

Sob o manto da Constituição Federal de 1988, prestes a completar seu 34º aniversário, passamos por eleições livres e periódicas, nas quais o debate político sobre os projetos para o país sempre foi democrático, cabendo a decisão final à soberania popular.

A lição de Goffredo está estampada em nossa Constituição: “ Todo o poder emana do povo, que o exerce por meio de seus representantes eleitos ou diretamente, nos termos desta Constituição ”.

Nossas eleições, com o processo eletrônico de apuração, têm servido de exemplo no mundo. Tivemos várias alternâncias de poder com respeito aos resultados das urnas e transição republicana de governo. As urnas eletrônicas revelaram-se seguras e confiáveis, assim como a Justiça Eleitoral.

Nossa democracia cresceu e amadureceu, mas muito ainda há de ser feito. Vivemos em um país de profundas desigualdades sociais, com carências em serviços públicos essenciais, como saúde, educação, habitação e segurança pública. Temos muito a caminhar no desenvolvimento das nossas potencialidades econômicas de forma sustentável. O Estado apresenta-se ineficiente diante dos seus inúmeros desafios. Pleitos por maior respeito e igualdade de condições em matéria de raça, gênero e orientação sexual ainda estão longe de serem atendidos com a devida plenitude.

Nos próximos dias, em meio a estes desafios, teremos o início da campanha eleitoral para a renovação dos mandatos dos legislativos e executivos estaduais e federais. Neste momento, deveríamos ter o ápice da democracia com a disputa entre os vários projetos políticos visando a convencer o eleitorado da melhor proposta para os rumos do país nos próximos anos.

Ao invés de uma festa cívica, estamos passando por momento de imenso perigo para a normalidade democrática, risco às instituições da República e insinuações de desacato ao resultado das eleições.

Ataques infundados e desacompanhados de provas questionam a lisura do processo eleitoral e o Estado Democrático de Direito tão duramente conquistado pela sociedade brasileira. São intoleráveis as ameaças aos demais poderes e setores da sociedade civil e a incitação à violência e à ruptura da ordem constitucional.

Assistimos, recentemente, a desvarios autoritários que puseram em risco a secular democracia norte-americana. Lá, as tentativas de desestabilizar a democracia e a confiança do povo na lisura das eleições não tiveram êxito, aqui também não terão.

Nossa consciência cívica é muito maior do que imaginam os adversários da democracia. Sabemos deixar de lado divergências menores em prol de algo muito maior, a defesa da ordem democrática.

Imbuídos do espírito cívico que lastreou a Carta aos Brasileiros de 1977 e reunidos no mesmo território livre do Largo de São Francisco, independentemente da preferência eleitoral ou partidária de cada um, clamamos às brasileiras e aos brasileiros a ficarem alertas na defesa da democracia e do respeito ao resultado das eleições.

No Brasil atual não há mais espaço para retrocessos autoritários. Ditadura e tortura pertencem ao passado. A solução dos imensos desafios da sociedade brasileira passa, necessariamente, pelo respeito ao resultado das eleições.

Em vigília cívica contra as tentativas de rupturas, bradamos de forma uníssona:
Estado Democrático de Direito Sempre!

 

WhatsApp Image 2022 07 30 at 14.31.28Diretoria da AdUFRJ

Não foi à toa que Dante reservou aos hipócritas a sexta cova do oitavo círculo, nas profundezas do Inferno. Nosso jornal publicou uma capa criticando a postura do Andes no 65º Conad e recebemos muitas manifestações de crítica e de apoio. Mas a maioria dos textos críticos se ateve à capa e à manchete do jornal, sem entrar na substância da reportagem. A hipocrisia contida nessas críticas é flagrante, como veremos a seguir.
A reportagem corretamente informa que “o debate sobre o apoio a Lula nas eleições ocupou 25 minutos dos três dias de Conad, e só aconteceu nas horas finais do encontro, no começo da noite de domingo”. O texto deixa clara a posição do Andes quando reproduz a fala da secretária-geral da entidade ao invocar a “autonomia do sindicato”. Nós reafirmamos a substância da reportagem, que não contém nenhum equívoco, e ressaltamos que a manchete é uma interpretação do que ocorreu no Conad, uma consequência lógica de um não posicionamento, uma postura neutra do nosso sindicato nacional, em um momento de extrema gravidade em nosso país. Ao invés da construção da unidade, o Andes optou pela isenção. O desmentido que o Andes poderia oferecer seria claro: a AdUFRJ mente porque estamos realmente apoiando a chapa Lula-Alckmin!
Em nossa reportagem da página 3, lembramos outros momentos cruciais em que o Andes abriu mão de se posicionar. Como nas eleições de 2018, quando também se omitiu no apoio ao candidato que poderia derrotar Bolsonaro — Fernando Haddad, do PT — e se limitou a endossar a campanha “Ele não”. Ou no episódio do impeachment da presidenta Dilma Rousseff, em que mais uma vez preferiu se ocultar sob o genérico lema de “Fora todos”. Ficar na contramão da história, mais uma vez, não chega a ser surpresa.
Nós sempre fomos contra a ingerência de partidos no sindicato, como muitas vezes aconteceu na AdUFRJ no passado. Sabemos que apoiar um determinado candidato é uma escolha complicada e delicada. No entanto, para esta diretoria da AdUFRJ, apoiar a candidatura Lula no primeiro turno não significa de modo nenhum ser pelego ou adesista. No nosso programa para a eleição da diretoria, em 2021, dissemos que iríamos apoiar o candidato do campo democrático com mais viabilidade eleitoral para derrotar Jair Bolsonaro. Isso porque avaliamos que naquele momento (e ainda mais hoje) a missão fundamental de todo o campo democrático é se livrar do Inominável e da sua turma. Isso visto pelos princípios que norteiam o sindicato: defesa da educação pública e gratuita, do Estado Democrático de Direito, da Ciência etc. Estamos cumprindo uma promessa eleitoral. Se fosse o Ciro Gomes ou a Simone Tebet que tivessem condições de bater o Inominável, nós defenderíamos o apoio a eles também.
Sobre a capa, reivindicamos a mobilização de um ícone popular, que, até então, se orgulhava de uma postura política neutra no referido pleito. Porém, conforme a escalada autoritária foi se acelerando, ela mudou de posição e — assumindo o risco de se prejudicar profissionalmente — tomou um lado. Nosso objetivo é elogiar a coragem dessa mulher, representando sua imagem tal qual ela a apresenta.
E onde está a hipocrisia? No texto “Antissindicalismo e falácias”, um dos que publicamos nesta edição, um conjunto de docentes nos acusa, dentre outras coisas, de “prática antissindical e antidemocrática”. Mas quem será que realmente merece essas acusações? A chapa perdedora das eleições para a AdUFRJ em 2021 entrou na Justiça pedindo a anulação do pleito, a não divulgação dos resultados e uma auditoria no sistema de votação online, alegando uma suposta “violação das urnas”. Mas todos sabem que não houve fraude alguma, que a nossa chapa ganhou com 50% de votos a mais do que a chapa perdedora, resultado muito semelhante aos das três últimas eleições. Não há sequer suspeita de voto fraudado. O que houve é que, por um erro involuntário de um funcionário da AdUFRJ, no decorrer da eleição, o sistema poderia exibir temporariamente os resultados parciais. A chapa perdedora aproveitou-se desse erro e ela mesma consultou os resultados parciais! Vejam só, eles obtiveram os resultados parciais e em seguida entraram na Justiça contestando a eleição! A ação ainda está para ser julgada e infelizmente a possibilidade de um juiz bolsonarista decidir intervir no sindicato não pode ser descartada.
Cabe a pergunta: que grupo político contesta os resultados de uma eleição legítima? Que grupo político arrisca a intervenção no sindicato, a paralisia de um dos maiores sindicatos de professores do Brasil num momento crucial de nossa história? Não seria um grupo com práticas antissindicais e antidemocráticas?
Nesta edição, publicamos manifestações favoráveis e contrárias à nossa posição, com uma postura republicana diante do contraditório e como rege o bom jornalismo, algo que nem sempre prevaleceu em nossos jornais em gestões passadas. Reiteramos que o debate central é a construção da unidade em torno da candidatura Lula para derrotar o Inominável e o fascismo. Sem diversionismos!

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