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WhatsApp Image 2021 07 16 at 21.48.20A adaptação ao trabalho e ao ensino remotos é, sem dúvidas, um dos pontos de tensão e estresse durante a pandemia. Para pessoas que dividem seu dia a dia entre as atividades universitárias e os cuidados com filhos pequenos, pais idosos ou pessoas com deficiência, o home office se tornou um desafio e até fator de adoecimento. Mas na UFRJ, pelo menos, essas preocupações – geradas pelo conflito entre estar disponível para produzir conhecimento e ter o tempo necessário para cuidar de outros seres humanos – levaram a mais uma importante conquista.
Na semana passada, o Conselho Universitário aprovou uma resolução que permite a flexibilização das atividades para pessoas cuidadoras, durante a pandemia. A medida alcança toda a comunidade acadêmica – docentes, técnicos e estudantes da graduação e pós-graduação –, não altera as cargas horárias de trabalho ou estudo, mas normatiza acordos entre as partes, para que as pessoas cuidadoras possam exercer toda a rotina de tarefas. A resolução, proposta pelo Grupo de Trabalho em Parentalidade e Equidade de Gênero, não é vinculante, ou seja, seu cumprimento não é obrigatório, mas amplia a discussão sobre igualdade de direitos para cuidadoras, sobretudo no contexto da pandemia, dentro da UFRJ.
O docente que exerce o papel de cuidador poderá requisitar a flexibilização do horário de ofertas de disciplinas, síncronas e assíncronas, e de atividades de extensão, sem que haja prejuízo da carga horária. O texto também recomenda que o cuidador compartilhe suas disciplinas com outro professor, de modo que ele não seja o único responsável pela oferta e condução do curso. No caso dos técnicos, a carga horária de trabalho pode ser flexibilizada, e a recomendação é que nenhum cuidador seja o único responsável por um setor. Para os discentes, há a possibilidade de fazer suas atividades de maneira assíncrona e o trancamento de disciplinas em prazos especiais.
A resolução caracteriza como cuidador alguém responsável por uma ou mais crianças de até 12 anos, por pessoas com deficiência que necessitem de cuidados especiais ou por idosos que precisem de cuidados por limitações físicas ou mentais. A condição de cuidador é expressa através de uma autodeclaração. Toda pactuação deve ser feita com um acordo mútuo. Caso a outra parte não aceite o acordo, o cuidador poderá recorrer à instância superior.
“A resolução não é normativa, ela recomenda. Não é uma obrigação, a chefia pode negar o pedido. Mas da mesma forma que a resolução prevê a negativa, ela prevê o recurso”, explicou a professora Gizele Martins, coordenadora do GT. O texto final aprovado pelo Consuni foi baseado em uma proposta, apreciada pelo Conselho de Ensino de Graduação em janeiro, que tratava apenas dos docentes. O CEG recomendou que o grupo fizesse uma proposição para as demais categorias e a encaminhasse para o Consuni. “Tentamos de todas as formas nos resguardar e dialogar com todas as instâncias possíveis, para que não houvesse nenhum entrave. Isso ajudou a acelerar o processo”, contou Gizele. “A resolução oficializa o que muitas pessoas conseguiram fazer de forma oficiosa, contando com a boa vontade de todas as partes envolvidas”, explicou.
Antes da resolução ser votada, o grupo divulgou na comunidade acadêmica um guia de boas práticas de apoio à parentalidade e às pessoas cuidadoras. O objetivo era alertar para as dificuldades de quem se divide entre o trabalho e a função de cuidador. Segundo Gizele, a resolução foi aprovada com os mesmos termos do manual. Agora a tarefa do GT é divulgar a resolução e as possibilidades que ela oferece. “É importante que a resolução seja posta em prática. Ela precisa estar amplamente divulgada, para que as pessoas possam tentar exercer o seu direito”, defendeu a coordenadora do grupo.
Para a presidente da AdUFRJ, professora Eleonora Ziller, o documento é um grande chamado para a solidariedade com as pessoas cuidadoras. “Existir uma resolução do Consuni sobre o assunto é fundamental, porque ela dá institucionalidade a uma coisa que estava muito no campo pessoal”, avaliou. Para a docente, o momento é de construção de redes de apoio e valorização do trabalho dos cuidadores. “Continuamos no campo da solidariedade. O problema não é só a vontade de cada um. É preciso construir, dentro dos departamentos, esse grau de solidariedade, de troca”, afirmou.
O GT Parentalidade e Equidade de Gênero agora trabalha em outras três frentes. Uma nota técnica sobre licença parental para casais homoafetivos, uma sugestão de algo equivalente a uma licença-maternidade para alunas em puerpério e apresentar à Comissão Permanente de Pessoal Docente e à Pró-Reitoria de Pessoal propostas que tratem da progressão de carreira, período probatório e avaliação de desempenho, no período da pandemia. “Vamos fazer dois anos de pandemia, os processos de avaliação dos servidores já vão acontecer”, explicou Gizele. O GT preferiu não dar mais detalhes da proposta antes de reunir-se com a CPPD e com a PR-4.

bandeira adufrjDiretoria da AdUFRJ

Esta foi a semana de realização do segundo Festival do Conhecimento da UFRJ. Idealizado em tempos de regressão e ataque à cultura, à universidade, aos fundamentos da Ciência e ao Estado Democrático de Direito, ele expõe a potência criativa e a enorme massa crítica em atividade hoje na UFRJ. Uma resposta institucional importante, da qual todos nós fazemos parte. Importante também para que possamos nos ver mais inteiros, menos repartidos em nossos feudos acadêmicos e administrativos. Ainda mais agora, que nos assombram velhas polêmicas e decisões que nos dividem. Essa é a matéria sobre a qual se constrói esta edição do jornal. Enquanto agentes do Ministério Público tentam mais uma vez aparelhar o Judiciário para vilipendiar o princípio constitucional da autonomia universitária, tentando impor, de forma arbitrária e irresponsável, uma data de retorno ao ensino presencial, somos obrigados a reabrir o debate sobre a contratação da Ebserh, que mobilizou fortemente a comunidade universitária entre 2012 e 2013.
Nesse emaranhado de problemas e divisões que enfrentamos, nos vermos não só em pleno vigor em centenas de atividades, mas também em franco processo de transformação das tradições patriarcais nas nossas relações de trabalho é bastante animador. É o que representa a aprovação da resolução proposta pelo GT em Parentalidade e Equidade de Gênero.
Temos dado mostras valiosas de responsabilidade social desde o início da pandemia, consolidando grupos de trabalho que reúnem nossos melhores especialistas para elaborar protocolos e parâmetros consistentes para o desenvolvimento de nossas atividades, garantindo ao mesmo tempo segurança sanitária e cumprimento de nossos deveres. A seriedade com que a universidade e as suas entidades representativas vêm tratando o tema, tendo em seus GTs a participação ativa e decisiva de representantes de todos os segmentos, contrasta com a devastadora ação do governo federal.
Assistimos às revelações da CPI da Covid a cada semana, evidenciando que a irresponsabilidade e inoperância ministerial ocultavam também um gigantesco e desumano esquema de corrupção em que aventureiros de todos os matizes se lançavam com avidez. Provocações e ameaças de militares no poder, impropérios da presidência da República, tentativas de intimidação e toda a sorte de mau-caratismo que encontrou morada no seio da família Bolsonaro formaram o quadro de horror no qual se transformou a política brasileira.
Por tudo isso, pelo que somos e pelo que queremos ser, é preciso retomar as rédeas de nosso destino nacional. É por isso que de novo fechamos nossa edição com a convocação para mais um ato nas ruas, dia 24 de julho. Temos participado de várias reuniões e fóruns organizativos. Nem sempre é fácil, mas é mais do que necessário. Só a força de uma poderosa unidade popular e democrática, ampla e irrestrita, poderá fazer frente à essa máquina de morte e destruição que tomou conta do país. Isso não é retórica, não são palavras de ordem a serem gritadas ao vento. Trata-se da vida mesma, a ser defendida sem concessões.

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Não tem mais volta. Os protestos de rua que tomaram o país em 3 de julho mostraram que os verdadeiros brasileiros de bem estão dispostos a gritar “Fora, Bolsonaro” até que o pior presidente da história do Brasil saia do poder, seja por um processo de impeachment, seja pelo voto, nas eleições do ano que vem. Os atos vêm ganhando força mês a mês, e não só nas grandes capitais, mas também em cidades de médio e pequeno portes de todas as regiões. E o próximo encontro nas ruas em defesa da democracia, da vida e da ética já está marcado: 24 de julho.

“É um movimento crescente, assim como nossa indignação. E há um componente muito interessante. Os atos de 29 de maio e 19 de junho, como não poderia deixar de WhatsApp Image 2021 07 09 at 21.57.404ser, tinham um tom de tristeza pelas mortes da covid-19. E esse ato de 3 de julho mostrou que essa tristeza continua, mas ela já vem acompanhada por uma afirmação mais visível de esperança, de luta, de acreditar que é possível mudar o país, sobretudo pela força da juventude, com seus batuques, sua criatividade. Isso é muito importante”, avalia a presidente da AdUFRJ, professora Eleonora Ziller. Ao lado de outros diretores e de associados da AdUFRJ, Eleonora marcou presença no ato do Rio, cujas fotos ilustram essa página, e que mais uma vez partiu do simbólico Monumento a Zumbi dos Palmares, no Centro.

Presente ao ato da Avenida Paulista, na capital paulistana, o cientista político Josué Medeiros, diretor da AdUFRJ, observa que as ruas têm papel fundamental na derrubada do governo Bolsonaro, responsável por ações e omissões no combate à pandemia de covid-19 que já levaram a vida de mais de 530 mil pessoas. Mas enxerga outros indícios de enfraquecimento do presidente. “Acho que a indignação vem crescendo e isso pode ser comprovado de diversas formas. Pelas pesquisas de opinião mostrando a reprovação do governo Bolsonaro, que bate recorde atrás de recorde. Por setores do Congresso que começam a aderir ao impeachment, como o Partido Novo, recentemente. E pelo termômetro das ruas, que é um indicativo importante”, diz Josué.

Além da CPI do Senado, que vem recolhendo indícios de corrupção do governo no enfrentamento à pandemia, as duas mais recentes pesquisas de opinião, ambas do Instituto Datafolha e divulgadas esta semana, mostram a desidratação da imagem presidencial. Na quinta-feira (8), a primeira delas revelou que a reprovação ao governo chegou a 51%, a pior marca registrada desde o início do mandato, em janeiro de 2019. Na pesquisa anterior, de maio, esse índice era de 45%.

Já nesta sexta-feira (9), o Datafolha divulgou mais uma pesquisa de intenção de voto para presidente em 2022. Nela, Lula (PT) ampliou sua vantagem sobre Bolsonaro. NaWhatsApp Image 2021 07 09 at 21.57.411 simulação de primeiro turno, Lula fica à frente de Bolsonaro por 46% a 25%, na pesquisa estimulada, e por 26% a 19%, na espontânea. No segundo turno, Lula bateria Bolsonaro por 58% contra 31%. Na pesquisa anterior, tinha 55% contra 32%.

No último dia 8, data desta entrevista, a primeira reitora da UFRJ completou exatos dois anos de mandato. No dia 8 de julho de 2019, num lotado auditório do Centro de Tecnologia, quase mil pessoas acompanharam a cerimônia de posse da professora Denise Pires de Carvalho. Eleita com o slogan “A UFRJ vai ser diferente”, a equipe da reitoria foi obrigada a fazer uma gestão completamente diferente do que imaginava.

Dos 24 meses de trabalho, 16 ocorreram em plena pandemia de covid-19. “Queríamos uma UFRJ diferente, mas não imaginávamos que ela seria remota. Não era isso o que queríamos”, afirma a professora. Confira, a seguir, o balanço que a reitora faz sobre a primeira metade de sua gestão, o que conseguiu realizar, o que prometeu, mas ainda não conseguiu cumprir e os planos para o futuro, incluindo temas polêmicos como a Ebserh.

ENTREVISTA I DENISE PIRES DE CARVALHO, REITORA DA UFRJ

Jornal da Adufrj – O que a reitoria prometeu e não cumpriu?
WhatsApp Image 2021 07 09 at 21.57.40Denise Pires de Carvalho – Estava olhando a nossa carta-programa e, de tudo o que a gente pensou em fazer, o item número um da plataforma era criar unidades psicopedagógicas em todos os Centros. Acabamos criando esses espaços virtuais. Nós queríamos uma UFRJ diferente, mas não imaginávamos que ela seria remota. Não era isso o que queríamos. Também não houve avanço na questão da infraestrutura de salas de aula. Nesses dois anos eu queria ter encaminhado projetos que fortalecessem o Fórum Ambiental. Eu queria muito caminhar para o carbono neutro e não consegui. Outra questão é o Conselho de Administração ligado à PR-4. Há muito o que modernizar na gestão de pessoas. Nosso plano de desenvolvimento de pessoas é muito tímido.
 
Quais suas maiores conquistas à frente da reitoria?
A maior conquista foi a UFRJ ter um Plano de Desenvolvimento Institucional finalmente à sua altura. Em segundo lugar, termos um planejamento de futuro. Éramos a única universidade federal que não tinha um plano aprovado. Melhoramos a estrutura de trabalho da CPST. A equipe foi modificada e queremos realmente fortalecer a política de saúde do trabalhador. Fizemos o preenchimento correto do censo do Inep, que é importantíssimo porque compara as universidades de todo o país. A UFRJ vinha sendo subdimensionada. Criamos o GT Parentalidade e Equidade de Gênero. Essa semana estamos formando um novo grupo de combate às violências e defesa dos direitos humanos. Criamos resolução de combate a fraudes nas cotas, fortalecemos a comissão de heteroidentificação. Nesse momento, eu diria que estou muito satisfeita com o que fizemos até aqui, mas muito foi impedido principalmente pela pandemia.

Quais as maiores dificuldades e desafios agora?
Temos vários, mas o principal deles é o administrativo. Academicamente, a UFRJ é um orgulho. Temos excelência em todas as áreas. Eu estou livre para pensar, projetar e encontrar pesquisadores em todas as áreas. Mas sob o ponto de vista administrativo, temos que avançar muito. Precisamos ter mais inteligência para busca de dados, o Conecta é um pequeno avanço, é preciso mais.

Como avalia esses dois anos de gestão?
Tivemos muito trabalho e muito avanço. Não tenho dúvidas de que a UFRJ avançou em muitas coisas que estavam paradas há uma década. A UFRJ é excelente, mas faltava esse olhar mais organizativo da estrutura institucional. Avançamos com o que pudemos avançar. Já está aprovada a Política de Inovação da UFRJ, aprovamos hoje a criação do Centro Multidisciplinar de Macaé, o que institucionaliza o campus e o adequa ao nosso Estatuto. Era algo que a comunidade acadêmica aguardava há 13 anos. Estamos desenvolvendo meios para facilitar buscas de fomento em agências nacionais e internacionais. Um passo para isso é o Conecta UFRJ, que em breve vamos lançar. É uma espécie de portfólio de toda a produção em cada uma das áreas.

Cerca de seis meses depois de ter tomado posse, a pandemia caiu no seu colo. Quais as lições dessa fase?
O que eu aprendi é que a gente pode reunir esforços internamente para atender às demandas da sociedade de forma articulada. E isso fez com que a UFRJ despontasse como protagonista na realização dos testes moleculares, na produção de álcool e na busca por soluções de enfrentamento da pandemia. Essa é a ideia sempre: reunir especialistas que pensam e elaboram projetos e políticas dentro de suas áreas de conhecimento e que impactem a sociedade.

Ser a primeira reitora da UFRJ foi um desafio a mais ou deu mais visibilidade às demandas da universidade?
Sem dúvida, a UFRJ ter uma mulher como reitora pela primeira vez projetou a universidade. Fui muito procurada, muito entrevistada e por isso a UFRJ também foi mais vista. Pelo lado bom e pelo lado ruim, já que só agora foi eleita, tardiamente, uma mulher na universidade mais antiga do país. Mas há também algumas barreiras. Os reitores do sexo masculino são mais respeitados de forma geral. O machismo é estrutural. Muitas vezes procuram o Fred (Carlos Frederico Leão Rocha, vice-reitor) e não a mim e isso é um ato de machismo. Eu ouvi outro dia de uma reitora que quando o assunto é muito complicado, ela manda o vice porque ele é mais respeitado. Eu não faço isso. Não deixo de encarar os desafios, não me intimido. Eu sou mulher e vão ter que me engolir, sim.

O que acha do recente debate iniciado na Medicina sobre a Ebserh? No contexto deste governo, que vem cortando recursos e privatizando grandes estatais, é uma boa ideia firmar parceria com uma empresa estatal?
Essa movimentação é do Centro de Ciências da Saúde que aprovou por ampla maioria que a reitoria volte a discutir a possibilidade da Ebserh. Isto foi em novembro do ano passado. Até agora não foi dada sequência porque quero entender melhor como estão hoje os hospitais ligados à empresa. A Ebserh é a quarta maior estatal do país, é uma empresa de capital exclusivamente público e tem uma legislação específica para contratação. Inclusive é a única que tem conseguido realizar concursos, o que demonstra sua força política. Todos os diretores das nove unidades hospitalares querem que a reitoria discuta. O Complexo Hospitalar vai elaborar um relatório sobre o assunto, que será apresentado ao Consuni e o colegiado vai discutir e deliberar. Qualquer que seja o contrato, precisa haver uma cláusula de rescisão. Inclusive, aproveito o espaço para desmentir uma fake news, de que um contrato já estaria sendo gestado. Não há contrato algum. Eu jamais assinaria algo que não passasse pelas instâncias da universidade, sem conhecimento da Procuradoria ou dos gestores dos nossos hospitais.

A UFRJ voltará às aulas presenciais ainda este ano ou em 2022?
O primeiro semestre de 2022 começa em abril do ano que vem. Espero que em abril já possamos voltar completamente ao presencial, mas vai depender das novas variantes e dos rumos da pandemia. Não dá para prever isso.

O MEC entrou em contato para oferecer recursos para equipamentos de proteção individual? Quanto ofereceram? Chegaram a fechar um acordo?
Sim, essa semana enviamos a proposta. São cerca de R$ 40 milhões para EPI. O MEC pediu para encaminharmos uma proposta, nós encaminhamos uma maior, então eles pediram para reduzir para cerca de R$ 40 milhões. Readequamos o pedido e reenviamos. Estamos aguardando a resposta, que deve acontecer na próxima semana.

Do ponto de vista pessoal, o que mais a orgulha e marca enquanto reitora?
Pessoalmente, o que me marcou foi ter sido selecionada para diversos cargos internacionais. Entre eles, ser representante da América Latina no comitê da Talloires (Steering Committee do Talloires Network of Engaged Universities). Eu não imaginava que a UFRJ tivesse tanto peso internacional. Participei do Fórum de Hamburgo há um mês, a convite. É uma honra participar de tantos espaços internacionais, mas também uma responsabilidade. A UFRJ estava apequenada. Projetar a universidade deve ser uma das missões da reitoria. Nós passamos, mas as instituições ficam.

O dia 8 de julho é o Dia Nacional da Ciência e do Pesquisador. A data foi escolhida para homenagear a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) em sua data de fundação. Em 2021, a celebração do dia ganha uma importância ainda maior, já que a Ciência e a pesquisa no país são vítimas de constantes ataques do governo Bolsonaro. No mês passado, o cientista político e professor de Filosofia Renato Janine Ribeiro foi eleito para a presidência da SBPC. Nesta entrevista exclusiva ao Jornal da AdUFRJ, o professor defendeu que é preciso “o leque mais amplo de alianças que deem importância à Ciência e à Educação, mas também à Cultura, à Saúde e ao Meio Ambiente”.

O paulista Renato Janine Ribeiro é professor titular de Ética e Filosofia Política da FFLCH-USP e foi ministro da Educação no governo Dilma Rousseff (2015). Na entrevista, o presidente eleito — que toma posse no próximo dia 23 — defendeu o papel histórico da SBPC na defesa dos direitos humanos, fez um balanço da gestão da Educação do governo Bolsonaro e falou dos principais direcionamentos que deverão balizar sua gestão à frente da SBPC.

ENTREVISTA I RENATO JANINE RIBEIRO

  • Jornal da AdUFRJ — Qual é a importância de celebrar o Dia Nacional da Ciência e do Pesquisador em um contexto de ataques tão fortes à Ciência?
    WhatsApp Image 2021 07 09 at 21.57.402Renato Janine Ribeiro — Estamos em uma situação muito difícil. Há toda uma campanha contra a Ciência. Há um descaso com a Ciência por parte do próprio governo, com afirmações às vezes sem base científica nenhuma, falta de uso de máscara, as aglomerações que o presidente promove. Como pode haver alguém que seja contra a Ciência? Podem existir polêmicas e divergências dentro das ciências, mas ser contra é outra história. Por que não estamos na catástrofe de 1920? Naquela pandemia, morreram entre 50 e 100 milhões de pessoas, em um mundo que tinha 25% da população atual. Morreram de 3 a 5% das pessoas que viviam na época, 5% dos mortos de 1920 equivaleriam a 400 milhões de mortos hoje. Nós tivemos até agora 4 milhões de mortes. Um número deplorável, mas inferior ao que foi em 1920. E por que tivemos tão menos mortos? Em boa parte, graças ao avanço científico e tecnológico e à internet. Um avanço científico gigantesco, que permitiu o desenvolvimento dessas vacinas. Termos conseguido uma dúzia de vacinas, no espaço de 12 meses, é uma coisa totalmente sem precedentes. Ninguém poderia imaginar termos vacinas tão rápido para uma doença desse porte. São grandes ganhos. É fantástico. É muito espantoso haver uma resistência à Ciência.

Quais foram as estratégias de retórica usadas pela extrema direita para associar a Ciência à esquerda e desacreditá-la?
A Ciência, 30 anos atrás, estava vinculada à bomba atômica. Foi o que ela fez de mais importante nos anos 1940 e 1950. A Ciência estava ligada à guerra. Hoje, ao falar de Ciência, se fala de meio ambiente. Mudou completamente o vínculo da Ciência, pelo menos o vínculo público. Tínhamos uma Ciência ligada ao Pentágono e às forças armadas soviéticas. O avanço da Ciência, até os anos 1980, estava estritamente ligada com o meio militar. E hoje, quando você ouve um cientista se manifestando, ou é sobre a covid-19, ou é sobre o meio ambiente. O físico Paulo Artaxo, por exemplo, que foi eleito para a vice-presidência da SBPC, fala muito sobre meio ambiente. A Ciência ficou muito vinculada com causas éticas. Se há 60 anos a Ciência estava vinculada à guerra, hoje ela está ligada à paz. Essa é uma mudança grande. A SBPC, desde praticamente a sua fundação, assumiu todas as causas éticas no Brasil. A luta contra ditadura, a luta pelo impeachment de Collor. A SBPC é uma sociedade voltada para a promoção das ciências vinculadas com causas éticas.
 
Os ataques à Ciência estão mais evidentes com a pandemia, mas as ciências humanas são alvo desses ataques há mais tempo. Essa vinculação das ciências humanas aos direitos humanos facilitou esse discurso anticiência?
Facilitou, claro. As ciências humanas inevitavelmente vão lidar com o fenômeno da desigualdade social. E quando você lida com a desigualdade social, você se defronta com questões da miséria, uma coisa profundamente injusta, e com a desigualdade de oportunidades. Uma sociedade capitalista é uma sociedade de desigualdade. Mas dentro do capitalismo há sociedades onde as pessoas têm mais oportunidades, podem prosperar pelo mérito e uma série de fatores, e há sociedades nas quais as pessoas sequer têm condições de descobrir suas vocações. Essas vocações são assassinadas no berço. Isso não tem como você mascarar. Qualquer trabalho de ciências humanas vai mostrar. Temos no Brasil uma situação de tal injustiça, que não tem como ser ocultada. Mesmo os cientistas sociais mais de direita não têm como ocultar a desigualdade.

A sua gestão como presidente da SBPC vai trazer a desigualdade e os direitos humanos para o centro das discussões?
A SBPC sempre tratou dessas questões, e elas vão continuar sendo tratadas. Isso não é novidade e não vai se modificar. Na atual gestão, do professor Ildeu [de Castro Moreira], a SBPC está sempre em diálogo com a OAB, com a CNBB, com a Associação Brasileira de Imprensa e com a Comissão Arns. Todas essas entidades têm em comum a defesa dos direitos humanos. Vamos continuar trabalhando assim, não vai ser uma novidade.

A Educação brasileira vive uma crise sem precedentes. O senhor foi ministro da Educação. Pode fazer um diagnóstico da crise e quais seriam as possíveis saídas para ela?
Eu poderia dizer que, basicamente, temos uma crise por falta de projeto. O atual governo não tem um projeto para a Educação. Desde o governo Itamar Franco, há uma ênfase muito grande na educação básica. Essa era a principal preocupação do MEC. O que se percebe, desde os anos 1990, é que se o governo federal não entrar na educação básica, vai ser muito difícil. No governo Fernando Henrique começou o Fundef, e o governo Lula expandiu, chamando de Fundeb e ampliando de oito para 14 os anos escolares cobertos pelo fundo. Uma série de políticas que foram conduzidas desde os anos 1990, e que tiveram continuidade nos governos Lula e Dilma, e até mesmo com o Temer, embora tenha começado aí uma certa crise desse modelo. No tocante às universidades, a diferença era muito grande, porque o PSDB sempre defendeu mais o setor privado no ensino superior, e o PT o ensino público. Com a chegada do Bolsonaro estamos diante de uma falta de projeto para a Educação. Se você vê a lista de projetos apresentados por Bolsonaro depois da posse, o único vinculado à educação é o de homeschooling, uma causa que afeta cinco mil famílias em um universo de 40 milhões de alunos da educação básica. Quando eles assumiram, falaram o óbvio de priorizar a educação básica. Há 30 anos se diz isso. Eles não sabiam o que dizer, então pegaram o que está em todos os textos. Não à toa, quando veio a pandemia, o governo não exerceu nenhuma liderança na Educação, como não exerceu na Saúde. Temos um governo federal que não tem políticas sociais.
 
No domingo, a Capes completa 70 anos, vivendo talvez um dos seus momentos mais difíceis, sem recursos para a pesquisa. Esse quadro tem reversão?
Tem, mas quanto mais tempo demora para reverter, mais caro vai ser e com efeitos irreversíveis. Quando as bolsas são cortadas, o bolsista, se tiver condições, vai tentar ir para o fora do país e continuar sua pesquisa lá. Com isso perdemos um cérebro que estamos formando desde a infância. E pode ser que ele não volte. Hoje se fala cada vem mais na perda de cérebros. Podemos perder porque o pesquisador foi embora, ou porque ele desistiu da carreira.

Como planeja que seja a sua gestão à frente da SPBC?
São dois pontos básicos que temos que manter. Um é a luta em defesa de todo o patrimônio que o Brasil construiu. Esse é o ponto prioritário. Nesse momento temos que conseguir o leque mais amplo de alianças que deem importância à Ciência e à Educação, mas também à Cultura, à Saúde e ao Meio Ambiente. Isso é muito difícil, até porque, nesse ano e meio que falta de governo, ainda pode piorar muito a situação. Outro ponto que temos que deixar muito claro é que apesar do pessimismo da inteligência, tem que haver o otimismo da vontade, para usar a frase célebre do escritor francês Romain Rolland. Precisamos pensar que qualquer desenvolvimento vai precisar da Ciência, do Meio Ambiente e da Cultura. O Brasil conseguiu muita projeção mundial graças à sua cultura. O Brasil tem um potencial que foi inutilizado nesses últimos anos, mas que tem que ser recolocado com vigor. E a SBPC é importante nesse projeto.

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