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WhatsApp Image 2022 09 11 at 14.12.49 3Fotos: Fernando SouzaSe, de um lado, as ruas no dia 7 estavam tomadas de múltiplas cores, ritmos e alegria, o mesmo não pôde ser observado nas manifestações bolsonaristas. O clima tenso, alimentado pelo presidente da República, acabou em morte na noite do próprio dia 7. Horas depois de Bolsonaro dizer, em Copacabana, que era preciso “extirpar” os opositores, um de seus apoiadores, Rafael Silva de Oliveira, matou com 15 facadas e tentou decapitar seu colega de trabalho Benedito Cardoso dos Santos, que defendia Lula. O crime aconteceu em Confresa, interior de Mato Grosso. O bolsonarista teve prisão preventiva decretada e foi indiciado por homicídio qualificado por motivo fútil e meio cruel.

A violência é resultado direto da retórica bolsonarista. É o que analisa a professora Mayra Goulart, cientista política que estuda Bolsonaro desde 2018. “No campo da extrema-direita, essa liderança faz inúmeros discursos reivindicando a violência como horizonte possível e defende o armamento da população”, sinaliza Mayra. “Tudo isso cria uma moldura que explica o aumento da violência política e o potencial que ela aumente muito mais, uma vez que temos uma população armada que é estimulada a ser violenta”.

A docente também destaca que a violência não é fruto da chamada “polarização”.“Polarização dá ideia de que os dois lados são equivalentes. E não são. Um lado instiga a violência enquanto o outro adota uma postura contra a violência. A violência política é produto de estímulos deliberados ao uso da violência”, afirma.

Ao longo do discurso de Brasília, na quarta-feira, Bolsonaro defendeu o golpe militar e fez ameaças. “Ele colocou o Golpe de 64 na lista de ‘outros momentos difíceis’. Citou 2016, 2018 e afirmou quase que como uma ameaça que ‘a história pode se repetir’”, comenta Mayra. “Em outro momento, ele puxa o coro de que é ‘imbrochável’, revelando um machismo que assume tons muito fortes, para não dizer grotescos”.

A celebração oficial dos 200 anos da independência se tornou campanha eleitoral. “Isso é uma vitória política para Bolsonaro. Ele capturou totalmente esse sentimento tradicional da população, de acompanhar os desfiles. Todo mundo que estava em Copacabana, São Paulo e em Brasília estava lá em apoio a ele”, diz o professor Josué Medeiros, também da Ciência Política do IFCS.

Mas nem tudo é ganho para o atual mandatário brasileiro. “O lado bom, para a democracia, é que ele está isolado. Falou para seus convertidos”, afirma o docente. Para o pesquisador, as falas de Bolsonaro foram direcionadas aos seus apoiadores, imprimiram um tom golpista, mas foram insuficientes para mudar os rumos do resultado eleitoral do primeiro turno. “Ele perdeu a oportunidade, felizmente, de ampliar seu lastro de apoio. Não havia com ele os candidatos a governador mais bem colocados nas pesquisas, nem as autoridades das instituições democráticas”, comenta Josué Medeiros. “Esse isolamento enfraquece suas pretensões golpistas nesse primeiro momento”, acredita o professor.

Para o docente, não haverá, até o primeiro turno, uma escalada no tom autoritário de Bolsonaro, mas a partir de 2 de outubro as coisas podem mudar. “Independentemente do resultado, perdendo a eleição no primeiro turno ou ganhando mais três semanas de campanha para o segundo turno, ele vai subir o tom. Vai haver um acirramento”.

REAÇÃO DAS INSTITUIÇÕES
Mayra Goulart, que é vice-presidente da AdUFRJ, acredita que o isolamento político de Bolsonaro é devido, em parte, à mudança de postura dos Poderes. “As instituições saíram da relativa inércia diante de uma figura que é de extrema direita e anti-establishment, que ataca as instituições da democracia brasileira”, diz.

Para Mayra, são muitos os sinais que demonstram essa mudança de postura.“Há um despertar tardio das instituições e isso se mostra pela decisão recente do Supremo Tribunal Federal de restringir os efeitos da portaria das armas, pela proibição de acessar as urnas com celulares e pela ausência nas comemorações oficiais”, conclui a professora.

IMAGEM QUE VALE MAIS QUE MIL PALAVRAS
WhatsApp Image 2022 09 11 at 14.14.12No Rio de Janeiro, as lentes da repórter Lola Vieira, do UOL, registraram o momento em que meninos negros vaiavam a motociata de pessoas brancas que acompanhavam Bolsonaro em Copacabana. “A foto simboliza muito bem o isolamento de Bolsonaro”, acredita o professor Josué Medeiros. Menos de dez minutos depois do flagrante, o Batalhão de Choque da PM parou o ônibus e retirou todos os meninos. Os outros passageiros sequer foram revistados.

“IMBROCHÁVEL” REVELA MACHISMO E DEGRADA ATO CÍVICO
Pior do que transformar as comemorações da independência do país num palanque eleitoral, Bolsonaro conseguiu imprimir tons grotescos em diferentes momentos de seu discurso. Num deles, comparou a primeira-dama Michelle Bolsonaro à socióloga Rosângela Silva, esposa de Lula, a Janja. “Procurem uma mulher, uma princesa”, disse Bolsonaro logo antes de puxar para si o coro “imbrochável”. Nesta sexta, Janja rebateu: “Aqui só tem mulher que luta”.

AMEAÇAS À OPOSIÇÃO, MENTIRA A APOIADORES
Bolsonaro fez propaganda do auxílio pago aos mais vulneráveis. Ele só não citou que o valor de R$ 600 só foi possível porque ele foi derrotado pela oposição. Sua equipe econômica defendia R$ 200. Ele também atacou a “ideologia de gênero”, fake news criada na campanha de 2018 e disse que não há corrupção em seu governo, apesar de o Brasil ter perdido posições em rankings internacionais e a PGR ter arquivado 104 pedidos de investigação contra ele.

bandeira adufrjDefendido pela diretoria da AdUFRJ, o apoio político à candidatura de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) foi referendado por ampla maioria pelos professores reunidos em assembleia na quarta-feira (31). Dos 445 votantes, 318 (71,5%) decidiram pelo apoio à chapa Lula/Alckmin, enquanto 107 (24%) se posicionaram contra. Outros 20 professores se abstiveram. Para o presidente da AdUFRJ, professor João Torres, a decisão da base reafirma um compromisso de campanha da diretoria. “Nosso programa dizia que a gente ia apoiar o candidato do campo democrático com maior viabilidade eleitoral para derrotar Bolsonaro. Todas as pesquisas indicam que esse candidato é o Lula e nos sentimos muito à vontade para levar este processo à frente”, lembrou João Torres.

O resultado da assembleia é um contraponto à posição de neutralidade mantida pelo Andes ao longo da campanha. E não é uma decisão isolada. Outras seções sindicais também se manifestaram em favor do apoio político a Lula, como a Associação de Docentes da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (ADUR-RJ), a ADUFPB e a ADUFC. Para a professora Mayra Goulart, vice-presidente da AdUFRJ, é importante que o apoio a Lula seja logo no primeiro turno: “Em um segundo turno é maior a probabilidade de contestação antidemocrática da eleição”, observou Mayra.

Os riscos de ruptura democrática exaustivamente sinalizados pelo Planalto e a possibilidade de mais quatro anos de destruição nacional, caso Bolsonaro saia vitorioso das urnas, parecem não sensibilizar o Andes. Com sua invejável capacidade de abstração da realidade, a diretoria do sindicato nacional tem mantido sua posição de neutralidade nas eleições sob o genérico slogan de “Fora, Bolsonaro” e a defesa de uma suposta autonomia sindical. Na assembleia, a professora Mayra Goulart, criticou a postura do Andes: “Entendemos que o conceito de autonomia é mantido quando tomamos posição. Não é o momento de tergiversar diante das urnas”, ponderou Mayra. A cobertura completa da assembleia está na página 3.

A defesa da universidade pública — tão atacada pelo projeto de destruição nacional representado pelo governo fascista de Jair Bolsonaro — foi também lembrada na assembleia como mais um fator em prol do apoio à candidatura Lula. Nesta edição, duas matérias mostram que, apesar de sobreviver a duras penas sob os sucessivos cortes de gastos em seu orçamento, a UFRJ resiste. Nas páginas 6 e 7, o tema é o Festival do Conhecimento, com sua pluralidade de saberes e percepções. E, na matéria da página 8, toda a emoção da reabertura do Museu Nacional, quatro anos depois do incêndio que quase o destruiu totalmente.

Completam a edição duas reportagens que também tratam da UFRJ. Na página 4, mostramos a polêmica em torno da possível troca dos 11 andares da universidade no Edifício Ventura, no Centro do Rio, pela finalização de obras inacabadas no campus do Fundão e na Escola de Música, na Cinelândia. Na página 5, um perfil do estudante Nicolas Vilete, hoje no segundo período do bacharelado do Instituto de Matemática. Ele coleciona medalhas em competições nacionais e internacionais: a mais recente delas é a de ouro na Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas.

A 30 dias do primeiro turno das eleições, a AdUFRJ entra nessa reta final de campanha revigorada pelo apoio expressivo de sua base à posição de apoio político à candidatura Lula. É com essa esperança por dias melhores que vamos trabalhar nas próximas quatro semanas, em defesa da democracia, da universidade pública e do país.
Boa leitura!

WhatsApp Image 2022 08 29 at 10.31.57 1Estela Magalhães

"Só a UFRJ consegue articular e reunir da ministra Cármen Lúcia ao nosso querido Milton Cunha. Os saberes jurídicos e os saberes da festa e do Carnaval, tudo cabe nesse espectro tão amplo”, disse a pró-reitora de extensão, professora Ivana Bentes, na abertura do Festival do Conhecimento, na segunda-feira (29). Em sua terceira edição, o maior evento virtual da universidade reuniu especialistas de diversas áreas e convidados especiais em mais de 800 atividades virtuais por cinco dias.
“A extensão existe nesse lugar da diversidade, do encontro de saberes e da busca pelo que ainda não está institucionalizado”, completou Ivana. “Estamos juntos nestes cinco dias de Carnaval, conhecimento e folia!”, reforçou o carnavalesco Milton Cunha, embaixador do festival.
O tema da edição, “Do Ancestral ao Digital”, propôs uma reflexão sobre as diferentes visões de mundo contemporâneas e a percepção do passado como guia para o futuro. “Nossas pegadas precisam ser reinterpretadas nesse momento de encruzilhada da história, onde vamos constituir como chegamos até aqui e escolher o melhor caminho do ponto de vista político e simbólico”, afirmou a vereadora Tainá de Paula (PT). “Buscar a nossa ancestralidade é muito importante”.
Mas não foi só festa do conhecimento. A mesa de abertura também representou um ato em defesa das universidades públicas. “É nas universidades que aprendemos a lidar com o contraditório e a dialogar. Nós formamos profissionais qualificados, mas antes disso, formamos cidadãos e cidadãs críticos e competentes, fundamentais para a sociedade”, disse a reitora Denise Pires de Carvalho.
O professor João Torres, presidente da AdUFRJ, lembrou dos ataques do governo à Ciência e à democracia. “O momento exige que os professores, cientistas e intelectuais explicitem em alto e bom tom o valor do pensamento crítico, o peso das evidências e a importância dos dados”, disse.
Já a ministra do STF Cármen Lúcia celebrou o papel das universidades na criação de diálogos e como anfitriãs da diversidade. “A universidade é algo que se abre para o mundo e permite que a gente aprenda e ensine a convivência com o diferente”, disse.
A reitora da Federal de Rondônia, Marcele Pereira, outra convidada da mesa de abertura, comemorou a integração entre as universidades. “Desde o primeiro Festival do Conhecimento já ficamos todos muito maravilhados com a capacidade de articulação e de reunir pessoas diferentes, com a riqueza das reflexões”, lembrou.
A primeira edição do festival aconteceu em 2020, no início da pandemia de covid-19, e foi pioneira na produção de eventos virtuais. Ela teve como tema “Universidade Viva”, em celebração ao centenário da UFRJ. No ano seguinte, o título foi “Futuros Possíveis”, com destaque para o enfrentamento da pandemia.

SINDICATO DEVE SER ESPAÇO DE ESCUTA E ACOLHIMENTO

WhatsApp Image 2022 09 02 at 16.41.48A discussão dos rumos do sindicalismo docente mobilizou uma das mesas do festival nesta sexta-feira (2), dois dias após a Assembleia da AdUFRJ aprovar o apoio à candidatura Lula. Para Mayra Goulart, vice-presidente da associação e coordenadora do Laboratório de Eleições, Partidos e Política Comparada, uma decisão mais que acertada.
“Quando nós atuamos como representantes de um sindicato, podemos falar a partir deste corpo (de pessoas) particular. Então por que estamos nos manifestando em uma eleição geral? Porque esta eleição geral tem impacto imediato e direto em nossas vidas”, afirmou a docente. Mayra defendeu que a AdUFRJ se posicione em qualquer eleição indicando o candidato que melhor atenda aos interesses dos professores, mas destacou a gravidade do pleito atual. “Nesta eleição, o que está em jogo é a manutenção do devido processo legal. É a possibilidade de haver novas eleições. É a manutenção da possibilidade de existir sindicato. Nós, professores, temos um modo de vida que está ameaçado”, alertou.
Ex-diretor da AdUFRJ, o professor e cientista político Josué Medeiros concordou. “É a manutenção da democracia e da universidade pública. Ou seja, daquilo que caracteriza a nossa missão. Também está em jogo a liberdade de cátedra”, observou o coordenador do Observatório Político e Eleitoral e do Núcleo de Estudos sobre a Democracia Brasileira.
Mediador do debate e presidente da AdUFRJ, o professor João Torres ponderou que, caso a chapa Lula-Alckmin vença as eleições, a perspectiva é fazer uma luta pela esquerda para ampliar direitos dos docentes. “É a questão da aposentadoria, principalmente para os jovens, que têm uma carreira diferente da minha, por exemplo”.

COMO ATRAIR FILIADOS
A dificuldade de atrair novos filiados para o sindicato tmbém repercutiu na mesa. “Os professores estão doentes, cansados, desvalorizados, com problemas psicológicos. Isso tudo cria obstáculos para que façam parte do movimento sindical”, observou Mayra. “Ontem fui fazer um evento no IFCS e não havia um cabo para conectar o data-show. A sala tem cheiro de mofo. Só tem banheiro no terceiro andar. O sindicato tem que ser um lugar de escuta e acolhimento”, completou.
Mayra destacou o papel do Observatório do Conhecimento, rede de associações da qual faz parte a AdUFRJ em defesa da Educação e da Ciência públicas, para ajudar a criar melhores condições de trabalho aos docentes. “Um desafio da AdUFRJ hoje, que se diferencia de outros sindicatos, é ter particular atenção às verbas da Ciência e Tecnologia e atuar em defesa disso”.
Também é importante que o sindicato se conecte com dinâmicas vividas no interior da categoria, argumentou Josué. Neste sentido, o docente elogiou outra iniciativa do Observatório do Conhecimento: a produção de um documentário (Ciência: Luta de Mulher) que mostra diferentes trajetórias e dificuldades de mulheres pesquisadoras. “Uma mulher, quando fica grávida ou tem um filho, acaba sendo punida nos editais, porque não consegue acompanhar a produtividade dos homens”, disse Josué. (Kelvin Melo)

WhatsApp Image 2022 09 05 at 15.54.43A pandemia e as mudanças climáticas acenderam um alerta sobre a relação da humanidade com o planeta, que parece chegar perto do seu limite. Parte considerável da sociedade olha para o futuro para buscar soluções, o que inclui planos megalômanos de bilionários do Vale do Silício de colonizar o espaço. Ailton Krenak propõe algo diferente, a busca por uma resposta na história. Não na história da colonização, aquela ensinada nas escolas, mas com os povos originários das Américas e suas lições sobre a relação com a natureza.
Filósofo, ambientalista, poeta e escritor, Krenak reúne habilidades que eram comuns em filósofos da antiguidade europeia ou renascentistas, mas uma perspectiva completamente diferente. Líder indígena da etnia Krenak, ele conjuga sua inteligência com a maneira indígena de ver o mundo e as coisas e de pertencer à terra. Krenak participou do Festival do Conhecimento, em conversa mediada pela professora Ivana Bentes, e falou sobre como essa perspectiva pode salvar a humanidade.
“Já há algumas décadas estamos tentando estabelecer essa espécie de comunicação entre mundos, essa tradução do pensamento de povos originários aqui no continente”, disse Krenak logo em sua abertura, citando ainda Eduardo Galeano, que sempre defendeu que o pensamento dos povos originários do continente ressoasse além das fronteiras da América Latina.
“A ocupação colonial foi tão vasta que substituiu muitos modos de viver por outras organizações, outros modos de assentamento”. Krenak conta que, apesar da colonização brutal, as cosmovisões de muitos povos originários andinos persistem e continuam sendo passadas adiante dentro das suas comunidades, mesmo estando fora de bibliotecas. “Isso é resultado de uma corajosa persistência e de uma persistente maneira de transmitir de geração em geração saberes que não estão nos livros ou nas bibliotecas”, ressaltou.
Krenak conta que esses povos hoje falam sobre um tempo anterior à chegada dos europeus, quando o mundo era outro. “Houve, do Panamá à Terra do Fogo, uma experiência vigorosa de povos vivendo e compartilhando vários ecossistemas. Toda essa região compartilhada por ideia de estar no mundo que era expresso como o amplo território do Tahuantinsuyo, um período de uma experiência social, política e cultural de uma importância rara”, explicou. “Havia uma ecologia e um cuidado com tudo que constituía o entorno dos assentamentos humanos. Toda aldeia estava ecologicamente encaixada onde a cultura e o modo de produzir guardavam uma coerência reverente e sagrada com cada território”, acrescentou.
Na cosmovisão desses povos, com a qual Krenak concorda, tudo é natureza, inclusive os seres humanos. A ideia remete à Pachamama, a maneira como os povos andinos viam o mundo. A Pachamama é a natureza em sua capacidade de criar e destruir, e os seres humanos fazem parte dela. “Se não somos natureza, não temos como experimentar a nossa relação com os outros seres, estaríamos deixando de ser essa experiência sensível da vida e estancando essa experiência de milhares de anos. Vamos nos tornando uma espécie de ciborgue”, explicou. “Estamos falando da nossa vinculação profunda com a vida no planeta Terra, no organismo de Gaia, na Pachamama”, acrescentou.
E é exatamente esse equilíbrio entre os povos originários e a natureza que apresenta uma saída para a humanidade. O que Krenak defende é um resgate desse modo de ver o mundo, entendendo o ser humano como parte da natureza, e não como o seu senhor. “Acredito que precisamos despertar uma consciência entre o divórcio que estamos produzindo e entre a experiência dos humanos e todos os outros seres que constituem o organismo da Terra. Se formos nos transformando em ciborgues, poderemos habitar qualquer outro lugar. Não vamos precisar desse maravilhoso organismo da Terra”, defendeu. “O pensamento antropocêntrico surgido na Modernidade nos faz acreditar que podemos dominar a vida no planeta, quando na verdade estamos perdendo a qualidade da experiência de estar vivo e a nossa comunhão com bilhões de outros seres que dançam a experiência da vida aqui na Terra e no cosmos”, disse.

Como desmonetizar discursos de ódio

WhatsApp Image 2022 09 05 at 15.54.43 1O combate à desinformação e ao discurso de ódio nos meios digitais ganhou destaque na mesa sobre o Sleeping Giants Brasil, movimento que desmonetiza as fontes desses conteúdos. “Com a distribuição automática de anúncios por grandes plataformas como Facebook e Google, empresas e marcas podem acabar patrocinando conteúdo nocivo”, explicou Mayara Stelle. “Nosso trabalho é alertar essas empresas e cortar o financiamento da desinformação”.

Professores dão aula sobre varíola dos macacos

Contexto da epidemia, sintomas da doença e como é feito o diagnóstico. Pesquisadores da UFRJ deram um panorama completo sobre a varíola dos macacos. A resposta rápida da UFRJ à epidemia foi destacada. “Estruturamos nosso núcleo da covid para a monkeypox, para triagem, diagnóstico e orientação aos pacientes”, disse a professora Terezinha Castiñeiras. Participaram ainda os professores Amilcar Tanuri, Clarissa Damaso e Rafael Galliez.

Conhecimento, diversão e muita música

Apresentações musicais presenciais fizeram parte da programação de cada dia do festival. A Escola de Música da UFRJ, que comemora 174 anos estaWhatsApp Image 2022 09 05 at 15.54.43 2 semana, realizou a maioria delas. Logo no primeiro dia, o Salão Leopoldo Miguez recebeu a Orquestra Sinfônica da UFRJ. Na quinta (dia 1º), foi a vez do pianista Rafael Ruiz. Já no Teatro de Arena, na Praia Vermelha, houve show do DJ Goranmo, da banda Biltre e de Marina Iris.

Eméritos debatem a democracia e o comum

“Muito mais que nas altas esferas, a democracia está no cotidiano”, declarou o professor Muniz Sodré, emérito da ECO, durante debate com os professores Cristiano dos Santos e Raquel Paiva, também emérita. O tema da mesa foi “Crises da democracia e o comum”. “Mesmo bombardeada por um governo despótico, a academia mostra toda a potencialidade de seus 102 anos de resistência”, disse a professora, em referência ao Festival do Conhecimento.

WhatsApp Image 2022 09 05 at 15.53.07 1Foto: Fernando SouzaNicolas Vilete, 18 anos, morador de Nilópolis, gosta de jogar Minecraft e League of Legends, adora animes e mangás, e não dispensa a pizza com os amigos. Seria um perfil bastante comum para a idade, mas com uma diferença importante: o jovem coleciona medalhas em competições nacionais e internacionais de matemática. Na mais recente delas, no fim do ano passado, faturou um ouro na Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas (OBMEP).

“Sempre gostei de matemática. Sempre fui bem nas provas. Quando terminei o ensino médio, decidi continuar”, diz Nicolas, hoje no segundo período do bacharelado do Instituto de Matemática da UFRJ. “Em competição, não basta saber o conteúdo. Tem que desenvolver a ideia. Pensar nisso é a parte mais legal da matemática”.

O feito de Nicolas não é pequeno no país que apresenta um dos piores desempenhos do mundo no aprendizado da matéria. O mais recente estudo do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa) mostra que apenas 2% dos estudantes brasileiros do ensino fundamental alcançaram os níveis 5 ou 6 de proficiência, que são os mais altos da instituição.

Além do gosto pessoal pela matéria, um projeto do Colégio Estadual Marechal Zenóbio da Costa, em Nilópolis, foi decisivo para a performance de Nicolas. “Era a ‘sala de aula invertida’. A ideia é que o professor passa uma prova, normalmente de um nível mais difícil que o nosso. Quem resolve uma questão ensina os colegas. É invertido porque a gente faz o papel de professor. E dizem que ensinando você aprende bastante”, afirma Nicolas.
Aprendeu bastante e colheu frutos. A medalha da OBMEP lhe garantiu o direito de se inscrever em um Programa de Iniciação Científica e Mestrado (Picme), que vai render R$ 400 mensais.

DEZENOVE BOLSISTAS
O professor Sérgio Ibarra é o responsável pelo programa Picme na UFRJ. “O primeiro critério de participação é ser medalhista, mas não necessariamente como aluno da Matemática”, informa. Hoje, a UFRJ possui 19 bolsistas da modalidade, sendo 11 de cursos do instituto. Mas há alunos das engenharias, da Física Médica e até de Comunicação Visual Design. Nicolas entrou na última leva, junto de outros três colegas.

Os medalhistas já ingressam na universidade com uma base boa da matéria. O papel da instituição é apresentar possibilidades interdisciplinares. “Ele não fica só pensando na matemática pura. Pensa também no que pode levar para a sociedade. O ganho maior está por aí. Abre o mundo para eles”, afirma Ibarra. “Meu trabalho principal é apontar uma direção. O aluno é encaminhado para um colega orientador que vai combinar o processo de iniciação científica com cada um”.

Desde o início do programa em 2009, a UFRJ já teve 158 bolsistas. As olimpíadas de matemática premiam centenas de jovens em cada edição. Para se inscrever no Picme, basta estar regulamente matriculado em alguma instituição de ensino superior e ter recebido uma medalha (de ouro, prata ou bronze) em qualquer edição da olimpíada. “Em geral, as notas são muito próximas. Até como uma forma de incentivo, a OBMEP faz uma ampla distribuição de medalhas”, avalia Ibarra.

O Picme também serve como uma preparação para o mestrado na Matemática. “Os alunos que ganham bolsa têm rendimento bem alto e, para entrar no mestrado, fica mais fácil. Mas não é algo automático. É necessário fazer as provas da seleção”.

Assim como centenas de outras iniciativas de Educação e Ciência, o programa sofre com o subfinanciamento no governo Bolsonaro. “Antigamente, a média era de 25 bolsas por ano. Este semestre, tive que recusar quatro medalhistas, de áreas paralelas à Matemática. Por exemplo, da Medicina. Não há bolsas suficientes”. O Picme também previa pagamento de bolsas de mestrado, via Capes. Mas elas estão suspensas desde 2020.

AÇÃO MOTIVADORA
Diretora da AdUFRJ e professora do Instituto de Matemática, Nedir do Espirito Santo é uma entusiasta da OBMEP. “Certamente tem sido a maior ação motivadora para o estudo da Matemática entre alunos da educação básica, envolvendo professores das escolas que se empenham em atividades diversificadas e diferenciadas no ensino, conduzindo seus alunos ao sucesso”, afirmou.

Nedir observa que a iniciativa ajuda a formar novos quadros para a comunidade científica. “Em geral, os medalhistas fazem parte de grupos de alunos que se destacam na universidade com excelente desempenho e adentram a vida acadêmica participando em atividades de iniciação científica e projetos, que são os primeiros passos para se tornarem pesquisadores”. Ela completa: “Parabenizo Nicolas pela medalha. Quem sabe, tenhamos, no futuro, um grande Matemático? Parabenizo também o Colégio Estadual Marechal Zenóbio da Costa, onde estudou, e os professores que o ajudaram na preparação”.

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