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WhatsApp Image 2022 08 22 at 12.35.32O debate eleitoral é central este ano e os professores estão preocupados com o tema. Apesar da gravidade política do momento, a diretoria do Andes não tem dado o devido espaço para a discussão. Essas impressões fizeram parte do programa Contramola, que convidou as professoras Mayra Goulart, cientista políica e vice-presidente da AdUFRJ, e Elisa Guaraná, antropóloga e presidente da Adur-RJ (Associação de Docentes da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro).

Convocado para discutir a crise nas universidades e o papel do Andes nas eleições 2022, o bate-papo aconteceu num canal do Partido dos Trabalhadores, no Youtube. A apresentação foi de Luiz Sérgio Canário.

A professora Elisa comentou o quanto o golpe de 2016, que tirou do poder a presidente Dilma Rousseff, impactou as instituições federais. Ataques que se acentuaram no governo de Jair Bolsonaro. “Já no governo Temer há mudanças significativas nas políticas públicas que vinham garantindo uma universidade para a juventude de periferia”, disse a professora. “O Reuni (Programa de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais) sem dúvidas foi um marco importante para a educação pública brasileira”, acredita a professora. “A gente teve uma mudança significativa no perfil do nosso alunado e na perspectiva de futuro para o país. Conquista que vem sendo desmontada”, analisou.

A asfixia financeira das universidades é uma das razões para que haja um engajamento forte nas eleições deste ano contra Bolsonaro. “Há universidades que não têm orçamento para daqui a dois meses. Por tudo isso, a Adur, a AdUFRJ e outras entidades entendem que essas eleições são uma espécie de tudo ou nada”, disse. “Precisamos apoiar a candidatura do presidente Lula. Não dá para ficarmos numa postura de neutralidade. Mas esse debate não é fácil para o Andes”, afirmou.

A docente defendeu que a defesa da candidatura de Lula é uma defesa da democracia. “Não queremos um sindicato partidarizado, mas entendemos que o sindicalismo brasileiro precisa tomar posição contra o fascismo”, pontuou. “É preciso se manifestar em defesa da sociedade brasileira e essa defesa, nesse momento, é a eleição do presidente Lula”.

Ela argumentou que o papel do sindicato não é se posicionar em eleições, a menos que o momento seja de crise. “É o que estamos enfrentando hoje. Por isso, nós que nos organizamos no Renova Andes (grupo de oposição à atual diretoria nacional) defendemos a importância de debater eleições. Esse tema não foi pautado pela diretoria nem no Congresso do Andes nem no Conad”, criticou.

Elisa também desaprovou a ausência do Andes na Conferência Nacional Popular de Educação (Conape), organizada pelo Fórum Nacional Popular de Educação, que aconteceu entre 15 e 17 de julho, em Natal (RN). “A diretoria do Andes marcou o seu Conselho, que aprova suas contas, para as exatas mesmas datas da Conape. Mais de três mil professores de todo o país se reuniram para discutir educação pública, mas a diretoria não entende a importância dessa instância”, lamentou.

Mayra Goulart, que estuda Bolsonaro e o bolsonarismo desde 2018, fez uma categorização sobre o atual presidente da República. “Bolsonaro é um inimigo inequívoco. Ele não se contradiz, é coerente no seu ataque às minorias, às classes populares e à pluralidade”, disse. “Ele se constrói como um sujeito que é homem, branco, hétero, cis e de classe média. Esse é o perfil identitário desse sujeito político. Ele representa todo aquele que se percebe como vencedor, que não precisa de ajuda, o ‘cidadão de bem’, da família tradicional”.

Esse sujeito político, segundo Mayra, é incompatível com a ideia de conhecimento. “A Ciência se alimenta da pluralidade. Quanto mais diverso for o horizonte dos cientistas, mais soluções diversas poderão ser aportadas. O bolsonarismo ataca esse lugar de conhecimento, que é a universidade pública, porque ele não tolera a pluralidade”, analisou.

A vice-presidente da AdUFRJ citou os recentes estudos realizados pelo Observatório do Conhecimento — rede que reúne dez associações docentes — sobre cortes no orçamento e os ataques à liberdade de cátedra. “A gente calculou, até 2021, uma redução de R$ 83,8 bilhões no Orçamento do Conhecimento (que engloba universidades federais e Ministério da Ciência e Tecnologia). Há uma estimativa de chegar a R$ 100 bilhões de cortes em 2022”, revelou.

Sobre os ataques à liberdade de cátedra, Mayra lamentou a tendência a um “conhecimento natimorto”. “Mais de 35% dos pesquisadores entrevistados revelaram que mudaram seu foco de pesquisa por medo de represália e 42% cercearam suas próprias aulas”, disse. “Ou seja, são conhecimentos cortados antes de nascer. Isso vai gerar um apagão do pensamento por conteúdos que não foram sequer trabalhados em sala de aula”. Para esta pesquisa foram ouvidos 1.116 cientistas.

Em relação ao Andes, Mayra declarou que esperava estar num sindicato que acolhesse suas preocupações. “Gostaria de ouvir que há uma discussão para reverter todos esses ataques sofridos pelas universidades e professores, que me protegesse, que me dissesse que há estratégias para informar a sociedade civil sobre esses cortes, que atuasse junto a parlamentares para defender a liberdade acadêmica”, elencou. “Mas eu chego no sindicato e escuto zero sobre isso. Eu escuto muito sobre Ucrânia, sobre refugiados, sobre o socialismo. Temas todos importantes se a gente não estivesse com o bode na sala. Nós temos um inimigo urgente. A gente não está num contexto normal”, desabafou. “Quando não vejo esse debate eleitoral pautado, fico me perguntando se a diretoria do Andes entende a singularidade dessa eleição”, questiona.

NOVA FORMA DE DESMOBILIZAR

Aparentemente, a diretoria nacional encontrou mais uma forma de desmobilizar professores na reta final da campanha eleitoral. A tarefa urgente, entendida por boa parte dos docentes das universidades país afora, é derrotar Bolsonaro elegendo Lula no primeiro turno, em 2 de outubro. Mas o Andes acredita que é inadiável realizar uma reunião plena do Grupo de Trabalho Política Agrária, Urbana e Ambiental (GTPAUA), no dia 28 de setembro. O evento acontece em Brasília e tem na programação discussão sobre catástrofes ambientais, injustiças sociais, planos nacionais de Mineração e Energia, além de teorizações sobre termos surgidos nos cadernos de textos dos últimos Conads e Congressos, como “bem viver, ecossocialismo, povos do campo, águas e florestas”.

“Essa convocação às vésperas das eleições é uma ilustração bem didática do que é a diretoria do Andes, que entende o sindicato como uma entidade de sindicalistas sempre ensimesmados pelas suas próprias questões”, critica a professora Mayra Goulart.

Para ela, tirar lideranças políticas de seus estados às vésperas das eleições demonstra como o grupo que comanda o Andes ignora a conjuntura nacional. “No pleito mais importante da nossa história, o Andes está mais preocupado em rever seus cadernos de texto”.

Eudes Baima, professor da Universidade Estadual do Ceará e liderança do Renova Andes,também critica a iniciativa. “O sindicato não pode paralisaras atividades por conta das eleições, mas há que ter bom senso”, ressalva. “A diretoria demonstra completo descolamento da conjuntura, até certa alienação em relação à realidade brasileira”, conclui.


DE COSTAS PARA A DEMOCRACIA

Apesar de ter assinado a Carta às Brasileiras e aos Brasileiros em Defesa do Estado Democrático de Direito, produzida pela USP e apoiada por mais de um milhão de pessoas, a diretoria do Andes não convocou os professores para participarem dos atos em que a carta foi lida país afora. A mobilização da direção nacional para o 11 de agosto focou nos atos de rua contra Bolsonaro que aconteceram nos estados. Para o professor João Torres, presidente da AdUFRJ, um gesto preocupante, considerando que a mobilização em torno da leitura da carta aconteceu, sobretudo, nas universidades.

“Acho um equívoco e uma insensibilidade ao nosso momento político. É muito importante que a Fiesp, os banqueiros e e elite paulistana se posicionem a favor da democracia ao lado da UNE, das universidades e de toda a sociedade civil”, argumenta. “Sabemos que essa carta foi uma manifestação gestada no ‘andar de cima’ da sociedade brasileira e isso faz com que setores mais sectários do nosso sindicato a encarem com desconfiança e mesmo com desdém”, avalia Torres. “Sabemos que houve manifesto contra a presidenta Dilma Rousseff pelos mesmos professores do Direito da USP, por exemplo, mas temos que lidar com essas contradições”, acredita o professor.

Para João Torres, a prioridade de todos os que têm compromisso com a democracia é o engajamento na campanha política para a Presidência da República. “A missão do momento é eleger Lula-Alckmin, não porque é a chapa dos nossos sonhos, mas porque é a unica saída para tirar o Bolsonaro. E a carta faz parte dessa estratégia”.

WhatsApp Image 2022 08 22 at 12.27.07Associações docentes das universidades federais filiadas ao Andes deverão realizar assembleias até o final de agosto para discutir as eleições de 2022. Os professores vão avaliar, por exemplo, se o Sindicato Nacional deve ou não apoiar a candidatura de Lula à presidência. A decisão aconteceu na reunião do setor das federais, nos dias 6 e 7 de agosto, a contragosto do grupo que dirige o Andes. A AdUFRJ realizará sua assembleia no dia 31 e foi uma das principais articuladoras da reação contra a diretoria nacional. A capa do Jornal, de 22 de julho - que denunciou a dificuldade de o Andes enfrentar o debate eleitoral – ajudou a agregar os críticos contra a isenção do Andes. “Aquela capa rompeu a bolha sindicalista”, resume a professora Elisa Guaraná, presidente da Adur-RJ, a associação dos docentes da Rural do Rio.

A tese defendida pela oposição à direção nacional é que os docentes têm autonomia para indicar ao sindicato as ações necessárias à derrota de Bolsonaro já no primeiro turno. “Não se trata de uma postura político-partidária. É uma posição em defesa da democracia”, esclarece a professora Elisa Guaraná.

A professora Mayra Goulart, vice-presidente da AdUFRJ, também participou da reunião e foi uma das defensoras de que as assembleias debatessem as eleições. Para ela, a direção nacional não contribui para a derrota de Bolsonaro. O Andes defende a máxima “Fora, Bolsonaro”, mas mantém isenção sobre qual candidatura fortalecer. “O ‘Fora, Bolsonaro’ é etéreo, porque não existe essa opção na urna”, explica Mayra. “A ação ‘Fora, Bolsonaro’ deve ser apoiar o candidato com maior viabilidade política, que é Lula”, afirma. “É fulcral para quem defende a universidade e o Estado Democrático de Direito”.

O placar foi apertado: 11x10, mas se traduziu num marco importante. Foi a primeira vez que o setor conseguiu aprovar uma posição contrária à da direção nacional. “Não é fácil vencer uma eleição sobre a qual a diretoria tem uma posição contra, porque ela tem a mesa que conduz a discussão e a máquina burocrática nas mãos. Então, ela se utiliza de subterfúgios regimentais para obstruir, esvaziar o debate”, analisa o professor Paulo Vieira Neto, presidente da Associação da Universidade Federal do Paraná (Apufpr).

O tema só foi levado à votação no segundo dia de encontro, à tarde. “A reunião já estava esvaziada, muitas pessoas tinham ido embora”, conta o professor Vieira Neto. Para ele, uma forma de a diretoria ganhar tempo e equilibrar o número de votos para a decisão. “Se a diretoria tivesse segurança sobre o apoio dos colegas que lá estavam, teria feito o debate já no primeiro dia”, considera.

A discussão foi apresentada pelo grupo que organiza o Renova Andes, principal núcleo de oposição à diretoria, mas teve apoio de associações que não se organizam pelo Renova. “O momento marca uma mobilização importante de oposição à diretoria nacional”, sublinha a professora Elisa Guaraná. “É uma oposição a essa linha sistemática e persistente de fragmentação”, continua.

Para os críticos, falta comando na atuação do Andes. “Precisamos envidar esforços para derrotar Bolsonaro nas ruas e nas urnas. Mas nós perguntamos: como?”, questiona Elisa. “Acreditamos que este é o momento de o sindicato apresentar uma posição clara sobre o pleito. O único candidato com condições de derrotar Bolsonaro é Lula”, afirma. “Quando houve o ‘fora todos’ (durante o processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff, em 2016), a posição do Andes estava muito clara. Agora, o discurso é de isenção, mas esta é uma postura despolitizante”, critica.

BONDE DA HISTÓRIA
O professor Sidiney Ruocco Junior, presidente da Adufu, seção sindical da Federal de Uberlândia, também votou a favor da consulta. Ele é um dos que não se organizam pelo Renova Andes. “A diretoria e outras instâncias não podem ter luz própria. Elas devem ser reflexo do que dizem os professores nas assembleias pelo país”, acredita.

Para ele, as ações de 11 de agosto explicitaram uma mensagem importante para a sociedade, principalmente para o Andes: de que é necessária uma frente verdadeiramente ampla para rechaçar qualquer tentativa de golpe. “Na hora de operacionalizar essa frente ampla, muitas pessoas não abrem mão de certas posições político-partidárias. Precisamos ter coerência entre discurso e prática”, critica. “O Congresso do Andes já tinha aprovado ações para derrotar Bolsonaro e isso envolve estratégia eleitoral”, argumenta.

O bonde da história não esperará pelo Andes, segundo o professor Fernando Cunha, diretor da Adufpb, Associação da Federal da Paraíba. “Para além das deliberações de assembleia, várias seções sindicais e docentes estão assinando manifestos de apoio a Lula. Esse movimento está acontecendo, não há como barrar”, constata o dirigente. “O Andes tem uma grande responsabilidade. Não pode ficar aguardando o que vai acontecer. Deve ter protagonismo político”, defende.

OUTRO LADO: A VERSÃO DA DIRETORIA DO ANDES

A professora Regina Moreira, secretária-geral do Andes, afirma que, mesmo que as assembleias de professores das universidades federais decidam pelo apoio a Lula, não há perspectiva de a diretoria do Andes seguir a decisão. “Não há deliberação congressual para isso”. De acordo com ela, o setor das federais não pode aprovar ações que dependam do aval das universidades estaduais, municipais e particulares “que também compõem o Andes”, diz a secretária-geral.

“As federais vão ter o mês de agosto para pautar isso nas assembleias e a autonomia de cada local vai indicar a estratégia a ser adotada. Não há previsão formal para que um setor delibere sobre todo o conjunto de professores representados”, completa.

A professora Regina também afirma que não há prazo para convocar um Conselho extraordinário do Andes para debater amplamente o assunto. “Já temos um Conad extraordinário agendado, não temos tempo para convocar outro, antes desse, pra debater apoio a qualquer candidatura. Regimentalmente precisamos de tempo para organizar um cronograma, abrir período para inscrições de textos que serão base para o debate”, explica.

Sobre ter uma estratégia eleitoral para combater Bolsonaro nas urnas, a diretora diz que o comando do Andes não tem aprovação para atuar eleitoralmente, mesmo em pleitos ocorridos em momentos delicados como o atual, em que a democracia está sob risco.

“Estratégico é ocupar as ruas, fazendo trabalho de base. Precisamos ir para a rua dizer para a população que passa fome que o auxílio emergencial vai até dezembro, que o auxílio gás no valor do botijão é eleitoreiro, que essas ações são uma enganação”, defende. “Se as ruas não estiverem fortes, as urnas não estarão garantidas. O bolsonarismo não está vencido”.

DERROTA
A docente não reconhece o resultado da reunião do setor das federais, dos dias 6 e 7 de agosto, como uma derrota política da diretoria nacional do Andes. Ao contrário, acredita que é salutar que se ouça a base. “O que ficou decidido foi que o setor das IFES pautasse as eleições deste ano nas suas assembleias. Só isso foi aprovado, nada além”, afirma.

A dirigente argumenta que nenhuma seção sindical ou corrente política apresentou proposta de apoio a Lula ou a qualquer outro candidato à presidência nas instâncias de decisão do sindicato. “A posição da diretoria é aquela definida nas instâncias, de que não haverá apoio formal a nenhum candidato, porque não houve deliberação nessa direção nem no Congresso deste ano, nem no Conad (realizado em julho)”, diz.

FSOU9368Presidente da AdUFRJ, professor João Torres fala ao Consuni de 11 de agosto - Foto: Fernando SouzaJoão Torres
Presidente da AdUFRJ

A cidade de Leiden estava em ruínas após a longa guerra dos oitenta anos entre os Países Baixos e a Espanha. Um terço da cidade morreu de fome ou de doenças. O príncipe Guilherme de Orange precisava abrir negociações com a Espanha e se legitimar diante das províncias separatistas. E, em dezembro de 1574, numa visita à cidade arrasada, anunciou que criaria o que hoje é a Universidade de Leiden. A comunidade levou o projeto a sério e, seis semanas depois, a universidade foi inaugurada.
Esse espírito criativo, comprometido com a Ciência e a Educação, tornou a Holanda uma grande potência na Ciência e na Arte. Ainda no século XVI, há inovações espetaculares na indústria náutica holandesa. No século XVII, as artes floresceram, com Rembrandt e Van Dycke. A luneta e o microscópio foram inventados na Holanda. Leeuwenhoek lançou as bases da Microbiologia. Isso para não falar de Espinosa e outros. Retomo aqui essa história para lembrar que a criação de uma universidade provocou o renascimento de uma cidade devastada.
E isso é deveras auspicioso se olharmos para o Brasil de hoje. Vivemos a antítese da Holanda de 1574: para destruir o país, para desmontar o que já foi motivo de orgulho para os brasileiros — a nossa tradição em vacinas, o nosso sistema eleitoral, o SUS, a floresta amazônica e vários outros — o atual governo sufoca a universidade. A penúria das instituições federais de ensino é um projeto do governo, e se mostra como a antítese do projeto de Guilherme de Orange.
Desde o início da gestão Bolsonaro, em 2018, há um embate com as universidades públicas. O bolsonarismo defende a tese de que as universidades são a ponta de lança da chamada guerra cultural. Seus ideólogos — se é que podemos chamá-los assim — acreditam que as universidades são lugares de disseminação do comunismo, do “gayzismo”, que plantamos maconha em grande escala e outras bobagens que insuflam a base da extrema-direita.
Devemos lembrar que estudantes e professores protagonizaram grandes embates contra o governo. Por exemplo, o 15M de 2019 contra os cortes na educação mobilizou centenas de milhares de jovens.
No entanto, estamos observando que a Física não vale para a política. Se para cada ação corresponde uma reação, não há como entender as reações no Brasil de hoje. Em 2014, sem entrar no mérito dos erros e acertos do governo Dilma, uma parte considerável das forças progressistas foi para a rua protestar contra o governo. Eu sei que a política não é a terceira lei de Newton, mas não consigo me conformar com o que está acontecendo hoje, com as reações que articulamos, quando penso em 2014!
E como a universidade tem sido uma das instituições mais atacadas nesta onda conservadora, me parece que a nossa reação tem sido, sim, muito desproporcional à gravidade do momento. De forma nenhuma faço uma acusação, apenas partilho a minha perplexidade.
É óbvio que por lutar não me refiro a esvaziar a universidade por três meses numa greve confortável, gastando nosso capital simbólico diante da população. Ao contrário. O momento requer uma universidade viva, pulsante, e sua pujança precisa ser um espinho no corpo do conservadorismo.
Nossa ação tem que ser generosa, não há espaço para sectarismos. Na realidade, precisamos de uma reação e de uma ação muito consequente. Há exemplos recentes para isso bem perto de nós, no Chile, com a vitória de Gabriel Boric, e na Colômbia, com a de Gustavo Petro. É preciso alcançar algo semelhante no Brasil: a vitória de forças progressistas que pregam um reformismo social moderado contra a extrema-direita. É apenas isto que está em pauta, é o que as condições objetivas nos impõem!
E sendo apenas um rapaz latino-americano com algum dinheiro no bolso — corrigindo, um senhor latino-americano —, eu encaro as Forças Armadas dos Estados Unidos com muita desconfiança. Mas somos forçados a reconhecer que lá, nos EUA, as Forças Armadas sustentaram a democracia e não embarcaram em aventuras golpistas. Não é claro que poderemos falar o mesmo aqui em 2023. E, se nossas Forças Armadas falham no suporte aos valores republicanos, outras instituições têm que compensar! Volto a afirmar: a universidade precisa fazer mais. A Andifes precisa fazer mais, a AdUFRJ precisa fazer mais, o Andes precisa fazer mais, a APG, a UNE e a UEE precisam fazer mais, os DCEs e os CAs precisam fazer mais!
Que a leitura da Carta da Democracia impulsione todas as forças democráticas no Brasil inteiro a fazer mais, que impulsione a todos nós a fazer mais, a colocar a nossa ação e reação à altura do momento histórico que estamos vivenciando e construindo! E quem sabe assim teremos nossas universidades florescendo de novo!

WhatsApp Image 2022 08 15 at 11.50.38Foto: Fernando SouzaEstela Magalhães

Sob a chuva na Candelária, Clara Davidovich, de 83 anos, e Júlia Brant, de 81, empunhavam o cartaz “Democracia é Liberdade” e uma bandeira do Brasil que dizia “Fora Bolsonaro”. “Nossa mensagem para os estudantes da UFRJ: estamos nas ruas e na chuva hoje para que vocês possam continuar na luta pela democracia”, ensinou Clara. Para elas, que lutaram pela redemocratização durante a ditadura, é muito importante ocupar as ruas neste 11 de agosto. “Eu já era adulta na ditadura, meu marido foi cassado e daí em diante foi só luta. O mal dessa época não pode se repetir, temos que ir para as ruas garantir a democracia!”, conclamou Júlia.

Quase três mil pessoas caminharam da Candelária até a Cinelândia em defesa de eleições democráticas e contra o governo Bolsonaro. A professora Nedir do Espirito Santo, diretora da AdUFRJ, conduziu a faixa da associação. “Jamais imaginei que, num espaço de tempo tão curto, já teríamos uma situação de risco à nossa democracia. Estamos regredindo ao invés de progredir”, ponderou. Ela destacou a preocupação da juventude em ser representada por pessoas eleitas democraticamente. “Caminhamos, jovens, adolescentes e idosos, carregando nossos estandartes sob a chuva. Esperamos que o número de pessoas indo às ruas aumente, porque é isso que retrata o desejo de um povo”, completou.

WhatsApp Image 2022 08 15 at 11.46.49Fotos: Fernando SouzaCom coragem e unidade, a UFRJ atendeu ao chamado nacional em defesa da democracia. Na quinta-feira, 11, professores, técnicos e estudantes leram a Carta pela Democracia e cobraram eleições livres em outubro. O movimento encheu o pilotis do CT e foi organizado pela AdUFRJ, Sintufrj, APG e DCE, em sintonia com as manifestações de todo o país.
A Carta foi lida por estudantes, docentes e técnicos. O revezamento entre os leitores se repetiu em todo o país, sob a liderança da Faculdade de Direito da USP, grande idealizadora do movimento. O documento já ultrapassou um milhão de assinaturas.
“Que a leitura da carta da democracia impulsione as forças democráticas no Brasil a fazer mais. Que impulsione todos nós a fazer mais, a colocar a nossa ação e reação à altura do momento histórico que vivemos, afirmou o presidente da AdUFRJ, professor João Torres, na reunião do Consuni que antecedeu a leitura da Carta. “E quem sabe assim teremos nossas universidades florescendo de novo”, completou.
As universidades conhecem bem o valor da democracia, diante do desrespeito sofrido no governo Bolsonaro. “Neste momento, há cerca de 20 universidades onde o reitor eleito não foi empossado”, disse a reitora Denise Pires de Carvalho. “Sabemos que somente através do Estado democrático de direito conseguiremos a nação soberana para as futuras gerações”.WhatsApp Image 2022 08 15 at 11.47.52
São jovens como Natália Trindade, da Associação de Pós-graduandos, que desejam esta nação soberana. “As eleições de outubro serão plebiscitárias. Quem hoje dirige o país acredita que a universidade deva acabar”, avaliou.
Coordenador geral do Sintufrj, Esteban Crescente pediu mobilização. “Não há outro caminho até 2 de outubro que não seja ir para a rua e resistir”.

PRINCÍPIO FUNDAMENTAL
A Faculdade Nacional de Direito, com longo currículo de resistência em defesa das liberdades democráticas, não poderia faltar ao ato da UFRJ. Diretor da unidade, o professor Carlos Bolonha enfatizou que o Estado democrático de direito sequer deveria estar em discussão. “É um princípio fundamental absoluto”.
O dirigente leu uma moção da Congregação da FND com integral apoio à Justiça Eleitoral. “Nesta encruzilhada histórica, esta Faculdade convoca a todas e todos que defendem o Estado Democrático de Direito a lutar pela soberania popular, inibindo, assim, qualquer tentativa de dilapidação das conquistas democráticas do povo brasileiro”, diz o documento.
No 11 de agosto, que é o Dia Nacional dos Estudantes, o DCE da UFRJ também prometeu resistir. “Bolsonaro dá declarações de que não aceitará o resultado das urnas. Ataca o Supremo Tribunal Federal. Articula com militares sua permanência por meio de um golpe. Essa história nós já conhecemos. E nós já conhecemos o que não permitirá que a democracia seja apunhalada: mobilização popular nas ruas para barrar o fascismo”, disse Lucas Peruzzi, coordenador-geral do DCE. “Nossa bandeira carrega o nome de Mário Prata, que decidiu ser resistência nos momentos mais sombrios da nossa história. Hoje honraremos este legado para dizer que não aceitamos o governo da fome e da miséria. Não permitiremos que os golpistas assassinem a nossa democracia”, concluiu.

VICE-REITOR: “NÃO VAMOS FECHAR. DEVEMOS ISSO AO POVO BRASILEIRO”

WhatsApp Image 2022 08 15 at 11.48.14“Nós não vamos fechar, porque devemos isso ao povo brasileiro. Somos uma das luzes que existem na sociedade”, disse o vice-reitor, professor Carlos Frederico Leão Rocha, na reunião especial do Conselho Universitário que antecedeu o ato político de leitura da carta pela democracia. A sessão tinha como ponto único a discussão da grave situação financeira da UFRJ. “Hoje temos cerca de 40% do orçamento que tínhamos em 2012. Estamos no limite do limite”, completou.
O dirigente, docente do Instituto de Economia, criticou o teto de gastos públicos. O dispositivo limita as despesas do Estado, mesmo com o governo batendo recordes de arrecadação. “Nenhum país do mundo em nenhuma situação adotou uma prática como o teto de gastos. É a coisa mais danosa que pode ser feita na história da humanidade. E só foi possível num momento de suspensão da democracia, com um presidente que não foi eleito”, disse em referência ao ex-presidente Michel Temer.
O pró-reitor de Finanças, professor Eduardo Raupp, expôs o caráter inédito da crise atual. “É a primeira vez que temos um corte com o orçamento já em aplicação. Não tivemos como planejar, reduzir contratos. No momento do corte, a UFRJ já tinha 90% do seu orçamento comprometido com fornecedores”, informou. “Só temos cobertura orçamentária até meados do mês que vem”, disse.
O Consuni aprovou uma carta ao MEC, proposta pelas entidades representativas da UFRJ, por unanimidade. O documento reivindica a reconstrução do orçamento da universidade.

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