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08WEB menor1138Acaba de completar 90 anos um dos nomes mais queridos da UFRJ: Edwaldo Machado Cafezeiro. O “Café”, para os íntimos. Emérito, ex-diretor da Letras, estudioso da língua portuguesa e do teatro e um dos idealizadores da AdUFRJ. Com enorme capacidade de aglutinar pessoas, participou ativamente da redemocratização da universidade. Com generosidade e bom humor, emociona todos com quem convive até hoje.
Prova disso é que, mesmo em uma celebração virtual no último fim de semana, cada um em sua casa, conforme as orientações das autoridades de Saúde, o “Café” voltou a dar sabor à vida das pessoas. “O momento mais descontraído dessa pandemia, para mim, foi a comemoração do aniversário do Cafezeiro”, afirma a ouvidora-geral da UFRJ, Cristina Riche.  
A professora conheceu Cafezeiro, nos corredores da antiga Faculdade de Letras, com sede na avenida Chile. Ali, ainda estudante, Cristina começou a acompanhar o professor que era considerado um excelente mestre e comparecia às assembleias comunitárias para discutir os tempos difíceis que o país atravessava, no fim dos anos 70 e início dos 80.
A amizade se estreitou quando se tornou docente, anos depois. A admiração veio junto. “A atuação do Café não está limitada à Faculdade de Letras. Ela se traduz na contribuição para uma universidade inclusiva, a universidade que pretende reconciliar o homem com a sua circunstância. Ou seja, com a natureza, com o meio ambiente, com os outros homens. Ele é um dos artífices da universidade aberta , a universidade de todos e para todos ”, diz.
A busca pela ampliação do acesso à universidade tem relação com a própria biografia, no ponto de vista de Marília Cafezeiro, primogênita do primeiro casamento de Cafezeiro. “Meu pai era de uma família muito pobre do interior da Bahia. Teve que trabalhar desde muito jovem para estudar”, conta.
A dedicação à universidade é integral. No momento, o mestre trabalha em um livro sobre lingüística. Não há espaço para passatempos. Mas o mestre tinha uma mania, abandonada por questões de saúde. “Ele costumava ficar andando de um lado pra outro e fumando charuto, enquanto refletia sobre alguma coisa. Na antiga faculdade de Letras, para encontrar meu pai, numa época que não tinha celular, as pessoas iam pelo faro”, brinca Marília.
Naquele endereço da avenida Chile, o professor Clécio Quesado viveu uma experiência inusitada com o nonagenário mestre. “O Cafezeiro foi meu aluno em 1970. Vinha assistir às minhas aulas de paletó e gravata. Eu tinha 25 anos e ele, 40. À época, eu dava aulas de calça boca de sino, cabelo black power, bolsa a tiracolo, sandália”. Tempos depois, já amigos, ao indagar por que ele se vestia assim no curso, veio o esclarecimento: Cafezeiro precisava se apresentar à Delegacia de Ordem Política e Social (DOPS), toda semana, para responder a processos políticos que acumulava em função da militância no Partido Comunista Brasileiro. “E eu achava que ele era um espião da DOPS na faculdade”, lembra.  
Em 1986, Café assumiu a direção da faculdade. O professor João Baptista Vargens, que fez parte da equipe, usa a palavra “generosidade” para resumir a personalidade de Cafezeiro.  “Nós abrimos as portas da faculdade para grupos afrobrasileiros. Abrigamos pessoas que foram cassadas pela ditadura, como Joel Rufino e Aderbal Freire Filho”, recorda João. “Montamos, em convênio com a prefeitura do Rio, lonas culturais. Nos finais de semana, o pessoal da Maré vinha dançar dentro da universidade”.
A gestão, com uma inegável preocupação social, também brilhou no meio acadêmico. Em 1987, a universidade sediou o congresso internacional “Discurso e Ideologia”, com grandes nomes do mundo das letras, do Brasil e do exterior.
As atividades se espalharam por todo o campus e mobilizaram três mil pessoas.
“A Folha de S. Paulo disse que o Rio voltou para o foco da cultura. E Cafezeiro foi o ‘cabeça’ desse projeto enorme”, relata a professora Christina Motta, que presidiu o evento. “Por causa da posição política e da generosidade pessoal dele, Cafezeiro incluiu todos os departamentos da faculdade em igualdade de condições. Independente do número de docentes, todos tiveram o mesmo espaço no congresso”, conta.
Por pouco, a generosa atuação política de Cafezeiro não chegou à administração central da UFRJ. O mestre candidatou-se a vice-reitor na eleição de 1994. Nelson Souza e Silva, da Faculdade de Medicina, foi o candidato a reitor. “Era um projeto novo de transformação da universidade, para interagir com a sociedade”, diz Nelson.  A chapa saiu na frente no primeiro turno, mas acabou superada ao final do pleito.
A parceria com Café continuou no curso de pós-graduação da Cardiologia. “A idéia do curso é pôr os alunos em contato com outras racionalidades, de várias áreas. O Cafezeiro fala muito sobre o discurso. E por que isso é importante para nós? Porque médico e paciente interagem pela fala e esse entendimento facilita as decisões clínicas.
Por isso, trago professores da área de Letras”, explica o docente da Medicina.
Nelson conta que foi convencido por Cafezeiro a repensar a avaliação que fazia dos alunos. Em vez de atribuir uma nota pela cobrança de um conteúdo, passou a verificar a performance do estudante na universidade, como ele se comporta com os colegas, o que traz de novo para as aulas. “Do ponto de vista pedagógico, o Café é um revolucionário”, observa.  

ATENÇÃO AO ALUNO
O professor Godofredo de Oliveira Neto reforça o cuidado que Cafezeiro defende na relação com o alunado. “Essa concepção de o professor estar a serviço dos alunos é muito importante. Estamos ali graças a eles e por eles. Parece óbvio, mas não é para muitos colegas”, argumenta. Godofredo também valoriza a contribuição de Cafezeiro para a análise da variação lingüística do Português no Brasil. “É um dos grandes estudiosos do tema”.
Além do estudo da variante lingüística brasileira, Cafezeiro domina como poucos a análise da dramaturgia em língua portuguesa. E um fruto dessa linha de pesquisa vai marcar presença nas comemorações do centenário da UFRJ. A professora Carmem Gadelha, casada com ele desde 1988, informa que o livro que escreveram juntos — História do Teatro Brasileiro, de 1996 — será reeditado, online, como parte das festividades da universidade.
De Cafezeiro partiu a semente da criação do curso de Direção Teatral, que funciona na Escola de Comunicação desde 1994. “Ele sempre falava que a UFRJ não podia deixar de ter uma participação na vida teatral do Rio”, diz Carmem. “Aprendi muito com o Café, embora nunca tenha sido aluna dele. Além da formação extraordinária, ele tem uma generosidade intelectual notável. É uma parceria muito prazerosa”.
O intelectual Cafezeiro nunca separou o conhecimento da prática. Quando ocorreu a Revolução Cubana, o jovem Café não pensou duas vezes: partiu para o país caribenho e participou do programa de alfabetização. “Ele me deu de presente uma bandeira com o dístico ‘território livre de analfabetismo’, que guardou por muitos anos. É uma vida rica de experiências, de muitas lutas”.
Outra paixão do professor é a associação docente. “O Café foi um militante muito fervoroso da AdUFRJ”. A professora vai além. “O Café é não só um dos fundadores da Adufrj, mas certamente uma das primeiras pessoas que definiram a idéia de que os professores precisavam ter um organismo representativo”, explica.  A irreverência, outra característica do mestre, também acompanhou esta história. “Houve uma manifestação no Centro em que ele foi coberto de adesivos, enquanto fumava seu charuto, distribuindo panfletos de uma greve”
Atual presidente da AdUFRJ, a professora Eleonora Ziller derrama elogios ao antigo mestre. “Fui aluna dele na Letras, ainda na avenida Chile em 1983. As aulas eram maravilhosas. De um grande estudioso da história da língua portuguesa”, disse. Outros ensinamentos foram compartilhados fora das salas da faculdade: “Ele é um ícone da esquerda na UFRJ. E sempre foi muito generoso, politicamente e academicamente”, afirmou. “Tinha muita tolerância às opiniões diferentes. Aprendi muito com ele e com Samira (Mesquita – ex-decana do Centro de Letras e Artes)”, completou.  
08aWEB menor1138Cercado de carinho por todos os lados, o mestre só tem a agradecer. “Eu me sinto feliz. Sempre me senti”. Questionado se havia algum feito do qual mais se orgulhava nesta longa trajetória política e acadêmica, Café rejeita qualquer personalismo. “Os amigos todos me ajudaram”, conclui.

DEPOIMENTOS

Com o Café comunguei e aprendi sobretudo um conjunto de contumaz persistência e sóbrio humor baiano. Isso aliado à generosidade do mais cristão comunista que já conheci. Em qualquer situação adversa, sempre insistia que tudo iria dar certo e dizia para irmos em frente. Também foi sempre pródigo em se desdobrar no apoio e incentivo a qualquer causa que fosse em prol do crescimento individual e do bem coletivo dentro do seu pleno ideal de liberdade e de democracia. Além de um exemplo de vida, Cafezeiro é, na nossa Universidade, quase uma lenda viva.

Clécio Quesado (Letras/UFRJ)

No próximo ano, 2021, completarei 50 anos no quadro social da UFRJ, como estudante e aluno. Durante esse relativamente longo período, conheci pessoas muito importantes que muito contribuíram para minha formação.  Foram tantas que não consigo enumerá-las.  Entretanto, Edwaldo Machado Cafezeiro, o nosso Café, vem sendo uma figura singular.  Ele me ensinou que o rigor à ciência, o zelo pela administração, o compromisso com o ensino público e de qualidade, a flexibilidade na sala de aula e os sólidos princípios políticos são o único caminho para a tentativa de formarmos pessoas íntegras, capazes de transformar e de tornar a sociedade mais justa. Fiquei muito honrado e feliz por ter sido o escolhido para, na solenidade de sua Emerência, proferir o discurso de saudação. Procuro uma só palavra para traduzir a multiplicidade que é o Café... Encontro-a: GENEROSIDADE.

João Baptista Vargens (Letras/UFRJ)

Conversa do Café, em seu gabinete, com um aluno preconceituoso em todos os quadrantes que gostava de se impor á força nas salas e nos corredores da Letras. O aluno saiu cabisbaixo e mudou completamente o seu comportamento. ( texto que rabisquei, à época, quando trabalhei durante três anos com o Cafezeiro na direção da Faculdade de Letras. Transpus os rabiscos depois para um dos meus romances, com a liberdade poética da ficção ).

Esta Faculdade de Letras  não é lugar para exercer a sua individualidade à custa dos outros. É uma instituição  onde se aprende a ser cidadão, o que significa, justamente, levar em consideração os outros, sempre. É  por aí o caminho para um Brasil mais justo e mais democrático.  A fraternidade e o desejo de conhecimento do mundo dos outros que existem dentro de cada um de nós têm que ser realçados, e não sufocados. Para isso  a escola, para isso a Faculdade de Letras, no nosso caso. Para isso estudar Literatura, Graciliano, Rosa, Machado, Vianinha, Camões,  estudar variação na Língua Portuguesa, Línguas e Literaturas estrangeiras, Letras Clássicas entre outras áreas da nossa Unidade Acadêmica. Sei que você, como aluno, me compreende e conto com a sua ajuda. O saber deve auxiliar na emancipação  e na melhoria da vida da gente como um todo e não servir de instrumento para a dominação de uns sobre os outros. O conhecimento que a Universidade em geral e a Faculdade de Letras em particular  produzem  têm um raio de ação universal e exerce um papel social. A Faculdade de Letras e a UFRJ  tem desde a sua fundação um compromisso social.  O conhecimento é libertação. Libertação da fome, da exclusão, do sofrimento, da injustiça social.  Você como aluno é o receptor e o emissor principal de tudo o que se ensina, pensa e produz aqui.  Conto com você.

Godofredo de Oliveira Neto (Letras/UFRJ)

06WEB menor1138A mobilização da educação e da sociedade resultou numa importante vitória: a aprovação do novo Fundeb (Fundo de Desenvolvimento da Educação Básica) na Câmara dos Deputados. A Proposta de Emenda à Constituição foi aprovada na noite de terça-feira, 21, por 393 votos a 83 – bolsonaristas e parlamentares do Novo foram contra o texto final. Antes disso, eles tentaram retirar da PEC 15/2015 o conceito de custo aluno-qualidade, que define padrões mínimos de investimento por estudante para todo o país.
As principais conquistas do novo Fundeb são a sua constitucionalização, que o torna permanente; a definição do custo aluno-qualidade, como medida de padronização da qualidade das escolas em todos os municípios do país; a indicação mínima de 70% das verbas para pagamentos dos salários de profissionais da ativa; e a mudança no modelo de repartição do dinheiro, que agora será distribuído para estados, mas também para municípios que necessitem do financiamento.
Com  articulação intensa nos bastidores da Câmara e pressão máxima da sociedade civil nas redes sociais, o Fundo foi votado num dia de muitas idas e vindas de reuniões. A sessão foi acompanhada por mais de 400 mil pessoas ao vivo somente pelo Facebook e Youtube da Câmara. Durante a tarde, centrão e governo tentaram obstruir a votação, mas as articulações em torno do projeto e a audiência da sessão unificaram a absoluta maioria dos partidos em torno do relatório apresentado pela deputada Professora Dorinha (DEM-TO). No texto, a parlamentar defendia a aprovação da PEC com apenas uma alteração: a mudança de 40% para 20% de investimentos da União no fundo. Hoje, a participação do governo federal é de apenas 10%.
“Entendemos que diante da dura conjuntura, este foi o consenso possível em torno do relatório da deputada”, explicou a professora Maria Eduarda Quiroga, diretora do Sepe Rio, sindicato dos profissionais de educação do estado. “Apesar de a relatora ser do DEM, o comprometimento dela com a educação é bastante significativo e também fruto da nossa pressão política”, afirmou a dirigente.
O próximo desafio é a aprovação do texto sem modificações no Senado. Maria Eduarda acredita que o principal risco é que os recursos também sejam destinados para instituições privadas, principalmente empresas de educação a distância. “Precisamos nos manter mobilizados e articulados para que o dinheiro seja utilizado integralmente na educação pública”.
O líder do governo na Câmara, deputado federal Major Vitor Hugo (PSL-GO), ao se ver isolado na votação em primeiro turno, chegou a tentar capitalizar para o governo Bolsonaro a aprovação do fundo e se colocou a favor do texto integral na primeira votação. Mas, menos de três horas depois, no segundo turno, apoiou o destaque do Partido Novo pela retirada do custo aluno-qualidade do texto final e indicou o voto de toda a bancada do partido contra o relatório.
A presidente da AdUFRJ, Eleonora Ziller, lembrou que a conquista é resultado de ampla e longa articulação do setor da educação. “Ela não é fruto da pressão que fizemos no dia, mas de uma mobilização de longo curso. É muito simbólico que a gente tenha imposto a primeira grande derrota pública a Bolsonaro no 15 de maio de 2019. Conseguimos uma ampla unidade, pautamos a educação como uma grande questão nacional a ser protegida e defendida”, avaliou.
De lá para cá, a organização dos setores que defendem a educação foi fortalecida. “A gente tem propostas muito objetivas, ideias muito claras e definidas sobre o que é o Fundeb e qual a sua importância para a educação pública. Por isso, conseguimos a unidade necessária em torno do tema e cerramos fileiras”, disse Eleonora. “É claro que há um desmonte violento do atual governo em relação à educação, mas a gente também tem conseguido impor limites por conta desta grande articulação”, defendeu a dirigente.

PARLAMENTARES
COMEMORAM
Deputados de diferentes partidos celebraram a conquista. “É uma imensa vitória da sociedade neste momento histórico tão complexo”, afirmou a deputada federal Margarida Salomão (PT-MG). Ela e seus colegas de parlamento passaram os últimos dias sendo bombardeados com mensagens em todas as redes sociais e nos e-mails pela aprovação do Fundeb. “A aprovação aconteceu não só por conta da qualidade da proposta, mas principalmente pela pressão da sociedade, que foi decisiva contra as manobras do governo de tentar obstruir a votação”.
O deputado federal Alessandro Molon (PSB-RJ) classificou a vitória como “histórica”. Ele destacou como principais ganhos em relação ao atual modelo de financiamento a destinação de verbas para a educação infantil e a isonomia entre as escolas de todo o país. “A educação infantil é um dos grandes desafios do Brasil. É também uma conquista a busca da qualidade da educação e da equidade, que vão nos ajudar a garantir a igualdade de oportunidades no país”.
“Quero saudar os professores, estudantes, profissionais da área e a todos os parlamentares que lutaram com muita energia pela aprovação da PEC 15”, parabenizou a deputada Alice Portugal (PCdoB-BA). “Entendemos que transformar o Fundeb em um instrumento permanente e constitucional é o maior compromisso que podemos demonstrar com o futuro do nosso país”.
Marcelo Freixo, deputado federal pelo PSOL-RJ, repudiou a atuação do governo. O presidente chegou propor a suspensão dos repasses em 2021. “De cada R$ 100 aplicados na Educação, R$ 63 vêm do fundo, que corresponde a mais da metade do orçamento das escolas públicas em nove de cada 10 municípios”, apontou Freixo. “O efeito da proposta do governo seria avassalador para o ensino, milhares de escolas não teriam condições mínimas de funcionamento”, criticou. “A aprovação do Novo Fundeb foi uma vitória da democracia sobre a barbárie. Do futuro sobre o atraso”.

video conference 5167472 640Imagem de Alexandra_Koch por PixabayO Conselho de Representantes da AdUFRJ do dia 16 não esgotou o debate sobre o ensino remoto. Após um longo diálogo com convidados do DCE e da Associação de Pós-graduandos e novos argumentos apresentados por alguns conselheiros, ficou decidido que o tema será retomado em reunião já marcada para o dia 28.
Também contribuiu para a decisão um documento recém-elaborado pela assessoria jurídica do sindicato sobre direitos autorais e de imagem docente em atividades pedagógicas não presenciais. O texto, uma avaliação preliminar, chegou às mãos da diretoria no início da reunião do Conselho, e foi imediatamente compartilhado com os conselheiros. Os docentes solicitaram mais tempo para ler o material. “Já estamos trabalhando na organização de uma reunião exclusivamente com um especialista em direito autoral”, acrescentou a presidente da AdUFRJ, professora Eleonora Ziller.
Uma das observações da assessoria jurídica é que os docentes informem aos alunos, por exemplo, sobre a permissão ou não de reprodução de suas aulas.
A proibição colide com uma demanda estudantil. Representante do DCE , Lili Anjos enfatizou o posicionamento da entidade de que o ensino remoto tenha “marcos mínimos”. Um deles é a solicitação de que os professores gravem as aulas e disponibilizem o conteúdo para quem não puder participar das atividades em tempo real. Lili deu exemplos de colegas que moram com muitas pessoas e que precisam dividir o único computador da residência. “Sabemos que muitos não vão conseguir assistir às aulas no horário fixado”, completou.
Igor Alves, pela APG, informou que uma pesquisa realizada com quase 100% dos pós-graduandos da UFRJ revelou a vontade da maioria pela volta às aulas em ambiente virtual. A APG defende a criação de uma comissão de acompanhamento do ensino remoto para verificar se os direitos dos colegas estão sendo respeitados. “Precisamos avançar para não deixar ninguém para trás”, concluiu.
Durante o debate do conselho, vários professores manifestaram receio que a não participação no ensino remoto, mesmo opcional, se torne uma “armadilha”, diante do momento político de ataque às universidades. Outros estão preocupados com a contagem do tempo de serviço e a avaliação para progressão na carreira.
Estes elementos e muitos outros debatidos nas reuniões realizadas no dia 13 com diversas áreas da universidade serão incorporados ao documento que a diretoria apresentou na edição anterior do Jornal da AdUFRJ. A presidente Eleonora Ziller fez uma avaliação bastante positiva da plenária do início da semana:  “Um total de 113 professores participou do processo. Isso é importante. Há uma vontade de discutir “, afirmou.

ASSEMBLEIA
O Andes convocou um conselho das seções sindicais (Conad) extraordinário para debater a prorrogação do mandato da diretoria nacional — a pandemia causou a suspensão do processo eleitoral que ocorreria este ano. O Conad ocorre nos dias 30 a 31 de julho.  
A diretoria da AdUFRJ estuda a melhor forma de realizar sua primeira assembleia virtual para eleger os representantes ao evento. Os encontros virtuais promovidos até agora na quarentena, como o Conselho de Representantes, não exigiam uma votação formal dos sindicalizados. Uma proposta de organização será enviada para avaliação dos representantes do CR na segunda, 20. A assembleia ficou marcada para o dia 27.

Liz Mota Almeida e Silvana Sá

04WEB menor1138Uma das atividades organizadas pela AdUFRJ no Festival do Conhecimento foi mediada pela professora Christine Ruta, vice-presidente da associação, no dia 23. O debate discutiu as inseguranças jurídicas que afligem professores que precisarão começar a dar aulas remotas a partir de agosto. “A educação não pode parar. Mas estamos preparados para esse mundo virtual? Como viver melhor a experiência da educação nesse contexto?”, questionou a dirigente.
Para dirimir dúvidas jurídicas sobre o uso dessas ferramentas e meios de proteção dos professores, a advogada Fernanda Vick levantou algumas reflexões sobre o ensino remoto. A primeira coisa a reconhecer, segundo a especialista, é que questões coletivas ficam prejudicadas quando solucionadas no âmbito individual. “Não se trata apenas de falar do direito de imagem do professor, ou da produção e reprodução de seu conteúdo, do que ele produz de material didático e pedagógico. É parte de um conflito muito maior”, pontuou.
A advogada acredita que o diálogo e acordos prévios entre instituição, professores e estudantes são o melhor caminho para minimizar problemas de mau uso de aulas e materiais produzidos pelos docentes. “É preciso informar aos estudantes sobre os direitos. A educação para esta forma de interação remota faz parte também do direito à informação”, defendeu. Ela advertiu que a reprodução da gravação de aulas precisa de autorização prévia dos professores.
Sobre direitos autorais, Fernanda Vick reconheceu que embora sejam patrimoniais, num aspecto, eles têm também um aspecto moral. “São direitos fundamentais e que os professores das instituições públicas podem argumentar, sim, sem receio”, garantiu. Mas ressaltou que o principal risco em relação aos alunos ou terceiros é que o material fornecido pelos professores seja usado para fins difamatórios ou ganhos financeiros. “Relacionar esses direitos e deveres jurídicos de forma clara, com linguagem acessível, pode evitar a maior parte dos conflitos jurídicos. Todo esse processo valeria ser colocado no papel, descrito para os estudante em detalhes, para que os alunos entendam o que pode e o que não pode”.
A jornalista e mestranda em Ciências Sociais, Jamila Venturini, procurou responder sobre o que significa a migração de grandes instituições de ensino e pesquisa para plataformas virtuais. Ela coordena a ONG Derechos Digitales, que atua na defesa e promoção dos Direitos Humanos na internet. Plataformas comerciais de ensino remoto, ela explicou, usam o modelo de negócios que se alimenta da coleta de dados dos usuários. “Quanto mais dados essas empresas possuem, mais elas podem treinar os seus sistemas para fazer previsões de comportamento mais precisas e capazes de vender produtos. Por outro lado, elas também dispõem de grande quantidade de dados para inovação, ou seja, para desenvolver novos sistemas”, disse.
O incentivo ao uso dessas ferramentas – e da própria internet – gera lucro. “Qualquer bit de dados, mesmo que ele seja aparentemente trivial, tem um valor potencial para as empresas”, afirmou a pesquisadora. Para ela, plataformas digitais impõem “certo modelo de ensino e aprendizagem”, o que interfere, necessariamente, na liberdade dos professores. “Caso a instituição imponha uma determinada plataforma, isto pode afrontar a liberdade de cátedra dos docentes”, alertou.
Há algumas ferramentas e materiais para ajudar os professores a se protegerem neste cenário de interações virtuais. Um deles é o Manual de Defesa das Escolas, que aborda estratégias político-pedagógicas e jurídicas para os professores e instituições se defenderem de acusações que firam sua imagem. O documento pode ser acessado em: www.manualdedefesadasescolas.org. Já o site educacaovigiada.org.br apresenta uma discussão sobre a exposição de instituições, professores e alunos às plataformas de ensino e traz recomendações de uso desses sistemas. Também a UFRJ elaborou um documento com orientações gerais para o ensino remoto, que pode ser acessado em: https://conexao.ufrj.br/wp-content/uploads/sites/6/2020/07/guia-ERE.pdf.

7aWEB menor1137Como o racismo se manifesta na história da Ciência e o que pesquisadores negros fazem para combater esta realidade? As questões alimentaram o debate “Ciência e tecnologia em afroperspectiva”, o primeiro organizado pela AdUFRJ durante o Festival do Conhecimento, no dia 15. O diretor Felipe Rosa fez a mediação do encontro.
“Quando me percebi mulher, negra e cientista, fui buscar referências que se assemelhassem a mim”, contou Eliade Lima, professora da Unipampa e doutora em astrofísica. A busca, porém, revelou-se infrutífera. “Os meus referenciais estão voltados apenas para o continente europeu e para as descobertas europeias. Se me pedirem o nome de uma mulher negra na Astronomia antiga, não saberia dizer”, lamentou.
O racismo epistêmico, como Eliade explicou, fez com que a Astronomia surgisse como Ciência apenas quando os europeus decidiram observar o céu. “Quais são os referenciais de grandes astrofísicos e astrônomos? Rapidamente, lembro de Tycho Brahe (1546-1601), Newton (1642-1727), Galileu Galilei (1564-1642)… Estou falando de homens brancos europeus”, disse. “Como se o povo do continente africano não observasse o céu”, criticou.
Bernardo Oliveira, professor de Filosofia da Educação da UFRJ, apresentou as contribuições de Cheikh Anta Diop (1923-1986) para o tema. Diop foi um historiador, antropólogo, físico e político senegalês que estudou as origens da raça humana e cultura africana pré-colonial. Usou os conhecimentos ocidentais para reconfigurar o panorama histórico em que as conquistas civilizatórias são atribuídas apenas ao homem branco. “A Ciência não cansou de afirmar sua pretensa origem branca. O racismo científico é apenas uma expressão dessa crença”, disse Bernardo.
O professor Antônio Carlos, do Instituto de Física da UFRJ, levou para a mesa as teorias do psiquiatra e filósofo francês Frantz Fanon (1925-1961).“Fanon argumenta que a pessoa negra se submete a vestir ‘máscaras brancas’, como estratégia de convivência e sobrevivência de suas relações sociais”, disse. “A simulação dos padrões brancos de comportamento cria doenças psíquicas, como, por exemplo, o sentido de inferiorização”, completou.

AdUFRJ NO FESTIVAL
A AdUFRJ organiza mais duas mesas no festival: “A pandemia e a participação das mulheres na produção acadêmica e na vida política das universidades”, dia 20, às 9h; e “Aulas remotas em tempos de fakes e as inseguranças jurídicas para a prática docente, dia 23, às 17h.

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