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Ana Alexandrino/DivulgaçãoO cenário político brasileiro pós-primeiro turno traz diagnósticos complexos e desafios inéditos para as forças democráticas. Para compreender as dinâmicas eleitorais que reconfiguraram o Congresso Nacional e desenham a disputa do segundo turno, o Jornal da ADUFRJ entrevistou o cientista político Jairo Nicolau, autor de “O Brasil nas Urnas” e “O que é o Bolsonarismo” e uma das maiores referências no estudo do sistema partidário e do comportamento eleitoral no país. Na entrevista exclusiva, o docente reflete sobre o crescimento expressivo do Partido Liberal (PL) e defende a necessidade de a esquerda construir alianças estratégicas para enfrentar uma força política que já se estruturou de forma duradoura no país. “A esquerda precisa pensar o que vai fazer na próxima eleição. Vamos fazer uma federação para derrotar o bolsonarismo? É preciso ter responsabilidade eleitoral”.

Jornal da ADUFRJ - Em suas análises recentes, o senhor destaca as transformações do sistema partidário brasileiro. Diante dos números do primeiro turno, qual o principal diagnóstico?
Jairo Nicolau – Uma eleição geral envolve muitas decisões. Nessa, o eleitor precisou tomar seis decisões que levaram a uma reconfiguração da Câmara, do Senado com certo alinhamento a um candidato. Um candidato que sai com a maior votação do campo da direita da nossa história recente. O PL é o vitorioso, sem dúvidas, se tornou o maior partido do Brasil. É um fenômeno expressivo.

Como o senhor interpreta o peso dos ausentes no resultado do primeiro turno? Eles podem reconfigurar o cenário no segundo turno?
Numa eleição tão disputada, qualquer pequeno detalhe pode fazer grande diferença. Os dois candidatos estão fazendo esforços para reduzir a abstenção. E há uma mobilização no segundo turno que eu não via na esquerda desde 1989. Essa é uma dimensão nova dessa campanha, com certa similaridade com 2013: muitos jovens, convocações por redes sociais e descentralização dessas convocações. Não dá para saber do impacto dessas manifestações sobre o voto, mas criam uma onda na opinião pública.

No contexto deste segundo turno, o senhor acredita que os debates televisivos ainda podem atingir o eleitor indeciso?
Independentemente do tema tratado e do desempenho dos debatedores, o debate é importante. Vamos conhecer o Flávio, ver como ele ataca, saber suas propostas, no domingo. Eu, que fui professor dele na Escola de Governo (da FGV), não o conheço. Essa vai ser a grande novidade do segundo turno: poder conhecer o Flávio Bolsonaro.

Ele vinha, antes de iniciar a propaganda eleitoral, trabalhando a ideia de “o mais moderado dos Bolsonaros”, mas com interlocutores, muda essa postura. Qual sua análise?
Eu acho que a campanha dele foi muito moderada, se compararmos com a do pai. Foi uma campanha controlada, de estufa. Vamos vê-lo “fora da estufa” no debate.

Qual é o peso estratégico dos confrontos diretos na televisão nesta fase final da campanha?
O debate tem essa função de convencer o eleitor de centro ou indeciso. Há uma franja que busca o debate para formar sua opinião. E esse debate é diferente: nós vamos ter um político muito conhecido e um completamente desconhecido. A performance do Flávio pode tirar votos dele ou reafirmar os votos.

Como o senhor avalia a questão da migração dos outros candidatos para Flávio e para Lula?
O eleitor brasileiro não é cem por cento ideológico, no sentido doutrinário. A maioria das pessoas não se move por mais Estado ou menos Estado. Muitas não sabem bem o que é esquerda e direita. A Quest do 1º turno já apontava um cenário de maior migração para o Flávio, mas é um eleitor instável. Precisamos lembrar que Alckmin perdeu mais de 2 milhões de votos entre o primeiro e o segundo turno, em 2006. Flávio na frente não significa que ele vai ganhar a eleição. A gente nunca teve o Flávio no debate. Vamos ver os efeitos disso. A gente nunca teve uma campanha assim com tanta ênfase para reduzir a abstenção. Vamos ver os efeitos disso. A gente nunca teve uma campanha com tantos atos de rua. Vamos ver os efeitos disso.

Qual a identidade do PL?
O partido de direita do Brasil é o PL. Há frações antidemocráticas na direita brasileira, mas não são majoritárias. O PL não é exclusivamente um partido fascista. O PL tem uma natureza da pequena política brasileira. Tem muito dinheiro, o político tem mais visibilidade, conta com a máquina de prefeituras e governos. É uma megamáquina muito consistente, muito forte. O PL depende do Bolsonaro, mas o Bolsonaro também depende hoje do PL.

E o que dizer dos eleitores da família Bolsonaro?
Os brasileiros que votam nos Bolsonaro não são todos antidemocráticos. Então, é preciso ter cuidado, porque colocar todo mundo no mesmo balaio é não entender o fenômeno.

O bolsonarismo já se estruturou como força política duradoura no Brasil?
Sem dúvidas. O PL é potência, virá com candidatos fortes para as capitais em dois anos. A esquerda precisa pensar o que vai fazer na próxima eleição. Vamos fazer uma federação para derrotar o bolsonarismo? Vamos nos aliar mais às forças de centro? É preciso pensar qual é o adversário. Aqui no Rio de Janeiro, o PL foi subestimado. O RJ inventou o Bolsonaro, inventou a família, e esse movimento foi subestimado na eleição para o governo. É preciso ter responsabilidade eleitoral. O Douglas Ruas era um candidato de segunda linha e venceu as eleições.

Foto: Fernando Souza‘Mais do que nunca aquela expressão ‘a esperança venceu o medo’ é fundamental. A gente precisa fazer com que a esperança vença o medo”, afirmou a presidenta da ADUFRJ, professora Ligia Bahia, na mesa redonda do dia 8 em que debateu com o professor e também diretor do sindicato Michel Gherman sobre os resultados do primeiro turno e as estratégias para derrotar a extrema direita. “Na nossa primeira reunião de diretoria depois do primeiro turno, nós decidimos que entramos no modo de resistência. Ou seja, nós já estamos resistindo. Essa reunião de hoje é um ato de resistência”, completou.
“É preciso chamar todos para a disputa contra um retrocesso civilizatório que a gente não tem noção do que vai ser. É preciso ter o coração aberto para vencer essa eleição”, conclamou Michel Gherman, no encontro realizado no auditório Manoel Maurício de Albuquerque, no campus da Praia Vermelha. “É preciso entender que o debate é, sim, contra o fascismo. E de todas as extremas direitas no mundo hoje, quiçá com exceção da extrema direita alemã, a AfD (o partido Alternativa para a Alemanha), a que mais se parece com o nazismo é a brasileira”, completou.
Na avaliação do docente, parte do eleitorado bolsonarista é mobilizada por uma gramática fascista, que substitui o debate racional por uma lógica baseada essencialmente no medo, no ressentimento, e na ameaça constante. “Eles acreditam profundamente que há pessoas controlando o sistema e eles reagem, resistem a esse sistema. Nós temos que parar de falar de negacionismo”, afirmou Gherman. “O debate é conspiração. Eles acreditam numa conspiração. Isso está qualificando o debate da extrema direita: o Lula faz parte da conspiração, os professores de história fazem parte da conspiração, vacina tem a ver com conspiração”, disse.
Para o docente, a resposta dos setores progressistas não pode se limitar à defesa das instituições existentes. É preciso recuperar a capacidade de imaginar transformações sociais, valorizar as políticas de inclusão e apresentar um projeto de futuro que se contraponha à nostalgia de um passado idealizado pelos adversários. “É preciso falar sobre o futuro. Um elemento fundamental da gramática fascista é que o fascismo se estabelece a partir de um projeto de passado”, contou.
O professor argumentou que a democratização do acesso às universidades é um exemplo que pode ser utilizado na disputa da sociedade. “Eu estudei em uma universidade em que não havia pessoas que não morassem nos bairros que eu morava e que não tivessem a minha cor. E dou aula em uma universidade absolutamente diferente da que eu estudei. Estou falando de 25 anos de diferença”, afirmou.
“A inclusão produzida num país baseado na exclusão na sua perspectiva mais radical produziu ódio de certa elite. Esse ódio da elite pela inclusão do outro deve ser acionado. Nós temos que dizer: ‘O ódio deles é contra vocês’. Nós temos que investir na esperança, na inclusão, na possibilidade de um país colorido, livre, dentro da universidade”, observou Gherman. “O fascismo se disputa com desejo, não com ideologia”.

ESPERANÇA
O papel dos pesquisadores, argumentou a presidenta da ADUFRJ, é fundamental nessa resistência. “A nossa tarefa é compreender esse mundão que nós vivemos e, se possível, também transformar esse mundão que a gente vive para melhor”, acrescentou.
Ligia enfatizou o que está em jogo. “Nós estamos sob ataque. Vocês viram que o programa do Flávio Bolsonaro é de corte de recursos públicos. O programa do Bolsonaro é de transferência das universidades federais para o Ministério da Ciência e Tecnologia. Isso está dito no programa. Isso está explicitado no programa. Há uma intenção clara de considerar que as universidades públicas produzem um conhecimento que não interessa”.

BARBÁRIE
Alguns professores da plateia também compartilharam a preocupação com o momento atual. Entre eles, Luiz Carlos Prado, do Instituto de Economia, contou que dá aula de história econômica do século XX. “Semana passada, ao falar da Grande Depressão dos anos 1930, estava revendo toda a questão da ascensão do fascismo naquele período. Gostaria de dividir com vocês uma angústia, porque há muita semelhança com o momento que nós vivemos atualmente. Claro que há elementos diferentes porque o tempo é outro, mas o fenômeno é o mesmo”.
O professor alertou que a ameaça atual alcança a própria instituição universitária. “Nós estamos sob ameaça. O governo militar que eu vivi nos perseguiu, perseguiu cursos, perseguiu pessoas, mas não perseguiu a instituição universidade. Nós estamos de frente não com um governo de direita, mas com a ameaça da barbárie”.

Vai ter festa do Dia do Professor junto da campanha de apoio à reeleição do presidente Lula. A diretoria da ADUFRJ anunciou ao Conselho de Representantes desta terça-feira que fará uma comemoração no dia 16, à noite, no Clube dos Macacos, no Jardim Botânico. Será a Festa da Esperança. “Temos que ter alegria para vencer a extrema direita”, afirmou a presidenta do sindicato, professora Ligia Bahia. “Precisamos que nos ajudem a divulgar. Não precisa ser professor filiado à ADUFRJ para participar”, completou. Em breve, serão divulgados mais detalhes em nossas redes.

Às vésperas de completar um ano de gestão, a diretoria da ADUFRJ também apresentou ao Conselho de Representantes um breve balanço das atividades realizadas até aqui. Debates com o chanceler Celso Amorim, com o historiador Omer Bartov e com Frei Betto, a inédita colônia de férias, a participação na Rede Universitária Segurança para todos e o processo de construção da sede própria foram alguns dos destaques. “Trabalhamos bastante e conseguimos levar adiante esse conjunto de atividades”, disse Ligia.

Uma das iniciativas, de visitas às unidades para ouvir as demandas dos colegas, terá continuidade. O Conselho de Representantes já aprovou as próximas datas e locais: 27 de outubro, no IFCS; 11 de novembro, no Centro Multidisciplinar de Macaé; 23 de novembro, na Escola de Serviço Social; e 14 de dezembro, no Instituto de Psicologia.

A direção falou ao CR ainda sobre a recente assinatura de contrato com a FioSaúde, um plano de assistência médica dos servidores da Fiocruz administrado no modelo de autogestão (sem fins lucrativos). Os professores poderão aderir ao novo plano, que cobra valores abaixo da média do mercado, a partir de 19 de outubro. Haverá plantões de atendimento para tirar dúvidas dos filiados também a partir do dia 19.

Primeiro ecólogo formado no Brasil, cientista brilhante, dono de uma invejável capacidade de articulação política, colega generoso e fundador do Instituto de Biodiversidade e Sustentabilidade em Macaé (NUPEM), o professor Francisco de Assis Esteves recebeu o título de emérito da UFRJ, na tarde de ontem, em uma concorrida cerimônia realizada no Auditório Quinhentão do Centro de Ciências da Saúde.

Irrequieto como sempre, Chico – como é conhecido pelos mais próximos – anunciou que não vai reduzir suas atividades nesta nova fase da vida, ainda mais diante do delicado momento político do país. “Pertenço a uma comunidade chamada ‘Sonhadores Contumazes’. Quem está lá? Filósofos, poetas e pescadores. Nós amamos o que fazemos e não paramos de trabalhar até partir”, disse o agora primeiro docente emérito do Nupem.

“Principalmente nesse momento da universidade pública, que está sofrendo tantos ataques, não é a hora de tirar o corpo fora. Sou filho da Minerva e o filho da Minerva não corre da raia. O filho da Minerva vai enfrentar os desafios”, afirmou. “É a hora de me dedicar ainda mais à nossa Universidade Federal do Rio de Janeiro. Vou trabalhar mais ainda para que nós possamos ajudar a sociedade no caminho de uma sociedade mais equânime economicamente, socialmente e ambientalmente”.

O reitor Roberto Medronho encerrou a cerimônia, reforçando os diversos predicados de Chico Esteves. “Estamos homenageando alguém que soube transformar conhecimento em instituição, ciência em preservação, pesquisa em desenvolvimento regional e sonho em universidade pública presente no território”, disse.

“Homenageamos também o homem simples, o amigo leal, o companheiro de Rosa, o pai de Bruna e Lívia, o avô apaixonado de Tom, Luíza, Maria Eduarda e Joaquim. O professor que continua ensinando, mesmo quando está simplesmente passeando com os seus netos”, completou.

A diretoria da ADUFRJ se reuniu com professores de diferentes unidades, com representantes da Pró-reitoria de Pessoal (PR-4) e com integrantes da Comissão Permanente de Pessoal Docente nesta quarta-feira (23) para tratar de temas ligados à carreira e às condições de trabalho como progressões, insalubridade e reenquadramento de aposentados.

Cerca de 40 docentes participaram da atividade. O superintendente-geral da PR-4, Rafael Pereira, avaliou o encontro como muito positivo e sugeriu que outras ações semelhantes sejam realizadas. “Foi um momento muito profícuo. É muito importante diminuir o distanciamento entre o servidor e a PR-4. Quanto mais informação correta for disseminada, menos processos mal instruídos vão chegar para nós”, analisou. “Isso encurta as tramitações e beneficia a todos”.

Para a presidenta da ADUFRJ, professora Ligia Bahia, a reunião marca um novo momento do sindicato. “A reunião foi muito importante porque inaugura um ciclo de diálogos da ADUFRJ com a administração da universidade. Foi uma reunião muito rica, que traz desdobramentos para a vida concreta dos professores”, disse Ligia. Um deles, defender junto ao Ministério da Gestão e Inovação em Serviços Públicos o reenquadramento de docentes aposentados de Adjunto 4 para Associado 4. Esses docentes foram prejudicados com a criação da classe de Associado, pois deixaram de estar no último degrau da carreira antes da classe de Titular e viram seu pode aquisitivo derreter ao longo dos anos.

Veja nos cards abaixo as principais orientações da PR-4 (clique em cada imagem e abra em uma nova guia para ampliar):


Foto: Ernesto Carriço

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