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Foto: Alessandro CostaRELAÇÃO COM A ESCRITA
Minha relação com a palavra escrita começou muito antes de propriamente escrever. Comecei esse encantamento através da música. Venho de uma família muito musical. Meu avô era músico, tenho uma irmã pianista, meu pai tinha uma formação muito erudita e conhecia muito de música.
Tive o imenso privilégio de tudo o que quis fazer, quando criança e adolescente, meu pai e minha mãe tornarem possível.
Venho de uma família de seis filhos. Não se tinha orçamento folgado. Mas quando quis fazer música, por exemplo, meu pai deu jeito de me dar um violão. Deu jeito de me pagar aula de um professor que ia em casa para que eu estudasse. Depois, quis fazer pintura e ele deu jeito de comprar as telas. Isso foi muito importante na minha história de vida.

CARREIRA
Quando fui fazer minha escolha profissional, meu pai, que deu força para o violão, para a pintura, para a capoeira – fiz mais de sete anos de capoeira –, disse: “E agora, minha filha, o que vai ser? O que você vai estudar?”. E eu fui para a Matemática. Não fui à toa. Meu pai era matemático, meus irmãos eram todos da área de exatas e eu tinha muita facilidade com matemática, muito gosto. E isso na minha casa era lúdico. A gente competia entre irmãos quem ia resolver primeiro um determinado problema que meu pai passava para a gente.
Por coincidência, entrei na universidade federal na mesma época em que passei em uma seleção do Oswaldo Montenegro. Ele viajava pelos estados e montava espetáculos com artistas locais. Descobriu a Cássia Eller, a Zélia Duncan. Fui uma dessas pessoas que passei para ser parte desse elenco quando a montagem aconteceu em Belo Horizonte.
Logo de cara, vi que eu não ia bancar aquela rotina, de passar o dia inteiro na universidade e, depois, de noite, ensaiar. Abri mão da arte.
Não podia dar certo.
Estava muito triste na Matemática. Comecei a ficar horas naquela linguagem paralela da Matemática e parei de compor. Comecei a ficar sem assunto.
Larguei a Matemática, fui para a área de comunicação.

FASE PUBLICITÁRIA
Fiz a universidade federal, me formei em publicidade, jornalismo e relações públicas, depois fiz uma pós-graduação em marketing e, com 22 anos, abri minha agência junto com duas sócias. Tinha absolutamente tudo para dar errado.
Não tínhamos experiência, não tínhamos passado por agência, éramos mulheres em um mercado absolutamente masculino, não tínhamos pais ricos, no sentido de bem relacionados, que pudessem nos indicar empresas, clientes.
Mas a gente tinha uma coisa muito especial. A universidade na época estava com um pensamento muito à frente do mercado. E nós saímos da universidade com uma visão de integração da comunicação, que foi muito importante.
Abrimos uma agência de comunicação em uma época em que as agências do mercado estavam preocupadas só em fazer publicidade e a gente chegou com uma visão de comunicação muito mais larga. E trabalhamos muito.
O fato é que a Lápis Raro, onde fiquei 40 anos como diretora de criação, foi uma agência que se tornou uma das mais importantes de Minas Gerais e do Brasil. E nessa agência tive a oportunidade de experimentar todas as linguagens artísticas. Usei tudo que tinha, tudo que tinha experimentado, com essa coisa de pintar e de observar, a coisa da música e a coisa da escrita.
Mas chegou certa altura, já estava há 30 anos na agência, comecei a ficar triste de novo. E a tristeza é um grande toque que a gente recebe da vida, que é como se dissesse para a gente: “Olha, presta atenção que está na hora de mudar alguma coisa”. Comecei a chegar em casa e escrever muito despretensiosamente.

INÍCIO COMO ESCRITORA
Comecei a escrever e comecei a adorar aquilo que eu estava escrevendo. O publicitário é muito bom com as linguagens artísticas. Sabe de design, sabe de artes plásticas, escreve muito bem, sabe de roteiro, de cinema, de fotografia. Mas não é arte. E não é arte porque não tem espaço para subjetividades.
Na hora que estava livre para escrever o que eu queria escrever, porque eu não tinha que responder a um desafio de mercado, encontrei uma linguagem que começou a me interessar muito. Comecei a escrever uma história sem pretensão nenhuma de que virasse livro. Ou sem saber se ia virar conto ou sem saber se ia parar na gaveta.
E aí eu escrevi a cena central de “Tudo é Rio”. Foi tão violenta para mim que me paralisou por 14 anos (Nota da Redação, com spoiler: no trecho, um homem agride a esposa e o filho recém-nascido). É assim que começou.

POR QUE VOLTOU?
Quando paralisei, não era mãe ainda. Acho que um dos motivos por que parei é que estava planejando ser mãe e aquela cena foi tão violenta que não tinha recursos para lidar com um problema que tinha proposto.
Hoje penso que um dos motivos para ter voltado foi ter ido ao Festival de Publicidade de Cannes em uma época de muita tecnologia, começando a lidar com esse universo. Todas as palestras eram com muita trilha, muito som, muito vídeo, edição nervosa. E, de repente, entra uma poeta americana, chamada Sarah Kay. Só ela. Com um cabelo assim igual ao meu, cacheado. Um fachinho de luz, um microfone, um vestidinho de Macabéa. Entra ali e começa a falar um poema. E não teve nada naquele festival que provocasse uma conexão maior do que o que ela estava fazendo no meio daquele palco. Eu percebi assim a força de uma história bem contada, a força do poético e a força de uma mulher.
Voltei para “Tudo é Rio” e escrevi o livro em oito meses, obstinadamente.
É um livro sem contenção nenhuma. É um livro em que, muitas vezes, eu precisei do poético para dar conta de olhar o lugar que eu estava olhando, para dar conta daquela violência, porque é isso que a linguagem faz.
É como se ela mediasse, como se tornasse possível a gente dar conta, às vezes, de situações muito difíceis, muito violentas, muito reveladoras da nossa condição humana assim, das nossas potências de bem e de mal.
Quando terminei, falei: “Eu não tenho mais nada para escrever nessa vida”.
MUDANÇAS
Mas passou um tempo e eu tinha achado a experiência tão incrível que comecei a ouvir uma certa voz. Comecei a perceber que não queria fazer absolutamente nada parecido com “Tudo é Rio”. Queria que a “Natureza da Mordida” fosse completamente diferente, queria outra linguagem.
Era uma narradora que era uma mulher muito fera e com uma formação muito consistente em literatura. Uma psicanalista mais velha, demenciando. Ou seja, não tinha nada intuitivo para mim.
Depois, veio “Véspera”. Eu também queria encontrar outro desafio de forma, outro desafio de alguma coisa que me envolvesse.
O envolvimento tem um pouco de ir além de um desafio de aprendizado. Precisa conter uma certa peleja. Se eu não tiver isso no processo, não vou me interessar. Em “Véspera”, tive que colocar uma energia muito forte no estudo da Bíblia, de entender o mito de Caim e Abel, de repensar esse mito dentro de uma lógica que fizesse sentido para mim, talvez porque meu pai tenha sido religioso.
Ele largou a vida religiosa, se casou com minha mãe e eu sempre senti uma atmosfera, na minha casa, de uma fé difícil. Porque a fé te pede para acreditar sem prova, é o dogma. Você tem que acreditar. E a matemática te pede para provar tudo. Esse conflito de fundamento, vindo do jeito que ele pensava a vida, gerou uma atmosfera assim de silêncio. Que eu acho que me influenciou muito, porque estou sempre às voltas com as questões da fé.
As questões de onde a gente vem, para onde a gente vai. É só a matéria? Como é a questão da espiritualidade? Como eu, uma mãe de dois filhos, vivendo em um país violento como esse nosso, vou viver sem rezar? Não dá.
O ÚLTIMO LIVRO
Comecei a viver uma sequência de lutos.
Perdi minha mãe, perdi meu psicanalista e, de repente, minha sócia teve um diagnóstico de câncer de pâncreas. Nós éramos muito amigas.
Então, essa sócia adoeceu e ela começou um processo de quimioterapia muito pesado. Um dia fui visitá-la. E saí de lá completamente arrasada. E nesse dia, cheguei em casa, abri o meu computador e comecei a escrever. Como? Muito caoticamente. Percebi que queria a linguagem da polifonia.
“Quando” veio assim, caoticamente, com uma linguagem diferente e foi muito bom, foi muito importante porque essa linguagem que me colocou salivante, atenta, ali envolvida. Ela fez com que eu desse conta da minha realidade naquele momento.
Que passasse por ela, sem me desviar, sem negar o que estava acontecendo, mas com recursos para lidar, porque eu tinha para onde ir. E eu ia para o livro e ali, e por mais difícil que estivesse, eu tinha minhas horinhas de felicidade.
Embora “Quando” tenha tudo isso, a coisa difícil da maternidade, ele tem a linguagem lúdica, tem o humor, tem a linguagem que permite olhar para aquilo que é terrível. Porque sem a mediação da linguagem, eu acho que a gente vai pirar.

BARTHES
Enquanto fazia “Quando”, estava lendo o livro do Roland Barthes, Diário de Luto. Ele escreveu fragmentos do luto da perda de sua mãe. E “Quando” começou assim. Eram fragmentos.
O Barthes fala uma coisa que, de uma maneira, está em “Quando”, que o luto é uma coisa que vai se espaçando, mas, quando vem, é como se tivesse impacto. É impressionante a força dessa ideia.
Acho que “Quando” trabalha um pouco essa perspectiva, inclusive da culpa por se distrair. Como que minha mãe morreu e eu agora já estou aqui e já estou há dias sendo feliz, me distraindo, me divertindo? Tem um componente de culpa nisso, que eu acho que foi no livro.

BARBÁRIE
Estive no programa da Globonews, ontem à noite (dia 20). Cheguei lá, estava vendo esse episódio do menino em Copacabana, que foi morto a pauladas. Como que a gente tolera isso? Como que, no dia seguinte, tudo funciona, como se nada tivesse acontecido?
Porque a gente não para, dá um murro na mesa e fala: “Vamos recombinar porque não está dando certo”. Essa é uma questão que “Quando” traz: por que nós não estamos aprendendo coletivamente?
Por que que a gente está tão tolerante com a desigualdade, com a violência, com a guerra?

INSPIRAÇÃO
Acho que há uma riqueza de possibilidades. Porque muitas pessoas têm esse conceito do sopro, uma coisa soprada. Não acho que seja nesse lugar. Mas acho que tem um mistério.
Eu tinha um eixo de “Quando” que, durante muito tempo chamei de memória, reminiscência, lembrança e não estava satisfeita com aquilo. Estava procurando uma palavra tinha três anos. De repente, eu encontro. Eu encontrei uma palavra chamada “engrama”.
Engrama é um traço no sistema nervoso, um traço na matéria humana, provocado por uma experiência intensa. Fiquei muito impressionada de achar essa palavra.
No final dos agradecimentos de “Quando”, digo o seguinte: “Obrigada à força mágica e sincrônica da literatura que não me deixa faltar o poema na hora em que estou pronta para ele”.

CRIATIVIDADE
Dei aula na universidade federal de redação publicitária. Uma pergunta que estava sempre em questão é se a criatividade é uma coisa de nascença, se a gente nasce criativo. Ou se a gente pode se tornar criativo e como é essa relação de ter os insights.
A imaginação não está no nada, ela não está no vácuo, ela é fruto das suas vivências, sempre será. A gente pode imaginar até um certo ponto. A imaginação tem uma conversa com a experiência, com a vivência, com a vida, com o que você lê, com o que você vive. Isso é muito importante para quem quer escrever. O ouvido escutar eu acho que é a chave.
Eu lembro que vi uma entrevista da Rosa Montero (escritora espanhola) em que falou que estava com uma ideia e de repente, ela faz uma espécie de escaleta, que ela fala: “O capítulo tal vai ter tal coisa, o capítulo tal vai ter tal coisa”. Não existe a possibilidade de eu fazer isso.
A criatividade é sempre resolução de problema. Se você não toma uma provocação, se você não tem pergunta, não tem criatividade. Pode não ser uma pergunta com interrogação no final, mas tem alguma provocação, tem alguma perturbação.
A gente precisa de palavra para pensar, sem linguagem não tem pensamento. Não tem uma fórmula, mas tem uma disponibilidade. Nem que você faça exercícios como escrever sem tirar o lápis do papel, escrever o que vier. Esse exercício é excelente para o dia que você está travado.

UNIVERSIDADE
Meu pai era professor de Matemática da universidade federal. Eu também fui professora de Redação Publicitária. Tenho muito gosto de vir à universidade sempre que posso.
A universidade é uma bênção, gente. Eu cheguei aqui e falei que está sucateado porque o prédio está. Mas é uma bênção. É uma coisa maravilhosa, uma coisa pela qual a gente tem que lutar.
Queria agradecer vocês a presença aqui. Dizer que eu fiquei muito feliz de ter vindo e dizer do meu do meu respeito, do meu amor pela universidade pública do Brasil.

FASCISMO
Minhas histórias são atravessadas pela questão da maternidade, pela questão das famílias, pela questão da violência. Elas me colocam assim diante das coisas mais intensas. Fiquei muito impressionada com a força de um corpo completamente desorganizado com os hormônios da maternidade. É de uma força inacreditável.
A gente acha que está tudo aqui, que tem uma coisa que está no nosso controle que a gente sabe pensar, mas é esse corpo que sente. É na linguagem que a gente oferece um pouco de coerência para esse corpo.
E que ajuda esse corpo a se equilibrar. Por isso, a psicanálise é tão importante, por isso a linguagem, a literatura, a música, a arte, são coisas tão importantes para a humanidade. Porque elas dão conta de uma sutileza, elas dão conta de um abstrato.
Outro dia estava vendo uma pessoa falar que o fascismo é o ódio ao abstrato. Não tolerar o sutil, o amor, o delicado, aquilo que não pode ser provado, mas que está aqui. A gente sabe. Porque tem uma coisa anterior à palavra

Fotos: Alessandro CostaAna Beatriz Magno e Kelvin Melo

Carla Madeira não resistiu. Colocou o ouvido atrás da porta do auditório da Faculdade de Letras e tentou escutar o burburinho da plateia. Era grande. Dezenas de alunos esperavam a escritora com a ansiedade de quem aguarda um mestre. “Que coisa linda. Que universidade maravilhosa. Que prédio incrível. São todos estudantes de Letras?”, perguntou a escritora, já com os olhos debruçados sobre a fresta da porta.
Todas as cadeiras estavam ocupadas naquela tarde de 21 de agosto, sexta-feira, dia improvável de superlotação no Fundão. Mas Carla, 61 anos, conhece o improvável desde pequenina. A escritora mais lida do país não cursou Letras nem começou cedo na literatura.
“Entrei na Faculdade para fazer matemática e seguir a profissão do meu pai. Antes eu queria ser música. Publiquei meu primeiro livro com 50 anos”, contou, segundos antes de ser recebida pelo público, a maioria estudantes, mas também alguns professores. “Estou muito feliz. Sou professora aposentada e fiz questão de vir até aqui e me sentar na primeira fila”, comemorou Maria Eugênia Lammoglia Duarte, docente titular da Letras. “Trouxe todos os seus livros e quero autógrafos”, disse Maria Eugênia.

A HISTÓRIA
Carla começou contando sua história e misturando sua vida com a dos personagens dos quatro livros que publicou nos últimos 12 anos, todos recheados de protagonistas feridos, de famílias atravessadas por silêncios e amores que parecem caminhar perigosamente perto do abismo.
Nascida em Belo Horizonte, em 18 de outubro de 1964, Carla cresceu numa família em que ciência e sensibilidade conviviam à mesa e teciam duas maneiras muito diferentes de compreender o mundo. De um lado estava o pai, matemático, professor, homem dos números e do pensamento organizado. Do outro, a mãe, que estudara pouco, mas enxergava poesia onde talvez ninguém mais enxergasse.
Os irmãos seguiram majoritariamente o território das exatas. A mãe, ao contrário, “mal completou o primário”, mas era, na memória da filha, uma artista intuitiva: olhava as nuvens, fazia poesia, criava os filhos cantando. “Eram duas energias tão fortes para mim”, recordou a escritora.
“Tive o imenso privilégio de tudo o que quis fazer, quando criança e adolescente, meu pai e minha mãe tornarem possível. Venho de uma família de seis filhos. Não tinha orçamento folgado. Mas quando quis estudar música, por exemplo, meu pai deu jeito de me dar um violão. Desde menina, eu procuro uma linguagem”, explica, sempre passeando entre a história e o conceito, entre a estrutura e o assombro, entre aquilo que pode ser demonstrado e aquilo que apenas pode ser sentido. Para ela, escrever, pintar ou fazer música são variações de uma mesma necessidade: modos de estar no mundo.
O modo aluna de matemática durou pouco. Carla abandonou o curso e formou-se em Jornalismo e Publicidade pela UFMG, onde mais tarde lecionou redação publicitária. Aqui, outro atalho improvável. Carla foi publicitária de sucesso, tornando-se sócia e diretora de criação da agência Lápis Raro, uma das maiores de Minas.
“O publicitário escreve sob demanda. Ele é muito bom com as linguagens artísticas, sabe de artes, design, escreve muito bem, mas não faz arte. Publicidade não é arte porque não tem espaço para subjetividade”, comparou a mulher que pisou na literatura para desopilar uma crise com a profissão. “Eu adorava minha agência, mas estava triste com o cotidiano. Comecei a escrever para esquecer a tristeza. A tristeza é um recado do corpo”, resume.
O recado veio pelas frestas, de noite, escrevendo uma história sem saber que se transformaria em livro. O nascimento de Tudo é Rio é quase tão improvável quanto seu sucesso posterior. Por volta de 2000, Carla escreveu uma cena de violência extrema: um pai, tomado pelo ciúme, atira o próprio bebê contra uma parede. A cena a perturbou de tal maneira que ela simplesmente não conseguiu continuar.


MATERNIDADE
O manuscrito ficou parado durante 14 anos. “Quando paralisei, não era mãe ainda. Acho que um dos motivos de por que parei é que estava planejando ser mãe e aquela cena foi tão violenta que não tinha recursos para lidar com o problema que eu tinha proposto”, contou.
Quando finalmente voltou à história, o que estava represado pareceu romper a barragem. Carla terminou o romance rapidamente, num processo que descreveu como um “jorro”. Não havia contrato, adiantamento editorial ou plano de carreira literária. Havia apenas a necessidade de escrever. “Escrevi por diletantismo, gosto, gozo, vontade de me entregar a uma coisa que me envolvia”, disse.
Tudo é Rio apareceu discretamente em 2014, por uma pequena editora. A primeira tiragem foi de apenas 700 exemplares. Depois vieram mil, três mil, dez mil. Um leitor entregava o livro a outro, numa espécie de correnteza movida pela força da frase.
Em 2021, a Record assumiu o livro, o relançou nacionalmente, e aquele fenômeno artesanal ganhou escala industrial. Distribuição, livrarias e redes sociais fizeram o resto. Carla tornou-se naquele ano a segunda escritora mais lida do Brasil. Em 2023, chegou ao topo: vendeu cerca de 240 mil exemplares no ano e tornou-se a autora brasileira mais vendida no país.
Somados, seus quatro livros contabilizam 1,397 milhão de exemplares vendidos, número que a transforma na autora mais lida do país. “Vender 1,4 milhão de livros é algo raro para a literatura, mas ainda muito pouco para um Brasil com mais de 200 milhões de pessoas”, lamenta.
O sucesso de Carla não significa unanimidade. Desde a publicação de Tudo é Rio, ela convive com o fascínio dos leitores pela intensidade de sua escrita e com críticos que consideram sua obra comercial. O professor e crítico Luís Augusto Fischer viu em Tudo é Rio personagens próximos de “tipos”, com pouca densidade psicológica, e identificou na trama estratégias do folhetim e certo “tempero de fábula”. Modesta, a autora responde com serenidade. “Peço um nova chance. Que me leiam de novo”.


QUANDO
A mais recente história de Carla — o romance Quando, lançado em agosto — nasceu de uma sequência de lutos vividos pela autora. “Perdi minha mãe, perdi meu psicanalista e, de repente, minha sócia teve um diagnóstico de câncer de pâncreas. Nós éramos muito mais que amigas. Nossas filhas nasceram no mesmo dia”, disse.
“Escrevi para sobreviver ao luto”, diz a autora que, na página 268 de seu novo romance, deixa pistas da profundidade de sua cicatriz: “Comparar dores é sempre cruel”, escreve a mãe de dois filhos, e leitora voraz de clássicos e autores contemporâneos.
As leituras de Carla ajudam a desenhar outro mapa de sua formação. Ela se reconhece numa tradição em que a linguagem não é apenas veículo da história, mas acontecimento. Clarice Lispector, Guimarães Rosa e Gabriel García Márquez aparecem entre suas referências literárias, ao lado de autores contemporâneos que continua descobrindo como leitora. Em agosto deste ano, contou estar lendo Os Supridores, de José Falero: “Estou adorando, achando maravilhoso”. Ela mantém uma rotina de leitura que desmente qualquer acomodação provocada pelo sucesso: recentemente integrou um grupo para enfrentar coletivamente a Odisseia e, na sequência, A divina comédia.

PAULADAS
É significativo que uma escritora associada à emoção desmedida seja uma leitora interessada tanto nos clássicos quanto nas vozes brasileiras de agora. Sua obra também vive dessa tensão. “Minhas histórias são atravessadas pela questão da maternidade, pela questão das famílias, pela questão da violência”.
A violência captura a autora nos livros e na vida. Num dos momentos mais emocionantes da palestra, Carla fez um desabafo. Numa rara mistura de doçura e indignação, falou sobre a cena que não saía de sua mente desde véspera. A imagem de um jovem morto a pauladas em Copacabana.
“Como a gente tolera uma morte a pauladas? Como no dia seguinte, tudo funciona, como se nada tivesse acontecido?
Por que a gente não para, dá um murro na mesa e fala: “Vamos recombinar porque não está dando certo”. Por que nós não estamos aprendendo coletivamente?
Por que a gente está tão tolerante com a desigualdade, com a violência, com a guerra?”.
Em resposta a tanta violência, a autora receita a psicanálise, a literatura, a música, a arte. “Porque elas dão conta de uma sutileza, elas dão conta de um abstrato. Outro dia estava vendo uma pessoa falar que o fascismo é o ódio ao abstrato. Não tolerar o sutil, o amor, o delicado, aquilo que não pode ser provado, mas que está aqui. A gente sabe”.

UNIVERSIDADE
A mulher que ultrapassou um milhão de livros vendidos começou a escrever ficção sem saber se seria publicada e publicou sem imaginar que viveria dela. Hoje, diante da dimensão que sua obra alcançou, procura outra medida. “O envolvimento tem um pouco de ir além de um desafio de aprendizado. Precisa conter uma certa peleja. Se eu não tiver isso no processo, não vou me interessar”, contou.
“Existe uma ideia mercadológica de sucesso, que é o livro vender”, disse no lançamento de Quando, na livraria Travessa, no Leblon, em 26 de agosto. “Mas tem um outro tipo de sucesso de muito mais interesse para mim agora: o sentimento de amadurecer como autora”.
Esse amadurecimento que oscila entre escutar e falar, entre observar e interpretar, ficou evidente nos quase 120 minutos de palestra na Faculdade de Letras, um dos maiores cursos da UFRJ, porém um dos mais castigados pela precariedade das instalações.
Ao final, Carla, emocionada, agradeceu profundamente o encontro e enfatizou a importância de se defender a universidade pública num ano eleitoral como 2026. “Eu cheguei aqui e falei que o prédio está sucateado, porque o prédio está. Mas é uma bênção. É uma coisa maravilhosa, uma coisa pela qual a gente tem que lutar”, ensinou.

Confira AQUI alguns trechos da palestra.

LIVROS

TUDO É RIO

Editora: Quixote+Do (edição original); Record (edição atual)
Ano: 2014 — relançado pela Record em 2021

Romance de estreia de Carla Madeira e o livro que a transformou em fenômeno editorial. A trama acompanha Dalva e Venâncio, um casal cuja vida é devastada por um ato brutal provocado pelo ciúme dele. A história ganha um terceiro vértice com Lucy, prostituta desejada por Venâncio. Amor, sexo, violência, perda, culpa e perdão se misturam numa narrativa de forte carga poética. O rio do título funciona também como metáfora para aquilo que passa, transborda e, apesar de tudo, continua.

 

A NATUREZA
DA MORDIDA

Editora: Quixote+Do (edição original);
Record (edição atual)
Ano: 2018 — edição
Record em 2022

O encontro entre Biá, uma psicanalista aposentada, e Olívia, uma jovem jornalista, dá início a uma amizade construída a partir da escuta e das feridas que cada uma carrega. Aos poucos, as conversas revelam histórias de abandono, desejo, culpa e perdas. Carla alterna a narrativa de Olívia com os fragmentos da memória cada vez menos confiável de Biá. O romance é também uma reflexão sobre aquilo que lembramos, aquilo que esquecemos e as histórias que contamos a nós mesmos. E coloca no centro uma das obsessões literárias da autora: a difícil relação entre amor e perdão.

VÉSPERA

Editora: Record
Ano: 2021

O romance começa com uma cena-limite: Vedina, arrasada por um casamento sem amor, abandona o filho na rua durante um momento de descontrole. Arrependida quase imediatamente, volta para buscá-lo — mas ele desapareceu. A partir daí, Carla reconstrói a história da família, incluindo os gêmeos Caim e Abel e as trajetórias de Vedina e Veneza. O livro avança em dois movimentos temporais, mostrando o antes e o depois do abandono. É uma história sobre maternidade, rejeição, vínculos familiares e sobre como um único gesto pode reorganizar uma vida inteira.

QUANDO

Editora: Record
Ano: 2026

O recém-lançado quarto romance leva Carla Madeira ao Brasil dos anos 1980. No centro está Viridiana, mãe de Margarida, Valquíria e Tito, que, diante de uma tragédia, toma uma decisão extrema: denuncia o próprio filho à polícia. Mãe e filho passam vinte anos sem se encontrar. A partir dessa ruptura, Carla investiga maternidade, culpa, homofobia, violência e a possibilidade — ou impossibilidade — de reparação. Mais uma vez, a autora coloca os afetos diante de situações moralmente desconfortáveis, recusando respostas simples sobre culpa e perdão. O livro foi lançado pela Record em 14 de
agosto de 2026.

 

Estudantes convidaram autora ‘na cara e na coragem’

A visita de Carla Madeira à Faculdade de Letras foi fruto do esforço de um coletivo estudantil da unidade, o Gabinete de Escritores Machado de Assis. Criado em 2023, o grupo discute processo criativo, mercado editorial, divulga textos dos colegas e organiza debates com autores já conhecidos.
A negociação para trazer à UFRJ a escritora mais lida do país, que durou entre quatro e cinco meses, surpreendeu pela simplicidade. “Fomos atrás muito na cara e na coragem. Conseguimos o e-mail da agente literária dela, que foi muito solícita”, explicou Leonardo Iaccovazzo, um dos coordenadores do Gabinete e estudante do 12º período de Licenciatura em Português e Literatura.
“Como não temos nenhum apoio financeiro, tivemos que esperar a oportunidade em que ela estaria no Rio, que foi para o lançamento do novo livro. Passamos esses meses conversando sobre data, formato, tempo que ela poderia ficar. Foi um processo muito simples até. A Carla foi um doce com todos nós”, completou Leonardo.
Também integrante do Gabinete e estudante de Letras-Literatura, no 8º período, Isabella Oliveira ficou responsável pela mediação do encontro com a escritora. “Estava nervosa, mas muito feliz. Ela foi muito receptiva com as perguntas. E isso me ajudou muito a acalmar, naquele momento”, disse.
Antes de Carla, o Gabinete já havia conseguido levar para a faculdade nomes como Igor Pires, Stefano Volp, Ariani Castelo e Iris Figueiredo, nos últimos dois semestres. E vem mais debate bom sobre literatura por aí. “A gente está organizando, mas não podemos falar quem ainda, porque ainda não temos confirmação”, contou Isabella.

 

 

A Diretoria da ADUFRJ vem acompanhando atentamente os eventos ocorridos nas dependências da Universidade, no prédio do IFCS na noite de 25/08. Desde então, envidamos esforços para colaborar com as instituições envolvidas, sejam as da sociedade civil, sejam as que reúnem dirigentes da UFRJ.  Desde o primeiro momento, embora preocupados com a proliferação de interpretações divergentes sobre as responsabilidades em relação a agressões físicas impostas coletivamente a um estudante, nos posicionamos contra o uso de qualquer modalidade de coação, provocação, agressão verbal, lesão.

Condutas eventualmente criminosas – como agressões físicas ou apologia ao nazismo –  devem ser tratadas institucionalmente: acionando as autoridades responsáveis pela apuração e punição, sempre garantindo o devido processo legal e o direito de defesa. Para todos!

Estamos contribuindo para que as instituições universitárias sejam devidamente acionadas para investigar os acontecimentos, identificar as responsabilidades e aplicar as medidas cabíveis.

Colocamo-nos à disposição para apoiar objetivamente os professores das instituições envolvidas, sejam os que atuam como professores, sejam os que simultaneamente estão à frente de chefias, coordenações, direções de unidades e da administração da UFRJ.  Consideramos necessário elaborar e/ou aprimorar protocolos de conduta para casos de agressões e manifestações criminosas, a fim de desestimular gestos e ações que desrespeitem a legislação e as normas de convivência na UFRJ.

No contexto eleitoral em curso, as universidades públicas estão sendo profundamente questionadas por forças políticas negacionistas e reacionárias. No passado tivemos estudantes e professores assassinados e torturados. Mais recentemente, durante o governo de extrema-direita, houve processos e perseguições contra estudantes e professores. 

Estamos às vésperas de eleições decisivas para presidente, governadores e congresso nacional. Ao contrário da eleição anterior, não há, nesta eleição, questionamento do modelo de votação oficial, nem organização de um golpe de Estado por parte do governo central. Embora sob pressão, inclusive internacional, o Brasil reorganizou suas instituições públicas, entre as quais as universidades, ainda que com muitas insuficiências e falhas estruturais.

É hora de participar e demonstrar a relevância da formação de cidadãs e cidadãos para o futuro. É hora de produzir conhecimento para garantir a justiça, combater a violência e reduzir as desigualdades. É hora de solidariedade e efetivação de garantias de direitos.  Seguimos em busca das melhores evidências e experiências, duvidando de quem supõe ter encontrado a verdade. Continuamos comprometidos com a defesa da Universidade pública, gratuita e de qualidade, aberta a todas as pessoas! 

Rio de Janeiro, 31 de agosto de 2026

Andrea Parente
Daniel Negreiros Conceição
Ligia Bahia
Luisa Ketzer
Maria Tereza Leopardi
Michel Gherman
Pedro Lagerblad 

A reitoria lança no dia 31 de agosto um edital de apoio à infraestrutura de laboratórios. Serão distribuídos R$ 8 milhões: metade para o eixo I, dos laboratórios didáticos de graduação e metade para o eixo II, dos laboratórios de pesquisa. O anúncio foi feito na manhã desta terça-feira, durante uma plenária de decanos e diretores.
As propostas para o eixo I devem estar voltadas para a inovação pedagógica e ampliação da pesquisa na formação de recursos humanos. “Tem que ter um caráter de pesquisa. Não pode ser apenas uma reforma de laboratório didático. Deve ser, por exemplo, uma reforma de laboratório para apoio à pesquisa, mesmo que seja usado por alunos da graduação”, afirmou a chefe de gabinete da reitoria, professora Fabiana Fonseca, citando a iniciação científica ou pesquisa de práticas novas para modernização curricular.
Neste caso, as propostas deverão ser submetidas pelo diretor de unidade, diretor adjunto de graduação ou coordenador do curso. Será admitido apenas um projeto por unidade.
Para o eixo II, dos laboratórios de pesquisa, o objetivo é o fortalecimento científico e tecnológico e a capacidade de inovação. Aqui, qualquer professor vinculado a um laboratório cadastrado na pró-reitoria de Pós-Graduação e Pesquisa poderá submeter proposta.
O edital será financiado com receitas CIP (custos indiretos de projeto), uma contrapartida das pesquisas de empresas, majoritariamente do setor de petróleo, que utilizam infraestrutura da universidade.
Haverá duas faixas de propostas: uma comportará solicitações de até R$ 140 mil, para os dois eixos; outra, exclusiva para o eixo II, até R$ 300 mil, será voltada para os laboratórios multiusuários. Espaços já apoiados por receitas CIP em outros contratos não poderão participar do edital.
Equipamentos científicos, softwares ou pequenas reformas para instalação de equipamento poderão ser financiados, entre outros itens. Pagamento de pessoal ou obras de grande porte não serão permitidos.
As inscrições serão até 20 de setembro, com resultado preliminar saindo na primeira semana de novembro, com o prazo de mais cinco dias para recursos.
 
Foto: Fernando Souza/Arquivo ADUFRJ
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