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Diretoria da AdUFRJ

WhatsApp Image 2021 03 26 at 21.54.37Nenhum texto essa semana poderia começar sem a constatação da marca macabra de 300 mil mortes causadas pela covid-19 no Brasil. São mães, pais, filhos, cônjuges, avós que jamais voltarão para os braços de seus entes queridos, uma multidão que transformaria em cidades fantasmas mais de 98% dos municípios brasileiros. Uma tragédia. No entanto, um ano depois das primeiras suspensões das atividades presenciais, não dá mais para evitar o diagnóstico do mal que nos acomete. Não foi incompetência, ou falta de recursos. Não foi uma “fatalidade”, apenas. Houve ridicularização do uso de máscaras. Houve ataque às nações que produzem vacina. Houve dolo. E não tem outro nome para quem colabora para a disseminação de uma doença assassina: quem faz isso é genocida.


Não estamos acostumados a esse tipo de governantes. Então é normal que a denominação possa causar algum desconforto. Genocídio, afinal, é coisa muito séria, e ninguém quer diminuir as horríveis matanças que macularam a humanidade ao fazermos comparações levianas com tal e qual posicionamento político com o qual não concordamos. Mas é preciso reconhecer que agora é diferente. Desde a redemocratização, fomos governados à direita e à esquerda, e muito embora a violência urbana e rural tenha sido um grave problema nesse período, nunca houve esse impulso de morte que caracteriza o governo Bolsonaro. A celebração de miliciano condenado, o desejo de mandar a “petralhada” para a “ponta da praia”, a exaltação de um infame torturador, tudo isso faz parte de uma paixão pela violência que, pelo menos demonstrada de forma tão explícita, é inédita. Quando, portanto, esse ímpeto belicoso encontra um vírus letal como o Sars-Cov-2, produzem-se as cenas deploráveis que vimos na nossa temporada de terror: “Não sou coveiro”, foi a resposta a 2.500 mortes. “E daí?”, quando chegamos a 5 mil. Ao passarmos de 90 mil fomos saudados com “Tá com medo de quê? Enfrenta!”, e, aos 160 mil mortos, recebemos “Tem que deixar de ser um país de maricas!”. Ou seja, temos um presidente que claramente não liga se teremos dez, mil, ou um milhão de mortos.WhatsApp Image 2021 03 26 at 20.23.16

Bom, poderia se argumentar aqui que temos apenas uma retórica do ódio, curada para saciar a sua base mais fiel (o que também é assustador), mas que as ações do governo não refletiriam as palavras do mandatário. Pois bem, hoje temos indicações consistentes – ver, por exemplo, o 10º Boletim Direitos na Pandemia, editado pelo CEPEDISA/FSP/USP – que as normas e atos do governo federal tinham por objetivo propagar o vírus o mais eficientemente possível, para que a economia (?) pudesse voltar ao normal (??) o mais rápido possível. Ou seja, temos um presidente que despreza a vida, cercado de subalternos que estão dispostos a fazer o trabalho sujo para que a pandemia no Brasil desapareça o mais rápido possível, mesmo que seja por um massacre a caminho da imunidade de rebanho sem vacina.

Felipe Neto estava certo.

Silvana Sá
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Abrir turmas, receber os inscritos, preparar e dar aulas, seminários, estar atento aos estudantes, responder dúvidas, corrigir trabalhos, provas, exercícios, lançar nota, orientar… tarefas comuns à rotina dos professores, mas que foram dificultadas na pandemia. As relações entre docentes e alunos da UFRJ passaram a ser mediadas, desde agosto, por uma tela. Se, por um lado, não havia mais como permanecer com aulas suspensas, por outro, o retorno presencial continua impensável.

Uma das razões é o gigantismo da universidade. Não é exagero considerar que a UFRJ é uma cidade. São 4.218 docentes e cerca de 65 mil estudantes de graduação e de pós-graduação. Além de 9.153 técnicos-administrativos. Para efeitos de comparação, dos 92 municípios do Rio, 59 têm populações menores do que o somatório de alunos, docentes e técnicos da instituição. “O ensino remoto foi o jeito possível de retomar as aulas”, defende o professor Jorge Moraes, do curso de Farmácia de Macaé. “Mas não há como comparar com o presencial. A gente sabe pelo olhar do aluno quando ele está entendendo, quando não está entendendo, quando está disperso. A gente não tem esse feedback na aula virtual”, avalia o professor.

Para ele, um dos grandes impactos das aulas on line é a perda da interação social. “Nós estamos acostumados a lidar com gente, não com tela. É muito cansativo. Eu considero importante respirar o ar acadêmico”, destaca o professor. Dar aulas em casa, com dois filhos, é outro desafio. “Tem variáveis que são impossíveis de controlar”.

O ensino remoto pode ser desafiador até para quem pesquisa o tema. “Não teria como pensar que, neste contexto que estamos vivendo, esta seria uma experiência tranquila”, revela Miriam Struchiner, professora Titular do Instituto Nutes de Educação em Ciências e Saúde. Coordenadora do Laboratório de Tecnologias Cognitivas, ela trabalha há 30 anos com tecnologias educacionais e foi grande defensora do retorno das aulas em meio remoto. “Era mais que uma questão curricular, era uma preocupação humana. A gente nunca iria saber como estavam nossos alunos sem realizar atividades didáticas com eles”, acredita a docente.

Durante o PLE, ela atuou na graduação. “Fiquei muito surpreendida com a adesão dos alunos. Acho que eles estavam precisando desse contato. Foi um acolhimento mútuo muito importante para nossas relações e para a aprendizagem”, avalia. Em paralelo, também dava aulas na pós. “Tive que me repensar toda, de forma que os alunos fossem protagonistas”, afirma. O aprendizado foi positivo. “Quero levar essas experiências para repensar a prática no ensino presencial”.

Além das aulas da graduação, da pós-graduação, da coordenação do laboratório, das pesquisas em andamento, a docente passou a ser convidada para lives e palestras sobre sua área de estudo: as tecnologias associadas ao ensino. “Foi muito gratificante acompanhar esse processo. Mas, ao mesmo tempo, trabalhar on line cansa muito mais. Falar com a tela do computador é muito mais desgastante. A extensão do horário de trabalho ao longo de um dia aumentou muito com a pandemia, não só pelas aulas, mas porque houve muito mais demandas”.

Se o ensino remoto já traz desafios para quem atua com jovens adultos, para professores da educação básica, as dificuldades são ainda maiores. “O primeiro sentimento foi um certo desespero”, relembra a professora Caroline Trapp de Queiroz, que dá aulas para o 5º ano do Colégio de Aplicação. “Uma série de dúvidas passou pela nossa cabeça. Desde as questões mais operacionais, até dúvidas conceituais. Como trabalhar a materialidade das coisas? Antes pegávamos, víamos as coisas, montávamos. E agora vemos tudo chapado no 2D da tela”, observa a professora.

Suas turmas são compostas por crianças de dez anos – que ilustram as páginas desta edição – e dar aulas sem ver o que elas estão fazendo é uma limitação. “Não temos como saber como a criança está escrevendo, nem conseguimos acompanhar como a criança está montando uma conta. Muita coisa do processo de aprendizagem fica pelo caminho”, lamenta. “Ainda assim, manter as aulas remotas é a decisão mais acertada”.

Caroline é substituta do CAp. Seu contrato se encerra em abril, no final do ano letivo de 2020. Ela concilia dois trabalhos. Em outra escola, atua de forma presencial. “O medo é uma constante”, lamenta. A escola onde trabalha é de elite e tem rígidos protocolos de segurança. “Ainda assim, é muito difícil controlar as crianças. Nossa cultura é a do toque, do afeto”. Para chegar ao trabalho, ela usa transporte coletivo. “A gente não tem um governo que entende que precisa auxiliar as pessoas num momento em que a taxa de desemprego está enorme e o custo de vida está caríssimo. Você se arrisca porque precisa”.

Ana Beatriz Magno, Alexandre Medeiros e André Hippertt
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Enfrentar a pandemia é viver no desterro de um Brasil sem rumo. É uma espécie de exílio que nos aparta da vida real, da lida de carne e osso, e nos joga num continente de medo e horror. Professores e alunos da UFRJ estão desterrados desde 16 de março do ano passado, quando a universidade suspendeu as aulas presenciais e a terra do conhecimento se transformou num exaustivo mosaico virtual e luminoso que se acende a cada aula, a cada reunião, a cada telejornal com os números e notícias da tragédia brasileira.

Incansáveis, professores e alunos da maior universidade do Brasil se desdobram para transformar a angústia em compromisso e Ciência. Nos últimos 12 meses, centenas de docentes, estudantes e técnicos aceleraram pesquisas para ajudar no combate ao coronavírus, produziram milhares de litros de álcool em gel, criaram um sistema ágil de testagem e teceram uma potente rede de solidariedade interna e externa.

“A gente sente uma responsabilidade de fazer tudo o melhor e o mais rápido possível para contribuir no enfrentamento da pandemia, com a consciência de que não podemos parar”, conta a professora Leda Castilho, do Laboratório de Engenharia de Cultivos Celulares da Coppe, uma das responsáveis pela pesquisa do soro anti-covid, feito com base em plasma equino, notícia alvissareira  no tratamento da doença.  “Nos últimos 12 meses, o único dia em que não trabalhei foi em 1º de janeiro”.
Em respeito ao compromisso dos 4.198 professores, 9.200 técnicos e 65 mil alunos da UFRJ com a Ciência, a Educação e a Cultura, o Jornal da AdUFRJ preparou uma edição especial sobre os desafios impostos à comunidade acadêmica desde março de 2020. São 18 páginas, intercaladas com vigorosos depoimentos de professores e ilustradas com desenhos de alunos do 5º ano do Colégio de Aplicação. Também recuperamos os principais fatos ocorridos no país e na UFRJ no último ano, homenageamos os mortos, celebramos a esperança estampada no rosto de cada um dos vacinados e reverenciamos o trabalho dos profissionais que estão salvando vidas nos hospitais da universidade.

“Sabemos da pressão no sistema de saúde. Entramos na guerra porque sabíamos que a guerra chegaria até nós, mas também por entender o nosso papel social”, conta Rosana Lopes Cardoso, diretora médica adjunta do Hospital Universitário Clementino Fraga Filho. “O papel do hospital público é atender a população”.
Com quase 3 mil mortes diárias e com uma cobertura vacinal ainda pífia, o Brasil entra no 13º mês de pandemia com o quarto ministro da saúde, e cada vez mais exige uma agenda firme de resistência ao genocida de plantão. “A pandemia nos tirou da rua e nos jogou em um arremedo de vida, uma vida virtual. A pandemia exigiu fortalecer as novas formas de luta e sindicalismo que defendemos desde 2015 na AdUFRJ”, resume a presidente do sindicato, professora Eleonora Ziller. “Não vamos desistir”.

Como ensinam as crianças em seus desenhos — espécie de oásis de delicadeza em tempos de brutalidade —, a vitória da esperança sobre a dor também depende de cada um de nós, de nossa empatia, resiliência, do uso de máscara, do distanciamento social e da valorização da Ciência, temas tão caros para a comunidade da UFRJ.
“A UFRJ suspendeu as atividades presenciais não essenciais para proteger o corpo social e ajudar a diminuir a transmissão da covid-19”, explica a reitora, professora Denise Pires de Carvalho, primeira mulher a ocupar a reitoria, e que jamais imaginou passar mais da metade de seu mandato numa universidade desterrada de si mesma. “Os números estão muito graves. Não há como voltar agora. Temos de ter responsabilidade e reafirmar a importância da Ciência. Essa é a forma de construir a verdadeira sociedade do conhecimento, formada por pessoas com mais empatia e respeito ao outro e ao meio ambiente”.

Respeito e empatia traduzem a história do professor emérito da Letras, Edwaldo Cafezeiro, que, aos 90 anos de idade, comemora com a alegria de menino suas duas doses de imunização. “Me vacinei. Me senti muito bem, aliviado. Eu recomendo que todas as pessoas tomem a vacina para que tenhamos segurança e para que essa doença acabe logo”. Com o mesmo espírito de Cafezeiro, desejamos saúde, vacina já e boa leitura.

Lucas Abreu
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Apandemia colocou a Ciência no centro das discussões da sociedade. O desenvolvimento científico é a maior arma para enfrentar a covid-19, e a rotina dos pesquisadores foi alterada em todos os campos do conhecimento. Quem lida diretamente com pesquisas ligadas ao combate à doença se viu diante de desafios urgentes, mas outras áreas de pesquisa também foram afetadas, seja por demandas da sociedade e até pelo isolamento social, que mudou o fluxo de trabalho. Todos têm em comum o cansaço nesse um ano de trabalho incessante e confinamento.

“Por uma razão boa, que é o fato de as pesquisas estarem dando certo e encontrando aplicações práticas, a carga de trabalho é imensa”, desabafou a professora Leda Castilho, do Laboratório de Engenharia de Cultivos Celulares da Coppe. As pesquisas em questão são a produção em escala piloto da proteína que recobre a superfície do vírus e seu uso no desenvolvimento de testes sorológicos e de uma vacina contra o coronavírus. Além disso, a proteína também tem sido usada pelo Instituto Vital Brazil para desenvolver um soro equino para combater a covid-19. “A gente sente uma responsabilidade de fazer tudo o melhor e o mais rápido possível para contribuir no enfrentamento da pandemia, com a consciência de que não podemos parar”, contou a professora, que disse tirar daí a força para uma densa rotina de trabalho: “Nos últimos 12 meses, o único dia em que não trabalhei foi em 1º de janeiro”.

Leda Castilho explicou que mudar o foco do seu trabalho para o coronavírus não foi tão complicado. “O que estamos fazendo é muito semelhante ao que já fazíamos para proteínas de outros vírus  e para outras proteínas que são usadas como medicamentos”, contou a professora. “O meu laboratório trabalha para desenvolver essas tecnologias”. A sequência com que as pesquisas aconteceram foi uma resposta às demandas mais urgentes. “No começo da pandemia, a primeira emergência era ter testes, então passamos a produzir a proteína e a trabalhar junto com o professor André Vale, da Biofísica, para desenvolver o teste S-UFRJ”, contou a professora.

A pandemia exigiu o melhor da Ciência em todas as suas áreas. Guilherme Horta Travassos é professor do Programa de Engenharia de Sistemas e Computação da Coppe, e faz parte do GT Coronavírus da UFRJ desde o primeiro momento. Sua principal colaboração foi a criação do covidímetro, ferramenta utilizada para monitorar a pandemia no Rio de Janeiro. “Eu sempre estive envolvido com a solução de problemas, mas nunca de um problema tão insano quanto essa pandemia”, contou o professor. “Caí na vertente tecnológica do grupo, e busquei contribuir trazendo a pegada tecnológica. É um grupo formado por mentes brilhantes, que buscou se antecipar às questões da pandemia”, elogiou o professor.

A experiência de trabalho multidisciplinar é um dos trunfos apontados pelo docente para o sucesso do GT. “É um problema extremamente grave, que afeta a todos, o que nos permitiu ter uma agenda de trabalho comum”, exaltou Travassos, que vê no aprendizado coletivo um ganho para o futuro. “Foi um ano desafiador e de transformações. Problemas extremamente complexos ficaram menos complexos graças à soma das cabeças brilhantes que temos nos diferentes centros da UFRJ. Se tirarmos proveito disso, teremos uma revolução científica na UFRJ, porque quebramos o conceito das ilhas, e estabelecemos um continente científico dentro da nossa universidade”.

O combate à doença exigiu pesquisas, mas não foram as únicas demandas geradas pela pandemia. “Nós, economistas, fomos chamados a responder a questões bastante imediatas”, contou a professora Marta Castilho, do Instituto de Economia. “A covid-19 entrou na vida do meu grupo de pesquisa, não só nas vidas pessoais, mas como tema de estudos. Estudamos os impactos da pandemia na economia brasileira, analisando aspectos macroeconômicos e setoriais”, explicou ela, que ainda lembrou da centralidade das discussões econômicas e do falso dilema criado entre a vida e a economia. “Em economia somos chamados o tempo todo para o debate público. Tínhamos o desafio de mostrar que não existe essa contradição, e que devemos buscar formas de minimizar os custos econômicos da pandemia”.

Na avaliação da professora Marta, foram dois os principais problemas enfrentados pelos pesquisadores durante o isolamento social. “Perdemos uma parte do convívio que era frutífero para as reflexões e para o desenvolvimento dos trabalhos. A falta de convívio social atrapalha um pouco por tirar essa possibilidade de troca”, observou. O segundo problema é o que ela chamou de “perda das fronteiras do que é tempo e lugar de trabalho”, o que faz com que as jornadas de trabalho sejam mais intensas e mais longas. “Estamos trabalhando mais e necessariamente estamos sendo mais produtivos”, resumiu.

Para o diretor do Instituto de História, Antônio Carlos Jucá Sampaio, os arquivos públicos fechados estão atrapalhando as pesquisas de sua área. “Há muitos pesquisadores que estão com as suas pesquisas paradas por não poder acessar documentos históricos”, contou. Outro problema relatado pelo diretor é a falta dos eventos tradicionais da área. Mas, ao mesmo tempo, o isolamento social e a adoção de tecnologias de comunicação trouxeram uma nova possibilidade. “Estamos fazendo outros tipos de eventos, virtuais, com a presença de convidados internacionais, inclusive. E esse tipo de evento tem possibilitado mais ações de extensão ligadas à história pública. Nesse diálogo com a sociedade, o historiador constitui e reconstitui seus objetos de estudo”.

Na avaliação do professor Ildeu de Castro Moreira, presidente da Sociedade Brasileira para Progresso da Ciência, o saldo é de um ano ruim para a ciência brasileira. “Um ano extremamente complicado. Ruim do ponto de vista da postura do governo e dos cortes no investimento em Ciência, apesar da pandemia”, criticou o professor. “As universidades, institutos de pesquisa e pesquisadores estão tentando se desdobrar para enfrentar a pandemia em condições muito difíceis, porque é um governo federal negacionista”. Ildeu defendeu que os investimentos em Ciência e Tecnologia são um caminho não só para a saída da pandemia, mas para o avanço do país. “A Ciência e Tecnologia são importantes para a sociedade, para a economia do país, para o uso sustentável das suas riquezas e potencialidades. Espera-se que, em um momento como esse, a maior parte da sociedade brasileira se dê conta disso”.

Lucas Abreu
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O governo Bolsonaro deu mais uma volta no parafuso do autoritarismo. O alvo agora é a professora Erika Suruagy, vice-presidente da Associação dos Docentes da Universidade Federal Rural de Pernambuco (Aduferpe). Erika foi intimada a depor na Polícia Federal graças a um inquérito criminal que investiga outdoors colocados em várias cidades de Pernambuco. As peças criticavam os ataques do governo à Educação e ao SUS, mencionavam o número de mortos pela covid-19 (120 mil vítimas à época) e caracterizavam Bolsonaro como “o senhor da morte chefiando o país”.

As placas foram instaladas em setembro, e eram parte de uma campanha da Aduferpe junto com outros sindicatos locais, como a Seção Sindical dos Docentes da WhatsApp Image 2021 03 12 at 19.31.04Professora Erika Suruagy foi intimada pela Polícia FederalUniversidade de Pernambuco (ADUPE) e o Sindicato dos Servidores dos Institutos Federais de Pernambuco (SINDSIFPE). “O ministro da Justiça, com base em um requerimento do presidente Jair Bolsonaro, solicitou a abertura de um inquérito para apuração, alegando atentado à honra do presidente”, contou a professora Erika, que soube do inquérito depois de ter sido intimada pela Polícia Federal para prestar esclarecimentos.

Segundo a professora, a delegada da Polícia Federal tomou seu depoimento e entendeu se tratar de uma campanha sindical. Mesmo assim, não encaminhou o inquérito para arquivamento, deixando a decisão para o Ministério Público. “Nesse momento achamos que era importante denunciar, tornar público o que estava acontecendo”, diz Erika, que foi intimada porque era a presidente da Aduferpe na época da publicação dos outdoors.

A docente está tranquila com o aspecto legal do caso. “Nós entendemos que não é crime, e mais ainda porque estou em um mandato coletivo, eu represento 1.200 professores”, explicou ela, que chama a atenção para o lado político da decisão do governo. “O objetivo é intimidar, dizer que quem abrir a boca para criticar vai para a cadeia”, avaliou a professora, que tem sido atacada nas redes sociais por apoiadores de Bolsonaro. “Essas intimidações estão acontecendo com cientistas e outros professores. Nós temos que nos posicionar”.

O Andes divulgou uma nota de apoio à professora e criticando o governo. “De modo absurdo e afrontoso às liberdades políticas inscritas na Constituição de 1988, a Polícia Federal dá continuidade à infundada queixa”, diz a nota do sindicato, que lembrou que a medida é parte de “outras marcas de perseguição docente”, como o caso dos professores da UFPEL que tiveram que assinar um Termo de Ajustamento de Conduta. A UFRPE também publicou uma nota de solidariedade, reafirmando “o direito legítimo a manifestações públicas, sejam de origem do movimento sindical ou de qualquer outra, ressaltando-se o caráter inconstitucional e inadmissível da censura”.

A UFRJ divulgou nesta sexta-feira (12) uma nota de apoio à professora. “Prestamos solidariedade à Érika Suruagy neste momento de tensão. Lembramos, ainda, que a universidade federal é instituição de Estado e, por isso, não é subserviente deste ou daquele governo, sendo portadora de autonomia didático-científica, conforme a Carta Magna afirma”, diz a nota. Leia a íntegra em (https://ufrj.br/2021/03/12/nota-de-apoio-a-professora-erika-suruagy-da-ufrpe/).

Na avaliação da professora Eleonora Ziller, presidente da AdUFRJ, a instauração do inquérito a pedido de Bolsonaro é mais uma manifestação de um presidente que se comporta como uma criança mimada. “O raciocínio político dele é infantil e precisa de limites”, explicou Eleonora, que considera que o perigo maior é as pessoas acharem normal que o presidente se comporte assim.

“Nós temos que repudiar isso nacionalmente e com muita força. Ele ultrapassou todos os limites do ridículo”, defende Eleonora, que acha que o presidente tem que ser responsabilizado pela péssima política de condução da pandemia. “Vamos buscar modos contundentes de demonstrar isso a cada dia. Não recuaremos um milímetro”, disse Eleonora, que também se solidarizou com a professora Erika Suruagy.

Para o presidente do PROIFES, Nilton Brandão, a situação é preocupante, e cita o caso dos professores da UFPEL. “Temos um governo policialesco que não admite nenhuma crítica e que, portanto, vai tentar penalizar qualquer cidadão que possa demonstrar contrariedade em relação às ações do governo”, disse o professor, que acredita que o Brasil caminha para um regime autoritário.

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