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WhatsApp Image 2021 04 10 at 12.38.132Antes da covid-19, a tuberculose era a doença infecciosa que mais matava no mundo, ceifando a vida de 1,5 milhão de pessoas por ano. “Agora, a covid-19 ocupa esse lugar, mas a tuberculose ainda mata muita gente, e o Brasil está entre os 30 países que detêm 90% do vírus mundial”, explica José Manoel Seixas, pesquisador da Coppe/UFRJ e colaborador de um projeto internacional que estuda as relações entre as duas doenças. A pesquisa é realizada no contexto de incidência da tuberculose em quatro dos cinco países que compõem o Brics, à exceção da China (Brasil, Rússia, Índia e África do Sul). No Brasil, o projeto é financiado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e tem como objetivo final analisar as possíveis interações entre a tuberculose e a covid-19.

A principal forma de manifestação da tuberculose é a pulmonar, assim como a covid-19, que costuma atacar mais ferozmente o pulmão, objeto de estudos do grupo formado por pesquisadores dos cinco países do Brics. “Uma questão é a propensão à combinação das doenças. Um portador da tuberculose latente, que está infectado mas não desenvolve a doença, pode desenvolvê-la com a covid-19. Ou quem teve covid-19, pode pegar mais fácil a tuberculose”, afirma o pesquisador.

Seixas atua há 20 anos no Centro de Pesquisa em Tuberculose, ligado ao Hospital Universitário Clementino Fraga Filho, e nesse projeto desenvolveu modelos de inteligência artificial para facilitar o diagnóstico das doenças. “A inteligência artificial permite fazer um mapeamento entre as áreas, é um conhecimento que pode interagir com a área de saúde, que é prioritária no mundo”, reconhece o professor. “Nós temos uma oportunidade ímpar de agir coletivamente. Então as ações que a Coppe desenvolveu para atacar e dar ferramentas contra a covid-19 são uma oportunidade de fortalecer a ação multidisciplinar. É muito interessante”, completa.

Para Seixas, a aproximação dos países do Brics nesse tipo de estudo é promissora. “É uma vocação que a gente vinha trilhando e é muito importante pela similaridade dos países. O projeto traz fortes componentes dessa similaridade, pois Rússia, Índia e África do Sul são países em que a tuberculose possui incidência muito alta”, explica o professor.

No Brasil, Rio de Janeiro e Manaus são as capitais de maior incidência da tuberculose. Anete Trajman, pesquisadora visitante do Intituto de Medicina Social da Uerj e recém-aprovada como professora titular de Clínica Médica da Faculdade de Medicina da UFRJ, explica porque a tuberculose é comum no bloco Brics. “São países que têm condições políticas e econômicas semelhantes, em desenvolvimento. Possuem a carga de tuberculose enorme, pois há muita pobreza e umidade, e ela acomete principalmente as pessoas pobres que vivem em condições de desnutrição, de pouca ventilação, de aglomeração”, diz a pesquisadora.

Um banco de dados de pacientes que tiveram covid-19 e tuberculose nesse período de pandemia será utilizado pelos pesquisadores. “Vamos olhar os indicadores da tuberculose, ver o impacto do isolamento social para essas pessoas. Descobrir, por exemplo, quantas pessoas que tinham tuberculose foram testadas para a doença, olhar isso em diferentes momentos, e relacionar com as medidas de distanciamento social”, explica Anete.

Outro objetivo da pesquisa é avaliar a percepção da população sobre as medidas de distanciamento social. “Queremos descobrir o que as pessoas pensam sobre a melhor forma de lidar com a pandemia. Vamos usar essas respostas e os indicadores para fazer um exercício de modelagem e projetar o que pode acontecer em diferentes cenários”, afirma a médica. Ela acredita que o principal foco do projeto é elaborar uma proposta concreta sobre como lidar com uma pandemia como a da covid-19. “Essa pandemia estava sendo esperada pelo cientistas há muito tempo, só não sabíamos que seria de coronavírus. É inacreditável como o mundo estava despreparado para uma coisa que todos nós alertamos que viria”, reflete Anete.

WhatsApp Image 2021 04 10 at 12.38.131A variabilidade genética do coronavírus é hoje um dos pontos centrais nos estudos sobre a pandemia da covid-19. Um dos fatores que mais preocupa médicos e pesquisadores é o aumento na taxa de transmissão em algumas dessas variantes. Em razão disso, as secretarias de Saúde do município e do estado do Rio de Janeiro estão desenvolvendo uma pesquisa de monitoramento genômico epidemiológico, para identificar a incidência de novas cepas do vírus na população fluminense. “Com esse projeto, a gente quer saber não só a circulação dessas variantes, mas também se as pessoas vacinadas podem ser infectadas ao entrar em contato com essas mutações do vírus”, explica o professor Amilcar Tanuri, chefe do Laboratório de Virologia Molecular da UFRJ, que integra o projeto.
Amilcar conta que as primeiras amostras já foram colhidas, e agora estão na fase de validação, devido ao uso de um novo kit de sequenciamento. “A gente está fazendo uma pesquisa a nível estadual e municipal para ter amostras de 15 em 15 dias da distribuição e circulação dessas variantes”, aponta o virologista. Além da UFRJ, a pesquisa também conta com a parceria do Laboratório Nacional de Computação Científica (LNCC), do Laboratório Central Noel Nutels (Lacen-RJ) e da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), e é financiada pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj).
“O objetivo é a gente sequenciar o maior número possível de genomas encontrados por pelo menos seis meses, e acompanhar essa evolução do vírus no Rio”, descreve Ana Tereza Vasconcelos, pesquisadora do LNCC. Ela coordena a Rede Corona-ômica RJ, que reúne 36 pessoas de diferentes instituições e busca entender, por meio da genética, como o novo coronavírus se comporta e afeta a população fluminense. “Essa rede, que começou no ano passado, já sequenciou mais de 500 genomas no estado. Mas agora vai ser um trabalho mais abrangente, porque vamos ter acesso a amostras de toda a região”, comenta. Segundo ela, para cada coleta quinzenal serão sequenciados 484 genomas. A rodagem dos primeiros genomas deve ocorrer já na segunda quinzena de abril.
O processo se inicia com o Lacen-RJ, que seleciona amostras de testes RT-PCR positivos, proporcionais à quantidade de habitantes de cada uma das cidades do estado. Essas amostras são enviadas para o Laboratório de Virologia Molecular da UFRJ, onde o RNA delas é extraído. Em seguida, esse RNA é enviado para o LNCC, que faz o sequenciamento do vírus. “Esse é um processo em que a gente faz a identificação das mutações e a caracterização das linhagens, junto com os dados epidemiológicos dos pacientes de quem foram extraídas as amostras”, descreve Ana Tereza. O resultado dessas análises é informado para as secretarias de Saúde do estado e do município, mas também é liberado em bases de dados públicas para uso da comunidade científica internacional.
“O mais interessante é a gente identificar aquelas variantes de preocupação, que têm apresentado maiores taxas de transmissibilidade, como a P1, de Manaus, e a B.1.1.7, da Inglaterra”, diz a pesquisadora. Ana afirma que a rede de pesquisa já identificou também outras variantes, como a P2, que tem uma mutação capaz de levar ao escape do sistema imunológico. “A gente pega aleatoriamente o genoma e tenta identificar as mutações que estão surgindo, ou quais linhagens estão ficando mais predominantes. Aí as secretarias de Saúde do município e do estado vão poder fazer políticas públicas a partir dessas informações”, ressalta. Com os recursos adicionais fornecidos pela Faperj, o estudo desenvolvido pela Rede Corona-ômica RJ poderá sequenciar uma quantidade muito maior de genomas em um curto espaço de tempo.
“A Faperj lançou cinco editais na área de covid-19 ano passado, totalizando R$ 75 milhões de investimento”, lembra Jerson Lima, presidente da fundação. Professor e pesquisador no Instituto de Bioquímica Médica da UFRJ, Jerson destaca que a Rede já vem sendo financiada desde então, mas que as mutações da doença implicaram na necessidade de se impulsionar esse acompanhamento. “Infelizmente, com a alta taxa de infecção do vírus, a tendência é continuarmos a ter mais variantes. A única maneira de se haver controle sobre isso é realizar o sequenciamento. Para fazer essa vigilância genômica, a gente precisou incluir um recurso adicional, de R$ 825 mil, nesse projeto”, completa.

DADOS / FIOCRUZ

•Não se sabe ao certo quantas variantes circulam no mundo. Pelo menos 92 cepas já foram encontradas no Brasil.

•As variantes que mais preocupam especialistas, pela maior taxa de transmissibilidade, são:

•P1
(variante amazônica), já encontrada em 21 dos 27 estados do país;

•B.1.7.7
(variante britânica), já encontrada em 13 dos 27 estados do país;

•B.1.351
(variante sul-africana), primeiro caso no Brasil foi confirmado pela USP em Sorocaba (SP) em 4/4/21.

DADOS /BUTANTAN

•Confirmada eficácia de 50% da vacina CoronaVac em casos da variante amazônica, após aplicação da primeira dose.

•Após a verificação de eficácia da 2ª dose, espera-se que esse percentual suba ainda mais.

WhatsApp Image 2021 04 10 at 12.38.145 de abril de 1832.  O navio britânico Beagle atraca no porto do Rio de Janeiro, capital do Império do Brasil, e traz a bordo o cientista inglês Charles Darwin. Ele está na América do Sul para estudar terras e águas da região. Já passou pela Ilha de Fernando de Noronha e pela cidade de Salvador, onde ficou horrorizado com os desmandos escravagistas da elite local. Passados 189 anos do desembarque do pai do evolucionismo, pesquisadores da UFRJ realizaram o Darwin Day, no último dia 5.
Totalmente on line, o evento celebrou a importância da pesquisa científica e recuperou a histórica viagem de Darwin – só no Rio ele ficou quatro meses e realizou estudos fundamentais para as teorias que iria desenvolver anos depois. Organizado pela PR-5 e com a participação de pesquisadores das mais diversas áreas, o Darwin Day abordou assuntos como evolução, saúde pública, negacionismo e darwinismo social.
“A passagem do Darwin pelo Brasil foi muito importante para a construção posterior da Teoria da Evolução pela seleção natural”, destacou Ildeu Moreira, presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC). Professor da UFRJ, ele está finalizando um livro sobre a viagem de Darwin, com todos os textos escritos pelo cientista referentes ao percurso no Brasil. “A viagem trouxe para ele uma questão central, que era explicar a imensa diversidade de espécies de animais e plantas que viu no Brasil desde os primeiros dias aqui”.
No debate “Negacionismo, Criacionismo e Darwinismo”, Ildeu, Pablo Gonçalves (NUPEM/UFRJ) e Maria Isabel Landim (Museu Zoologia/USP) ressaltaram algumas das dificuldades que o britânico enfrentou ao apresentar a sua mais famosa teoria. “No século 19, defender as ideias do Darwin tinha o peso moral de confessar um assassinato. Ele sofreu muito, e teve muitas crises de ansiedade por isso”, contou a professora Maria Isabel.
Darwin tinha apenas 23 anos de idade quando veio ao Brasil – ao todo a viagem durou cinco anos e percorreu vários países. Cada um contribuiu para a formação da teoria de Darwin. Em terras brasileiras, ele fez o primeiro contato com a floresta tropical, anotou tudo, coletou materiais, que depois enviou para a Inglaterra. O mentor de Darwin, que o indicou para a viagem, o professor e botânico John Henslow, era quem recebia as amostras e as entregava para análise de especialistas. Devido à qualidade do material enviado, Darwin já era um famoso cientista quando voltou para a Inglaterra em 1836.
Essa nova forma de enxergar a vida motivou, posteriormente, outras pessoas a desenvolverem teorias como o “Darwinismo Social”, debatido na terceira mesa do Darwin Day. “O que nós chamamos de forma ampla de ‘Darwinismo Social’ é uma perspectiva que tenta aplicar esses princípios gerais apresentados por Darwin nas sociedades humanas, para além do contexto biológico”, comentou Claudia Carvalho, professora do Departamento de Antropologia do Museu Nacional da UFRJ. “É uma visão em que as leis da natureza seriam análogas às leis da sociedade”.
O Darwin Day também foi provocado pelo aumento da onda negacionista no mundo, e particularmente no Brasil, onde autoridades tentam deslegitimar os esforços da ciência no enfrentamento da pandemia. “Variantes da covid-19 e Evolução” foi o tema do debate de encerramento do Darwin Day, que contou com a participação do virologista Amilcar Tanuri (UFRJ), do infectologista Roberto Medronho (UFRJ) e da biomédica Jaqueline Goes (USP), que apresentaram suas pesquisas relacionadas ao assunto. Denise Pires de Carvalho, reitora da UFRJ, também esteve presente, e ressaltou as ações da Universidade durante a pandemia. “Com certeza Darwin estaria muito orgulhoso do que a nossa instituição tem feito pela ciência e pelo avanço do conhecimento no país e no mundo”, finalizou Denise.

MEMES DARWINISTAS

•A inventividade do jovem Darwin influencia até mesmo aspectos culturais da juventude atual. Essa é a aposta de pesquisadores da Escola de Comunicação da UFRJ.

“Darwin é o inspirador de uma nova teoria no campo da comunicação: a memética, decisiva para entender o mundo e as mídias pós-cultura digital”, ressaltou Ivana Bentes, professora da ECO e pró-reitora de Extensão, que debateu o tema na segunda mesa do evento “Darwin e a cultura dos memes: Memética e Neodarwinismo” com o professor Viktor Chagas (UFF) e Gabi Juns, coordenadora do Instituto Update.

•Além das lives, a programação do Darwin Day contou também com diversas atividades gravadas.

•Professores e alunos da UFRJ produziram vídeos para discutir, a partir da figura de Charles Darwin, seus mais variados objetos de pesquisa.

WhatsApp Image 2021 04 10 at 12.38.142 Serge Haroche e May-Britt Moser Esgotamento energético, mudanças climáticas, fome. Nunca a Ciência foi tão necessária para garantir a sobrevivência humana no planeta. Paradoxalmente, talvez ela nunca tenha sido tão desprestigiada.  “Os próximos trinta anos não serão possíveis se não avançarmos em energia limpa”, alerta Serge Haroche, Nobel de Física em 2012. “Mas muitas pessoas não aceitam a realidade, são incapazes de respostas racionais”. A convite da Academia Brasileira de Ciências (ABC) e da Nobel Prize Outreach (braço de comunicação da Fundação Nobel), Haroche discutiu o valor da Ciência com outros nomes de peso da comunidade científica internacional, na quinta-feira (8), no debate “O Valor da Ciência”. O evento é prévio do Diálogo Nobel Brasil 2022, que reunirá vencedores do Prêmio Nobel e outras lideranças intelectuais para discutir ‘O Futuro Que Queremos’. O conteúdo integral pode ser acessado pelo Youtube.
Na visão de Haroche, a Ciência tem sido muito atacada por teorias conspiratórias, mas “o negacionismo vai além da Ciência”. “Muitos consideram que a globalização fez com que parte da população se sinta disfuncional no sistema, se fechando em comunidades, compartilhando crenças que as mantêm juntas. A Ciência não é uma cola”, argumenta o físico, que nasceu em Casablanca, no Marrocos, e mudou-se aos 12 anos com os pais para a França, onde construiu sua vida acadêmica. Ele é naturalizado francês.
“Você não pode forçar o interesse de alguém que realmente não está interessado”, opina a neurocientista norueguesa May-Britt Moser sobre o tema. A Nobel de Medicina em 2014 concorda que o mal-estar contra a Ciência tem origens sociais mais profundas, relacionadas à exaltação do “medo” e da noção paranoica de “inimigo”. O caminho estaria em uma política educacional que estimulasse experiências positivas com o conhecimento científico, desde a educação básica, a partir da “curiosidade infantil” pela natureza.  
O papel do professor é central na visão de ambos os cientistas. “Os professores são muito importantes e não são reconhecidos. Muitas vezes realizam seu trabalho sob muitas adversidades. Eles deveriam estar em uma posição melhor”, critica Haroche.
Moser acrescenta à fórmula “antinegacionista” o componente “diversidade”, exemplificando com o caso do próprio laboratório de pesquisa: “A neurociência requer muito conhecimento específico, mas também muito conhecimento sobre cultura. Trabalhamos arduamente para termos pessoas com diferentes visões e ideias, porque assim podemos ter diferentes energias”.   
“E o que acontece com o Brasil hoje?”, questiona o mediador do debate, Adam Smith, diretor científico da Nobel Prize Outreach. A situação do país frente à pandemia finaliza o bloco de reflexões. “A situação no Brasil é terrível. Temos quatro mil mortes em 24 horas. Há um grande esforço para se obter uma vacina segura ao mesmo tempo em que vemos o patrocínio de drogas falsas e ineficientes”, resume o presidente da Academia Brasileira de Ciências, Luiz Davidovich, professor do Instituto de Física da UFRJ. O presidente da ABC destaca ainda a “recente e acelerada” desidratação financeira das universidades e das agências de financiamento à pesquisa. E arremata: “O negacionismo mata”.
Já a ex-presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, Helena Nader, frisa que formadores de opinião negacionista, no Brasil, “estão muito envolvidos com a política”. “De fato, o único caminho para mudar todo esse cenário é por meio da Educação e da Ciência”, conclui.

Alexandre Medeiros e Ana Beatriz Magno

ENTREVISTA I FRANCISCO CARLOS TEIXEIRA, PROFESSOR TITULAR APOSENTADO DE HISTÓRIA MODERNA E CONTEMPORÂNEA DA UFRJ E PROFESSOR EMÉRITO DA ESCOLA DE COMANDO E ESTADO-MAIOR DO EXÉRCITO (ECEME)

francisco carlos teixeira da silvaProfessor Francisco Carlos Teixeira - IMAGEM: REPRODUÇÃOProfessor do Instituto de História da UFRJ, Francisco Carlos Teixeira tem longa convivência com os círculos militares. Foi assessor do Ministério da Defesa e do Gabinete de Segurança Institucional. Generais e almirantes hoje em postos de comando foram seus orientandos de mestrado e doutorado na Escola de Comando e Estado-Maior do Exército ou seus alunos na Escola Superior de Guerra. Nesta entrevista, ele fala sobre a maior crise militar da história do país, com a demissão do ministro da Defesa e dos comandantes das Forças Armadas, da “fábrica” de crises e do ímpeto autoritário do presidente Jair Bolsonaro.

Jornal da AdUFRJ - A decisão do presidente Jair Bolsonaro de criar essa crise com os militares às vésperas do dia 31 de março foi só uma coincidência?
Francisco Carlos Teixeira - Não foi uma coincidência. Na verdade, essa crise militar não tem uma causa só. Mas o fato desencadeador foi a pressão de Bolsonaro sobre o ministro Fernando de Azevedo e Silva para que ele “bombasse” uma nota das Forças Armadas, e talvez até promovendo uma parada, um desfile no 31 de março e o Fernando e o Pujol (general Edson Leal Pujol, ex-comandante do Exército) terem se recusado. Essa crise ter se desencadeado no 31 de março é, portanto, muito significativo.

O senhor não acha que, vencendo a queda de braço com os comandantes militares, Bolsonaro poderia ter provocado uma Ordem do Dia mais dura do que a que foi divulgada pelo novo ministro da Defesa, general Walter Braga Netto?
A nota não deveria nem existir. Nós deveríamos transformar o 31 de março num dia em honra à democracia, aos mortos e aos desaparecidos. Se é para fazer alguma coisa no dia 31 de março, essa tinha que ser a tônica. Mas sempre houve, por parte dos militares, uma nota celebratória do 31 de março pela visão das Forças Armadas. E essa Ordem do Dia era lida dentro dos quartéis. Eles nunca deixaram de comemorar o 31 de março, nem mesmo nos governos de esquerda, como o de Lula. Mas, em geral, era uma coisa muito discreta. Eles foram se assanhando a partir do governo Temer e, este ano, era para ser algo com muita pompa por causa do Bolsonaro. Mas deu esse chabu. A nota emitida foi muito contida mesmo, e isso deve ter desagradado profundamente o Bolsonaro. Com certeza, ele queria uma coisa glorificadora.

A nota fala até em democracia. Foi uma nota hesitante?
Sim, a nota fala que o movimento dependeu da conjuntura, em celebração, em pacificação, entre outras coisas inaceitáveis. Mas, na verdade, a nota mostra uma diferença ou, pelo menos, uma autonomia das Forças Armadas em relação ao que o Bolsonaro pretendia fazer. Daí a irritação muito grande dele, principalmente contra o Pujol. Essa nota passou pelo alto-comando do Exército, é uma nota de consenso. O Braga Netto pegou essa nota praticamente pronta, ele assina porque é o ministro, mas ela vem do alto-comando, que é composto por 17 generais da ativa, sendo 16 generais de Exército, mais o comandante.  

Qual a sua visão sobre o general Braga Netto?
É um general respeitável do Exército brasileiro. Foi destacado para fazer a intervenção fedral no Rio de Janeiro. Mas qual foi o resultado dessa intervenção? Foi durante a intervenção que a vereadora Marielle Franco e seu motorista Anderson Gomes foram assassinados. Qual a prestação de contas que o general Braga Netto deu a respeito da morte da Marielle? Por que ele vai para dentro do palácio presidencial após a eleição de Bolsonaro? Por que, no meio da crise militar mais aguda da Nova República, ele é nomeado ministro da Defesa para controlar essa crise? Por que a Polícia Civil do Rio de Janeiro até hoje não requisitou os dados da inteligência da intervenção do Exército sobre a morte da Marielle. São perguntas que me faço.   

Da forma como foi feita, a saída coletiva dos comandantes de Exército, Marinha e Aeronáutica é inédita. O senhor vê paralelo com a demissão, em 1977, do então ministro do Exército, Sylvio Frota, pelo presidente Ernesto Geisel?
Algumas pessoas têm feito essa comparação, ou mesmo com a queda do Viegas em 2004 (José Viegas Filho, diplomata e ministro da Defesa no governo Lula em 2003 e 2004). Cada crise tem seu desenrolar. E essa agora é muito original porque ela é provocada pelo presidente da República. É ele que provoca a crise, por isso é inédita. As crises anteriores sempre foram contra os presidentes da República.

Mais uma crise provocada pelo Bolsonaro, não é?
Há um historiador inglês, Ian Kershaw (autor de várias obras sobre Adolf Hitler e um dos principais estudiosos do nazismo, do fascismo e das ditaduras), que fala que alguns ditadores só conseguem governar através de crises. É o que ele chama de radicalização cumulativa. Esses ditadores mantêm suas bases coesas de crise em crise. O estilo do Bolsonaro é o de gerar crises. Esse é seu processo. Se ele mantiver um governo minimanente organizado, administrando a pandemia, o desemprego e a fome que volta ao país, ele vai ter que apresentar resultados. Como ele não tem resultados para apresentar, ele governa gerando crises. Nós estamos há vários dias discutindo generais e patentes enquanto a pandemia está matando três mil ou mais pessoas por dia. Isso é vergonhoso.

A crise militar gerada por Bolsonaro é também uma crise de autoridade nas Forças Armadas? Não parece que ele está mandando um recado para as baixas patentes retirando comandantes que não lhe agradam em instituições que são marcadas pela hierarquia, criando uma fenda, uma divisão?  
Essa crise favorece Bolsonaro. Não sou daqueles que acham que ele está fraco, acuado ou para cair. Eu acho que isso é projeção do próprio desejo. Ele não enfrentaria as Forças Armadas se ele estivesse fraco. Ele já sabia que o alto-comando não o apoiava mais. Ele não esperou para ver o resultado disso, ele foi lá e atacou. Ele dividiu a alta oficialidade, da qual sempre teve uma desconfiança, das baixas patentes. Afinal de contas, ele foi expulso do Exército como tenente, só foi a capitão por causa da reforma. Ele nunca gostou da alta oficialidade, essa nunca foi a sua turma. Ele falou para baixo, para a turma dele. Ele cravou uma cunha no meio das Forças Armadas.

Além dessa turma de baixas patentes, Bolsonaro tem forte influência também entre policiais federais, civis e militares. Isso não é um risco para quem tem inclinações autoritárias?
Bolsonaro continua sendo o mito para cabos, sargentos, soldados. E ele tem fortíssimo apoio nas polícias militares. As PMs têm hoje no Brasil 430 mil homens armados. Isso é muito mais do que o conjunto do Exército, que tem 290 mil homens de tropa, entre os quais 70 mil recrutas. O equipamento efetivo para a luta não é totalmente utilizável, algumas avaliações dão conta de que não temos condições de suportar mais do que algumas horas de combate. As PMs estão muito mais bem equipadas e preparadas para um tipo de combate próprio a um golpe de estado ou um levante, que é o combate de rua. Não é combate de selva, batalha naval, bombardeio aéreo. São 430 mil homens das PMs e 411 mil das guardas municipais. Sendo que das 26 cidades que têm Guarda Municipal, 19 são armadas.  

Bolsonaro tentou emplacar esta semana, em regime de urgência, um projeto que lhe dava amplos poderes, inclusive o controle das polícias militares dos estados. Seria como institucionalizar esse “exército” paralelo?
Ele já avisou que só perde a eleição em 2022 se houver fraude, à la Trump. Isso é uma ameaça terrível à democracia. E também já disse que, quando terminar o mandato, ele e sua família vão ter que sair do Brasil, porque sabe que vai ser preso. Essas duas coisas juntas criam um clima extremamente ruim para a democracia. Eu acho que a gente às vezes banaliza a questão do estado de sítio ou de defesa, que para vigorarem devem ser aprovados pelo Congresso. Tenho um bom diálogo com almirantes e generais, muitos deles meus alunos na Eceme. Não acho, nas condições atuais, que militares em comando tenham intenção de apoiar um golpe. Vejo alguns militares da reserva, como o general Heleno (Augusto Heleno, chefe do Gabinete de Segurança Institucional), tramando dentro do Palácio do Planalto. O general Heleno é uma das pessoas mais nefastas da Nova República. Ele era o capitão oficial do gabinete do Sylvio Frota, ele conspirou contra o Geisel, contra a abertura política. Ele conspirava contra generais na ditadura. É um golpista.

Mas se os militares em comando não apoiariam qualquer tentativa de golpe, pode-se dizer o mesmo desse “exército paralelo” de policiais?
O grande risco hoje no Brasil é a via boliviana. Corremos o risco de repetir aqui o que ocorreu na Bolívia, como já se esboçou no Ceará e, há poucos dias, na Bahia. Estabelecida a desordem, com a Polícia Militar amotinada, vem o segundo passo: as Forças Armadas são obrigadas a ir para as ruas para o pretenso restabelecimento da ordem. Foi isso que aconteceu na Bolívia, quando milícias e polícias atacaram o Congresso e as instituições de esquerda, e aí o Exército foi para a rua, mas já com o Congresso fechado, com os deputados de esquerda presos ou refugiados no exterior. Se esse cenário se repetisse aqui, no Ceará ou na Bahia, os dois governadores, que são de oposição, já estariam depostos. A história é totalmente indeterminada, não é possível prever se a via boliviana ocorrerá aqui. Mas há o risco.

Como a oposição pode fazer frente a essas ameaças?
A gente não tem hoje uma oposição articulada para enfrentar uma situação crítica como essa. Há desde gente achando que o Bolsonaro está fraco e pronto para cair até pessoas que acreditam que ele saiu mais fortalecido dessa crise militar. É muito difícill unir a oposição. O fato de a gente não conseguir reunir um grupo para fazer uma vigília, de máscara, na porta do Ministério da Saúde, é uma vergonha. Estamos sendo massacrados por um genocida sem reação. Parece que estamos vivendo num conto de realismo fantástico.

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