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Diretoria da AdUFRJ

WhatsApp Image 2021 01 22 at 11.22.12Era já esperado que em janeiro houvesse um certo recrudescimento contra o governo Bolsonaro. Aqueles que apoiaram o governo de extrema-direita por considerarem a escolha de 2018 “difícil” sonham com um eventual governo Mourão, mais dócil aos seus projetos, e intensificam a campanha pelo impeachment do presidente. Também muitos vão se enchendo de coragem com o adeus de Trump à Casa Branca. Mas foi a hecatombe sanitária de Manaus que deixou o país em estado de alerta, pois a irresponsabilidade negacionista e o “tratamento precoce”, acrescidos da negligência e inoperância dos governos, geraram uma tragédia sem precedentes em nossa história. Mas, apesar do desgaste crescente, faltam muitos lances até o xeque-mate.
Embora seja óbvio para a comunidade científica o grau de responsabilidade do governo federal nas dificuldades que enfrentamos para a importação dos insumos necessários para a produção de uma quantidade satisfatória de vacinas para imunização em larga escala, essa dimensão ainda não é evidente para uma parcela da população. Nem mesmo a responsabilidade direta do governo nas mortes evitáveis por ausência de oxigênio no norte do país. Parece ser uma questão de tempo para que tudo seja compreendido e digerido pela população, mas a máquina de fake news ainda está ativa, apesar de ter sofrido alguns pequenos reveses.
O jogo pesado mesmo está na Câmara, com a movimentação para a eleição do seu novo presidente. É ali que estão sendo jogados os lances principais que poderão viabilizar ou não a abertura do processo de impeachment. Muito dinheiro e muitos cargos distribuídos, um terreno que Bolsonaro conhece bem, pois foi lá, no chamado baixo clero, que ele fez escola ao longo dos seus trinta anos de vida parlamentar. E, enquanto ele nada de braçada nesse ambiente, entre as chamadas forças progressistas e de esquerda ainda reina a divisão.
Para a nossa sobrevivência, como categoria profissional e mesmo como instituição, é vital derrotar o projeto de destruição nacional que está em andamento. E parece que esse sentimento vem ganhando força entre as diversas correntes que atuam no movimento sindical e nos movimentos sociais. Sábado teremos uma demonstração disso. O Comitê em Defesa da Vida reúne uma boa parte das entidades da área da Educação, que, desde as manifestações de 2019, vem trabalhando de forma unificada no estado do Rio de Janeiro. Um sentimento de urgência toma corpo e impulsiona ações unificadas, superando as divergências. Se pudermos transformar tudo isso em energia nas ruas, aí teremos a entrada em cena do protagonista que falta. A maioria da população ainda está apenas assistindo a tudo. Campanhas sobre a importância da vacina são hoje tão importantes quanto demonstrar o quanto este governo deixou de cumprir. E que deixou de cumprir porque é incompetente sim, mas principalmente porque sempre escolheu os piores caminhos, vendeu ilusões de um “tratamento precoce”, isolou-se internacionalmente e estimulou a desconfiança da população contra as únicas possibilidades de enfrentamento da pandemia, que são o uso de máscaras e a vacinação em massa.
Não estamos diante de um falastrão inofensivo. Ninguém homenageia em público um torturador sem ter em si próprio o desprezo pela vida e a dor do outro.
Que as vítimas de Manaus não sejam esquecidas, que sejam a lição mais dura a ser aprendida por todos nós. E que as imagens das primeiras aplicações da vacina na UFRJ nos tragam a confiança necessária para as batalhas que virão e a certeza da importância de cada um de nós nesse momento. Vida longa ao SUS e viva a universidade pública brasileira!

WhatsApp Image 2021 01 22 at 10.58.08Professor Amilcar Tanuri junto à coordenadora do CTD, professora Terezinha Castiñeiras, e voluntáriosFotos: Alessandro Costa

Um alento em meio à pandemia que há quase um ano alterou completamente a rotina da UFRJ e do país, com a perda de mais de 213 mil vidas. A Coronavac, vacina produzida pela chinesa Sinovac, em parceria com o Instituto Butantan, de São Paulo, chegou à universidade no último dia 20. Neste primeiro momento, somente pessoas que atuam na linha de frente, em áreas de alta exposição ao vírus, serão imunizadas. A seleção tão rigorosa tem um motivo: as 2.150 doses só dão para um terço dos profissionais da saúde. O município do Rio recebeu 231.840 doses, na segunda-feira (18).
“Recebemos 30% das doses, como aconteceu com todo o município. Queremos chegar aos 100%. Espero em breve estar comemorando o final desta primeira fase, que é a imunização de todos os profissionais de saúde”, informou a reitora Denise Pires de Carvalho. Ela explicou que o número de doses cobre apenas quem está na linha de frente. “Quem está na emergência, em ala dedicada à covid-19, em CTI, precisa estar imunizado”, afirmou a dirigente. A vacinação foi iniciada nesta quinta-feira (21).
WhatsApp Image 2021 01 22 at 11.33.11 Alunas levam máscaras do Zé Gotinha e de jacaré para festejar a vacinaA professora Terezinha Marta Castiñeiras, coordenadora do Centro de Triagem e Diagnóstico para a covid-19 (CTD), esclareceu que a Secretaria Estadual de Saúde liberou para a universidade somente a primeira dose da vacina. “A Secretaria decidiu que toda dose que fosse liberada para a primeira fase teria resguardada a segunda dose, então eles liberaram só a metade”, contou. “Nós estamos usando todas as que recebemos, e temos assegurado que a segunda dose está em estoque, com o Governo do Estado”, disse.
Vice-reitor da UFRJ, o professor Carlos Frederico Leão Rocha afirmou que seu sentimento é duplo: de alegria, pelo momento, mas também de frustração pelo Brasil estar tão atrasado na imunização e refém da importação de insumos e vacinas. “Nós dominamos boa parte da tecnologia de produção. Poderíamos estar produzindo as nossas vacinas agora, se houvesse planejamento do governo, que deveria ter começado há um ano”. Ele aponta como um dos graves erros do governo Bolsonaro o voto contra a quebra de patentes de medicamentos para covid. “Na década de 1990, no governo Fernando Henrique Cardoso, assumimos uma posição de liderança mundial junto com a Índia para a quebra de patente para remédios para o HIV. E agora o país toma outro caminho que, sob o ponto de vista de interesse nacional, é injustificável”, lamenta.
WhatsApp Image 2021 01 22 at 11.33.11 1A vacinação está programada para acontecer em quatro locais: Hospital Universitário Clementino Fraga Filho (1.440 doses); Instituto de Puericultura e Pediatria Martagão Gesteira (310 doses); Centro de Triagem e Diagnóstico para covid-19 (380 doses); Central de Vacinação de Adultos (20 doses). Profissionais que tiveram diagnóstico positivo para a doença a partir de 1º de outubro não serão imunizados neste primeiro momento.

Um de cada segmento
A administração central escolheu um professor, uma técnica-administrativa, um terceirizado e um estudante para serem os primeiros a receber a vacina. Foi uma forma de simbolizar o corpo social, composto pelos quatro segmentos. O professor Amilcar Tanuri, coordenador do Laboratório de Virologia Molecular do Instituto de Biologia, foi a primeira pessoa da universidade a receber o imunizante. “É uma sensação de muita alegria. É uma vitória do povo brasileiro. A vacina é um caminho que a gente vai seguir para ter segurança de que o país volte mais rapidamente à normalidade”, disse o docente, que é especialista em Virologia. Em seu laboratório, Tanuri manipula o SARS-Cov-2. Lá também são feitos os diagnósticos das amostras coletadas no CTD. “Conclamo a sociedade a também se vacinar. A vacina é um meio de cuidado conosco e com a comunidade”.
WhatsApp Image 2021 01 22 at 11.33.15Jéssica dos Santos, enfermeira intensivista do CTI-Covid do Hospital Universitário Clementino Fraga Filho, atua desde março na linha de frente de combate à doença. “Este é um primeiro passo para vencermos essa pandemia. Perdemos muitos pacientes, conseguimos que outros ganhassem alta. É um trabalho de toda uma equipe”, disse a servidora. Visivelmente emocionada, ela relatou que perdeu colegas de profissão e que seu maior medo era de levar o vírus para casa. “Moro com minha mãe, que é idosa e hipertensa, portanto do grupo de risco. Estou aqui muito feliz de representar tantos profissionais. Alguns tiveram que se afastar de suas famílias neste período”, relatou a enfermeira. “Receber a vacina é um alívio”.
WhatsApp Image 2021 01 22 at 11.33.12Terceirizado de limpeza, Gabriel Francisco da Silva atua na higienização da Ala-Covid do Hospital Universitário. Apesar de não ser um profissional de saúde, seu trabalho é feito sob alto risco, pela exposição direta ao ambiente contaminado. “Quero agradecer a todos por esta oportunidade. No início da pandemia, minha esposa tinha acabado de ganhar bebê e eu precisei ficar 15 dias sem ver meu filho, com medo de contaminá-lo e também à minha esposa. Estou muito aliviado em receber a vacina”, disse. “Agora é esperar a segunda dose e vencer essa guerra contra o vírus”.
WhatsApp Image 2021 01 22 at 11.33.12 1Victor Akira Ota foi o primeiro estudante a receber o imunizante. Ele é aluno do décimo período de Medicina e voluntário do CTD, que realiza as coletas para diagnóstico de casos suspeitos de covid-19. “É um momento de muita felicidade. O mundo todo está neste esforço de vacinar suas populações. Sabemos que este é um primeiro passo, precisaremos de grande cobertura vacinal para que a vacinação tenha efeito, mas é uma etapa muito importante”, disse. “Ser escolhido entre tantos voluntários que também atuam aqui desde o início da pandemia é, sem dúvida, uma honra”.

 

WhatsApp Image 2021 01 15 at 10.16.33 1Diretoria da AdUFRJ

A grande palavra de ordem hoje é garantir e proteger a vida. Temos o SUS, com capilaridade nacional, temos instituições e história de grandes e eficientes campanhas de vacinação, temos profissionais qualificados. Estamos sucumbindo a uma pandemia, mas não porque não tenhamos condições de enfrentá-la, mas sim porque estamos submetidos a uma política de destruição nacional. Não é só a estupidez que habita o Palácio do Planalto. Parece que o horror que atravessamos tem método, tem propósito. A irresponsabilidade chega a proporções gigantescas, envolvendo os milhões de jovens que aguardam a realização do Enem e não têm até o momento nenhuma certeza de que as provas se realizarão com as condições mínimas de segurança sanitária.
Começamos a esboçar um movimento nacional, que nos próximos dias deve se intensificar, para garantir a vacinação universal e gratuita a toda a população. Trata-se de enfrentar dois grandes desafios: vencer um governo que tem sido empurrado a tomar decisões que já demonstrou não acreditar e convencer uma parte da população, descrente ou desinformada, que também resiste à ideia da vacinação obrigatória. Esse é o convite para a ação nesses primeiros dias de janeiro: vamos construir as condições para que o SUS possa cumprir o seu papel, para que tenhamos uma grande campanha nacional de vacinação, como já fizemos tantas vezes antes.
As entidades sindicais, as associações científicas, movimentos sociais, organizações e instituições de vários tipos, secretarias municipais e estaduais de Saúde, conselhos, estamos todos a exigir que o Estado cumpra com suas funções constitucionais. Até mesmo os órgãos da grande imprensa vêm se juntando nesse esforço. E que este seja apenas um ensaio do que está por vir: uma grande mobilização nacional capaz de dar forma e força à luta democrática pela transformação desse país.
Mesmo que não tenhamos muitas razões para olhar com otimismo para o que temos pela frente, ainda mais se considerarmos o fechamento de fábricas, demissões em massa no Banco do Brasil e tantas outras indicações que beiramos a uma verdadeira hecatombe econômica, ao menos distinguimos no horizonte novas possibilidades de enfrentamento. As universidades vão buscando formas de resistir às investidas autoritárias do governo, as frentes começam a se formar. Sem ilusões ou falsas esperanças, mas com a convicção de quem está enfrentando esse governo desde o seu início, o campo da Educação tem conseguido impor a ele algumas derrotas. E elas vieram sempre que marchamos juntos. Pois que seja essa a nossa lição para os dias de hoje: seja lá onde estivermos, estejamos juntos em defesa da vida.

50810335328 c27008459d cColetiva de imprensa sobre a eficácia da vacina do Butantan - Foto: Governo de São PauloA notícia da semana foi o anúncio dos dados de eficácia da Coronavac, vacina desenvolvida pelo laboratório chinês Sinovac, em parceria com o Instituto Butantan, de São Paulo. O percentual de 50,38% de eficácia global quase bateu na trave do mínimo exigido pela Organização Mundial da Saúde, que é de 50%. No entanto, não é para ele que devemos olhar, na opinião do professor Paulo Nadanovsky, do Departamento de Epidemiologia do Instituto de Medicina Social da Uerj. “O que mais interessa são os 78% que fazem parte dos números anunciados”, afirma. O percentual indica que somente 22% dos vacinados que desenvolveram a doença precisaram de algum tipo de assistência médico-ambulatorial. “Neste momento de total descontrole da pandemia, isso é muito bom, porque reduz o estresse dos serviços de saúde”, avalia.
Em relação ao anúncio de 100% de proteção contra internações para tratamento de casos moderados e graves, o epidemiologista, que também é pesquisador da Fiocruz, se mantém reticente. “Houve sete casos no grupo que tomou placebo, contra zero no grupo que tomou a vacina. Não há dados estatísticos suficientes”. O pesquisador compara o cenário com dois candidatos a eleições. Um deles tem 28% das intenções de voto e o outro, 26%. A margem de erro, ou intervalo de confiança, é de 4 pontos percentuais para mais ou para menos. “Neste exemplo, os candidatos estão empatados. Não há como afirmar quem ganha. É o mesmo no caso desses 7 a 0. Os intervalos de confiança estão totalmente sobrepostos”, afirma.
WhatsApp Image 2021 01 15 at 10.20.53O professor Herbert Guedes, do Instituto de Microbiologia Paulo de Goés, concorda. “O número de casos graves foi muito pequeno no estudo. Estatisticamente não há como ter certeza do dado. Quando passarmos à fase 4, que é a de vacinação para amplo número de pessoas, é que vamos poder comparar e ter clareza sobre isso”, diz ele, que é especialista em vacinas e imunização. Para Guedes, uma vacina com 50% de eficácia já é uma ferramenta muito importante. “Vai nos ajudar a sair deste momento de emergência. Os dados em relação aos casos graves podem indicar uma tendência que, se confirmada, será algo fantástico. O que queremos é salvar vidas”, afirma.
Clarissa Damaso, professora do Laboratório de Virologia Molecular do Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho, reforça que o Brasil precisará de uma cobertura vacinal grande, bem acima dos 70%, para gerar a chamada ‘imunidade de rebanho’. “Precisamos de ampla cobertura para controlarmos a pandemia”, alerta. “O ideal seria começar a imunização para todos, mas infelizmente será preciso fazer escolhas porque não teremos vacinas suficientes”, completa a virologista.

VACINA ESTERELIZANTE
Uma estratégia de vacinação bem estabelecida precisa do maior número de dados possível e, até agora, nenhum dos estudos disponibilizou informações suficientes para se saber, por exemplo, se os imunizantes são ou não do tipo esterelizante. Ou seja, se garantem que o indivíduo vacinado não transmita mais o vírus ou se agem apenas contra o desenvolvimento da doença em pessoas infectadas.
“Se tivermos respostas de que alguma vacina evita a transmissão do vírus, pode-se pensar em estratégias interessantes de imunização, combinando dois tipos. Por exemplo, destinar uma vacina para grupos que mais circulam na cidade e focar outra, que proteja mais contra casos graves, em idosos e pessoas com comorbidades”, sugere o epidemiologista Paulo Nadanovsky. “Isso pode reduzir bastante o tempo de saída da pandemia”, acredita o pesquisador. “Mas, para isso, precisamos de mais vacinas e de mais informação”.
Para a professora Clarissa Damaso, a única forma de saber se uma vacina bloqueia a transmissão do vírus na fase dos testes clínicos seria fazendo o acompanhamento dos voluntários com swab recorrentemente, para ver se eles teriam o vírus nas vias aéreas. “Isso demandaria mais tempo. Sobretudo num país como o nosso, que já não está conseguindo testar sua população, atrasaria muito a vacina”, explica a professora.
Mas, caso não haja o bloqueio do vírus, esta não será uma exclusividade das vacinas contra a covid-19. Há vacinas contra o sarampo e a poliomielite, por exemplo, que também não bloqueiam a transmissão dos vírus, apenas impedem o desenvolvimento das doenças. Exatamente por isso, quando a cobertura vacinal cai, essas e outras enfermidades consideradas erradicadas voltam a surgir. Portanto, distanciamento social, uso de máscaras e higienização das mãos continuarão sendo necessários, mesmo após a vacinação. “Ainda precisaremos de estratégias para proteger os grupos que não estarão imunizados, como crianças, adolescentes e gestantes, já que os testes ainda não foram realizados nesses grupos”, afirma a docente.

BRASIL NO FIM DA FILA
Até o momento, 51 países já iniciaram a vacinação contra a covid-19. Mas o Brasil ainda não tem data nem plano para que isso ocorra. Na última segunda-feira (11), o ministro da Saúde, general Eduardo Pazuello, afirmou que a imunização dos brasileiros acontecerá “no dia D, na hora H”. Dois dias depois, voltou atrás e afirmou que a vacina começará a ser distribuída ainda em janeiro. E em encontro com prefeitos, nesta quinta-feira (14), o general disse que a vacinação pode começar na quarta-feira que vem (20). Diante de tantas incertezas, dois milhões de doses da vacina da AstraZeneca deverão chegar nos próximos dias, vindas da Índia. Essas doses são capazes de imunizar menos de meio por cento da população.
Além da AstraZeneca, que tem a Fiocruz como produtora do imunizante no Brasil, o governo federal firmou acordo com o Instituto Butantan. As duas instituições já solicitaram à Anvisa a autorização para uso emergencial das vacinas. Segundo a agência, cerca de 20% das informações encaminhadas ainda precisam de complemento. O andamento dos processos é atualizado diariamente. Já a Pfizer e a Janssen ainda não pediram o uso emergencial, mas as documentações vêm sendo analisadas em processo de submissão contínua.

Fiocruz quer entregar 30 milhões de doses em fevereiro

Apesar do erro que levou a AstraZeneca e seus parceiros a refazerem os testes da fase 3 – foram aplicadas duas doses inteiras em um grupo de voluntários e uma dose e meia em outro grupo –, a Fiocruz já começou a desenvolver o imunizante. A documentação está sendo analisada pela Anvisa. De acordo com a agência, nenhum dado deixou de ser enviado, mas cerca de 18% ainda precisam de complementação. A expectativa é que a Anvisa finalize a análise dos documentos ainda esta semana e autorize o uso da vacina a partir do dia 18. E a Fiocruz estima que possa entregar 30 milhões de doses no mês que vem.
Como o estoque inicial ainda será baixo, especialistas discutem o uso das vacinas que estiverem disponíveis em uma dose só ou em duas doses mais espaçadas, com intervalos de até três meses. A estratégia ajudaria a ampliar o alcance da primeira dose a um grupo maior de pessoas. “Como vacinologista, sempre defendo duas doses, porque amplificam a resposta imunológica”, acredita o professor Herbert Guedes. “A estratégia pode funcionar e garantir algum grau de imunização a um número maior de indivíduos”, considera. “Mas é preciso que tenham sido feito estudos que respondam ao percentual de imunização da primeira dose. A decisão precisa se basear em dados”.

Já são 19 universidades e institutos federais que sofreram intervenção no governo Bolsonaro. O modus operandi, em geral, é o mesmo: o presidente desrespeita a consulta pública e os votos dos colegiados universitários, e escolhe candidatos menos votados, normalmente figuras alinhadas à sua política de desmonte da educação pública, na lista tríplice enviada pelas instituições ao MEC. Isso quando não nomeia quem sequer participou do processo — caso da UFGD, por exemplo — ou designa um reitor pro tempore, como fez na UFS. Mas a última intervenção, ocorrida semana passada na Universidade Federal de Pelotas, seguiu outro script. Bolsonaro nomeou como reitora a segunda colocada da lista tríplice, Isabela Fernandes Andrade. Ele fez parte da chapa eleita pela comunidade, e seria pró-reitora da nova gestão. A universidade decidiu então que Isabela e o professor Paulo Roberto Ferreira Júnior, o mais votado na lista tríplice, farão a gestão compartilhada da reitoria. A partir dessa inovadora forma de resistência, o Jornal da AdUFRJ começa nesta edição uma série de reportagens sobre o cenário em algumas dessas instituições sob intervenção, mostrando como a autonomia universitária está sob ataque.

Pelotas inova com dupla na gestão compartilhada

A chapa UFPel Diversa, que tinha o professor Paulo Roberto Ferreira Júnior como candidato a reitor, teve 56% dos votos na consulta pública. Diante do risco de ter a universidade sob o controle do governo, o Conselho Universitário e os concorrentes no pleito concordaram que o colegiado votaria apenas em membros da chapa vencedora. Paulo teve 56 votos. A professora Isabela Fernandes de Andrade ficou em segundo lugar, com seis votos, e Eraldo Pinheiro, com dois. Isabela foi a escolhida pelo presidente Jair Bolsonaro. A comunidade acadêmica inovou na resposta a mais esse ataque à autonomia universitária e decidiu que a UFPel terá dois reitores: Isabela, a nomeada, e Paulo, o mais votado, vão compartilhar a gestão no período 2021-2025.
Oficialmente, Paulo Roberto Ferreira Júnior vai assumir a pró-reitoria de Planejamento, cargo que seria de Isabela, mas a intenção é que os dois trabalhem em conjunto à frente da universidade. Isabela como gestora oficial e Paulo como representante político da comunidade. “Não era a minha intenção assumir a reitoria da universidade”, explicou a professora em uma transmissão ao vivo realizada pela UFPel no último dia 7. “Lamento pela não nomeação do reitor eleito desta universidade. “A partir de amanhã, Paulo e eu estaremos juntos na reitoria da Universidade Federal de Pelotas em uma soma de reitora nomeada com reitor eleito, fazendo uma gestão a quatro mãos, colaborativa, compartilhada”, explicou.
A transmissão foi conduzida pelo então reitor da UFPel, Pedro Hallal, no último dia do seu mandato. Paulo Roberto Ferreira Júnior também participou do evento e começou a sua fala dizendo que a universidade foi golpeada pelo governo federal, mas clamou pela união da comunidade universitária. “O governo e seus asseclas tentam, com essa nomeação, gerar conflito, dúvida e desunião na nossa comunidade, não podemos permitir que isso aconteça.
Segundo o professor, é uma tradição da UFPel que a lista tríplice seja sempre composta por membros da chapa vencedora na consulta pública. “Sempre fomos precavidos quanto à nomeação de um reitor que fosse desalinhado com a proposta escolhida pela comunidade”, contou. Paulo ainda reforçou o seu compromisso com o programa eleito e com seu grupo. “Trabalhamos juntos e construímos esse projeto juntos. Somos um grupo que tem um reitor eleito e uma reitora nomeada, e temos um programa de gestão escolhido democraticamente pela comunidade”, afirmou Paulo, pedindo o apoio de toda a universidade.
Alguns setores da UFPel se insurgiram contra a intervenção, e não receberam bem a forma de resistência com dois reitores compartilhando a gestão. “Nós estamos rompendo com o princípio da autonomia universitária, estamos aceitando um interventor”, disse a presidente da ADUFPel, Celeste Pereira. “A professora Isabela não concorreu no processo eleitoral. Em que pese que ela seja uma pessoa do mesmo campo político do reitor eleito, ela está passando pelo mesmo processo, como interventora, que qualquer outro nome”, explicou a professora.
Para o sindicato, a nomeação de alguém que não venceu a eleição é uma intervenção por princípio. Mas Celeste sabe que a oposição a ser feita deve ser contra a intervenção, e não contra a professora nomeada. “Para nós, o papel das entidades de classe é defender princípios. A escolha de uma gestão compartilhada é da gestão, e as entidades não foram consultadas a esse respeito”, disse a professora. “Estamos em assembleia permanente, e o nosso debate é exatamente esse: a nossa oposição não é a Isabela, mas ao processo. Não queremos um interventor na universidade”. De acordo com a professora Celeste, o DCE e o sindicato dos técnicos da UFPel (ASUFPel) compartilham da mesma posição, e as três entidades vão trabalhar em conjunto para enfrentar a intervenção. “Estamos organizando algumas manifestações contra a intervenção, não contra a professora Isabela. É pela garantia do direito constitucional da autonomia da universidade pública e da democracia”, relatou.
A decisão de ter dois reitores é inédita. Segundo o professor de Direito Constitucional da UFRJ, Luigi Bonizzato, as universidades têm em suas estruturas administrativas pró-reitores justamente para que o trabalho do reitor seja dividido, e Paulo Roberto Ferreira Júnior assumir uma pró-reitoria o coloca na estrutura administrativa da UFPel. “Dentro da universidade, do corpo social, não podemos impedir que o professor Paulo também seja considerado um reitor”, explicou o professor. Para ele, a princípio, a separação clara entre as responsabilidades legais e políticas dos dois reitores não deve criar problemas legais, mas o ineditismo da situação não permite uma resposta contundente sobre a segurança jurídica do arranjo. “Evidentemente existem questões políticas e de direito que ora se entrelaçam, e ora se unem. E esse é um exemplo claro disso”, disse.

Intimidação é arma de interventor da UFPB

WhatsApp Image 2021 01 15 at 10.32.38O interventor da Universidade Federal da Paraíba não teve nenhum voto no colégio eleitoral, e mesmo assim foi nomeado pelo presidente Jair Bolsonaro. Na consulta pública e no colegiado, a vencedora foi a professora Terezinha Martins, com 46% dos votos na consulta e 47 votos no colégio eleitoral. O interventor nomeado, Valdiney Veloso Gouveia, que passou em branco no colégio eleitoral, teve apenas 5% dos votos na consulta pública. Seu nome só constou na lista tríplice graças a uma decisão judicial, que está sendo contestada pela ADUFPB. Valdiney foi nomeado no começo de novembro passado e, desde então, vem tentando intimidar setores da universidade e atacar direitos de professores e servidores.

“Há muita insatisfação e indignação da comunidade universitária em todos os setores, de docentes, técnicos e estudantes”, contou o presidente da ADUFPB, Fernando Cunha. “Junto com sua equipe de assessores e o procurador da universidade, ele tentou intimidar o sindicato, para impedir uma atividade de paralisação”, lembrou Fernando. “O procurador disse que não recebeu a nossa notificação e disse que ia cortar nosso ponto. Mas era uma bravata”. O professor diz ainda que o procurador tentou intimidar um centro acadêmico e o movimento estudantil da universidade. A reitoria também tentou incriminar estudantes que ocuparam o acesso à reitoria em uma manifestação contra a intervenção.
A truculência do interventor é uma tentativa de calar a ruidosa oposição contra ele na UFPB. “Nós fizemos três atos públicos, cada um com mais de duas mil pessoas, fizemos uma vigília virtual contra a intervenção”, relatou Fernando Cunha. Mas o dirigente sindical reconhece que os atos aconteceram em outro momento da pandemia, quando o número de casos no estado era estável. “Esse é um enorme desafio. Estamos procurando outros caminhos de mobilização e organização”, disse o professor. “Nós vamos fazer uma assembleia no início de fevereiro e vamos nos reunir com outras lideranças da UFPB para pensar nessa estratégia”.
Valdiney tem um perfil alinhado ao governo federal de desmonte das universidades e adesão ao programa Future-se — iniciativa proposta pelo MEC, na gestão do funesto ministro Abraham Weintraub, para que as instituições federais de ensino busquem recursos privados para se manter. Uma das decisões tomadas pelo interventor foi emitir um boletim que desfazia progressões funcionais, desde 2015, de mais de 300 professores, sob pena de devolução de recursos pelos docentes. “Acionamos nossa assessoria jurídica e vamos à Justiça para brigar por esse direito”, contou Fernando Cunha. Para o dirigente sindical, a medida foi uma maneira de remanejar recursos com o corte de orçamento. “Assim, ele mantém a atividade e se sai bem com o governo federal”.
O interventor tentou reiniciar as aulas presenciais, passando por cima dos conselhos superiores da universidade, mas voltou atrás ao perceber que não teria força contra os colegiados. A relação de Valdiney com o Conselho Universitário é turbulenta. “Nós temos conseguido conter as decisões arbitrárias dele”, contou Clodoaldo Gomes, representante do sindicato dos técnicos no conselho. “Ele tem adotado uma postura de desqualificar os conselheiros, alegando que suas posturas são ideológicas. Como se ele fosse ideologicamente neutro, mas ele não é”, disse Clodoaldo.

Conselho Universitário enfrenta ataques na UFRGS

WhatsApp Image 2021 01 15 at 10.36.43Na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, o reitor Rui Oppermann foi reeleito na consulta pública e no Conselho Universitário, onde recebeu 45 votos. Mesmo assim, o presidente Bolsonaro escolheu o professor Carlos Bulhões, o terceiro lugar da lista, que recebeu apenas três votos. Bulhões foi nomeado em setembro passado, e desde então vem tentando, de maneira arbitrária, implantar na universidade o projeto de destruição defendido pelo governo federal.
“Estamos observando uma desconstrução da administração da universidade. O interventor está tomando atitudes que são contrárias ao estatuto e promovendo mudanças que resultam em uma fragilização da UFRGS como universidade de ponta”, contou o reitor eleito Rui Oppermann. Uma das mudanças mais significativas que o interventor fez foi fundir as pró-reitorias de Graduação e Pós-Graduação. “A UFRGS tem uma pós-graduação muito forte, e que precisa da autonomia de uma pró-reitoria para a sua expansão. E agora a vemos transformada em um departamento sem nenhuma justificativa”, explicou o professor.
De acordo com Rui Oppermann, as mudanças na estrutura da UFRGS são feitas com a justificativa de “dinamizar a gestão”. “Eles ainda estão fazendo uma gestão por inércia, com base no que deixamos pronto. Mas agora eles terão que colocar as suas posições mais claramente”, explicou Rui, que defende que nesse momento o movimento de oposição à intervenção vai precisar agir.
E a oposição ao interventor está atenta. “Cabe ao sindicato encaminhar as nossas lutas, mantendo a nossa postura contrária à forma como ele foi nomeado, e defender a autonomia da universidade”, explicou o professor Lúcio Vieira, presidente da ADUFRGS. A pandemia obriga a se pensar em novas maneiras de fazer atos políticos. “A pandemia é um grande dificultador das mobilizações”, explicou o professor. “O que temos feito é manifestado nosso descontentamento às mudanças que estão sendo colocadas pelo interventor”, relatou. Para Lúcio, o Conselho Universitário tem sido uma instância importante de enfrentamento. “Nós temos um conselho muito identificado com a autonomia universitária”.
A professora Márcia Barbosa compõe o Conselho Universitário (Consun) da UFRGS e contou que, além de fundir as pró-reitorias de Graduação e Pós-Graduação, o interventor criou uma pró-reitoria de Inovação, e só depois convocou uma reunião do colegiado. “Ele não pode mudar a estrutura da universidade, essa estruturação é do Conselho Universitário”. Mas, de acordo com a conselheira, as reuniões virtuais do Consun não estão sendo um espaço para um debate amplo e democrático. “O interventor estabeleceu um limite de tempo para toda reunião. Como ele é presidente da mesa, começa com assuntos pouco importantes, uma enrolação”, relatou a professora. “Se fosse presencialmente, a pressão para não encerrar a reunião seria diferente, mas na reunião virtual ele simplesmente derruba a conexão quando dá a hora estipulada”. A estratégia do interventor impede que temas relevantes que o desagradem sejam votados. “Toda reunião é tensa e algumas discussões levam várias semanas”, desabafou.

INTERVENTÔMETRO

WhatsApp Image 2021 01 15 at 10.36.43 1A comunidade da Universidade Federal do Rio Grande (FURG) respirou aliviada esta semana. Após acompanhar intervenções do governo em instituições coirmãs da capital do estado (UFRGS) e na vizinha Pelotas (UFPel), um decreto publicado nesta quinta-feira (14) trouxe a nomeação do professor Danilo Giroldo para a reitoria.
Giroldo foi o candidato a reitor mais votado no Colégio Eleitoral da FURG e integrou a chapa escolhida pela comunidade acadêmica, em consulta realizada no mês de outubro. O professor assume a gestão por quatro anos em solenidade que será marcada nos próximos dias.
Também esta semana, foi oficialmente encerrada uma intervenção no Instituto Federal do Rio Grande do Norte (IFRN). O professor José Arnóbio de Araújo Filho, escolhido pela comunidade acadêmica, assumiu a reitoria do IFRN no lugar de um pro tempore indicado pelo MEC.
A nomeação atendeu a uma decisão da Justiça Federal. O MEC alegava que Arnóbio não poderia assumir o cargo por estar respondendo a um processo administrativo. O Ministério Público Federal discordou da pasta da Educação, mas o impasse durou oito meses até ser resolvido. (Kelvin Melo)

 

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