Accessibility Tools

facebook 19
twitter 19
andes3
 

filiados

A Câmara dos Deputados aprovou um conjunto de regras para inserir os bolsistas de pós-graduação no Regime Geral da Previdência Social. A medida permite que mestrandos, doutorandos e pós-doutorandos tenham acesso a benefícios previdenciários como licenças e auxílios, além de o tempo da pesquisa contar para a aposentadoria.

Se aprovada no Senado, a nova lei alcançará tanto os pós-graduandos que realizam pesquisas no Brasil, como aqueles que estão no exterior com bolsas de agências de fomento brasileiras.
O projeto é uma reivindicação antiga ganhou nos últimos meses amplo apoio de parlamentares, de representantes de sociedades científicas e agências de fomento.

O Projeto de Lei 6894/13 foi aprovado na forma de um substitutivo do relator, o deputado Ricardo Galvão (Rede-SP). O parlamentar é ex-presidente do CNPq. Segundo Galvão, o enquadramento dos bolsistas como segurados do INSS corrige uma distorção histórica. “Embora o Estado reconheça a relevância estratégica da pesquisa científica, os pesquisadores bolsistas que trabalham em dedicação exclusiva permanecem sem proteção previdenciária”, disse.

Segundo o projeto aprovado, caberá à agência de fomento que disponibiliza a bolsa arcar com o valor da contribuição. No caso, a alíquota será de 11% sobre um salário mínimo. Com esse percentual, no entanto, o acesso ao direito à aposentadoria se dará somente por idade. Caso o bolsista queira que o período conte para a aposentadoria por tempo de serviço, precisará complementar a contribuição com mais 9% sobre o salário mínimo, para totalizar 20% de recolhimento. Assim, pós-graduandos que forem aprovados em concursos também poderão contabilizar o tempo de pesquisa para contar na aposentadoria de regimes próprios de servidores.

O presidente da Associação Nacional de Pós-Graduandos (ANPG), Vinícius Soares, comemorou a aprovação. “Esta vitória reconhece a atividade de pesquisa enquanto trabalho. O nosso trabalho é desenvolver a pesquisa no Brasil; 90% da ciência no Brasil é produzida a partir da mão dos pós-graduandos”, afirmou.

Natália Trindade, diretora da Associação dos Pós-Graduandos da UFRJ (APG), destacou que a conquista é fruto de 40 anos de discussões. “Essa falta de amparo atravessa a trajetória dos pesquisadores ao longo de todas essas décadas”, analisa Natália. “Precisamos que os recursos que a Capes e o CNPq precisam dispor para pagar a previdência sejam incluídos na Lei Orçamentária de 2027”, observa.

Diretoria da AdUFRJ

 

Editorial do O Globo em 14/03/2026 estabelece relação causa-efeito espúria entre a eleição e o processo de escolha de reitores e a folha de pagamento das universidades. Ao descuidar dos fatos e divulgar uma versão incorreta sobre o ensino superior público, termina por renunciar à veracidade e qualidade da notícia ao se aproximar do estilo Fake News da “lacração.” Impressiona constatar que o Globo não detenha informações sobre atribuições de dirigentes universitários: são inúmeras, no entanto, não compete aos reitores a contratação de professores e técnicos. Logo a magnitude dos gastos com pessoal de instituições que desenvolvem ensino, pesquisa e atividades de extensão não é consequência da forma ou mesmo de quem são seus reitores.

Vincular autonomia e despesas com pessoal de universidades é uma fórmula gasta, consiste na tentativa de um ataque duplo cujo alvo é o sentido de ser de organizações voltadas para o conhecimento universal e reflexivo. Uma universidade atrelada a coalizações governamentais, a interesses econômicos ou comerciais, sem docentes e alunos excelentes, sem inclusão é um engodo. O país alcançou patamares elevados em rankings científicos e a contribuição das universidades federais tem sido inequívoca.

Pesquisadores estão definitivamente comprometidos com a busca de alternativas para o desenvolvimento econômico e social sustentável. Pesquisas nacionais para a agricultura e biodiversidade, estudos sobre segurança pública, mapeamento e valorização da cultura, entre outras, possuem amplo reconhecimento internacional. Páginas do O Globo e reportagens de outros veículos de mídia registram o comparecimento voluntário do “pessoal” das universidades. Nada mais do que obrigação ou também gestos de apreço pela relevância da imprensa?

Experimentamos o negacionismo científico em sua forma brutal de menosprezo a vida durante a pandemia de covid-19. Em contraponto, demonstramos que a eficiência e eficácia da ciência, inclusive das nossas universidades, permitiram superar crise sanitária. Salários de professores com doutorado, dedicação exclusiva, que estão à frente de investigações relevantes e formam professores, são menores do que os que remuneram diversos cargos civis e militares. Os reitores não são desperdiçadores de recursos públicos, são professores, são cientistas aos quais foi confiada a árdua tarefa de manter as portas abertas do ensino superior para a juventude brasileira.

Críticas sempre serão sempre bem-vindas. Inverdades, soluções de araque, longe de impulsionarem o que está dando certo, terminam por estimular indiferença à soberania nacional. Ignorância proposital em relação ao dia a dia de universidades públicas e crenças na privatização do ensino, subjacentes ao repúdio à eleição de reitores, são ideológicas, não estão baseadas em evidências. 

Andrea Parente,
Daniel Conceição,
Ligia Bahia,
Luisa Ketzer,
Maria Tereza Leopardi,
Michel Guerman
e Pedro Lagerblad
Professores da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Leia o documento na versão PDF.

Eleonora Ziller
Professora da Faculdade de Letras
e ex-presidente da AdUFRJ

Já faz um tempo, recebi uma matéria produzida pela diretoria do nosso sindicato nacional sobre o aniversário da fundação do Andes. Reivindicam sua história, reforçam que os compromissos são os mesmos daqueles anos, que a luta continua... e aí eu pergunto: será mesmo? A quantas anda o nosso sindicato nacional?

Um paradoxo me chamou a atenção. O texto ressalta o papel fundamental que a AdUFRJ teve nesse processo, em dois momentos históricos: a organizaçãodo Encontro Nacional Extraordinário (ENExAD), que teve uma participação recorde de 49 ADs, quando foi tomada a decisão histórica de convocar o Congresso Nacional de Docentes Unificados (CNDU) para a criação da entidade nacional. E, anos depois, a assembleia de criação do Sindicato Nacional, substituindo a antiga Associação Nacional de Docentes do Ensino Superior. É importante lembrar ainda, isso não está no texto, que o segundo presidente da Andes foi o Luís Pinguelli Rosa, professor da Coppe/UFRJ. E o que a tal matéria ressalta, o que seria a sua maior característica, mantida até hoje, é a vinculação do Andes às bases, porque é de baixo para cima que se faz o Andes Sindicato Nacional...

Mas... não é bem assim que a banda está tocando faz tempo. A AdUFRJ é a maior associação vinculada ao Andes, está entre as maiores contribuições financeiras, tem levado as maiores delegações para os Congressos e Conselhos (Conads), sempre numa composição pluralista, respeitando a diversidade de posicionamentos existente na sua base de atuação sindical. Tem mantido altos níveis de participação nas eleições, contribuindo de forma objetiva e material com o fortalecimento da entidade. Tem sido nos últimos 11 anos uma voz crítica à diretoria que se mantém no cargo há décadas, mas sempre se expressando de forma transparente e democrática.

Com toda a certeza, a AdUFRJ realizou uma das maiores assembleias para eleição de delegados para o 44º Congresso, que foi realizado há alguns dias, em Salvador, e a escolha da delegação, feita de forma direta e secreta, mobilizou 387 docentes. Não há delegação que tenha alcançado sequer a metade desses números ao ser eleita. Há fortes delegações comprometidas com a pauta da diretoria, com as deliberações dos congressos, mas que não reuniram mais que 15 docentes em suas assembleias (isso em universidades com mais de 1.000 sindicalizados).

Para proibir a participação da nossa delegação, a diretoria do Andes argumenta burocraticamente, como tem feito nas últimas duas décadas, principalmente. É o regimento. Mas e se o regimento, votado casuisticamente no ano anterior, viola o princípio básico da criação do Andes? Ou seja, acaba com a autonomia das seções sindicais e a real participação da base? Hoje, a “democracia” exercida pelo Andes se resume a alcançar um controle numérico nas plenárias se realizar uma votação regimental e, assim, rasgar a nossa história?A base da UFRJ escolheu o processo por votação online, para a escolha direta e secreta de seus delegados, assim como modalidade de assembleia por meio de plataforma digital que permite a presencialidade simultânea de diversos campi, a participação de docentes aposentados com dificuldade de locomoção, docentes interessados no movimento, mas que estão em algum congresso ou missão no exterior etc.

A atual diretoria do Andes quer se manter fiel a uma forma de organização do movimento sindical do século passado. E não porque seja o mais democrático e garanta o vínculo orgânico com a sua categoria, mas sim porque dessa forma ela mantém uma rede de militância capaz de controlar a máquina sindical e deixá-la nas mãos do que eles chamam de voto “qualificado”, que são sempre o de valorosos, porém poucos aguerridos companheiros.

Para se manter fiel ao que foi a Andes da década de 1980, é preciso entender que um sindicato forte é um sindicato de todos os professores, TODOS! Inclusive daqueles que não rezam na mesma cartilha das forças políticas que compõem a diretoria, mas são comprometidos com a universidade pública, gratuita, democrática e de excelência, produtora de pesquisa de ponta, voltada para a resolução dos grandes problemas, das dores reais de nossa gente, de todas as gentes.

Explico agora o título desse texto: a polilaminina, ainda em fase de testes, é o resultado de mais de duas décadas de pesquisa na UFRJ, é capaz de recompor as conexões interrompidas por traumas e já devolveu movimento a tetraplégicos. Não é pouco, e embora seus resultados não sejam definitivos, são promissores. E é dela que precisamos!!!!! Nós precisamos devolver as conexões perdidas entre a diretoria de nosso sindicato com sua imensa base de professores envolvidos em pesquisa de ponta que hoje estão taciturnos, sem entusiasmo e pouco mobilizados. E queira a diretoria do Andes ou não, a AdUFRJ tem demonstrado na prática que isso é possível!!! Temos alcançado números muito expressivos de participantes em todas as nossas votações, temos garantido a participação ampla de nossa base, e é um absurdo que o Andes prefira que fiquemos fora do Congresso.

Façamos um esforço para olhar com olhos livres: a professora Tatiana Sampaio, docente da UFRJ, está em todas as mídias por conta de sua pesquisa com a polilaminina, denunciando o significado nefasto do corte de verbas para a Ciência, de forma independente, altiva e corajosa. Essa sua fala repercute em toda a sociedade, chegando até àquelas famílias que acreditam numa campanha sórdida contra as universidades públicas que a extrema direita vem fazendo. E um detalhe que não nos deve escapar: de 2017 a 2019, a Tatiana integrou a diretoria da AdUFRJ, como segunda secretária, na gestão da saudosa Maria Lucia Werneck.

A diretoria do Andes pode preferir não ver, não saber, mas escolher não ter no seu Congresso delegações amplas, que tenham representação real entre a maioria dos docentes, é inadmissível, é decretar sua falência. É o aviso do fim. A diretoria tem até o direito de manter o histórico da entidade desatualizado no site, sem explicar que já não é mais filiada ao Conlutas(alguém ainda se lembra do Conlutas e do “fora todos”?). Mas não pode proibir que sua base que se manifeste livremente, questionando seus procedimentos burocráticos excludentes. Podem ficar enfurecidos, mas alguém precisa dizer que o rei está nu. Permanecendo nessa política, lhe restará o isolamento, a ausência de conexão, a falta de diálogo com quem está no front, produzindo e pensando um país melhor.

Para ascender na carreira na UFRJ, sobretudo no campo da gestão universitária, as mulheres têm que enfrentar um obstáculo muitas vezes silencioso, mas que pode se mostrar instransponível: o assédio moral. É o que revelam os resultados da pesquisa inédita “Assédio moral e outras violências laborais na UFRJ”, aos quais o Jornal da AdUFRJ teve acesso com exclusividade. De acordo com o levantamento, 74% dos entrevistados declararam já terem sido vítimas de assédio moral, tendo essa prática se repetido três vezes ou mais, e 67% das vítimas são mulheres.

Iniciada em abril de 2025, com apoio da PR-4 e da Ouvidoria, a pesquisa contou com 823 participantes, sendo 61,84% de técnicos e 38,15% de docentes — percentuais compatíveis com o total de servidores ativos da UFRJ, onde os docentes representam 39,21%, e os técnicos, 60,79%. Para a professora Alzira Guarany, responsável pela pesquisa e coordenadora do Laboratório de Estudos em Políticas Públicas, Trabalho e Sociabilidade (LEPPTraS) da Escola de Serviço Social (ESS/UFRJ), há outro dado alarmante: apenas 23,65% das vítimas de assédio denunciaram a prática. “Elas alegaram falta de confiança nos canais ou na responsabilização do culpado. Isso é muito grave”, diz Alzira.

REFLEXOS NA SAÚDE
Entre as vítimas do assédio, 54,12% declararam que o assediador foi o superior hierárquico. As práticas mais corriqueiras são humilhação na frente dos outros ou em particular, respostas rudes, violência verbal ou ter seus resultados positivos atribuídos a outras pessoas. E mais um dado impressionante: 84,40% afirmaram que ter passado por essa experiência afetou sua saúde física e mental, com o desenvolvimento de ansiedade, depressão, insônia e outros distúrbios. De acordo com um estudo de 2018 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), as vítimas de assédio moral apresentam quatro vezes mais probabilidades de desenvolverem depressão, e o dobro de chances de ficarem estressadas.

Segundo a professora Alzira Guarany, a OIT está revendo a necessidade de reiteração para qualificar o assédio moral. “Como pesquisadora e estudiosa do tema, eu avalio que a violência laboral é gravíssima, independentemente da reiteração. Mas as consequências de ser vítima reiteradamente me parecem muito mais graves no médio e no longo prazos, inclusive com atentados contra a própria vida, temos relatos de situações assim”, pondera Alzira. Ela defende uma política única de enfrentamento ao assédio em toda a universidade. “Isso se reflete no baixo percentual de vítimas que fazem a denúncia. Além da falta de confiança, há um desconhecimento dos canais. Se a Escola de Serviço Social tem uma política, o CFCH tem uma, o CCS outra, isso deixa o servidor inseguro. Acho que isso é sintomático”.

CULTURA DE RESPEITO
Para a mulher que ocupa o mais alto posto na administração central da UFRJ, o enfrentamento ao assédio é urgente. Vice-reitora, a professora Cássia Turci recorre à sua própria experiência para tratar do tema. “Falar sobre a presença feminina na gestão não é apenas falar de representatividade, mas de uma mudança necessária na cultura institucional. Minha trajetória na gestão, como diretora do Instituto de Química, decana do CCMN e, agora, como vice-reitora, permitiu-me observar de perto que os desafios vão muito além do acesso ao cargo. Ocupar esses espaços exige uma resiliência dobrada”, diz Cássia.

Para a professora, as mulheres gestoras ainda enfrentam “formas severas de assédio moral e tentativas de esvaziamento de suas funções”. “Ser uma exceção, como no caso da minha gestão no IQ/CCMN, evidencia que o sistema ainda é desenhado por e para homens. A cultura de respeito tem que ser uma política de Estado na UFRJ. Precisamos converter a paridade em uma política institucional permanente, e não apenas uma escolha circunstancial. Isso inclui mecanismos efetivos de proteção contra retaliações e o fortalecimento de redes de apoio entre gestoras. A presença feminina humaniza a gestão e prioriza os direitos humanos. Nossa meta não é apenas chegar ao topo, mas exigir condições plenas, respeito e autonomia em cada passo do caminho”.

Para a professora Fabiana Valéria da Fonseca, chefe de gabinete da reitoria, a presença feminina na gestão da universidade ainda é desproporcional. Embora ela aponte que as mulheres ocupem 14 dos 24 principais cargos da alta administração, a vivência da “dupla jornada” para a mulher ainda é a realidade a ser enfrentada. “A mulher sempre precisou trabalhar, seja em casa ou fora. Somos poucas nos cargos de poder em relação à nossa presença na base da universidade. Há alguns entraves para aumentar essa presença, um deles é o tempo. Nós acumulamos responsabilidades familiares, domésticas, e isso impacta a nossa vida no trabalho. Já me peguei fazendo três ou quatro atividades ao mesmo tempo, hoje tento evitar isso. E a mulher ainda tem que lidar com a culpa. Sempre quis estar com meu filho, acompanhar de perto as atividades dele. E quando não conseguia fazer isso, vinha aquela culpa e a vontade de fazer em dobro”, reflete Fabiana.

Ex-diretora da Escola de Química, Fabiana destaca que as mulheres vêm avançando na presença em espaços de poder até então reservados ao universo feminino. “Como na direção da Petrobras, por exemplo. Na UFRJ vamos tentar ampliar mais, fortalecer nossas políticas institucionais de participação. A Denise (Pires de Carvalho) ter sido a primeira reitora de nossa história foi emblemático. Assim como a Claudia (Morgado) como a primeira diretora da Escola Politécnica. São mulheres que romperam essa barreira, mostraram sua capacidade de gestão. Não gosto da palavra empoderamento. Estamos ocupando os lugares que temos que ocupar”.

A QUESTÃO RACIAL
Para a superintendente-geral de Ações Afirmativas, Diversidade e Acessibilidade da UFRJ, Denise Góes, não é possível tratar da presença feminina na gestão universitária sem abordar a questão racial. Militante do Movimento Negro Unificado há três décadas, Denise diz que a estrutura da universidade reflete a realidade brasileira. “Existe um modus operandi da sociedade brasileira secular em relação ao papel da mulher. Mas a mulher negra está numa estratificação bem menor do que a mulher branca, bem menor do que o homem branco, principalmente dentro das universidades públicas federais”, aponta.

Para Denise, a população negra, em especial a mulher negra, sofreram durante muito tempo um processo de invisibilização na vida acadêmica. “A universidade sempre viveu num mundo branco, num mundo não inclusivo, num mundo elitista. A partir do advento das políticas públicas, temos outra UFRJ que começa a se movimentar. Mas essa movimentação só acontece com pessoas de carne e osso. Não adianta que as leis sejam promulgadas se a gente não tiver pessoas dispostas a enfrentar essa batalha cotidiana. Somos nós que temos que contar a nossa história”.

A titular da SGAADA afirma que há avanços concretos, mas há ainda muito a avançar. “Tenho 36 anos de universidade e lembro perfeitamente da administração central somente formada só por homens, do reitor aos superintendentes. A posse de Denise Pires de Carvalho como a primeira reitora em 100 anos de UFRJ nos colocou em outro patamar. Hoje nós temos mais mulheres do que homens na administração central. Mas apenas quatro mulheres negras. Temos que ter mais equidade. Acho que não tem mais como invisibilizar o gênero feminino dentro da universidade, mas a gente precisa de representatividade de todos os segmentos. Representatividade trans, homossexual, de mulheres negras, de quilombolas e de indígenas”.

Denise acredita que a SGAADA terá um papel fundamental nessa virada de chave. “O movimento que a SGAADA vem fazendo é para ampliar a discussão sobre o racismo na universidade e na sociedade. Avançamos muito com as políticas públicas de inclusão e hoje temos um perfil étnico-racial mais abrangente, pelo menos entre o corpo discente. Mas precisamos caminhar muito em relação aos servidores. Acho que a UFRJ tem que pensar com celeridade em transformar essa superintendência em uma pró-reitoria, e nem precisa estar sob meu comando, porque a gente se aposenta. Nós não cabemos mais numa estrutura de superintendência, temos aí exemplos em várias universidades federais que instituíram pró-reitorias nesse campo”.

WhatsApp Image 2026 03 11 at 20.17.58

A semana começou agitada na UFRJ. O início do ano letivo de 2026 trouxe expectativas, anseios e já apresenta inúmeros desafios. Bandejões com funcionamento prejudicado pela falta de pagamento a terceirizados e uma infiltração na cisterna do edifício Jorge Machado Moreira afetaram os primeiros dias de aula. As atividades, no entanto, foram normalizadas ainda ao longo desta primeira semana — os terceirizados, por exemplo, receberam os salários atrasados.

A volta às aulas coincidiu também com a Semana da Mulher, um momento de reflexão sobre as interdições ainda impostas ao gênero feminino. Bancos vermelhos foram instalados nos campi como símbolos do combate ao feminicídio. O assassinato de mulheres é o mais alto grau de uma escala de violências que ainda permeiam o dia a dia das brasileiras.

Na academia não é diferente. “Ainda precisamos mostrar nossa competência, impor nossa presença para sermos respeitadas”, desabafa a professora Angela Brêtas, ouvidora da Mulher da UFRJ. A instância foi criada em janeiro de 2023 como marco institucional no combate à violência de gênero na universidade. “Sermos professoras não nos isenta das violências a que todas as mulheres são submetidas. A universidade não é uma ilha”.

Em sala de aula, os desafios acompanham as mudanças sociais. Os ataques virtuais vêm ganhando espaço na universidade, de acordo com a ouvidora. “O ambiente digital está sendo cada vez mais utilizado para agredir professoras, fazer ameaças, humilhá-las”, aponta Angela Brêtas. “A suspeita é de que sejam alunos, mas não temos provas e esse é outro problema. Não é fácil rastrear perfis e e-mails falsos. Os agressores estão protegidos pelo anonimato e pela tela”, lamenta a docente, que também é pesquisadora na área de Educação.

A masculinidade tóxica incentivada por perfis “red pills” e “coaches de masculinidade” conquista adeptos cada vez mais jovens. “Precisamos criar um movimento pedagógico para lidar com isso”, avalia a professora. “Esse não é só um problema das mulheres, também afeta muito os homens. Gera, por exemplo, comportamentos de risco, aumento da depressão, do suicídio”, exemplifica.

RESPEITO E EQUIDADE
A academia é uma instituição que possui grande presença feminina — na UFRJ, as mulheres correspondem a 49% do corpo docente. Apesar disso, professoras negras ainda são minoria no ensino superior. Dados do Censo Nacional da Educação Superior de 2023 indicam que elas são apenas 7,5% dos mais de 397 mil professores universitários em atividade no país.

“Dentro do campo da luta das mulheres, temos especificidades que atingem as mulheres negras. As universidades são espaços criados para os homens, brancos, heterossexuais”, afirma a ouvidora da Mulher.

Pró-reitora de Graduação, a professora Maria Fernanda Quintela admite que ainda há um longo caminho a ser trilhado pelas mulheres na carreira docente, mas acredita que na esfera do ensino esses desafios estão menos estabelecidos. “Nossa carreira é multifacetada, mas acredito que hoje, no âmbito do Ensino, esses desafios são menos presentes”, acredita a professora. “Temos enorme presença na universidade e somos pontuadas com isonomia com os homens nas nossas avaliações para progressões, nessa área de Ensino”.

Ela não pode dizer o mesmo na Pesquisa e na Gestão. “Acredito que vamos melhor no Ensino e na Extensão, mas o ‘efeito tesoura’ realmente ainda é muito presente em outras esferas da nossa carreira”, reconhece. “Por isso são extremamente importantes as políticas públicas voltadas ao combate à desigualdade de gênero”, reflete a pró-reitora.

Para a professora Giovana Xavier, da Faculdade de Educação, o maior desafio das professoras universitárias carrega o paradoxo de ser tão simples quanto complexo: o direito à plena existência. “A professora universitária que, em vez de se abandonar, decide priorizar-se, ainda é vista como alguém que não leva o trabalho a sério”, critica.

“Da mesma forma, profissionais que estabelecem limites claros no trabalho, como não responder mensagens de madrugada ou nos fins de semana, não trabalhar nas férias ou limitar participações em bancas, comissões e orientações, seguem sendo rotuladas como difíceis, arrogantes ou inadequadas”, avalia. “Por isso, acredito que nosso desafio mais genuíno seja também existencial: criar formas emocionais, sociais e espirituais de vida em que a potência de realização e o prazer de sermos nós mesmas prevaleça”.

Para Giovana, esse desafio se apresenta de maneira diferente para as docentes negras. “Eu trilho diariamente um caminho de autorreconhecimento de minha própria humanidade, complexidade, singularidade e também dos meus limites. Sustentar uma carreira acadêmica autêntica exige um enorme investimento de energia, além da capacidade de se desapegar de expectativas externas, estereótipos e tentativas constantes de enquadramento”, diz.

“Garantir que a palavra ‘pessoa’ exista plenamente na experiência de sermos mulheres negras na universidade é, ao mesmo tempo, nosso maior desafio e um de nossos maiores legados para a Ciência e para as futuras gerações”, conclui a docente da Faculdade de Educação.

Topo