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Fotos: Alessandro CostaA exposição “Rescaldos das Memórias”, assinada pelo artista plástico Vik Muniz, começou a ser concebida quando o Museu Nacional ainda ardia em chamas, em setembro de 2018. O artista se comoveu ao ver, pela televisão, o fogo destruir suas memórias de infância e resolveu fazer alguma coisa para ressignificar toda a tragédia. “O Vik Muniz entrou em contato imediatamente conosco, logo após o incêndio, porque ele tinha muitas memórias de infância no Museu Nacional, visitou muitas vezes as nossas exposições permanentes”, conta o diretor do Museu, o professor Ronaldo Fernandes.
“Ele ficou muito comovido e então começamos uma parceria”, lembra. A exposição reúne quadros e esculturas que recriam parte do acervo perdido do Museu Nacional. As obras usam como matéria-prima as cinzas recolhidas no trabalho de rescaldo e de recuperação do palácio. “É um orgulho muito grande ter essa parceria com um artista tão renomado, em uma exposição que trabalha não só o acervo que foi perdido, mas, sobretudo, ressignifica essa perda”, afirma a museóloga Thaís Mayumi.
As obras estão expostas na Sala das Vigas, local onde o incêndio começou, e seguem em cartaz até 30 de agosto. Muito emocionada, a psicóloga Rafaela Nascimento foi uma das visitantes durante a abertura oficial da exposição. “Entrar neste espaço nos dá a real dimensão da tragédia. É realmente uma tragédia para a pesquisa, para a memória, para a História”, diz. “Ao mesmo tempo, é um convite para ressignificarmos todos esses sentimentos e valorizar nossas instituições científicas. É muito bonito poder estar aqui e ver todo esse trabalho”.
OUTRAS EXPOSIÇÕES
Na sala ao lado, a exposição “Os Bastidores da Ciência” mostra as etapas técnico-científicas do trabalho realizado pelos professores e pesquisadores que atuam no Museu Nacional. “O Museu Nacional vive porque produz conhecimento. O incêndio destruiu muita coisa, mas o trabalho da nossa instituição continuou”, afirma Thaís Mayumi.
Do lado de fora, uma réplica do Oxalaia quilombensis, o maior dinossauro carnívoro descoberto no Brasil, encanta crianças e adultos de todas as idades. A réplica foi doada pelo Parque dos Dinos. A espécie pertence ao grupo dos espinossaurídeos e foi descoberta pelo professor Alexander Kellner, ex-diretor da unidade. “Estava na Ilha do Cajual, no Maranhão, em uma expedição para coletar material. Um dia, resolvi ir caminhar pela praia. Lá pelas tantas, eu achei um pedaço da parte frontal, o focinho dele”, recorda o professor.
A descrição completa da espécie em publicação científica ocorreu em 2011, mas o achado ocorreu em 1999. Até o momento, 35 mil pessoas visitaram as exposições desde a inauguração, em 21 de junho, data em que o Museu Nacional comemorou 208 anos. Todas as mostras ficam em cartaz até 30 de agosto. A entrada é gratuita. O Museu Nacional funciona de terça a domingo, das 10h às 16h.
CLAUDIA PINTO FIGUEIREDO (foto)
INSTITUTO DE BIOFÍSICA UFRJ
ABILIO AFONSO BAETA NEVES
PUCRS E UFRGS
CONCEPTA MCMANUS
UNB
MARCELO ALVES DA SILVA MORI
INSTITUTO DE BIOLOGIA UNICAMP
Os rankings universitários internacionais tornaram-se uma das principais ferramentas utilizadas para comparar instituições de ensino superior em escala global. Nesta primeira semana de junho, foi divulgada a edição de 2026 do Center for World University Rankings (CWUR), um dos principais rankings globais de universidades. Os resultados mostram uma tendência preocupante para o Brasil, com especial destaque para a queda de rendimento das instituições federais do Estado do Rio.
A maior parte das universidades brasileiras perdeu posições em relação ao ano anterior, especialmente no componente de pesquisa, que responde por 40% da pontuação total do ranking.
Uma análise dos indicadores mostra que a principal diferença entre as universidades brasileiras mais bem posicionadas e as instituições que lideram o ranking mundial não está necessariamente na produção científica, mas sobretudo nos componentes relacionados ao sucesso acadêmico e profissional de seus egressos e ao acúmulo histórico de prestígio acadêmico.
SETE INDICADORES E QUATRO DIMENSÕES
A metodologia desse ranking combina sete indicadores agrupados em quatro dimensões principais. Qualidade da educação (25%), medida pelo sucesso acadêmico de ex-alunos laureados; empregabilidade (25%), baseada na presença de egressos em posições de liderança nas maiores empresas do mundo são alguns dos itens.
Além destes, estão também a qualidade do corpo docente (10%), avaliada a partir da presença de professores agraciados com importantes distinções acadêmicas internacionais; e a pesquisa (40%), composta por indicadores deprodução científica, publicações de alta qualidade, influência científica e impacto por citações. O resultado é um retrato institucional fortemente orientado por métricas de desempenho acadêmico e científico de longo prazo.
Entre as três universidades brasileiras mais bem colocadas (USP, Unicamp e UFRJ), observamos perfis bem distintos.
A USP destacou-se principalmente pela pesquisa, ocupando a 82ª posição mundial nesse indicador, muito à frente de seus resultados em Educação (549ª), Empregabilidade (390ª) e Corpo Docente (203ª).
A Unicamp apresentou padrão semelhante, com desempenho mais forte em Pesquisa (117ª) do que em Educação (854ª), Empregabilidade (516ª) e Corpo Docente (266ª). Esse perfil reflete uma consolidação da Unicamp como uma universidade de excelência científica e tecnológica.
A UFRJ, por sua vez, apresenta um perfil distinto. Embora ocupe a 407ª posição em Pesquisa, alcança colocações relativamente melhores em Corpo Docente (176ª) e Educação (504ª), enquanto figura na 489ª posição em Empregabilidade.
Esses resultados refletem a importância histórica da antiga Universidade do Brasil na formação de lideranças científicas, intelectuais e acadêmicas ao longo do século XX. Mas mostra, comparativamente à USP e Unicamp, um desempenho abaixo em pesquisa.
COMPETITIVIDADE MAIOR É EM PESQUISA
O contraste no histórico de evolução desses indicadores entre as duas mais bem colocadas no ranking levanta a questão de até que ponto a UFRJ tem conseguido converter sua tradição acadêmica e sua capacidade de formação de recursos humanos em competitividade científica internacional.
Enquanto universidades como Harvard ocupam a primeira posição mundial em Educação, Empregabilidade, Corpo Docente e Pesquisa, as instituições brasileiras apresentam desempenho relativamente mais competitivo apenas em Pesquisa.
A posição de Harvard se dá por conta dos indicadores associados à formação de laureados internacionais e à presença de ex-alunos em posições de liderança nas maiores empresas globais.
Esses indicadores refletem efeitos de longo prazo e dependem de uma massa crítica ainda maior de produção científica de alto impacto para se traduzirem em reconhecimento internacional.
Essa distinção é importante porque nem todos os indicadores do ranking capturam a mesma dimensão temporal do desempenho universitário. Os componentes Educação e Corpo Docente refletem, em grande medida, o legado acumulado pelas instituições ao longo de décadas.
E baseiam-se no sucesso de ex-alunos e no reconhecimento internacional de seus docentes — um desafio adicional para universidades brasileiras, em geral mais jovens e ainda em consolidação.
Já o componente Pesquisa está associado à capacidade contemporânea de geração de conhecimento, sendo construído a partir de indicadores de produção científica, publicações de alta qualidade e impacto por citações acumulados ao longo de aproximadamente uma década.
Esses indicadores, por seu maior peso no ranking, refletem o desempenho científico das universidades e sua capacidade de sustentar protagonismo no futuro.
ATENÇÃO AOS RESULTADOS DE 2026
Os resultados de 2026 merecem atenção e refletem uma tendência dos últimos anos. Quando se observa especificamente a classificação em pesquisa (“Research Rank”), as seis mais bemposicionadas universidades brasileiras apresentaram, em sua maioria, perda de posições acumulativa desde 2020.
De 2025 para 2026, a USP recuou da 81ª para a 82ª posição mundial, a Unicamp da 327ª para a 340ª, a Unesp da 428ª para a 450ª, a UFRJ da 393ª para a 407ª, a UFRGS da 445ª para a 446ª e a UFMG da 480ª para a 484ª posição.
O quadro torna-se ainda mais expressivo quando se observa o desempenho das principais instituições fluminenses. Entre 2025 e 2026, a UFRJ recuou 14 posições no item Pesquisa. A Fiocruz caiu 20, de 634º para 654º. A UERJ recuou 17, caindo do 833º para 850º lugar. E a UFF despencou 23 pontos, indo do 938º para o 961º.
Embora as universidades paulistas também tenham perdido posições, a magnitude das quedas foi substancialmente menornas instituições líderes daquele estado, com a maior queda observada na Unesp, que passou de 428ª para a 450ª posição, e UFABC de 860ª para a 1134ª posição.
O contraste sugere que o enfraquecimento relativo da competitividade científica foi mais intenso no sistema de ciência e tecnologia fluminense do que em São Paulo.
Ainda assim, é difícil ignorar que o desempenho relativamente mais fraco das instituições fluminenses coincide com um período de forte instabilidade no sistema estadual de financiamento à pesquisa. Enquanto a Fapesp manteve uma trajetória de crescimento, previsibilidade orçamentária e apoio continuado à pesquisa científica de longo prazo, a Faperj atravessou sucessivas mudanças institucionais e períodos de incerteza associados ao contexto fiscal e político do estado.
Embora não seja possível estabelecer relações causais diretas, a experiência internacional sugere que sistemas científicos dependem de continuidade institucional, previsibilidade de financiamento e planejamento de longo prazo para sustentar sua competitividade.
Os impactos dessas mudanças são difíceis de quantificar isoladamente, mas os dados sugerem que as instituições fluminenses perderam competitividade científica relativa justamente em um período no qual seus principais parceiros nacionais operaram em ambientes de financiamento mais previsíveis.
Outro tema importante, nesse contexto, é a crescente priorização das políticas de inovação em face das políticas gerais de desenvolvimento científico como se houvesse um conflito entre elas.
CIÊNCIA NÃO É GASTO, MAS POLÍTICA DE ESTADO
Mais do que uma discussão sobre posições em rankings, os resultados do CWUR trazem uma reflexão importante sobre os caminhos da ciência brasileira. Os países que lideram a produção científica sustentam há décadas políticas de Estado voltadas ao fortalecimento contínuo da pesquisa básica, da pesquisa aplicada e da formação de recursos humanos altamente qualificados.
A inovação não surge em substituição à ciência de excelência. Ela é consequência dela. Tecnologias transformadoras, novos medicamentos, inteligência artificial, biotecnologia e transição energética nasceram de investimentos persistentes em pesquisa de qualidade, frequentemente muito antes de qualquer aplicação comercial previsível.
O Brasil conquistou uma vitória importante ao garantir o descontingenciamento do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT). Este resultado é fruto da mobilização da comunidade científica e do reconhecimento, pelo Congresso Nacional, da importância estratégica da ciência para o desenvolvimento do país.
No entanto, a existência de recursos, por si só, não garante ganhos de competitividade científica. É necessário que esses investimentos fortaleçam efetivamente a pesquisa de ponta, a infraestrutura científica, os programas de bolsas e a formação de novos pesquisadores.
Nos últimos anos, a Finep, principal gestora dos recursos do FNDCT, ampliou significativamente sua atuação em programas voltados à inovação, ao empreendedorismo e à interação com o setor produtivo.
Trata-se de objetivos legítimos e fundamentais para o desenvolvimento nacional. No entanto, os resultados observados em rankings internacionais como o CWUR sugerem a necessidade de reflexão sobre o equilíbrio entre essas iniciativas e os investimentos direcionados à pesquisa científica básica de excelência.
A experiência dos países que lideram a produção de conhecimento e a inovação tecnológica mostra que a inovação sustentável não substitui a ciência de qualidade: ela emerge dela.
O desafio brasileiro não é escolher entre pesquisa básica, pesquisa aplicada ou inovação. É compreender que essas dimensões são complementares e que o desenvolvimento sustentável de um país depende do fortalecimento simultâneo de todas elas.
Sem uma base científica robusta, internacionalmente competitiva e capaz de formar novas gerações de pesquisadores, dificilmente será possível sustentar, no longo prazo, a capacidade inovadora que o país almeja construir.
*Artigo publicado originalmente no site The Conversation
ELEONORA ZILLER
PROFESSORA DA FACULDADE DE LETRAS E EX-PRESIDENTA DA ADUFRJ
Estive em mais um Conad (Conselho Nacional de Associações de Docentes do ANDES), em São Luís, de três a cinco de julho. Alguns amigos me perguntam como ainda tenho paciência para tanto, mas a resposta é simples: precisamos muito de um bom sindicato. Com todos os problemas, rachas e burocratismos, nossa carreira, e a própria universidade pública que ainda hoje está de pé, é resultante de muitas batalhas coletivas travadas nas últimas décadas. Mas, então, qual o problema?
Havia dois pontos cruciais para serem debatidos no Conad: como o sindicato deve se posicionar nas eleições para presidente em outubro, e a constituição de uma comissão para construir propostas para a organização do próximo congresso. O primeiro é reprise de filme ruim: em nome de uma autonomia frente a governos e partidos, o ANDES escolhe um posicionamento genérico sobre o primeiro turno das eleições. É ruim porque a decisão demonstra exatamente o contrário do que ela declara: subordina o seu posicionamento a disputas partidárias internas do ANDES.
Foto: Eline Luz/Imprensa Andes-SNA diretoria e a maioria do plenário do ANDES parecem não compreender que a questão central no momento não é a avaliação do Lula ou as contradições do PT, até porque talvez sejamos a categoria profissional mais frustrada com o atual governo. Os anos de bonança do período Lula/ Haddad geraram uma enorme expectativa que esteve longe de ser cumprida. O ponto central, que ficou fora do debate, é se iremos jogar toda a nossa força desde o primeiro turno para derrotar a extrema direita ou se vamos nos iludir que estamos diante de um processo eleitoral normal.
Os interesses externos são gigantescos, o jogo é pesado, e dessa vez entra em campo de forma explícita (e, de certa forma, também inédita) a intervenção do governo norte-americano. Por isso, achávamos que o ANDES deveria ter um papel central na construção de uma mobilização dos sindicatos e associações científicas para garantir uma votação expressiva, e quiçá no primeiro turno, na única alternativa que temos nesse momento capaz de impor uma derrota significativa à familícia.
Perdemos por apenas dois votos. Ou seja, a decisão foi ficar encolhido. O ANDES vai ficar “paradinho”, como em 2022.
ORGANIZAÇÃO DO CONGRESSO
Em relação à possibilidade de pensar alternativas para a organização do próximo congresso, patinamos na mesmice de sempre, formando uma comissão majoritariamente comprometida com a manutenção das coisas como elas estão. E como elas estão?
Há décadas convivemos com uma ideia de democracia sindical no Congresso do ANDES que a cada ano se mostra mais contraditória e pouco eficiente. Desde a inscrição de textos e propostas de resolução até o processo de votação, é encenado um “ritual metodológico” que tem como princípio básico garantir a aprovação das teses da diretoria, e não o debate e a organização das grandes questões, muitas consensuais, de interesse da categoria. Em resumo, como isso se dá:
1. Cria-se a mística do debate pela base, facilitando a inscrição de propostas de resolução que, por serem inúmeras, pulveriza a discussão, gerando imensos cadernos de textos, com centenas de páginas. A restrição começa aqui: apenas uma militância aguerrida se debruça sobre a totalidade de contribuições.
2. Criam-se grupos de discussão, que são formados teoricamente por um sorteio aleatório. A ordem dos textos a serem votados é decidida arbitrariamente, de modo que cada grupo terá uma sequência diferente de textos a serem discutidos. Dessa forma, diz o “método”, se garante que todos os textos sejam debatidos em pelo menos em um grupo.
3. Parece democrático, ninguém escolhe seu grupo, ninguém escolhe o que vai discutir. Mas só parece. Os grupos possuem uma formação “aleatória”, ninguém se conhece. Mas em todos os grupos temos ao menos um representante da diretoria, que leu, estudou, mapeou todos os textos e sempre apresenta uma orientação para a votação.
4.Os textos são numerados, aqueles que não possuem destaques são imediatamente aprovados, sem qualquer discussão. Os que recebem destaques são debatidos e votados. Parece democrático porque as teses minoritárias, com ao menos 30% dos votos, irão à plenária para serem votadas.
5. São horas e horas de discussões e votações de destaques, só que você está colocado num grupo com pessoas que não escolheu, discutindo temas que também não escolheu, e o que é pior desse “método democrático” é que as grandes questões consensuais, as grandes tarefas nacionais, são votadas em segundos.
6. Com essa organização, um representante de uma Associação que apresentou uma proposta de reorganização da carreira pode ser “sorteado” para um grupo que sequer vai debater a sua proposta, que será debatida em outro grupo, sem a presença de alguém de sua delegação, e o projeto poderá ser rejeitado sem que ninguém tenha conseguido defendê-lo.
7. Conclusão: o grande Congresso do ANDES se organiza em torno das disputas das diferenças e de forma a garantir o controle de todo o processo por parte da diretoria, e não em torno da construção das grandes pautas nacionais, debatidas por quem entende do assunto, ou por quem viajou quilômetros para debatê-las.
Tudo isso acontece em extenuantes jornadas de 12 a 14 horas de discussão, num emaranhado de questões organizadas por um “supermétodo” que paira acima de todos. Sim, já foi pior! Antes, as reuniões nem tinham teto para acabar e entravam madrugada adentro. Muitas mudanças pontuais foram conquistadas pelas bancadas minoritárias, mas já passou da hora de entendermos que esse sindicato precisa de mudanças, de muitas mudanças.
Foto: Fernando Souza
JOÃO TORRES DE MELLO NETO
INSTITUTO DE FÍSICA E PRÓ-REITOR DE PÓS-GRADUAÇÃO E PESQUISA DA UFRJ
A queda de universidades brasileiras em rankings internacionais costuma ser noticiada como se fosse uma radiografia direta da qualidade nacional. Não é. Rankings são medidas relativas, com metodologias próprias, mudanças de cobertura e pesos diferentes para reputação, pesquisa, inserção internacional e impacto bibliométrico. Ainda assim, quando indicadores distintos apontam na mesma direção, eles podem revelar alterações estruturais importantes. Esse é o caso da ascensão chinesa.
Recentemente, C. Figueiredo e colaboradores publicaram aqui no The Conversation Brasil a análise “Universidades brasileiras perdem espaço nos rankings internacionais, e maior alerta é nas instituições fluminenses”. O artigo chama atenção para a perda de posições das instituições brasileiras e, em particular, para a situação das universidades do Rio de Janeiro.
Aqui, ampliamos essa discussão. Em vez de observar apenas as universidades brasileiras, comparamos a evolução de Brasil, China, Rússia, França e Estados Unidos em três bases distintas: dois rankings institucionais, QS e CWUR, e um indicador bibliométrico baseado em pesquisadores altamente citados, associado à Elsevier. A pergunta central é como a posição relativa do Brasil evoluiu diante da ascensão chinesa e de sistemas científicos já consolidados.
China e Brasil são o contraste principal da análise. Estados Unidos e França foram incluídos como referências de sistemas universitários historicamente dominantes, enquanto a Rússia permite comparar o Brasil com outro membro dos BRICS, embora sob condições institucionais e geopolíticas muito diferentes.
O CWUR: PERDA BRASILEIRA E AVANÇO CHINÊS
O Center for World University Rankings (CWUR) classifica as duas mil universidades mais bem colocadas em um universo de dezenas de milhares de instituições avaliadas. Em 2026, foram consideradas 21.291 instituições. O ranking combina dimensões de educação, empregabilidade, corpo docente e pesquisa; por isso, sua leitura é particularmente útil quando o foco é a posição acumulada de universidades no sistema mundial.
Para reduzir o ruído de oscilações individuais, usamos a mediana das posições mundiais das dez universidades mais bem colocadas de cada país. Entre 2022-23 e 2026, a China foi a única entre os cinco casos que apresentou ganho relevante: a mediana de suas dez melhores universidades melhorou 35,5 posições. O Brasil perdeu 13 posições; a França, 2,5; os Estados Unidos ficaram praticamente estáveis; e a Rússia perdeu 55,5 posições.
O resultado não significa que uma universidade chinesa isolada tenha necessariamente se tornado superior a qualquer instituição de outro país. Significa que, na parte alta da distribuição, o conjunto das universidades chinesas avançou de maneira sistemática. É justamente esse caráter coletivo que torna a tendência mais relevante do que a melhora de uma única universidade.
A CHINA NÃO SOBE APENAS COM A SUA UNIVERSIDADE LÍDER
A evolução chinesa fica ainda mais nítida quando o recorte é ampliado. A mediana das dez melhores universidades chinesas passou de 99,5 para 64,0 no CWUR. Entre as vinte melhores, a mediana caiu de 158,5 para 122,0. Como posições menores representam melhor desempenho, as duas séries indicam avanço: 35,5 posições para o grupo das dez e 36,5 para o grupo das vinte.
Esse ponto importa porque distingue “efeito de vitrine” de fortalecimento sistêmico. O avanço das vinte melhores acompanha o das dez melhores, o que sugere que a melhora não está restrita a Tsinghua, Pequim ou a um punhado de instituições já consolidadas. A China vem alargando a densidade de sua elite universitária.
QS E ELSEVIER: DUAS LENTES DIFERENTES
O QS mede universidades com uma arquitetura diferente da do CWUR, atribuindo peso importante a reputação acadêmica, reputação entre empregadores, internacionalização e outros indicadores. Já a base Stanford-Elsevier não é um ranking de universidades: identifica pesquisadores de alto impacto no_ Scopus _por subárea, combinando citações, índices de citação e posições de autoria em um indicador composto. A edição mais recente disponível mede citações recebidas em 2024; a comparação aqui a confronta com 2019.
Na terceira figura, o indicador é a variação absoluta da mediana da posição da elite nacional, e não uma variação percentual. Essa escolha é deliberada. Percentuais de ranking distorcem comparações entre países próximos do topo e países na faixa 500 ou 600. Assim, números negativos representam melhora; positivos, piora. Os períodos não são idênticos: QS compara 2022 a 2027, CWUR compara 2022-23 a 2026 e Elsevier compara 2019 a 2024. O objetivo não é transformar os três índices em uma escala única, mas verificar a direção da mudança em cada um deles.
A leitura conjunta é clara em um ponto: a China melhora nos três instrumentos. No QS, sua elite universitária avança; no CWUR, o ganho é mais acentuado; e na base Elsevier há forte melhora da posição mediana de seus dez pesquisadores mais bem classificados no impacto anual. A convergência entre ranking institucional e bibliometria individual reforça a interpretação de que não se trata apenas de mudança cosmética de metodologia.
O Brasil apresenta uma situação diferente. No CWUR, há perda de posição; no QS, a mediana também piora em termos absolutos; e, na Elsevier, a elite científica selecionada no recorte perde posição. Isso não autoriza concluir que a ciência brasileira “piorou” de modo simples ou homogêneo. A produção científica nacional continua ampla e várias universidades mantêm desempenho de destaque em áreas específicas. O que os dados mostram é uma perda relativa de espaço diante de sistemas que avançam com maior velocidade, sobretudo a China.
A Rússia apresenta uma deterioração muito acentuada no QS e no CWUR, mas a ausência de um resultado diretamente comparável no indicador Elsevier impede uma avaliação plenamente simétrica entre os três índices. Nesse caso, a própria atribuição institucional dos pesquisadores tornou-se especialmente sensível: mudanças de vínculo, mobilidade internacional e reorganizações institucionais podem alterar contagens e posições sem corresponder apenas a mudanças na produção científica.
A França, por sua vez, mostra perda de posição nos três indicadores, com destaque para o recuo no índice Elsevier. Isso não significa que tenha deixado de ser um dos grandes polos científicos mundiais, mas sugere perda relativa de espaço diante da expansão acelerada de outros sistemas, sobretudo o chinês. Os Estados Unidos permanecem essencialmente estáveis no período analisado, enquanto a China é o único caso de melhora consistente e substancial nos três índices.
O QUE OS RANKINGS PERMITEM DIZER – E O QUE NÃO PERMITEM
A conclusão não é que rankings sejam sentenças definitivas sobre países ou universidades. Eles não medem adequadamente ensino de graduação, impacto social local, extensão, diversidade, formação de profissionais ou relevância de campos menos citados. Também não identificam causalidade: não é possível atribuir uma mudança de posição a uma única política pública. Mas eles são úteis para detectar tendências quando usados com método, transparência e mais de uma fonte.
A mensagem principal é simples. A China não aparece em ascensão apenas em um ranking, nem apenas por uma universidade de exceção. Ela avança no CWUR, no QS e na bibliometria de pesquisadores de alto impacto, e seu avanço alcança tanto as dez quanto as vinte melhores instituições. O Brasil, por sua vez, não pode tratar a perda relativa como mero acidente anual: ela é um sinal para proteger financiamento, infraestrutura, carreiras científicas e a capacidade das universidades públicas de competir internacionalmente.
METODOLOGIA E FONTES
Em CWUR e QS, cada país foi representado pela mediana das posições mundiais de suas dez universidades mais bem colocadas. Quando uma edição apresentou intervalos de posição, foi usado o ponto médio do intervalo. Na base Stanford-Elsevier, selecionaram-se os dez pesquisadores por país com melhor posição no indicador anual de impacto, baseado em citações recebidas no ano, e calculou-se a mediana de suas posições. A comparação Elsevier usa afiliação institucional, não nacionalidade. Os valores devem ser lidos como movimentos relativos em listas internacionais, não como medidas diretas de qualidade absoluta.
O autor agradece a Leonardo Tinoco, da PR2/UFRJ, pelas inúmeras discussões sobre os rankings.
*Artigo publicado originalmente no site The Conversation
ERIK GIUSEPPE BARBOSA PEREIRA Professor da Escola de Educação Física e Desportos
FÁBIO VASCONCELOS SOUSA Programa de Pós-graduação em Educação Física
SANDRO HENRIQUE PINTO DA SILVA Programa de Pós-graduação em Educação Física
DIEGO RAMOS DO NASCIMENTO Grupo de Estudos em Corpo, Esporte e Sociedade da EEFD
A Copa do Mundo de Futebol costuma ser apresentada como a principal celebração das identidades nacionais no cenário esportivo internacional. Durante algumas semanas, bandeiras, hinos e símbolos nacionais ocuparam o centro das atenções, reforçando a ideia de que a competição representa um encontro entre diferentes povos. Entretanto, por trás dessa aparente exaltação das fronteiras nacionais, a Copa também revelou processos sociais que transcendem os limites dos Estados, especialmente aqueles relacionados às migrações e à globalização.
A realização da Copa do Mundo de 2026, sediada conjuntamente por Canadá, México e Estados Unidos, torna essa discussão ainda mais relevante. De um lado, as recentes políticas migratórias e restrições de entrada adotadas pelo governo estadunidense suscitaram debates sobre mobilidade internacional, desigualdades no acesso à circulação e os limites impostos à universalidade de um evento que se pretende global. De outro, a própria composição das seleções participantes evidenciou como as migrações contemporâneas transformaram as noções de pertencimento nacional. Cada vez mais, jogadores representam países distintos daqueles em que nasceram ou mantêm vínculos familiares, culturais e afetivos com múltiplos territórios, resultado de trajetórias marcadas por deslocamentos, diásporas e processos de naturalização.
Nesse sentido, a Copa constituiu um observatório privilegiado para compreender algumas das tensões centrais do mundo contemporâneo. Enquanto governos reforçaram mecanismos de controle sobre a circulação de determinadas populações, o futebol expôs a crescente interdependência entre sociedades e a formação de identidades transnacionais. Assim, este texto propõe refletir sobre duas dimensões da relação entre migração e Copa do Mundo: os impactos das restrições migratórias associadas à realização do torneio nos Estados Unidos e a influência da globalização na redefinição das nacionalidades e dos pertencimentos dos jogadores que disputaram a competição.
Esse torneio de proporções globais evidenciou tensões contemporâneas relacionadas com a realização de megaeventos esportivos e a implementação de políticas migratórias restritivas. O recrudescimento da política migratória dos EUA para esse evento pôde ser observado a partir da realização de inspeções ostensivas a delegações como no caso do Uzbequistão e do Senegal, bem como na negação de visto a torcedores, dirigentes, integrantes de comissões técnicas e até mesmo a um árbitro somali da FIFA que estava devidamente credenciado para trabalhar no evento. O governo Trump, por meio de uma proclamação de proibição e limitação de entrada (travel ban), decretou proibições totais ou parciais de entrada nos EUA para cidadãos de 39 países e restringiu a emissão de vistos especificamente durante o período da competição alegando riscos à segurança nacional.
Nessa conjuntura, uma pergunta se faz mister: como conciliar a governança da mobilidade em uma competição esportiva de grande magnitude como a Copa do Mundo com a rígida arquitetura do controle de fronteiras entre países? Diferentemente das migrações de longo prazo, o fluxo gerado pelo megaevento configura-se como uma intensa mobilidade internacional temporária que provoca modificações significativas nas dinâmicas urbanas locais, com estimativas apontando para a mobilização de milhões de turistas ao longo do período do torneio, o que acaba por se configurar em um desafio adicional para todos os envolvidos na organização da competição.
O projeto de universalização do futebol promovido pela FIFA tem como pressuposto o compartilhamento de um espaço globalizado, no qual o futebol atua como um veículo de integração cultural e congraçamento entre povos no qual esteja garantida a livre circulação de todos os atores envolvidos na realização do evento. Nesse contexto, ficou imediatamenteestabelecido um cenário de contradição entre a autonomia das organizações transnacionais e a soberania das nações, principalmente quando a configuração em questão envolve políticas migratórias e segurança nacional. Se, por um lado, a FIFA prega uma universalidade que pressupõe garantia de livre acesso aos países-sede para as nações classificadas, em oposição a isso as exigências relacionadas com a segurança interna dos EUA estipularam obstáculos que se contrapõem frontalmente a esses ideais de multiculturalismo e coexistência. Essa assimetria revelou, infelizmente, que o megaevento esportivo passou a constituir-se também em um palco de disputas de poder onde burocracia e ideologia condicionam os fluxos de mobilidade global ao sabor da política externa da superpotência anfitriã.
Um olhar mais atento sobre as últimas Copas já apontava um aumento consistente na participação de jogadores nascidos no exterior em seleções nacionais, com uma diversidade crescente de países de origem. Este movimento pode ser explicado pela noção de corredores migratórios, em que a escolha de um atleta por outra bandeira costuma ser o resultado de fluxos históricos entre pares de países. Federações passaram a identificar e convocar com mais proatividade jogadores com dupla ou múltipla cidadania (caso do Marrocos atraindo marroquinos nascidos na Europa), e as regras de elegibilidade da FIFA reconfiguram o significado de "seleção" a cada edição. O futebol, como lembra a literatura, mantém uma lógica territorial baseada nos estados-nação, mas combina essa lógica com hibridismos culturais e multiterritorialidades. E essa combinação, mais do que uma contradição, é o seu modo contemporâneo de ser.
Em um cenário no qual quase 25% dos jogadores representam países diferentes daqueles em que nasceram, o futebol internacional contemporâneo constitui-se como um espaço privilegiado de negociação de identidades nacionais em um mundo globalizado. Observar a Copa de 2026 foi, em última instância, contemplar uma fotografia ampliada das sociedades que a produzem. Indagar a legitimidade das escolhas de convocação é exercício saudável, e perguntar até que ponto uma federação esportiva representa um povo e não apenas uma estratégia esportiva é questão democrática, e não apenas futebolística. Mas a alternativa não precisa ser o essencialismo: seleções sempre foram construções, ainda que por outros mecanismos, e o que se presencia em campo é menos a dissolução do futebol como expressão de identidade nacional e mais a sua reinvenção, um processo mais complexo, contraditório e, talvez por isso mesmo, mais fiel ao mundo que o produz.