Fotos: Fernando SouzaSenhores pipoqueiros, muita atenção! Há farta freguesia ao menos uma sexta-feira por mês no belo casarão da Avenida Rui Barbosa 762, no Flamengo, Zona Sul do Rio, onde funciona o Colégio Brasileiro de Altos Estudos (CBAE) da UFRJ. O movimento começa no fim da tarde, e é formado por jovens na casa dos 20 anos, alunos de vários cursos de graduação da universidade. Eles lotam rapidamente os 170 lugares do salão nobre. Às 18h em ponto começa mais uma sessão do MedCine, o cineclube de Medicina e Ciência que transforma o CBAE em uma das mais movimentadas salas de cinema da cidade.
Mas o sucesso de bilheteria não veio da noite para o dia. Nas primeiras sessões do cineclube, entre o fim de 2022 e o início de 2023, os organizadores distribuíam pipoca e refrigerante para reunir, com esforço, 15 ou 20 estudantes. “No início, a tática da pipoca de graça tinha espaço, hoje não dá mais. Nem a copa do CBAE comporta. As sessões têm até 170 pessoas”, compara a professora Cláudia Mermelstein, do ICB, uma das idealizadoras do projeto. “Cada saco de pipoca de micro-ondas demora cinco minutos para ficar pronto. Hoje nem daria tempo de fazer pipoca para todo mundo”, ri o professor Manoel Luis Costa, também do ICB e mestre de cerimônia das sessões.
A IDEIA ORIGINAL
Usar clássicos do cinema para debater temas médicos e científicos foi uma ideia surgida em uma das cátedras do CBAE, cujo nome soa sisudo: Cátedra Carlos Chagas Filho de Fronteiras da Biologia e da Medicina. “Mas de sisuda a cátedra não tinha nada. As aulas eram espetaculares, tanto que geraram um livro lançado em janeiro de 2022. E nessas aulas surgiu a ideia de exibir filmes e promover os debates. Os professores de Medicina começaram a participar. O próprio reitor já participou”, conta a professora Ana Célia Castro, diretora-geral do CBAE.
“Eu lembro bem. Em um dos encontros da cátedra discutimos o ensino de Biologia Celular na Medicina, e nesse encontro surgiu a ideia do cineclube, inicialmente voltado para alunos de Medicina, e com filmes com a temática da Ciência e da área médica. E a Ana Célia nos abriu as portas do CBAE”, confirma Cláudia Mermelstein.
A professora do ICB conta que os debates são a melhor tradução do sucesso do projeto. Os alunos fazem um círculo com as cadeiras depois do filme e começam a trocar ideias. “Houve um filme em que se mostrava um hospital do século XVIII. No debate, os alunos de Medicina puxaram para o lado da doença, do tratamento. Um aluno da FAU observou que a arquitetura do hospital pouco mudou em relação aos nossos dias. Já um aluno da Economia veio com uma reflexão sobre como as pessoas se mantinham naquela época, com que recursos. É sempre muito interessante essa troca”.
Manoel Luis Costa recorda que na primeira sessão do cineclube, em 25 de novembro de 2022, menos de duas dezenas de alunos se reuniram para assistir “Nise — O Coração da Loucura”, filme brasileiro protagonizado por Glória Pires e dirigido por Roberto Berliner, que aborda a vida e o trabalho da psiquiatra Nise da Silveira. Aos poucos, com o boca a boca, a plateia foi crescendo. “Acho que o salto maior se deu quando institucionalizamos o cineclube como um projeto de extensão, e ele passou a ser divulgado para outros cursos da UFRJ. Os alunos têm que cumprir uma atividade de extensão. Participando das sessões, eles ganham os créditos”.
REALIZAÇÃO Manoel Luis Costa, Ana Célia Castro e Cláudia Mermelstein
Há hoje 520 alunos inscritos no projeto de extensão, e não é possível abrir novas vagas. Tem até fila de espera, com 120 pessoas. “Nosso controle é feito por um aplicativo criado por um de nossos alunos, que registra a presença por celular e com a localização em que a pessoa está naquele momento. Temos um grupo de WhatsApp em que damos informes, dizemos se ainda há lugar disponível na sessão, e anunciamos os filmes que virão”, diz Manoel.
LOTAÇÃO ESGOTADA
O aplicativo do MedCine funcionou bem na 35ª sessão, no dia 22 de maio. O salão nobre ficou lotado para a exibição de “Thank you for smoking” (no Brasil, “Obrigado por fumar”), de 2006, dirigido por Jason Reitman e estrelado por Aaron Eckhart. Uma sátira que aborda o poderoso lobby da indústria de tabaco nos Estados Unidos. Pela primeira vez, a Prefeitura Universitária liberou um ônibus especial para levar alunos do Fundão para o CBAE. E o ônibus chegou lotado.
Murilo Spineli é o aluno do 6º período de Medicina que criou o aplicativo. Ele faz parte da direção do cineclube. “Eu comecei a estudar Engenharia na USP, também fiz Computação. Gosto dessa parte da tecnologia também, daí consegui criar esse aplicativo. Está sendo muito útil. O volume de pessoas tem aumentado muito”, garante Murilo.
Para o aluno, a melhor parte do MedCine são as discussões pós-filme. “Essa é a riqueza do projeto. Hoje, a maior parte dos alunos que está no projeto não é da Medicina. Tem mais gente da Economia, por exemplo. Os debates duram mais de uma hora. Um dos dias mais marcantes foi a discussão depois do Bicho de Sete Cabeças. Acho que ficamos quase duas horas no debate sobre o tratamento adotado para doenças mentais”, lembra Murilo.
Nicolas Meireles, também do 6º período de Medicina e da direção do cineclube, concorda. “A gente vê a evolução do projeto não só a nível do número de pessoas, mas na escolha dos filmes, na diversidade dos debates. É muito legal participar porque permite que a gente entre em contato com outros cursos. E também consegue ter uma visão mais multidisciplinar, porque os filmes possibilitam boas discussões sobre temáticas médicas e científicas”.
No debate que se seguiu ao filme “Obrigado por fumar” isso ficou evidente. Maria Luz, aluna do 9º período da Faculdade de Administração e Ciências Contábeis (FACC), no campus Praia Vermelha, foi pela primeira vez ao cineclube e participou ativamente da discussão. “Se me dissessem que esse filme tinha sido feito este ano, eu iria acreditar. Apesar de lançado em 2006, ele é muito atual. Eu vi há um pouco um ensaio de moda em que os modelos e influenciadores sugeriam que fumar é cool. Como no filme tentam fazer com atores de Hollywood. O filme aborda como o capitalismo se reinventa para fazer a mesma coisa”.
Já a estudante Ana Carolina Torres, do 4º perído em licenciatura na Escola de Educação Física e Desportos (EEFD), trouxe ao debate lembranças de família, cujas raízes estão no pequeno município mineiro de Vargem Alegre, no Vale do Rio Doce. “Minha família é um exemplo de como o cigarro é um hábito arraigado desde a infância em muitos lugares. Lá em Minas tem um fumo preto que o povo chama de capitão. Tem um cheiro muito forte e faz muita fumaça. Minha avó materna me contou que minha bisavó começou a fumar capitão com sete anos. Fumava na roça, para espantar insetos, e pegou o hábito. Morreu de câncer de pulmão”.
Ideias e lembranças que tendem a se expandir com a continuidade do projeto e a exibição de filmes que rendem ótimos debates, como “Um estranho no ninho” (“One Flew Over the Cuckoo’s Nest”), drama norte-americano de 1975, dirigido por Milos Forman e estrelado por Jack Nicholson. Vencedor de cinco Oscar em 1976 — incluindo Melhor Filme, Ator e Diretor —, tem exibição prevista para 10 de julho. A professora Cláudia Mermelstein já prevê sala lotada e brinca: “Acho que precisamos agora de um cinema. E de um pipoqueiro”.
CLÁSSICOS EM DEBATE
O cineclube chegou à sua 35ª sessão no dia 22 de maio com a exibição de “Thank you for smoking”. Veja a seguir alguns filmes que já passaram pela tela do MedCine:
Blade Runner
(1982)
Um clássico da ficção científica dirigido por Ridley Scott e estrelado por Harrison Ford e Rutger Hauer. No Brasil, o filme ganhou o subtítulo “O caçador de androides”. Num futuro degradado pelo consumismo, Ford vive um exterminador de replicantes, seres criados em laboratório como humanos artificiais.
Young Frankenstein
(1974)
Dirigido por Mel Brooks, o filme foi rodado em preto e branco e mistura comédia, terror e ficção científica. O humor cáustico de Brooks se revela na obsessão do professor Frederick Frankenstein, vivido por Gene Wilder, em dar vida a um tecido humano em laboratório. Inspirado no romance “Frankenstein”, de Mary Shelley.
Solaris
(1972)
Considerado um filme “cabeça” por tentar se contrapor aos clássicos note-americanos de ficção científica, a produção soviética dirigida por Andrei Tarkovisk se passa em uma estação espacial que orbita em torno do planeta fictício Solaris. Os tripulantes entram em crise existencial e um psicólogo é enviado à estação para avaliar a situação.
Bicho de sete cabeças
(2001)
O filme brasileiro dirigido por Laís Bodanski trouxe reflexões para a luta antimanicomial no país, e foi lançado no mesmo ano da aprovação da Lei da Reforma Psiquiátrica (10.216/2001). Em seu primeiro longa-metragem, Rodrigo Santoro vive um jovem internado pelo pai em um hospital psiquiátrico por fumar maconha, onde sofre tratamentos abusivos.
Wonder
(2017)
Com o título no Brasil de “Extraordinário”, o filme norte-americano dirigido por Stephen Chbosky acompanha a vida de um menino com uma deformidade facial conhecida como Síndrome de Treacher Collins. É um drama comovente que aborda temas como empatia, rejeição, amor e amizade. Julia Roberts e Owen Wilson vivem os pais do garoto, interpretado por Jacob Tremblay.
“SiCKO” (2007)
Escrito, dirigido e conduzido por Michael Moore, o documentário aborda o sistema de saúde dos Estados Unidos, dominado pelas grandes companhias privadas de seguro-saúde, e o compara a estruturas públicas de países como Cuba, Canadá, França e Reino Unido. No Brasil, o filme do polemista Moore ganhou o subtítulo “SOS Saúde”.
The father
(2020)
Com o título de “Meu pai” no Brasil, o drama franco-britânico rendeu o Oscar de Melhor Ator a Anthony Hopkins em 2021. Dirigido por Florian Zeller,o filme mostra a rotina de um galês idoso que sofre de demência e sua relação com a filha vivida por Olivia Colman.
Madres paralelas
(2021)
Dirigido por Pedro Almodóvar, o filme espanhol narra o encontro de duas mães solo que dão à luz no mesmo dia e no mesmo hospital — interpretadas por Penélope Cruz e Milena Smit —, e aborda questões como gravidez indesejada e maternidade.
And the band played on
(1993)
Produção norte-americana feita originalmente para a TV e dirigida por Roger Spottiswoode, o filme mostra os primeiros tempos da AIDS nos Estados Unidos, com a morte de homossexuais em San Francisco por uma doença até então desconhecida, o preconceito e a desinformação, até a identificação do vírus HIV.




