Por Renan Fernandes
Em dezembro de 1968, o AI-5 interrompeu a trajetória de Lucia Murat como estudante do Instituto de Economia da UFRJ. Lucia foi presa durante o Congresso da UNE em Ibiúna (SP), e ingressou na luta armada. “Faz mais de 50 anos que não pisava aqui nesse campus”, lembrou a cineasta, na terça-feira (25), após a exibição de seu mais novo filme, “O Mensageiro”, na edição especial do Cine Cidadania, no auditório Professor Manoel Maurício Albuquerque, na Praia Vermelha.
O evento, promovido pelo Fórum de Ciência e Cultura (FCC) e pela Universidade da Cidadania, debateu o tema das lutas e resistências femininas em homenagem ao mês das mulheres.
A ocasião tornou-se ainda mais simbólica por acontecer no dia em que o STF iniciou o julgamento das denúncias que levaram Bolsonaro e outros sete aliados — entre eles, cinco militares de alta patente — ao banco dos réus por tentativa de golpe de Estado, entre outros crimes.
“É simbólica a exibição deste filme no dia em que defensores de torturadores estão sendo julgados por seus crimes”, exaltou a professora Christine Ruta, coordenadora do FCC.
A professora Eleonora Ziller, diretora da Universidade da Cidadania, fez coro às celebrações pelo julgamento inédito na história do Brasil. “Onde estaríamos se o 8 de janeiro não tivesse fracassado? A que nível de agressividade, de potência autoritária nós estaríamos submetidos?”, questionou.
O MENSAGEIRO
No longa, a história da protagonista Vera é inspirada na vida da própria diretora. A narrativa acompanha a força da jovem militante para resistir às torturas e a resiliência de sua mãe, Maria, que desafia as amarras impostas pelo patriarcado.
Num cenário de total falta de informação sobre o paradeiro da filha, Maria constrói uma relação de amizade com um recruta, Armando, o carcereiro de Vera que assume o papel de mensageiro. “Pensar no mensageiro é pensar na possibilidade de diálogo com o outro. Havia uma demonstração de humanidade em meio a todo aquele horror”, explicou Murat.
A historiadora Dulce Pandolfi, assessora da Universidade da Cidadania, comentou ao final da exibição que também teve um mensageiro enquanto esteve presa e que ele possibilitou o envio de uma carta para sua família, no Recife. “A ambiguidade naquele ambiente era enorme. A perversidade dos torturadores ia tomando conta dos jovens soldados que muitas vezes eram boas pessoas”, lembrou.
O tema da ditadura é recorrente na obra de Murat. Em quatro décadas de carreira, dirigiu obras importantes como “Que bom te ver viva”, “Quase dois irmãos” e “A memória que me contam”. “Faço filmes em função das minhas angústias. Cada filme que faço sobre a ditadura fala também da época em que foi feito”, revelou Lucia.
A motivação da cineasta neste último trabalho foi a percepção de uma crescente polarização na sociedade brasileira nos últimos anos. “Esse filme surgiu da necessidade de discutir porque mais de 50 milhões de brasileiros votaram num cara que defende a ditadura”, pontuou.
Murat é defensora do diálogo e citou Hannah Arendt no longa para falar sobre o perdão. Contudo, a cineasta reforça que perdoar não é esquecer. Após os créditos finais do filme, uma lembrança dolorosa aos espectadores. “Enquanto na Argentina, 1.125 torturadores foram condenados por crimes contra a humanidade, no Brasil, passados 38 anos do fim da ditadura, nenhum ditador nem torturador foi levado a julgamento”, diz a mensagem sobre um fundo preto representando o luto.
Eleonora Ziller destacou a perspectiva didática da obra na abordagem do tema, sem cair em uma perspectiva rasa. “É profundo e necessário, uma pedagogia de reeducação sobre o significado dessa fase da nossa história”, comentou a docente.
Após a exibição, a mesa de debate composta por quatro mulheres discutiu a força feminina na resistência ao regime.
A historiadora Andrea Queiroz, diretora da Divisão de Memória Institucional do Sistema de Bibliotecas e Informação da UFRJ, pesquisa os impactos do regime militar na universidade.
Entre os 45 professores cassados na universidade, Queiroz destacou a forma como as mulheres eram tratadas nos dossiês. “Eram comuns termos pejorativos, um olhar de vulgarização e objetificação. Grandes intelectuais como Eulália Lobo, Maria Yedda Linhares e Marina São Paulo de Vasconcelos eram tratadas como ‘vagabundas’ que ensinavam orgias”, disse.
Murat também recordou seu relatório da ABIN. “Minhas anotações eram: assalto a banco, roubo de carro, vários amantes. Tudo no mesmo patamar”, recordou rindo.
O contexto de terror imposto pelo regime militar foi a fagulha para muitas mulheres descobrirem uma força interior “Aquelas mulheres da geração das nossas mães, que eram donas de casa subservientes aos maridos, tiveram que mudar para proteger seus filhos”, apontou a cineasta, lembrando também de Eunice Paiva e do filme “Ainda estou aqui”.