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O plano de governo apresentado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, candidato do PT ao quarto mandato, ainda é o melhor dentre os programas dos principais presidenciáveis para as universidades federais. Mas propõe poucas novidades, na visão de especialistas. Um dos problemas é o foco continuado na expansão das universidades federais, enquanto as existentes enfrentam graves problemas com financiamento insuficiente e infraestrutura precária. O plano prevê a criação de 111 novos institutos federais e campi universitários.
“A leitura do programa não me deixa otimista. Considero incompleto”, afirma o professor Carlos Frederico Leão Rocha, diretor do Instituto de Economia. “Sob o ponto de vista econômico, não acho que haverá um relaxamento orçamentário. O orçamento disponível para gastos discricionários é muito reduzido. Também estamos pressionados nos gastos obrigatórios, então temos pouca possibilidade de manuseio do orçamento para os próximos anos”, analisa o docente.
Diante do quadro, o professor argumenta que é hora de fortalecer a rede universitária já existente. “Não está na hora de expandir as universidades, porque estão todas sucateadas. São 12 anos sem investimentos substantivos”, afirma Fred. “Essa diretriz de expandir sem focar na infraestrutura trará muitos prejuízos para as instituições”, acredita o professor. “Vamos passar mais quatro anos iguais aos últimos quatro anos”, critica.
Leão Rocha também acredita que o papel relegado à ciência no programa de governo petista é menor do que seu potencial. “A ciência está subordinada ao Complexo de Saúde e à indústria. Não há problema em fazer essas articulações, mas, para isso, é necessário mudar o funcionamento das universidades”, defende. “É preciso rever a relação das universidades com as fundações, estimular a captação de recursos do setor produtivo. Além disso, é preciso saber como incentivar setores cujos saberes não se adaptam a essa lógica. A universidade é muito diversa”.
O docente defende, no entanto, alguns pontos. “Há coisas que são estruturantes, como, por exemplo, as fundações de amparo e o Fundo Nacional para o Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT). A sinalização de não contingenciamento do fundo é algo muito importante. São sistemas que trazem recursos relevantes para as universidades”, analisa. O docente argumenta, no entanto, que são recursos específicos para pesquisa, que não podem ser usados para a manutenção das instituições. “Eles vão para o CPF do pesquisador, não para o CNPJ da universidade. Além de não serem direcionados para as necessidades da universidade, criam mais gastos quando geram nova infraestrutura de pesquisa que precisa de manutenção”.
Ao mesmo tempo, a estrutura orçamentária existente permite o contingenciamento de recursos extras captados pela instituição. “Não somos incentivados a interagir mais com o setor privado. Precisamos de mais liberdade do que o Marco de C&T delimita. O recurso próprio da universidade cai em uma conta que pode ser contingenciada”, exemplifica. “Em resumo, para a Educação, o programa é mais do mesmo. E ter a C&T distribuída entre saúde e setor produtivo é o abandono da ciência básica brasileira”, conclui o pesquisador.
Integrante do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social do primeiro governo Lula, o professor Muniz Sodré concorda com Fred sobre o foco equivocado na criação de mais instituições federais de ensino. “O entendimento tradicional do PT é o de construir mais universidades. O Lula fez uma coisa muito importante, que foram os institutos técnicos, mas não creio que criar mais universidades seja a solução agora”, acredita. “Para mim, as universidades existentes devem ser fortalecidas. A UFRJ, por exemplo, tem projetos importantíssimos para o país, tem os melhores professores, e está no nível da Unicamp e da USP. Precisa de mais investimento em sua infraestrutura e de pesquisa”, defende o professor emérito.
Para Muniz Sodré, é preciso investir em um modelo previsível e consistente de financiamento para as IES. “É preciso criar uma estrutura de manutenção: de equipamentos, de infraestrutura e com verbas manejáveis para investir nas necessidades com autonomia”, afirma. “Hoje, é muito perigoso dirigir o orçamento público; é um sistema feito para pilantra se dar bem e honesto se dar mal”, diz.
O docente também defende mudanças internas na cultura institucional e na estrutura burocrática das universidades públicas brasileiras. “A universidade precisa fazer uma reforma administrativa interna e racionalizar a sua burocracia. Além disso, as formas de mediação com a sociedade precisam ser reformuladas”, afirma.
Retorno do Ciência
sem Fronteira
Na última semana, Lula anunciou o retorno do programa Ciência sem Fronteira (CsF). Criado em 2011 no primeiro governo Dilma, o programa vigorou até 2017 e foi encerrado na gestão Temer. A iniciativa não está detalhada no programa de governo registrado pelo PT no TSE, mas o anúncio da retomada chama atenção da comunidade científica. “O Ciência sem Fronteiras foi um programa importante, mas eu acho que teve alguns problemas. Um deles é que não houve avaliação de resultados”, aponta o professor Jerson Lima Silva, ex-presidente da Faperj. “Outro problema, na época, foi seu dimensionamento. O Brasil poderia tê-lo implantado de forma mais gradativa”, analisa. “Também acho que faltou colocar mais ênfase nos programas já consolidados, como a iniciação científica”.
Para o docente, é importante que haja uma reestruturação do programa. “Precisa ser um programa muito bem estruturado, com maior participação da comunidade científica, da ABC, da SBPC, do setor da inovação. Nós temos uma ciência tão consolidada, tão forte, temos que ter uma participação mais ativa”, afirmou Lima Silva. “Na primeira versão do programa, a comunidade científica ficou mais à margem desse processo”.
Tudo isso, para Jerson, conectado a um sistema de fomento de bolsas, de auxílios, de melhoria da infraestrutura das universidades e com recursos. “A gente sabe que tem espaço para ter mais investimento em ciência, mais editais universais com valores maiores, mais apoio aos jovens pesquisadores. Comparado com o que era com o governo anterior, já houve uma melhora significativa. Ainda assim, é preciso mais financiamento. Há muito o que fazer.”
Universidades
1. Expansão e Interiorização
• Continuidade da expansão da rede federal de ensino superior, com 111 novos campi e interiorização.
• Ampliação da pós-graduação, com foco em regiões pouco atendidas.
• Criação de novos hospitais universitários e articulação com programas de formação de especialistas.
2. Financiamento e Infraestrutura
• Restabelecimento e ampliação do orçamento das universidades para custeio e investimento.
• Continuidade do programa Novo PAC destinados a obras em universidades.
• Reajuste das bolsas.
3. Acesso e Permanência
• Fortalecimento da assistência estudantil (alimentação, moradia, permanência).
• Políticas de cotas aprimoradas, incluindo reserva para quilombolas.
Financiamento
1. Recomposição de Recursos
• Recuperação dos pisos constitucionais da
educação e saúde.
• Continuidade
do arcabouço fiscal.
• Uso do FNDCT (Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) sem contingenciamento para apoiar pesquisa e inovação.
Ciência, Tecnologia e Inovação
1. Fomento à
Pesquisa e Inovação
• Fortalecimento dos instrumentos de apoio à indústria e à inovação, com financiamento direcionado, compras públicas e parcerias público-privadas.
• Integração das políticas industrial, científica, tecnológica e de inovação para a possibilitar a soberania tecnológica.
2. Atração e Fixação
de Talentos
• Programa Conhecimento Brasil para repatriação e fixação de pesquisadores brasileiros.
3. Digitalização
e Inteligência Artificial
• Desenvolvimento de infraestrutura computacional nacional e modelos de IA em português.
• Expansão do 5G, com prioridade para regiões menos atendidas.
4. Indústria 4.0 e Sustentabilidade
• Incentivo a setores de alta
e média intensidade
tecnológica, minerais
críticos e tecnologias verdes.
• Plano de Transformação Ecológica para mobilizar financiamento público e privado em projetos sustentáveis e inovadores.
Itamar Vieira Junior na Faculdade de Letras - Foto: Thiago LinsUma atenta plateia formada por estudantes e professores da Faculdade de Letras acompanhou com encanto a palestra do escritor Itamar Vieira Junior, autor do premiado Torto Arado (2019), primeiro livro da trilogia que inclui Salvar o Fogo (2023) e Coração Sem Medo (2025). Convidado pela Livraria Machado & Cia, conversou durante duas horas sobre suas obras, sua trajetória intelectual e criativa, suas inspirações e motivações, no último dia 9.
“Escrevo porque tenho algo a escrever e não porque esperam que eu escreva”, disse, despindo-se de qualquer vaidade sobre o ofício. “Tudo aquilo que me interessa também atravessa o que eu escrevo. Se eu escrever porque alguém quer, deixarei de ter algo interessante a dizer”, explicou.
O baiano de Salvador se tornou geógrafo antes de ser escritor. O trabalho de campo em geografia moldaram o romance Torto Arado e a Trilogia da Terra. “A vivência no campo transformou a minha escrita. Me deslocar para a Chapada me revelou um novo Brasil. E a história que eu queria contar aos 16 anos ganhou um novo sentido para mim”, revelou.
O livro Torto Arado, vencedor do Jabuti, será o enredo de 2027 da escola de samba Unidos de Vila Isabel. “Gosto de pensar que nenhuma obra literária se encerra em si mesma. A história pertence aos leitores”, disse, ao ser perguntado se influencia em releituras e adaptações. “Cada um tem seu repertório, a partir do qual faz sua leitura. É um ecossistema”.
Veja algumas das reflexões do autor:
O encontro entre
a pesquisa e a literatura
A literatura surge antes da pesquisa na minha vida. Eu comecei a escrever muito cedo, mas não sabia muito bem o que fazer com aquilo. Não me imaginava escritor, nem achava que isso seria uma parte importante da minha vida, mas eu sentia prazer em escrever, ainda sinto prazer. Eu acho que isso marcou a minha experiência. Depois, chega esse momento que temos que escolher o que vamos ser. E escolhi fazer geografia. Fiz graduação, mestrado e doutorado na Universidade Federal da Bahia.
Ingressei no doutorado para fazer um estudo abrangente. Passei muito tempo na Chapada Diamantina, com algumas comunidades ali daquela região. Quando eu cheguei à Chapada, vi um mundo novo. Sou baiano, mas nasci na capital, conhecia no máximo ali o Recôncavo da Bahia e me deslocar para a Chapada me revelou muita coisa nova. Fiquei muito impressionado com essa experiência. Eu já tinha tentado escrever anos antes, né? E a história voltou, nesse momento. Aquela história, que eu havia tentado contar aos 16 anos, ganhou um novo sentido para mim.
Geógrafo, escritor e leitor
Foi esse encontro que me permitiu imaginar, criar essa história. Sempre me perguntam o que há de real e imaginário. A leitura social daquele mundo, daquela comunidade, o fato de não poderem construir casa de alvenaria, as relações de trabalho, tudo isso eu descubro na pesquisa, então tem um peso empírico muito forte. E tem muita coisa que é a imaginação: a história das personagens, a relação entre elas, o fato de uma personagem não humana na última parte da história. Mas tudo o que está na imaginação também, em algum momento, foi pensado a partir da vida real.
Quando eu tentei escrever a primeira versão, eu era muito jovem, estava concluindo o ensino médio, e muito tocado por uma literatura que falava do Brasil de uma maneira nova. Já estava publicada há muito tempo, mas era algo diferente. Falo em particular do ciclo da literatura modernista, da geração de 30, de autores como José Lins do Rego, Rachel de Queiroz, Jorge Amado, Graciliano Ramos. Essas leituras me impactaram de tal forma que eu me senti instigado, provocado a escrever. É claro que eu não tinha maturidade ainda. Eu acho que a maturidade veio com a minha formação intelectual, com meus estudos em geografia, em sociologia, antropologia.
Torto Arado nos
palcos e no carnaval
Eu não tento acompanhar essas releituras com o propósito de intervir. Acho que são linguagens distintas. Eu não sei nem se eu domino a linguagem literária. Eu sempre estou experimentando, criando, pensando de uma maneira nova. E o carnaval é uma linguagem que eu não domino.A dramaturgia musical da mesma maneira. Nessas experiências, me deparei com pessoas habilidosas, qualificadas, que tentam manter o espírito da história, mas que têm liberdade para imaginá-la e transpô-la para a linguagem que precisa existir.
Eu gosto de pensar que nenhuma obra literária está fechada, nem se encerra em si mesma. A cada leitura, há a possibilidade de ser interpretada de uma maneira diferente, porque cada leitor tem um repertório. Eu acho isso maravilhoso. Cada um vai extrair dali identificações, interpretações e tudo isso é parte de um ecossistema. A gente costuma colocar muito foco no criador e na criatura, no escritor e na história, e pouca luz sobre os leitores. Eu acho que o leitor é uma parte importantíssima desse processo.
O Jarê
Quando viajei para a Chapada, descobri algo novo, algo muito brasileiro, porque muito do que se fala sobre essas religiões institucionalizadas veio de fora. Chegando na Chapada, eu vi uma coisa que era muito brasileira, porque não era exatamente uma religião de matriz africana, mas também não era o cristianismo. Era uma mistura de tudo isso, de xamanismo, e que tinha ali como a figura central o curador, a curadora. Uma religião que pensava o corpo e o espírito de uma maneira integrada.
Fui entendendo que aquilo não era apenas uma prática cultural ou social daquelas pessoas; era algo que organizava as relações de parentesco, as maneiras de viver. Quando eu fui me dando conta disso, o Jarê ganhou um papel central na minha pesquisa. Não existia muita coisa escrita sobre e eu encontrei uma oportunidade muito interessante de apresentar uma história a partir de um novo olhar.
Eu queria fazer um movimento diferente, que era convidar o leitor para deixar suas crenças, suas convicções à parte para que pudessem mergulhar nessa história e fossem capazes de olhar o mundo a partir da perspectiva que as personagens apresentam. A leitura ficcional conserva essa dimensão subjetiva da vida, essa dimensão afetiva que muitas vezes a academia, a ciência, em particular, não considera.
De Torto Arado a
Coração sem Medo
Eu não sei se é porque eu estudei geografia e a geografia me interessa, mas eu costumo pensar a paisagem de uma história. Eu gosto de pensar no mundo vivo. Que bom seria se a personagem tivesse um encontro importante e estivesse fazendo sol e, de repente, abre a porta e encontra a chuva caindo? Traz uma complexidade à história que muitas vezes é pensada a partir da personagem, mas nunca a partir da paisagem que a cerca. Fazer essa migração não foi algo difícil, acho que foi orgânico. Eu entendia que a história seguiria esse caminho. Torto Arado se passa na Chapada Diamantina, na Fazenda Água Negra, que está entre dois rios: o rio Utinga e o rio Santo Antônio. Esses rios têm uma importância vital para as personagens. Esses dois rios são afluentes do Paraguaçu, que também nasce lá na Chapada.
O rio Paraguaçu é a paisagem do segundo romance [Salvar o Fogo], tem uma relação intensa com as personagens. É uma história que se passa no Recôncavo, onde esse rio é muito caudaloso, e deságua na Baía de Todos-os-Santos, que banha Salvador – onde se passa a terceira história [Coração Sem Medo]. O rio, a água, é a metáfora do tempo da história.
Esse deslocamento do campo pra cidade só foi possível porque tive a experiência no campo e na cidade. O terceiro romance trata daqueles que foram desterrados que vão parar na cidade e encontram um território em disputa que não pode ser habitado por igual, onde têm que se confrontar com uma violência organizada fora da lei e com uma violência que vem do Estado. Foi nesse contexto que a história surgiu e cresceu.
Ao Jornal da ADUFRJ, Itamar Vieira Junior comentou o cenário político e fez um desabafo sobre a ausência de debates estruturais nas campanhas eleitorais brasileiras. O autor argumenta que a constante necessidade de defender a democracia acaba por invisibilizar pautas essenciais, como a reforma agrária e o combate ao trabalho análogo à escravidão. Ele aponta a educação e a arte como caminhos para a construção de um projeto de país a longo prazo.
Jornal da ADUFRJ - Um dos temas que o senhor trata, tanto como geógrafo quanto como escritor, é o direito à terra. O senhor considera que isso tem sido debatido nessa campanha eleitoral?
Itamar Vieira Junior —Não tem sido debatido. Acho que a gente tem, já há algum tempo, vivido um momento atípico. Não se discute mais um projeto de país. O que virou pauta prioritária é importante, mas termina que ofusca aquilo que precisa ser discutido. A pauta permanente tem sido a defesa da democracia, mas o país tem caminhado perigosamente para um lugar onde não há projeto de futuro.
O que fazer diante desse cenário?
Há temas que não envelhecem. A regularização fundiária é um deles. Ainda há muito por fazer. Há um embate grande entre as grandes corporações, o Estado e as pessoas que realmente precisam. Há um desequilíbrio que repercute de muitas maneiras em nossa vida, do ponto de vista econômico, mas também do ponto de vista ambiental. Não há vida sem terra. A gente ainda precisa, para a segurança alimentar, estimular a reforma agrária, plantar, colher. É um país de quase 210 milhões de habitantes. De que maneira a gente pode garantir a segurança alimentar dessas pessoas se não cuidarmos de tudo isso?
Também há uma negação ao
direito à moradia, não?
Isso também passa pelo direito à cidade. A alta dos imóveis, dos aluguéis, tem criado uma legião de pessoas que não consegue mais ter um direito humano tão fundamental, que é habitar, ter uma casa, ter um teto.
Esse é um debate interditado propositalmente por algum campo ideológico ou essa dificuldade se deve à conjuntura política?
Tem as duas coisas. Como existe essa divisão tão permanente da sociedade, termina que a um lado não interessa discutir essas propostas. E quem poderia fazer isso vive numa eterna defesa da democracia, do direito do voto, de que as eleições não sofram interferência. O que realmente importa vai para debaixo do tapete. Vejo que há as duas causas, na verdade.
E tem algum caminho para que a gente consiga furar o bloqueio desses temas?
A arte pode ser esse caminho?
Eu acho que a arte nos ajuda a refletir, a pensar, a transgredir. Também não é um projeto de curto prazo, isso não vai acontecer amanhã. Há uma boa intenção de muitos para fazer da educação uma prioridade, mas ao mesmo tempo existem as forças contrárias que vão nos empurrando para o outro lado. Isso não é nada novo, é a história humana, mas é de fato desgastante, nos decepciona. Há um grande desinteresse das pessoas atualmente no processo eleitoral. Costumamos culpar as pessoas por não tomarem partido ou por não quererem participar, mas é preciso entender que as pessoas não têm encontrado motivações para participar ativamente desse processo.
O que será que nos falta para caminhar com ruas cheias, com esperança engajada?
Eu acho que o conhecimento liberta, e a gente só pode chegar ao conhecimento através da educação. Não há atalhos. Essa esperança acho que deve priorizar este projeto de educação, porque ele de fato vai garantir os meios para que a gente possa cuidar do país de uma maneira adequada.
Eventos como o encontro com Carla Madeira (noticiado na edição passada do Jornal da ADUFRJ) e Itamar Vieira Junior mobilizam a comunidade acadêmica e devem ser mais estimulados, acredita o professor Leonardo Bora, da Faculdade de Letras. Ele foi um dos facilitadores da roda de conversa com o autor. “Ter essa possibilidade de diálogo direto com um autor é sempre enriquecedor. É uma conversa horizontal”, analisa. “O evento se torna tanto mais interessante quando a gente pensa em obras como Torto Arado que trata de temas fundamentais para a gente compreender a sociedade brasileira, as lutas coletivas de ontem, de hoje, e que a gente espera que sejam superadas no amanhã”.
“Todas as preocupações que o livro traz são muito presentes nas nossas disciplinas, mas, além disso, a Literatura ocupa um lugar central na Faculdade de Letras”, completa o professor Felipe Machado, que também participou da mesa com o autor. “É uma satisfação muito grande para a gente”.
Organizadora do evento, Marta Lemos, da Livraria Machado & Cia, conta que o objetivo de realizar atividades desse porte é permitir o diálogo entre estudantes e autores consagrados fora dos circuitos tradicionais de literatura. “Muitos estudantes, inclusive, não têm condições de ir a feiras literárias em outros estados ou em outras cidades”, pondera.
FICHA DE OBRAS
DIAS
Editora: Caramuê Publicações
Ano: 2012
É o livro de estreia do autor no mundo literário. Reúne narrativas curtas que exploram a vida de personagens à margem da sociedade, lidando com solidão, perdas e busca por identidade.
A ORAÇÃO DO CARRASCO
Editora: Morongo
Ano: 2017
O livro de contos consolidou o estilo do autor antes do sucesso de seus romances. O enredo foca na vida de personagens do Nordeste brasileiro, misturando realismo e lirismo para falar sobre violência, religiosidade e sobrevivência.
TORTO ARADO
Editora: Todavia
Ano: 2019
O romance mais famoso do autor é vencedor dos prêmios Jabuti e Oceanos. É o primeiro livro da ‘Trilogia da Terra’. Duas irmãs no sertão baiano, Bibiana e Belonísia, encontram uma faca antiga e um acidente muda suas vidas para sempre, conectando-as à luta pela terra e à herança da escravidão.
DORAMAR OU
A ODISSEIA
Editora: Todavia
Ano: 2021
Coletânea que reúne contos novos e histórias de seus primeiros livros. Traz narrativas sobre o Brasil profundo, destacando o passado colonial, a ancestralidade indígena e afro-brasileira, e a força das mulheres.
SALVAR O FOGO
Editora: Todavia
Ano: 2023
Segundo romance da trilogia. Ahistória apresenta a protagonista é Luzia do Paraguaçu, uma mulher com poderes de cura que vive no interior da Bahia. A trama mostra os traumas de uma família e os conflitos com a Igreja Católica pelo domínio das terras.
CHUPIM
Editora: Balão
Ano: 2024
Primeiro livro infantil do autor. Através dos olhos do menino Julinho, a obra mostra a rotina do trabalho no campo e faz uma metáfora com o pássaro chupim, que bota ovos no ninho de outras aves. Vencedor do Prêmio FNLIJ Ofelia Fontes, de melhor livro para crianças.
CORAÇÃO SEM MEDO
Editora: Todavia
Ano: 2025
O livro que encerra a Trilogia da Terra. Acompanha Rita Preta, uma mãe que vive na periferia de Salvador em uma busca desesperada pelo filho desaparecido. A obratrabalha violência urbana, direito à cidade, racismo e desigualdade.
O Fórum de Ciência e Cultura da UFRJ recebeu, dia 8 de setembro, o lançamento do projeto interinstitucional de pesquisa sobre o Programa Agora Tem Especialistas (PATE), do Ministério da Saúde. Aproximadamente 40 pesquisadores da UFRJ, da USP e da UFBA participam da iniciativa.
"O sistema de Saúde no Brasil é muito desafiante. E isso não é de agora", afirmou a professora Ligia Bahia, presidenta da ADUFRJ e uma das coordenadoras do projeto. "É com muito entusiasmo que a UFRJ se integra a essa pesquisa. É fundamental que a gente consiga interpretar esse conjunto tão diversificado, tão complexo, que é o sistema de saúde", completou.
O diretor do Departamento de Estratégias para a Expansão e Qualificação da Atenção Especializada do Ministério da Saúde, Rodrigo Oliveira, agradeceu o diálogo com os pesquisadores na mesa de abertura do evento. "Essa crítica vinda da universidade possibilita que a gente corrija rumos", disse.
O reitor Roberto Medronho prestigiou a atividade. "Que este encontro produza não apenas bons diagnósticos, mas caminhos concretos para o SUS cada vez mais forte, público e universal", concluiu.
Foto: Márcio Mercante
A ADUFRJ manifesta profundo pesar pelo falecimento do professor emérito Carlos Russo, grande referência da Engenharia Química da UFRJ. O docente acumulava uma trajetória de mais de cinco décadas dedicadas ao ensino, à pesquisa, à formação acadêmica e à gestão universitária.
Formado em Engenharia Química e Química Industrial pela antiga Universidade do Brasil em 1963, Russo obteve seu mestrado na UFRJ e o doutorado pela Universidade de Leeds, na Inglaterra. Ingressou no corpo docente da UFRJ em 1968, onde construiu sólida carreira.
Na Coppe/UFRJ, coordenou o Programa de Engenharia Química (1975–1981). Entre 1986 e 1990, foi decano do Centro de Tecnologia. Sua produção acadêmica foi pioneira no tratamento e reaproveitamento de resíduos e controle da poluição.
Mesmo após sua aposentadoria em 1995 — e de sua importante atuação na implantação da Química Ambiental na Uerj —, o professor Russo manteve vínculo ativo com a UFRJ. Em 2009, todo esse empenho e dedicação à universidade pública foram reconhecidos com a concessão do título de Professor Emérito.
A ADUFRJ reconhece a imensa contribuição do professor Carlos Russo para a consolidação da pós-graduação, da ciência e da educação pública no país, e presta sua solidariedade aos familiares, amigos, colegas e ex-alunos neste momento de dor.
O velório acontece neste domingo, dia 6, a partir das 10h, no Crematório e Cemitério Memorial do Carmo (Rua Monsenhor Manuel Gomes, 287, Caju). A cremação está prevista para as 13h.
A cena cultural e acadêmica do Rio de Janeiro se despediu de um gigante. A morte precoce, aos 58 anos, do poeta, professor e compositor Marcelo Diniz Martins, carinhosamente apelidado de Paredão por seus amigos e alunos, deixou uma marca profunda não só na universidade, mas em todos que acompanharam sua existência. O docente ministrava as disciplinas de Teoria Literária e Literatura Comparada na Faculdade de Letras da UFRJ. Um infarto, no dia 16 de agosto, interrompeu uma trajetória marcada pela sensibilidade das palavras e pelo afeto que distribuía por onde passava.
Nascido e criado em Niterói, Marcelo construiu uma trajetória que vinculava a sala de aula à poesia e à música. Formou-se na UFF, fez pós-graduação na UFRJ e ingressou como docente efetivo da universidade em 2011. A alma artística o fez personagem expressivo na vida cultural niteroiense, onde assinou mais de 20 composições registradas em parceria com o músico Fred Martins.
A personalidade, aliada à sua altura, ajudava a explicar o apelido “Paredão”: “...e também por uma viagem de ônibus que a gente fez muito jovem a Lumiar. Numa curva, o ônibus balançou e todos nós nos seguramos nele. Aí surgiu o Paredão, que era também pela grandeza da sua generosidade e do seu coração. Ele era meu amigo mais antigo”, contou o ex-presidente da Embratur, Marcelo Freixo, ao se despedir do docente. Características que marcavam a todos que o cercavam.
“O Marcelo foi uma das pessoas mais encantadoras que eu conheci”, resume a ex-presidenta da ADUFRJ, professora Eleonora Ziller. “Era de uma gentileza, tinha um modo de escutar, de estar presente, realmente extraordinário. A gente, perto dele, se sentia muito bem. É até difícil de explicar. Estar com ele era uma tranquilidade”, descreve Nora. “Difícil não cair num lugar comum sobre poetas que possuem uma sensibilidade diversa da maioria das pessoas, mas é que ele vivia mesmo num estado de poesia. Era um modo poético de estar no mundo”.
Eleonora conheceu Marcelo ainda no doutorado. “Eu já sabia de sua fama como excelente professor no ensino médio de Niterói. Era um modo de ensinar Literatura muito criativo e inteligente, uma erudição magnífica, um domínio muito profundo de sua área, capaz ao mesmo tempo de dialogar com simplicidade com seus estudantes”, conta.
Brilhantismo que o professor Eduardo Guerreiro, da Letras, também notou muito antes de se tornarem docentes. “Eu o conheci em 2001. Era um círculo de amizade carioca. Marcelo tinha um humor fantástico! Todo mundo gostava dele”, recorda o docente. “Quando me tornei professor da UFRJ, ele me acolheu. Foi uma felicidade reencontrá-lo”, lembra. “Eu já era professor da Rural, de Teoria Literária, como ele, mas ainda não dava aula na pós. O Marcelo contribuiu enormemente para meu contato com a graduação e com a pós-graduação da UFRJ”.
O primeiro livro escrito por Marcelo Diniz foi “Trecho”, em 2002. “Eu fiquei fascinado por esse livro. Depois, ele fez ‘Cosmologia’ (2004) e me deu os originais para fazer uma primeira leitura. O meu nome está nos agradecimentos desse livro. Isso me orgulha muito”.
O professor Paulo Cezar Maia, do Instituto Nides, trabalhou em projetos de Extensão com Marcelo. “Marcelo era uma pessoa muito generosa, carismática, dedicada, sensível, muito carinhosa, seja com amigos ou com estudantes, dentro e fora da universidade. Quando entrei como substituto na Faculdade de Letras, ele foi uma das pessoas que me acolheu”, lembrou. Os dois montaram juntos disciplinas optativas que aliavam texto à imagem. “Os alunos eram de diferentes unidades. Levamos o estímulo dessas pedagogias para a Extensão. Passamos a levar oficinas de poesia e canção para escolas de Niterói, depois UFRJ-Mar, Duque de Caxias, Maré”, recordou.
O projeto era o embrião da disciplina TECA – Tecnologia, Cultura e Arte, um atelier de produção artística e apropriação da tecnologia destinada a este fim. “De certa forma, é desdobramento daquela disciplina de poesia visual que desenvolvi com o Marcelo. Parte do que faço na UFRJ tem origem com o Marcelo. Do mesmo modo, muitas coisas que desenvolvemos naquela disciplina tiveram consequência nas suas criações poéticas”, analisou Paulo Maia.
Orientando do professor Marcelo na Iniciação Científica, no TCC e no Mestrado, e hoje professor de Literatura Portuguesa da Faculdade de Letras, Marlon Augusto Barbosa se inspira diariamente em quem hoje é saudade. Ele faz aniversário (27 de setembro) exatamente um dia após Marcelo; proximidade que, este ano, inevitavelmente terá um tom diferente. “A gente acaba herdando muita coisa dos nossos mestres. Tenho certeza de que tenho muito do Marcelo em mim e quero transmitir isso aos meus alunos”, conta. “Ele sempre foi muito solícito, muito preocupado com a nossa formação. Tinha enorme cuidado com os alunos. Ele nos formou integralmente, inclusive como pesquisadores”, avalia.
Marlon escolheu a docência a partir das intensas trocas com Marcelo. “Quando entrei na graduação, eu não sabia o que esperar. Sem dúvidas, foi esse contato que me fez descobrir que era isso o que eu queria fazer”, revelou. “O que ele nos ensinou foi um modo de ler as camadas de um texto, não só de interpretá-lo, mas de ter leitura e pensamento críticos”.
HOMENAGEM
Amigo há 40 anos de Marcelo, o professor Alberto Pucheu, da Letras, prepara uma edição especial da revista acadêmica Terceira Margem, do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Literatura. “Queremos recolher todos os textos acadêmicos do Marcelo, ensaios, resenhas. Será uma homenagem”, revela o docente. “Ele era uma das pessoas mais brilhantes que eu já conheci. Alguém muito doce, suave. Perdê-lo foi um choque para todos nós, por isso queremos destacar sua trajetória como docente. Ele amava a sala de aula”, conta o professor.
Quem tiver textos de Marcelo Diniz pode encaminhar os materiais para o e-mail: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo. . “Queremos reunir sua obra acadêmica, hoje dispersa, para disponibilizar a outros pesquisadores. Esse número será muito bonito e, sobretudo, muito afetuoso”.
Nas poesias, a natureza efêmera do tempo foi um tema recorrente e que ecoa, hoje, com doloroso significado. Como profetizou em versos de seu livro “De amor & sobre” (2008), o Paredão lembrava o quanto a vida é breve:
Depressa a vida passa, mal se sente
e tudo já parece diferente:
o que doeu um dia hoje é dormente,
o amanhã não se lembra do presente;
e mal tudo é passado, o mais recente
recomeça a tecer o recorrente:
a cada ruga tudo é mais ausente,
o tempo foge e sempre leva a gente;
fascina como a infância é inocente:
eterno no vigor do adolescente,
no idoso, ainda crepita o sol poente;
fascina como tudo é transparente:
depressa a vida passa e, de repente,
desfaz-se, n’água, a face que a ressente.