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Fotos: Fernando SouzaNão basta pedir mais atenção à Ciência ou reclamar dos cortes orçamentários da área. É preciso mudar o Congresso Nacional e eleger representantes ligados à pesquisa e à inovação. Com esse espírito, a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência abriu espaço a candidaturas ao Legislativo comprometidas com a temática. Na ocasião, foi apresentada a publicação ‘Vozes da Ciência: o Brasil que queremos’ com diretrizes e propostas da comunidade científica para a elaboração de políticas públicas para o país. Soraya Smaili, vice-presidente da SBPC, apresentou os eixos que norteiam a publicação: “Nós temos dados e ideias frutos de um seminário que ocorreu de novembro de 2025 a maio de 2026 e que foram sintetizados neste documento”, explicou a dirigente. São sete eixos: CT&I como Projeto de Nação; Soberania Nacional: Digital, Tecnológica e Sanitária; Sustentabilidade, Clima, Biodiversidade e Segurança Alimentar; Democracia e Segurança Pública; Equidade, Diversidade e Justiça Social; Educação, Formação e Universidade; Saúde Pública, Saúde Mental e Vigilância.
Ildeu Moreira, presidente de honra da SBPC e professor Titular do Instituto de Fìsica da UFRJ, conduziu a mesa que apresentou as candidaturas. “Vamos divulgar candidatos de quaisquer partidos que se comprometam com esses valores”, garantiu. Os candidatos se apresentaram por ordem alfabética. Foram sete candidaturas federais (seis pelo Rio de Janeiro e uma por São Paulo) e uma candidatura estadual. Veja a seguir:
Celso Pansera-RJ (candidato a deputado federal PT): “Fui membro durante quatro anos da Comissão de Ciência e Tecnologia da Câmara dos Deputados. Sou autor do primeiro projeto de lei de reconhecimento dos direitos previdenciários dos pós-graduandos, mas ele ficou esquecido porque não fui reeleito. Felizmente, a articulação social com parlamentares permitiu que fosse criada a lei este ano. É uma vitória”, afirmou. “Meu gabinete estará sempre à disposição da ciência, da tecnologia, da inovação e da democracia.”
Jandira Feghali-RJ (candidata a deputada federal PCdoB): “Estamos sendo olhados por esse império (norte-americano) como um fornecedor de matéria-prima para que eles possam desenvolver a tecnologia deles, o capitalismo deles, a política deles. Por isso, penso que esse primeiro eixo é muito fundamental, porque não somos quintal de ninguém”, afirmou a parlamentar ao exaltar a necessidade de investimentos em C&T para defesa da soberania. “A gente também não terá soberania nacional se não tivermos soberania digital”, afirmou. “E, por fim, é fundamental reeleger Luiz Inácio Lula da Silva.”
Juliana Benício -RJ (candidata a deputada federal PSDB): “A soberania não é mais territorial ou de fronteira. Ela é tecnológica e sai de laboratório, sai da Ciência. É preciso dizer que o orçamento de C&T é sempre cortado. Quando a gente deixa o pesquisador de pires na mão, a gente está desmontando o sistema de C&T”, afirmou. Ela tocou também no tema da fuga de cérebros. “A gente precisa reter talentos e se retém talentos com médias e grandes empresas. O Rio de Janeiro é o estado que mais tem estrutura científica. A gente tem talento científico. Na economia do conhecimento, este é um bem imensurável e intangível.”
Luciana Gatti-SP (candidata a deputada federal PSOL): “Sou uma cientista de alto impacto, mas como continuar no laboratório publicando artigos, enquanto o Congresso negacionista reduz orçamento das instituições e direitos da população?”, questionou a candidata. “A gente tem que mudar como a gente produz, como consome, como gera comida. O combate número 1 é ao desmatamento. A meta é desmatamento zero. Temos 16,6% de área não destinada no Brasil. É muita terra. Se esse montante se transforma em reserva federal para vários tipos de destinação, essa seria uma maneira de parar a máquina do desmatamento.”
Nísia Trindade-RJ (candidata a deputada federal PT): “Importante que as pessoas olhem qual é o histórico de cada candidato e candidata. Precisamos é de um Congresso que efetivamente represente a população”, ressaltou a ex-ministra da Saúde. “A primeira tarefa é reeleger o presidente Lula. Isso significa a defesa da democracia nesse momento. E, ao fazer isso, precisamos de uma bancada forte. Não podemos admitir retrocessos. O segundo desafio é avançar nas políticas, colocar uma perspectiva de futuro. Minha luta será para aumentar a participação das mulheres nesse Congresso que tem apenas 18% de mulheres na Câmara Federal.”
Reimont-RJ (candidato a deputado federal PT): “Quando a gente pensa em Ciência, não podemos nos esquecer que muito recentemente tentaram destruir tudo o que conseguimos construir. O RJ tem dez instituições públicas de Ciência e Educação. Mais seis unidades de Pesquisa e Inovação. Quando pensamos e discutimos com nossos cientistas, estamos discutindo em prol de um país mais soberano. Precisamos dar condições para que todo brasileiro e brasileira tenha condições dignas. Não tem sentido fazer política, assim como não tem sentido ser cientista, se não for para melhorar o nosso país.”
Tatiana Roque-RJ (candidata a deputada federal PSB): “A democratização da universidade pública é uma das questões mais importantes do nosso país”, disse Tatiana, que lembrou a trajetória como presidenta da ADUFRJ, de 2015 a 2017. “Eu me tornei política ao perceber, naquele momento histórico, que a causa da Ciência e das universidades era tão central para o nosso país. Precisamos reeleger o presidente Lula, mas não é suficiente. Precisamos também que as nossas universidades sejam olhadas com a atenção que merecem, para que a gente possa de novo colocar no centro o projeto de uma universidade democrática. É esse projeto que vai conseguir transformar o Brasil.”
Lilian Behring-RJ (candidata a deputada estadual PCdoB): “Sou enfermeira emergencista. Na época em que o general Pazuello não queria trazer a vacina de covid para o Brasil, eu estava lá no Aeroporto Internacional para poder controlar a rede de frios para que o IFA chegasse às instituições para a produção da vacina no Brasil. Estive junto com a UERJ na luta pelas cotas. Precisamos, cada um de nós, ter posicionamento. O nosso lado é por Lula, é pela vida, pela Ciência.”
Foto: Alessandro CostaEm entrevista exclusiva para o Jornal da ADUFRJ, durante a Reunião Anual da SBPC, o presidente do CNPq, professor Olival Freire Jr., abordou os desafios orçamentários da agência. Ao mesmo tempo em que enfrenta um bloqueio de R$ 310 milhões — de R$ 1,7 bilhão — neste ano, o órgão busca ampliar os recursos para 2027. O governo tem até 31 de agosto para enviar ao Congresso Nacional a proposta de receitas e despesas do próximo ano.
Qual a proposta do CNPq para o orçamento de 2027?
Nós pedimos R$ 2,5 bilhões, para manter o atual patamar das bolsas, conceder um reajuste em março, correspondente à inflação entre 2023 e 2027, e mais a previsão da contribuição da previdência dos pós-graduandos. Na hora que isso for aprovado pelo Congresso, é a agência que precisa fazer o recolhimento, o que tem que estar previsto no orçamento. E uma pequena recomposição do fomento à pesquisa. Temos algo em torno de R$ 150 milhões, o que é muito pouco. Estamos pedindo R$ 300 milhões.
E como respondeu a equipe econômica?
É uma negociação. A primeira resposta foi não e nós rebatemos. Apresentamos o que tecnicamente se chama restrição no processo de elaboração do orçamento. Daqui para dezembro é que vamos saber o desfecho dessa história. Por enquanto, na primeira resposta, só conseguimos R$ 6 milhões a mais para bolsas, que é praticamente o mesmo orçamento.
E como estão as negociações para a liberação dos recursos bloqueados do CNPq no orçamento deste ano?
Bem avançadas. À espera de que o compromisso verbal que o ministro do Planejamento assumiu com a ministra de Ciência e Tecnologia se concretize. São R$ 310 milhões, sendo R$ 290 milhões de bolsas, o que equivale a dois meses de pagamento dos nossos 105 mil bolsistas. Por enquanto, ninguém está sendo afetado.
A cota de importações do CNPq está muito restrita para atender às demandas dos cientistas. O senhor está acompanhando a iniciativa da UFRJ de importar com imunidade tributária, sem necessidade da cota?
Esse caminho da importação direta e a própria UFRJ tem consciência disso, para se consolidar, precisa de uma concertação. É preciso que saia o chamado parecer vinculante da Advocacia-Geral da União, que amarre como vai acontecer isso, como as fundações de apoio entrarão na história. Isso é que vai dar garantia a qualquer universidade de fazer importação. A gente precisa de segurança jurídica.
Representantes da comunidade científica e políticas ligadas às universidades se reuniram com o governador do Rio, Ricardo Couto - oto: DivulgaçãoA Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação do estado será recriada, garantiu o governador em exercício do Rio, Ricardo Couto. O anúncio foi feito 24 horas depois de o próprio governador extinguir a pasta. A mobilização da comunidade acadêmica e a pressão para a recriação da SECTI fizeram Couto recuar da decisão. O governador se reuniu no dia 7 com parlamentares e reitores das universidades do Rio. Uma comissão formada pelos dirigentes da UFRJ, UFF, Uenf e Uerj apresentará as novas bases para a refundação da secretaria.
Reitor da UFRJ, o professor Roberto Medronho participou do encontro. “Em dez dias, vamos apresentar, por meio desta comissão, uma proposta para a nova secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação do nosso estado", contou o dirigente.
No encontro com o governador, Medronho defendeu um novo modelo de fomento à pesquisa. “Precisamos de uma política de CT&I para o nosso estado que envolva todos os setores – universidades, institutos de pesquisa, setor produtivo, governo, sociedade – para enfrentar os grandes gargalos para o desenvolvimento social e econômico do nosso estado”, disse o reitor. “O governador se colocou bastante sensível à proposta”, afirmou.
A secretaria havia sido desmontada no dia 6. No ato, o governador exonerou subsecretários e cargos de chefia da SECTI. A pasta foi unificada à Secretaria de Desenvolvimento Econômico. A medida, anunciada como forma de reduzir custos e reorganizar a máquina pública, gerou forte reação da comunidade científica do estado e de parlamentares.
A ADUFRJ acompanhou o caso com preocupação. “Estamos acompanhando atentamente o processo em curso relativo à Secretaria estadual de C&T”, declarou a professora Ligia Bahia, presidenta do sindicato. “Será imprescindível obter garantias, especialmente para o pleno funcionamento da Uerj e demais instituições estratégias para o ensino e pesquisa, que integram o organograma da SECTI”, afirmou, no dia da publicação do ato do governador no Diário Oficial do estado.
Para a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), a medida foi além de uma reorganização administrativa, já que resulta no enfraquecimento institucional do segundo maior sistema estadual de ciência e tecnologia do país. “A SBPC apoia sem reservas a apuração de irregularidades, a correção de procedimentos e o restabelecimento da conformidade na administração pública. Esse é um dever de qualquer gestão, e a comunidade científica é a primeira interessada em que os recursos da ciência sejam aplicados com transparência e regularidade. Mas é preciso distinguir com clareza duas coisas que o decreto confunde: falhas de gestão e a existência da política pública”, afirma trecho da nota publicada pela instituição.
A Associação Nacional de Pós-Graduandos publicou nota com duras críticas à decisão do governador em exercício. De acordo com o documento, os pós-graduandos compreendem que o Governo do Estado do Rio de Janeiro vive um “estado de calamidade política, financeira e administrativa”, mas que não justifica reduzir uma estrutura voltada a uma política pública. Para a ANPG, essa decisão também atinge diretamente milhares de mestrandos, doutorandos e jovens pesquisadores. “A pós-graduação brasileira não existe separada de uma política pública sólida de ciência e tecnologia. Bolsas, laboratórios, financiamento de pesquisas, formação científica, inovação e permanência de pesquisadores dependem de instituições estáveis e de políticas de longo prazo”, diz trecho do texto, que pediu mais diálogo. “É especialmente preocupante que uma mudança dessa dimensão tenha ocorrido sem diálogo prévio com a comunidade científica e acadêmica, com os servidores e com as instituições diretamente afetadas.
A decisão também provocou reação imediata de parlamentares ligados à comunidade científica. Ex-secretária municipal de Ciência, Tecnologia e Inovação e atual vereadora do Rio, Tatiana Roque (PSB) criticou a medida. “Extinguir uma secretaria de Ciência e Tecnologia significa não ter política de Estado para a Ciência e Tecnologia, que é uma área tão fundamental para o Rio de Janeiro”.
Presidente da Comissão de Ciência, Tecnologia e Inovação da Alerj, a deputada Élika Takimoto (PT) afirmou estar preocupada com o decreto de extinção da SECTI, mas que buscaria o diálogo com o governador em exercício. “A Secretaria de Estado de Ciência, Tecnologia e Inovação desempenha um papel estratégico na estrutura administrativa do Estado”, afirmou em suas redes sociais.
Já a deputada Dani Balbi (PCdoB) anunciou que enviaria ofício ao governador pedindo explicações. A parlamentar é vice-presidente da Comissão de CT&I da Alerj. “A decisão é um ataque à produção de conhecimento no nosso estado, que tem instituições importantíssimas como a Uerj, a Uenf, a Faperj”, elencou.




