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O Rio de Janeiro antecipou e, em 2026, sintetizou o avanço nacional do PL: o partido ampliou substancialmente suas bancadas e Douglas Ruas alcançou votação suficiente para vencer o governo no primeiro turno, após a retotalização dos votos. Estudo do Laboratório de Partidos, Eleições e Política Comparada (Lappcom), da UFRJ, mostra que a concentração de cadeiras na sigla, agora observada no país, já se desenhava no estado desde 2022.
Naquele ano, o PL conquistou cerca de 24% das cadeiras estaduais e federais do Rio, patamar semelhante aos 23,6% que alcança na Câmara nacional em 2026. Agora, passa de 17 para 21 deputados na Alerj e de 11 para 15 federais. Ruas chegou a 50,88% dos votos válidos com a anulação dos votos de Anthony Garotinho; a proclamação definitiva pelo TRE-RJ aconteceu em15 de outubro.
“A aposta analítica deste relatório é que a hegemonia do PL no Rio de Janeiro resulta da composição entre ideologia e controle territorial”, escreve a professora Mayra Goulart, coordenadora do laboratório, na apresentação do estudo, que assina com Raul Paiva, Paulo Fernandes Jr e Leonardo Ribeiro.
O avanço da sigla ocorre em um estado onde a direita já era majoritária. Nas sete eleições analisadas, o bloco manteve mais da metade das cadeiras nas duas casas. Em 2026, reúne 51 dos 70 deputados da Alerj (72,9%) e 33 dos 46 federais (71,7%). A esquerda cresce de 17 para 19 cadeiras estaduais e permanece com 13 federais. Partidos classificados como centro não elegem representantes desde 2022.
A mudança mais expressiva está na distribuição de forças dentro da direita. O PL ganha quatro cadeiras em cada bancada, enquanto o União Brasil cai de oito para quatro na Alerj e de seis para uma na Câmara. Pela classificação do relatório, a extrema direita recua ligeiramente, mas fica mais concentrada no PL: a sigla passa a reunir 84% das cadeiras desse segmento na Alerj e cerca de 94% na bancada federal.
Para compreender essa força, os pesquisadores recuperam as trajetórias de 192 prefeitos e vereadores eleitos pelo PL em 2024. Quase 70% já haviam exercido mandato ou disputado eleições por outras legendas. Apenas 13% integravam a base do PL ou de seu antecessor, o PR, nos pleitos municipais de 2016 ou 2020.
“O crescimento do PL resultou, portanto, da incorporação de lideranças de grupos políticos tradicionais”, registra Mayra na apresentação. Esses quadros levam à sigla eleitorados construídos antes da filiação. A pesquisa associa essa capilaridade às prefeituras, aos grupos familiares e às emendas parlamentares destinadas aos municípios.
Um exemplo citado é Altineu Côrtes (PL), que obteve 43% dos votos em São Gonçalo, governado por seu aliado Capitão Nelson. Na Alerj, Guilherme Delaroli tem como principal base Itaboraí, administrada por seu irmão. O relatório trata a relação entre controle territorial, recursos e votos como hipótese a ser testada com dados municipais e georreferenciamento de emendas.
A representação feminina permanece reduzida: as mulheres ocupam 16 cadeiras estaduais (22,9%) e dez federais (21,7%). Na Alerj, são nove das 19 cadeiras da esquerda, ante sete das 51 da direita.
A classificação usa uma escala construída com especialistas em 2018, com ajustes do Lappcom para PL, União Brasil e PRD. Ela descreve partidos e cadeiras, sem medir diretamente a ideologia dos eleitores ou de cada deputado. Os resultados de 2026 foram compilados de listas de eleitos publicadas pela imprensa e aguardam consolidação com as bases oficiais do TSE.
A UFRJ realizou a maior Semana de Integração Acadêmica (SIAC) da história, com 7.738 trabalhos de ensino, pesquisa e extensão. A alegria com que professores e alunos ocuparam salas e corredores em todos os campi entre os dias 5 e 9 contrastou, no entanto, com o espanto e a tristeza após os duros resultados das eleições do domingo anterior, que apresentaram um indiscutível avanço da direita em todo o país.
Logo na solenidade de abertura do evento, o reitor Roberto Medronho expressou sua preocupação com o momento político brasileiro e chamou atenção para a responsabilidade da universidade diante dos desafios que o país enfrenta. “Nós estamos passando por um dos momentos mais graves da história do Brasil. Vi ontem uma frase que me marcou muito: ‘A apuração começou às 17h e acabou em 1964’. Não pode. Nós ainda temos uma chance e não podemos desperdiçá-la”.
Mas por que chegamos a esse ponto e o que podemos fazer? Para tentar responder a essas perguntas, o Jornal da ADUFRJ esteve em salas onde o mundo da política e a SIAC se encontraram: conferiu trabalhos que mostram a transformação da direita no país, a origem do bolsonarismo, as disputas na Câmara, o caso do estado do Rio de Janeiro, o comportamento eleitoral dos idosos e muito mais.
Veja a seguir:
Bolsonarismo já transcendeu
a figura do ex-presidente
Para entender a origem do bolsonarismo, a estudante Camila Costa Pinheiro (foto) voltou 13 anos na história do país. Primeiro, as jornadas de junho de 2013 demonstraram
a insatisfação da sociedade com a classe política tradicional e as instituições. Em seguida, a crise econômica, o impeachment da presidenta Dilma Rousseff (PT) e o lavajatismo, que levou à prisão de Lula, em abril de 2018. Pronto. Estava aberto o campo para a ascensão da extrema direita. “O caos institucional abre espaço para essas lideranças carismáticas com discurso antissistêmico”, afirmou a aluna do IFCS, em sua apresentação, no segundo dia da SIAC.
Trabalhando conceitos do escritor e filósofo Rodrigo Nunes, a estudante explicou como Jair Bolsonaro conseguiu angariar tanto apoio na população. “A política, segundo ele, não se organiza somente por posição ideológica, racional e consciente, mas também por relações afetivas. As pessoas vão se reconhecendo umas nas outras”, disse Camila. “O Bolsonaro é a figura que vai articular isso”.
No entanto, para Camila, o fenômeno bolsonarista, alimentado pela lógica do “nós contra eles” e impulsionado pelos algoritmos das redes sociais, já transcendeu a figura do pai. “A gente vê como está o cenário”, disse, em referência à onda da direita que tomou o Legislativo e à votação que colocou o filho, Flávio, à frente na disputa presidencial, nas eleições do dia 4.
Camila foi orientada pelo professor Pedro Lima, do Departamento de Ciência Política do IFCS, que falou sobre os desafios do projeto. “É um tema muito quente, é o tema do momento. Tem um lado bom, porque estimula os alunos. Você está trabalhando com algo que envolve as nossas relações mais afetivas”, disse. “Por outro lado, você está trabalhando com um objeto que ainda está se transformando enquanto a gente fala”, completou.
“E é um desafio para a democracia brasileira. Nós, da universidade, precisamos enfrentar essa ameaça. Cabe a nós estudarmos de onde ela vem, como ela se comporta, para salvaguardar nossa democracia”, concluiu Pedro.
Direita fixou raízes
em todo o estado do Rio
Ao fim da apuração para o governo do Rio, muitos se surpreenderam que o pouco conhecido Douglas Ruas (PL) tivesse ficado à frente de Eduardo Paes (PSD) – nome nacional, eleito quatro vezes para a prefeitura da segunda maior cidade do país. Apresentado no segundo dia da SIAC, o trabalho de pesquisa dos estudantes Paulo Fernandes Jr e Raul Paiva, vinculados ao Laboratório de Partidos, Eleições e Política Comparada (Lappcom), não tinha esse objetivo, mas ajuda a explicar o resultado.
Observando redes de conexões políticas — com uma modelagem matemática que contou com a ajuda da Coppe – e a distribuição de emendas pelos territórios, os alunos demonstraram a força da coligação partidária que levou o ex-governador Cláudio Castro ao poder. Em 2022, o PL foi o partido que mais elegeu deputados federais (11) e estaduais (17) no Rio, contra 5 e 7 do PT, respectivamente. Em 2024, o PL também liderou a eleição de prefeitos no estado do Rio (22) contra apenas 3 do PT, que ficou em nono lugar. No mesmo ano, o PL ainda ficou na primeira posição da eleição de vereadores em todo o estado (170). Já o PT não figurou nem entre os dez primeiros.
“Os partidos PL, PP, União, MDB e Solidariedade, que formaram a coligação do ex-governador Cláudio Castro, concentram 79% das prefeituras do Rio”, disse Paulo. “Isso aponta para uma grande capacidade de articulação política e transferência de votos”.
“Isso se refletiu em parte nas eleições de agora. A articulação do Douglas Ruas era muito mais fácil, porque ele tinha candidatos expressivos em várias partes do estado, enquanto a esquerda tinha sobreposição de candidatos na capital”, completou Raul.
Orientadora do trabalho e diretora do IFCS, a professora Mayra Goulart destacou que temas como estudos de geografia eleitoral são tradicionais da ciência política. “Aqui é um pouco mais inovador, porque estamos tentando desenvolver nossos próprios algoritmos. E é muito importante se debruçar sobre o estado do Rio, que é muito pouco pesquisado”, disse.
Deputadas de PT e PL disputam questões de gênero na Câmara
As mulheres formam 52,5% do eleitorado brasileiro, mas permanecem subrepresentadas nos cargos eletivos. Entre 182 países, o Brasil ocupa a 139ª posição em
representação parlamentar feminina. Isso não quer dizer, no entanto, que simplesmente eleger mais mulheres será positivo para elas.
É o que prova o trabalho apresentado pela estudante Julia Pereira (foto acima), de Ciências Sociais, que comparou a produção legislativa dos partidos com as maiores bancadas federais femininas da atual legislatura: PT (18 deputadas) e PL (17).
Julia analisou os todos os projetos de lei protocolados pelas deputadas do PT (128) e das parlamentares do PL (65), no ano passado. “Cem por cento dos projetos das deputadas do PT visavam ampliar os direitos das mulheres e, em contrapartida, sete das propostas das deputadas do PL mobilizavam uma concepção de gênero associada à divisão sexual do trabalho ou propunham alterações que tensionam marcos normativos construídos no âmbito da política de proteção às mulheres”, disse.
O trabalho confirma pesquisas já realizadas pela aluna em 2023 e 2024 com o mesmo tema e os mesmos partidos. “Os resultados de 2025 acabam por reafirmar a existência dessa disputa político-ideológica na bancada feminina”, observou a estudante também vinculada ao Laboratório de Partidos, Eleições e Política Comparada (Lappcom), sob orientação da professora Mayra Goulart.
“O trabalho faz parte do ‘Mulheres Eleitas’, um dos projetos mais antigos e consolidados do Lappcom, que, desde 2019, analisa desempenho, trajetórias políticas, performances e atuação de mulheres eleitas para o Legislativo federal, estadual ou municipal”, disse Mayra.
Os impactos do “tio do zap” e
da evangelização nas eleições
PROJETO DO IRID: Maria Eduarda, o professor Diogo Monteiro e SarahIntrigada com o envolvimento de pessoas mais idosas em atos extremistas, nos últimos anos, incluindo a tentativa de golpe de 8 de janeiro de 2023, a estudante Sarah Fernandes, do Instituto de Relações Internacionais e Defesa (IRID), decidiu investigar o comportamento eleitoral das pessoas com mais de 70 anos.
Em 2018, 4,4 milhões de pessoas com mais de 70 anos votaram no primeiro turno das eleições e 4,6 milhões no segundo turno; em 2022, 6,1 milhões foram às urnas no primeiro turno e 6,7 milhões no segundo turno. A abstenção do grupo também caiu. O crescimento da participação teria relação com mensagens direcionadas ao grupo por WhatsApp, o famoso “tio do zap”?
“Eles já não têm obrigatoriedade de votar, mas estão se engajando. Por quê? Na minha cabeça, era um movimento coordenado. Mas, por falta de dados confiáveis, minha pesquisa não confirmou isso”, disse Sarah, que chegou a procurar os partidos e entrou em canais de WhatsApp da direita. “O estereótipo do ‘tio do Zap’ configura uma ferramenta discursiva etarista, que visa deslegitimar o posicionamento político da terceira idade”, argumenta a aluna.
Uma pesquisa do Senado mostrou ainda que, na média, as pessoas com mais de 60 anos (não havia dados para o grupo com mais de 70 anos) utilizam menos o WhatsApp que a população em geral. “O que encontrei foi que o eleitorado está ficando mais velho, porque a população está envelhecendo, e eleitores idosos não estão se abstendo como antes”.
Já a pesquisa da aluna Maria Eduarda Felix, também do IRID, abordou a conexão entre o mundo evangélico nos Estados Unidos e a transformação do mundo evangélico no Brasil, que dá apoio ideológico para a retomada da direita. “É inegável o poder do neopentecostalismo nas redes sociais. Mas, quando a gente estuda a fundo, é um ecossistema que vem do tele-evangelismo dos anos 90. E, antes disso, veio dos EUA”.
Nos anos 60, o movimento neopentecostal norte-americano começou a pregar que, pela fé, os fiéis poderiam alcançar a prosperidade material. A ideia se espalhou rapidamente, pelas emissoras de rádio, chegou à televisão e virou ferramenta de disputa geopolítica do próprio governo, durante a Guerra Fria. “Há documentos da assessoria do governo Reagan sobre isso. Ou seja, o ecossistema que polarizou o Brasil em 2018 não nasceu no Facebook. Foi construído ao longo de quase sete décadas, em rádio e TV, e contou com o incentivo geopolítico de uma potência estrangeira”, afirmou Maria Eduarda.
Os trabalhos das duas alunas foram orientados pelo professor Diogo Monteiro, do Instituto de Relações Internacionais e Defesa (IRID), e fazem parte do projeto “Impasses da Democracia Liberal”. “O projeto se organiza em três etapas: temos um núcleo falando sobre democracia propriamente, sobre como o mundo contemporâneo está formado por uma esfera pública bastante fragmentada; uma segunda parte é sobre tecnologia, quando a gente fala de rede, de algoritmo; e na terceira parte, a gente fala de lideranças de caráter carismático e populismo contemporâneo”.
A ideia do projeto é contribuir para o entendimento da complexa situação política do país. “Hoje, no Brasil, uma parte da população brasileira está absolutamente perplexa com o que aconteceu nas eleições. E isso não tem relação com perder ou ganhar. O PT perdeu eleições antigamente e a gente sabia exatamente o por quê. Temos que nos mobilizar para investigar isso”.
Talíria Petrone vira verbete
em dicionário de resistência
Política também é resistência. E resistência contada em livro. Doutoranda da Faculdade de Educação, Roseli Andrade (foto) apresentou aos participantes da SIAC “Um Rio
de resistências: dicionário biográfico – Rio de Janeiro, lançado este ano pela Editora Aruanda. A obra, resultado de um curso de extensão da UFRJ, PUC-GO e da Festa Literária das Periferias (FLUP), busca dar visibilidade à trajetória de mulheres negras.
No curso realizado em 2024, Roseli produziu o verbete sobre a deputada federal Talíria Petrone (PT) – que acaba de se reeleger para a Câmara, com 122.500 votos. “Nosso maior objetivo é que a vida dessas mulheres se torne teoria. A gente está sempre teorizando sobre as pessoas de fora, européias. E as nossas? A Talíria luta muito pela questão da visibilidade da mulher na política”, disse Roseli. “Este ano, tivemos uma campanha forte para ‘mulherizar’ o Congresso, majoritariamente masculino, mas não tivemos sucesso”.
Orientadora do trabalho, a professora Maria Edimaci Leite, da rede pública de Goiânia, valorizou a iniciativa, “que permite conhecer as histórias escondidas na memória, nos arquivos, invisibilizadas nas narrativas oficiais, mas que resistem por meio dos saberes, do corpo, da fé, da luta e da palavra”.
Entre as cem mulheres homenageadas no livro, não há apenas políticas, mas a publicação também apresenta minibiografias de Benedita da Silva (PT), Dani Balbi (PCdoB), Jurema Batista (PT), Marielle Franco (PSOL) – assassinada em 2018 – e Renata Souza (PSOL).
A direita perdeu
a vergonha
PESQUISA DO IFCS: Sofia, o professor Jorge Chaloub e Maria FernandaAs transformações da direita brasileira desde a redemocratização são o objeto de pesquisa das estudantes Maria Fernanda da Silva Fontes e Sofia Bittencourt Rodrigues, que trabalharam com diversos autores. “A gente faz esse trajeto de como a direita mundial, principalmente a direita norte-americana, influencia hoje em dia a direita no Brasil”, afirmou Maria Fernanda.
Durante a apresentação na SIAC, um exemplo das estudantes chamou a atenção pela diferença com os dias atuais. “Após o fim da ditadura, a direita era associada à opressão, à injustiça. Eram poucas as pessoas que tinham coragem de levantar a bandeira da direita publicamente”, contou Sofia. “Em uma pesquisa da Folha de S. Paulo com o Congresso da época, apenas 6% dos parlamentares se autodenominavam de direita. Não existia direita? Claro que sim. Mas eles só estavam escondidos, envergonhados”.
As duas fazem parte de um grupo coordenado pelo professor Jorge Chaloub, do IFCS. “Às vezes, na iniciação científica, fazemos uma pesquisa mais recortada, para entregar um artigo. Outras vezes, como foi o caso, é importante trabalhar uma dimensão formativa da pesquisa, que é importante para elas adensarem o conhecimento em relação a metodologias, em relação a debates. Até para pensarem depois, em pesquisas mais aprofundadas em uma possível trajetória na pós-graduação”, disse.
Li nas redes sociais uma frase que dizia: “A social-democracia ganhou o século XX e, no primeiro quarto do século XXI, ficou cambaleante, mas perdeu o agora, perdeu o futuro”.
Larguei o telefone. Na rua, alguém varria a calçada. Um ônibus levou gente que talvez tivesse dormido pouco e ainda precisasse sorrir ao chegar. A manhã não esperava que eu entendesse o mundo. Havia trabalho, contas, uma consulta adiada. O agora tinha seus compromissos.
Pensei no que aquela promessa significou: escola para os filhos, descanso, atendimento médico, uma velhice sem a vergonha de depender da boa vontade alheia. Houve quem entregasse a vida a essas conquistas. No Brasil, chegaram pela metade, chegaram tarde, não chegaram para todos. Mesmo assim, permitiram a muita gente fazer planos à mesa.
Hoje, nessa mesma mesa, o telefone interrompe o almoço. É trabalho. Pode ser trabalho. Convém atender. O comando já não precisa levantar a voz; basta avisar que há outro disponível. Há quem prefira essa vida à antiga subordinação. Poder escolher o horário tem valor, mesmo quando a necessidade termina escolhendo quase tudo.
Não escutamos direito essa contradição. Parte da esquerda ouviu o desejo de prosperar como quem identifica um erro de formação. Mas ninguém quer apenas não passar fome. Quer levar o filho a um restaurante, conhecer o mar, comprar sem devolver alguma coisa à prateleira. Há humilhações pequenas que ocupam uma existência inteira.
Quando a conversa virou correção de consciência, muita gente se levantou. Outros ofereceram lugar, prometeram dinheiro, ordem, reconhecimento. Ofereceram também inimigos. O desamparo encontrou companhia, e nem sempre quem encontra companhia pergunta quanto ela custará depois.
Continuo um humanista cristão católico e social-democrata. Essas palavras já me pareceram mais fáceis de dizer. Hoje, ao pronunciá-las, sinto o peso do que não fomos capazes de realizar e do que deixamos de perceber. Minha fé tampouco resolve o embaraço. Há dias em que preciso reaprender que o próximo inclui quem me fere, quem me irrita, quem vota contra tudo aquilo em que acredito.
Continuarei a ser uma minoria. Não uma minoria identitária. Vejo com tristeza como o identitarismo se corrompeu pela arrogância, pela prepotência e pelo autoritarismo, até expulsar a alteridade das relações sociais. Lutas necessárias ensinaram tanta gente a erguer a voz. Dói quando essa voz passa a exigir o silêncio dos outros. Quem sofreu a recusa de um lugar também pode aprender a fechar a porta.
Não digo isso de fora das minhas contradições. Quantas vezes terei escutado apenas para preparar a resposta? Quantas pessoas terão desistido de conversar comigo porque encontraram uma certeza onde procuravam atenção? Não tenho uma conta limpa para apresentar.
Ser minoria tem uma solidão sem grandeza. É procurar alguém com quem pensar em voz alta, sem precisar escolher cada palavra como quem atravessa uma sala cheia de objetos frágeis. É perguntar se ainda sabemos falar com os jovens ou se apenas esperamos que repitam nossas lembranças.
O presente não facilita o encontro. Falta dinheiro, falta tempo, sobra cansaço. O medo encurta a paciência. Ainda assim, alguém acompanha um vizinho ao hospital, cuida de uma criança, reparte o almoço. São gestos insuficientes para corrigir uma sociedade desigual. Mas, para quem os recebe, fazem a diferença entre atravessar o dia e sucumbir a ele.
Entristece-me não saber que país deixaremos aos que vêm depois. Algumas derrotas envelhecem conosco. Outras ainda nem conseguimos nomear. Não desejo oferecer consolo fácil a quem está cansado de esperar.
Quero conservar a disposição de ouvir uma vida até o fim, mesmo quando ela desarruma a minha. Talvez seja assim que eu consiga continuar acreditando nos dias que virão. Não espero concordância em tudo. Gostaria de ter com quem repartir o pão.
Recolho as coisas da mesa. O telefone acende outra vez. Antes de atender, afasto um pouco a cadeira ao lado.
* Sociólogo, cientista político, ensaísta e professor da UFRJ
Foto: Fernando SouzaPrimeiro ecólogo formado no Brasil, cientista brilhante, dono de uma invejável capacidade de articulação política, colega generoso e fundador do Instituto de Biodiversidade e Sustentabilidade em Macaé (NUPEM), o professor Francisco de Assis Esteves recebeu o título de emérito da UFRJ, no dia 14, em uma concorrida cerimônia no Auditório Quinhentão do Centro de Ciências da Saúde.
A comitiva de honra foi tão diversa, respeitosa e inovadora quanto o homenageado. Nela estavam docentes jovens, professores aposentados, pesquisadores renomados, além de quatro técnicos, entre eles o prefeito Marcos Maldonado, o pescador João Marcelo e Ivan Hidalgo, o lendário e solícito secretário dos órgãos colegiados da universidade. Sem falar da delegação que veio de Macaé só para assistir Esteves receber a mais nobre das honrarias da universidade.
Aos 76 anos, Chico – como é conhecido pelos mais próximos – anunciou que não vai reduzir suas atividades nesta nova fase da vida, ainda mais diante do delicado momento político do país. “Pertenço a uma comunidade chamada ‘Sonhadores Contumazes’. Quem está lá? Filósofos, poetas e pescadores. Nós amamos o que fazemos e não paramos de trabalhar até partir”, disse o agora primeiro docente emérito do Nupem.
“Principalmente nesse momento da universidade pública, que está sofrendo tantos ataques, não é a hora de tirar o corpo fora. Sou filho da Minerva e o filho da Minerva não corre da raia. O filho da Minerva vai enfrentar os desafios”, afirmou. “É a hora de me dedicar ainda mais à nossa Universidade Federal do Rio de Janeiro. Vou trabalhar mais ainda para que nós possamos ajudar a sociedade no caminho de uma sociedade mais equânime economicamente, socialmente e ambientalmente”.
MÚLTIPLAS HOMENAGENS
Amigo de longa data, o professor Reinaldo Luiz Bozelli, do Instituto de Biologia, foi um dos tantos que se revezaram ao microfone para elogiar o homenageado. Com um discurso recheado de tiradas bem-humoradas, o docente repassou toda a história de Chico Esteves: sua formação acadêmica, o início do namoro com a esposa Rosa, o pioneirismo e a dedicação à limnologia – ciência multidisciplinar que estuda os ecossistemas aquáticos continentais – e o desafio da interiorização da universidade em Macaé.
“Por nunca acreditar que a UFRJ era uma torre de marfim, mas ao contrário, devia ser um farol a iluminar com ciência, ensino e extensão à sociedade fluminense, o professor Francisco empreendeu, no dizer de muitos colegas, o sonho impossível, o desafio insuperável da interiorização da gloriosa, mas muito carioca, Minerva”, contou.
“De uma minúscula sala de 10 metros quadrados, que funcionava como base de campo do laboratório de limnologia em Macaé, ele fez o Nupem, em espaço doado pela prefeitura. E ali, usando a inovadora técnica de construção civil denominada ‘puxadinho’, fez surgir laboratórios, salas de aula, biblioteca, cozinha, alojamentos”, disse Reinaldo, arrancando risadas da plateia.
O carinho pelo mestre pôde ser sentido em todos os discursos e homenagens que se seguiram. Além do título de emérito, Chico quase “sumiu” atrás das flores e de uma pilha de plaquinhas que recebeu dos mais variados departamentos e instituições, como a Associação dos Moradores de São José do Barreto, em Macaé.
O reitor Roberto Medronho encerrou a cerimônia, reforçando os diversos predicados de Chico Esteves. “Estamos homenageando alguém que soube transformar conhecimento em instituição, ciência em preservação, pesquisa em desenvolvimento regional e sonho em universidade pública presente no território”, disse. “Homenageamos também o homem simples, o amigo leal, o companheiro de Rosa, o pai de Bruna e Lívia, o avô apaixonado de Tom, Luiza, Maria Eduarda e Joaquim. O professor que continua ensinando, mesmo quando está simplesmente passeando com os seus netos”, completou.
Medronho também pediu permissão a Chico para fazer da cerimônia uma afirmação dos valores que atravessaram toda a vida do homenageado. “Defenderemos, intransigentemente, a autonomia universitária e a democracia. Porque, sem autonomia, não há universidade verdadeiramente livre. E, sem democracia, não há pensamento crítico, não há ciência livre, não há futuro”, concluiu.
Após ouvir todos os discursos elogiosos à trajetória acadêmica e administrativa, o mestre agradeceu com modéstia. “Isso tudo que consegui não teria conseguido sem a ajuda de todos vocês que estão aqui”, disse Chico, que, no dia seguinte, às 8h15, já estava no Laboratório de Limnologia do Instituto de Biologia, no CCS, para discutir uma tese de mestrado com seu aluno e organizar análises de água das lagoas costeiras de Macaé.
Foto: Fernando SouzaAs agressões físicas sofridas pelo estudante de História, Diego Costa Araújo, na escadaria do IFCS em 25 de agosto, mobilizaram o último Consuni do dia 10. Acusado de fazer apologia ao nazismo, Diego foi retirado de sala de aula por colegas e depois espancado. Os alunos dizem que a pancadaria começou quando Diego proferiu acusações racistas contra um estudante do Direito que lhe deu voz de prisão. Diego nega o nazismo e o racismo.
O caso ganhou destaque na imprensa nacional e expôs a imagem da universidade na véspera de uma das eleições mais delicadas da história do Brasil. A polícia abriu três inquéritos e a universidade instaurou uma sindicância para apurar as responsabilidades. Durante o Consuni, a presidenta da ADUFRJ, professora Ligia Bahia, defendeu a sindicância para os acontecimentos. “A justiça significa punição para atos que não deveriam ter ocorrido. E significa amplo direito à defesa para todos”, disse. “Porque a universidade não é o lugar de violência”, completou.
Diretor do Instituto de Economia, o professor Carlos Frederico Leão Rocha chamou atenção para o artigo 207 da Constituição, que confere autonomia às universidades. “Ele resulta na impossibilidade de entrada da polícia nos campi da UFRJ. Isso é especial. Por causa disso, ninguém pode dar voz de prisão nas universidades”, falou, em referência aos acontecimentos do IFCS, quando o aluno do Direito teria dado voz de prisão a Diego.
O professor Joaquim Martins leu nota do Conselho de Minerva – instituição de ex-alunos da universidade. O conselho cobra “providências transparentes e rigorosas com integral respeito às garantias individuais e aplicação das sanções cabíveis àqueles cujas responsabilidades forem comprovadas. Que prevaleçam, acima das paixões e do radicalismo, a justiça e a paz”.
Já as representantes estudantis apresentaram outro ponto de vista. Uma delas, a aluna Brenda Souza Quinta argumentou que “o sujeito estava sendo conduzido para fora da universidade, mas ele reagiu violentamente e proferiu palavras racistas para um colega”. A representante estudantil defendeu que a universidade não responsabilize os alunos que “se defenderam de ataques nazistas e ataques racistas”.
“Bom dia a todos!
Parabéns, em nome da ADUFRJ, pela cerimônia de ontem – de diplomação dos professores e estudantes mortos e desaparecidos na ditadura. Uma cerimônia extremamente emocionante para todos nós, inclusive, que participamos muito dos movimentos estudantis aqui na UFRJ. Quero aproveitar para agradecer o apoio que a UFRJ me deu pelo ataque da extrema direita a mim. Eu fui processada pelo Conselho Federal de Medicina e queria dar a boa notícia que fui completamente absolvida pela Justiça. Então, muito obrigada!
Nós somos muitos os que lutam pela universidade. Nós da ADUFRJ, neste momento, estamos lutando pela universidade. Nós consideramos que houve no IFCS uma ameaça à autonomia da universidade. É um paradoxo. Na realidade, nós trouxemos a possibilidade de não termos autonomia na UFRJ com o ataque no IFCS. Nós queremos retomar a autonomia da UFRJ.
A ADUFRJ está apoiando a sindicância. Nós queremos que essa sindicância corra muito rápido e que seus resultados sejam divulgados amplamente. Isso é fundamental para que a UFRJ retome a sua autonomia. É a UFRJ que vai decidir quais são as regras, o que pode e o que não pode. Nós temos regras e essas regras têm que ser cumpridas.
A ADUFRJ solicita e reitera à reitoria da UFRJ os pedidos de segurança, inclusive com instalação de câmeras imediatamente no IFCS. Isso é possível, é viável. Estamos reforçando o nosso compromisso aqui com a justiça. A justiça significa punição para atos que não deveriam ter ocorrido. E significa amplo direito à defesa para todos.
A ADUFRJ, inclusive, neste momento, quer se colocar à disposição para garantir a ampla defesa, mas, ao mesmo tempo, cobrar justiça. Porque a universidade não é o lugar de violência. A universidade é o lugar da democracia. A universidade é o lugar do pluralismo. A universidade não é o lugar de totalitarismo, não é o lugar de autoritarismo. Portanto, nós estamos aqui apoiando a autonomia da nossa universidade. Obrigada a todos.”
A diretoria da ADUFRJ acompanha com preocupação o episódio do IFCS-IH e alerta para a importância de se garantir a plena autoridade do professor – no confronto de 25 de agosto, a aula da professora Sabrina Moehlecke, da Faculdade de Educação da UFRJ, foi interrompida pelos alunos que retiraram o colega, sob a acusação de nazismo.
Para refletir sobre o tema, cobrar ações administrativas e propor medidas de garantia da segurança e da qualidade do trabalho docente, a diretoria da ADUFRJ organizou uma reunião no dia 4 de setembro, no campus da Praia Vermelha. No encontro, professores de diversas unidades manifestaram preocupação com o crescimento de confrontos dentro do campus.
“Temos que garantir a inviolabilidade da sala de aula. O professor é a autoridade em sala. Ela não pode ser invadida por quem quer que seja”, assinalou Carlos Frederico Leão Rocha, diretor do Instituto de Economia. “Estou na Universidade desde 1971. A universidade mudou muito. No IFCS, há um trânsito de quase 2 mil pessoas por dia num prédio histórico que não tem condições para isso. O clima está muito tenso e qualquer medida mais firme gera reação dos alunos. É preciso ter coragem”, ponderou o professor Paulo Baía, aposentado do IFCS.
O professor João Torres lamentou o confronto e sua enorme repercussão negativa nas redes. “Não podemos ser justiceiros na universidade. Não importa o motivo do início da briga”, disse.
O professor César Lemos, do Instituto de História, contou que estava no IFCS no dia da briga e fez um impactante desabafo. “Está inviável trabalhar ali. Nossas salas de aula não estão adaptadas à nossa realidade. São salas antigas com cadeiras presas no chão. O elevador está quebrado há dois meses. Temos professores de idade avançada. A insegurança em volta do prédio é terrível. Temos que terminar as aulas noturnas mais cedo por conta da violência ”, conta o docente. “O que aconteceu no dia 25 foi de uma violação absoluta ao exercício docente. Como sindicato, temos que colocar essa posição de forma muito enfática de defesa do trabalho digno dos professores”.
A professora Luisa Ketzer, do Campus de Caxias e diretora da ADUFRJ, ressaltou que as condições precárias de trabalho têm impacto na saúde dos docentes. “Temos um crescimento cada vez maior de adoecimento na universidade”, lamentou.
A presidenta da ADUFRJ, professora Ligia Bahia, propôs criar um sistema de orientação dos professores. “Podemos seguir o exemplo da Unicamp e produzir uma cartilha para os docentes”, lembrou. Outros dois pontos que a diretoria irá cobrar da reitoria da UFRJ são a instalação de câmeras no IFCS-IH e a agilidade nos resultados da comissão interna de sindicância.