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A cena cultural e acadêmica do Rio de Janeiro se despediu de um gigante. A morte precoce, aos 58 anos, do poeta, professor e compositor Marcelo Diniz Martins, carinhosamente apelidado de Paredão por seus amigos e alunos, deixou uma marca profunda não só na universidade, mas em todos que acompanharam sua existência. O docente ministrava as disciplinas de Teoria Literária e Literatura Comparada na Faculdade de Letras da UFRJ. Um infarto, no dia 16 de agosto, interrompeu uma trajetória marcada pela sensibilidade das palavras e pelo afeto que distribuía por onde passava.
Nascido e criado em Niterói, Marcelo construiu uma trajetória que vinculava a sala de aula à poesia e à música. Formou-se na UFF, fez pós-graduação na UFRJ e ingressou como docente efetivo da universidade em 2011. A alma artística o fez personagem expressivo na vida cultural niteroiense, onde assinou mais de 20 composições registradas em parceria com o músico Fred Martins.
A personalidade, aliada à sua altura, ajudava a explicar o apelido “Paredão”: “...e também por uma viagem de ônibus que a gente fez muito jovem a Lumiar. Numa curva, o ônibus balançou e todos nós nos seguramos nele. Aí surgiu o Paredão, que era também pela grandeza da sua generosidade e do seu coração. Ele era meu amigo mais antigo”, contou o ex-presidente da Embratur, Marcelo Freixo, ao se despedir do docente. Características que marcavam a todos que o cercavam.
“O Marcelo foi uma das pessoas mais encantadoras que eu conheci”, resume a ex-presidenta da ADUFRJ, professora Eleonora Ziller. “Era de uma gentileza, tinha um modo de escutar, de estar presente, realmente extraordinário. A gente, perto dele, se sentia muito bem. É até difícil de explicar. Estar com ele era uma tranquilidade”, descreve Nora. “Difícil não cair num lugar comum sobre poetas que possuem uma sensibilidade diversa da maioria das pessoas, mas é que ele vivia mesmo num estado de poesia. Era um modo poético de estar no mundo”.
Eleonora conheceu Marcelo ainda no doutorado. “Eu já sabia de sua fama como excelente professor no ensino médio de Niterói. Era um modo de ensinar Literatura muito criativo e inteligente, uma erudição magnífica, um domínio muito profundo de sua área, capaz ao mesmo tempo de dialogar com simplicidade com seus estudantes”, conta.
Brilhantismo que o professor Eduardo Guerreiro, da Letras, também notou muito antes de se tornarem docentes. “Eu o conheci em 2001. Era um círculo de amizade carioca. Marcelo tinha um humor fantástico! Todo mundo gostava dele”, recorda o docente. “Quando me tornei professor da UFRJ, ele me acolheu. Foi uma felicidade reencontrá-lo”, lembra. “Eu já era professor da Rural, de Teoria Literária, como ele, mas ainda não dava aula na pós. O Marcelo contribuiu enormemente para meu contato com a graduação e com a pós-graduação da UFRJ”.
O primeiro livro escrito por Marcelo Diniz foi “Trecho”, em 2002. “Eu fiquei fascinado por esse livro. Depois, ele fez ‘Cosmologia’ (2004) e me deu os originais para fazer uma primeira leitura. O meu nome está nos agradecimentos desse livro. Isso me orgulha muito”.
O professor Paulo Cezar Maia, do Instituto Nides, trabalhou em projetos de Extensão com Marcelo. “Marcelo era uma pessoa muito generosa, carismática, dedicada, sensível, muito carinhosa, seja com amigos ou com estudantes, dentro e fora da universidade. Quando entrei como substituto na Faculdade de Letras, ele foi uma das pessoas que me acolheu”, lembrou. Os dois montaram juntos disciplinas optativas que aliavam texto à imagem. “Os alunos eram de diferentes unidades. Levamos o estímulo dessas pedagogias para a Extensão. Passamos a levar oficinas de poesia e canção para escolas de Niterói, depois UFRJ-Mar, Duque de Caxias, Maré”, recordou.
O projeto era o embrião da disciplina TECA – Tecnologia, Cultura e Arte, um atelier de produção artística e apropriação da tecnologia destinada a este fim. “De certa forma, é desdobramento daquela disciplina de poesia visual que desenvolvi com o Marcelo. Parte do que faço na UFRJ tem origem com o Marcelo. Do mesmo modo, muitas coisas que desenvolvemos naquela disciplina tiveram consequência nas suas criações poéticas”, analisou Paulo Maia.
Orientando do professor Marcelo na Iniciação Científica, no TCC e no Mestrado, e hoje professor de Literatura Portuguesa da Faculdade de Letras, Marlon Augusto Barbosa se inspira diariamente em quem hoje é saudade. Ele faz aniversário (27 de setembro) exatamente um dia após Marcelo; proximidade que, este ano, inevitavelmente terá um tom diferente. “A gente acaba herdando muita coisa dos nossos mestres. Tenho certeza de que tenho muito do Marcelo em mim e quero transmitir isso aos meus alunos”, conta. “Ele sempre foi muito solícito, muito preocupado com a nossa formação. Tinha enorme cuidado com os alunos. Ele nos formou integralmente, inclusive como pesquisadores”, avalia.
Marlon escolheu a docência a partir das intensas trocas com Marcelo. “Quando entrei na graduação, eu não sabia o que esperar. Sem dúvidas, foi esse contato que me fez descobrir que era isso o que eu queria fazer”, revelou. “O que ele nos ensinou foi um modo de ler as camadas de um texto, não só de interpretá-lo, mas de ter leitura e pensamento críticos”.

HOMENAGEM
Amigo há 40 anos de Marcelo, o professor Alberto Pucheu, da Letras, prepara uma edição especial da revista acadêmica Terceira Margem, do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Literatura. “Queremos recolher todos os textos acadêmicos do Marcelo, ensaios, resenhas. Será uma homenagem”, revela o docente. “Ele era uma das pessoas mais brilhantes que eu já conheci. Alguém muito doce, suave. Perdê-lo foi um choque para todos nós, por isso queremos destacar sua trajetória como docente. Ele amava a sala de aula”, conta o professor.
Quem tiver textos de Marcelo Diniz pode encaminhar os materiais para o e-mail: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo. . “Queremos reunir sua obra acadêmica, hoje dispersa, para disponibilizar a outros pesquisadores. Esse número será muito bonito e, sobretudo, muito afetuoso”.
Nas poesias, a natureza efêmera do tempo foi um tema recorrente e que ecoa, hoje, com doloroso significado. Como profetizou em versos de seu livro “De amor & sobre” (2008), o Paredão lembrava o quanto a vida é breve:

Depressa a vida passa, mal se sente
e tudo já parece diferente:
o que doeu um dia hoje é dormente,
o amanhã não se lembra do presente;
e mal tudo é passado, o mais recente
recomeça a tecer o recorrente:
a cada ruga tudo é mais ausente,
o tempo foge e sempre leva a gente;
fascina como a infância é inocente:
eterno no vigor do adolescente,
no idoso, ainda crepita o sol poente;
fascina como tudo é transparente:
depressa a vida passa e, de repente,
desfaz-se, n’água, a face que a ressente.

Foto: Moisés Pimentel (SGCOM/UFRJ)O professor Sérgio Eduardo Longo Fracalanzza recebeu o título de professor Emérito da UFRJ em 27 de agosto. A cerimônia, realizada no auditório Rodolpho Paulo Rocco, no Centro de Ciências da Saúde, coroou a trajetória do docente que dedicou mais de cinco décadas à docência, à pesquisa científica e à gestão universitária. “É uma grande honra ter sido lembrado pela UFRJ depois de mais de 50 anos de trabalho. Eu posso garantir que toda a minha vida foi dedicada a construir uma universidade melhor, contribuindo para o ensino público de qualidade e transformando todos os saberes aqui produzidos em benefícios para a nossa comunidade”, afirmou, ao ser diplomado.
O reitor Roberto Medronho resumiu a importância do momento. “Algumas cerimônias acadêmicas celebram uma conquista, outras seguem uma trajetória. Mas algumas, como esta, celebram algo ainda maior: uma vida que se tornou parte da própria história da universidade. A UFRJ está declarando hoje que, a partir de agora, a sua trajetória passa a integrar de forma definitiva e permanente a própria história desta instituição”, disse.
Proposta originalmente pelo Departamento de Microbiologia Médica, a homenagem obteve aprovação unânime na Congregação do Instituto de Microbiologia Paulo de Góes (IMPG), no Conselho do CCS e no Conselho Universitário.

Trajetória de excelência
Graduado em Farmácia-Bioquímica pela Universidade Estadual Paulista (Unesp) em 1973, Sérgio Fracalanzza ingressou na UFRJ em 1974. Sob a orientação de expoentes da microbiologia nacional, consolidou-se como referência no estudo da microbiologia médica. Foi pioneiro nas pesquisas sobre o Streptococcus agalactiae (Streptococcus do Grupo B de Lancefield) no Brasil.
As publicações de alto impacto e a importância de seus projetos de pesquisa ajudaram a formar gerações de pesquisadores no Programa de Pós-Graduação em Microbiologia.
Além do denso currículo científico, Fracalanzza dedicou-se à administração universitária. No IMPG, foi chefe de departamento e diretor da unidade. O trabalho comprometido o alçou ao cargo de decano do CCS e, pouco depois, à vice-reitoria da UFRJ. Fracalanzza assumiu a reitoria no lugar de Carlos Lessa, que deixou o posto para presidir o BNDES, em 2003.

*Com informações do Conexão UFRJ

O Conselho Universitário da UFRJ aprovou por unanimidade na quinta (27/08) a cassação do título de Doutor Honoris Causa concedido ao ditador português António de Oliveira Salazar. A honraria, outorgada em 1941, foi sugerida por Pedro Calmon, durante a regência do Estado Novo português.
A decisão de hoje não apaga o passado, mas reafirma o compromisso da UFRJ com a democracia e a memória dos que lutaram contra regimes autoritários.
Relatora do processo, a conselheira Gilda Alvarenga resumiu a importância da decisão: "O título concedido a Antonio Salazar é incompatível com os valores da universidade".
Vantuil Pereira, decano do CFCH, centro que propôs a retirada da homenagem, destacou o quanto as populações que viviam nas colônias portuguesas africanas foram subjugadas no regime salazarista e a importância da Revolução dos Cravos para a queda do ditador. "A universidade falhou em alguns momentos históricos e não é demérito reconhecer que errou. É fundamental, hoje, fazer essa correção e reafirmar os direitos humanos e a democracia".

Foto: Fernando Souza/Arquivo ADUFRJA reitoria lançou um edital de apoio à infraestrutura dos laboratórios, no dia 31 de agosto. Serão distribuídos R$ 8 milhões: metade para o eixo I, dos laboratórios didáticos de graduação, e metade para o eixo II, dos laboratórios de pesquisa. As propostas devem ser submetidas até 20 de setembro. As regras estão disponíveis no site da universidade.
Para o eixo I, o foco é a inovação pedagógica e ampliação da pesquisa na formação de recursos humanos. “Tem que ter um caráter de pesquisa. Não pode ser apenas uma reforma de laboratório didático. Deve ser, por exemplo, uma reforma de laboratório para apoio à pesquisa, mesmo que seja usado por alunos da graduação”, afirmou a chefe de gabinete da reitoria, professora Fabiana Fonseca, a uma plenária de decanos e diretores. A docente citou a iniciação científica ou pesquisa de práticas novas para modernização curricular como exemplos.
Neste caso, as propostas deverão ser submetidas pelo diretor de unidade, diretor adjunto de graduação ou coordenador do curso de graduação. Será admitido apenas um projeto por unidade.
Para o eixo II, dos laboratórios de pesquisa, o objetivo do edital é o fortalecimento científico e tecnológico e a capacidade de inovação. Aqui, qualquer professor vinculado a um laboratório cadastrado na pró-reitoria de Pós-Graduação e Pesquisa poderá submeter proposta. Mas a chefe de gabinete chamou atenção para a necessidade de atualização cadastral de professores contratados há pouco tempo que já podem estar atuando nestes laboratórios.
O edital será financiado com receitas CIP (custos indiretos de projeto), uma contrapartida das pesquisas de empresas, majoritariamente do setor de petróleo, que utilizam infraestrutura da universidade. Esses projetos são obrigados a ressarcir a UFRJ em 15%, com o custo de água, energia, segurança, entre outros itens. Deste montante, 70% ficam com a reitoria, 25% com a unidade onde a pesquisa é desenvolvida e 5% com as decanias.
“Hoje, temos um saldo de R$ 32 milhões de custos indiretos. Claro que há outras despesas que são financiadas com estes recursos. Só de contratos de gases e biotérios, são R$ 12 milhões por ano”, explicou Fabiana.
Haverá duas faixas de propostas: uma comportará solicitações de até R$ 140 mil, para os dois eixos; outra, exclusiva para o eixo II, de R$ 140 mil até R$ 300 mil, será voltada para os laboratórios multiusuários. Com uma ressalva: espaços que já são apoiados por receitas CIP em outros contratos não poderão participar do edital.
Equipamentos científicos, softwares ou pequenas reformas para instalação de equipamento poderão ser financiados pelo edital, entre outros itens. Pagamento de pessoal ou obras de grande porte não serão permitidos (veja quadro).
O resultado preliminar do edital deve sair em 6 de novembro, com prazo de mais cinco dias para apresentação de recursos. A ideia é começar a fazer a contratação dos projetos ainda este ano, com plano de execução de até 12 meses.

O Conselho Universitário cassou o título de Doutor Honoris Causa concedido ao diplomata norte-americano Lincoln Gordon, em 1968, quando o Brasil estava sob o regime autoritário.
Documentos oficiais do próprio governo dos EUA e a produção historiográfica especializada mostraram que Lincoln desempenhou relevante atuação diplomática e política de apoio ao movimento que culminou no golpe civil-militar de 1964 e no subsequente processo de consolidação do regime autoritário.
A medida do Consuni do dia 13 de agosto segue o entendimento de que a honraria se mostrava incompatível com os valores democráticos atualmente afirmados pela Universidade.
A UFRJ já havia revogado os títulos concedidos ao ditador Emílio Garrastazu Médici e ao presidente do Senado, durante o regime militar, Jarbas Passarinho.
A decisão do conselho aconteceu por unanimidade e aclamação.
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