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Nos últimos 20 anos, o Brasil avançou na busca pela equidade de gênero na pesquisa. Hoje, 49% das autorias de artigos científicos brasileiros são de mulheres, o que deixa o país em terceiro lugar no ranking mundial de participação feminina na pesquisa. Os ótimos números, no entanto, escondem grandes desafios ainda enfrentados pelas cientistas. Ao longo do desenvolvimento da carreira acadêmica, as mulheres deixam de ser maioria e se tornam minoria. Esse é o chamado “efeito tesoura”, que descreve a queda desproporcional de mulheres em cargos de liderança científica.

Dados do Plano Nacional da Pós-Graduação mostram que mulheres são maioria entre os estudantes de pós-graduação.WhatsApp Image 2026 03 11 at 20.17.581 Elas representam 57%do total das vagas ativas. Quando falamos das doutoras formadas, o número cai para 54%. Elas são 43% dos docentes de pós-graduação e apenas 35% do total de bolsistas de produtividade do CNPq. No nível mais alto da bolsa, a de Pesquisador 1-A, as mulheres são apenas 23%.

Para tentar mudar essa realidade, agências de fomento estaduais e federais passaram a desenvolver uma série de iniciativas, como editais específicos para mulheres e prêmios para destacar a atuação feminina na pós-graduação. Além dessas iniciativas, há ações que buscam pontuar diferenciadamente ou reconhecer os períodos de licença-maternidade das pesquisadoras. Muitas dessas ações foram pautadas pelo movimento Parent in Science.

A professora Sabrina Baptista Ferreira é a embaixadora do Parent in Science na UFRJ. Ela conta que foi do grupo a iniciativa de pleitear junto ao CNPq a introdução da linha que indica os períodos de licença-maternidade no Currículo Lattes. “Tivemos atuação nessa conquista e em outras. Hoje a Plataforma Sucupira, da Capes, tem o campo destinado à licença-maternidade. Atuamos nas discussões sobre aumento de prazos para a avaliação das mulheres que têm filhos pequenos”, elenca. “No caso da UFRJ, dentro das políticas de ações afirmativas há um fator de correção para alunas mães. Enfim, são várias frentes”.

Apesar dos avanços, ainda há um longo trajeto a percorrer. “Indicamos, por exemplo, a importância de termos mais mulheres em Comitês de Área. O que percebemos muito fortemente é o ‘efeito tesoura’ na ciência. Há um número muito mais expressivo de mulheres do que de homens na graduação, mas esse número começa a se inverter quando chegamos à carreira acadêmica”.

O esforço, segundo a docente, é que essas iniciativas se traduzam em políticas públicas para garantir a ampliação da participação de mulheres em todos os níveis da carreira, não só nos iniciais. “Por isso precisamos batalhar para que mais mulheres estejam em posições de liderança e decisão. Diversidade de gênero se traduz em diversidade de ideias e ações”, defende. O estereóripo, para a docente, ainda é um desafio para as pesquisadoras. “Quando uma mulher levanta a voz e tenta se impor numa reunião, ela é caracterizada como estressada, nervosinha. Ainda é um grande desafio para as docentes pesquisadoras se impor sem serem rotuladas”.

BARREIRAS ATITUDINAIS
Esses rótulos estariam dentro de um conjunto de atitudes que a professora Ana Cristina Barros da Cunha, titular do Instituto de Psicologia, chama de barreiras atitudinais. “São barreiras que todas as minorias que não têm direitos assegurados enfrentam”, explica. “Essas barreiras são relacionadas a crenças, que geram as atitudes e formam rótulos frente a tudo que é feminino. Crença de que a mulher é mais frágil e, por isso, inábil para determinadas tarefas. Mas não se trata só da força física, mas de uma força simbólica que classifica o feminino como inferior”, analisa. “A mulher, então, é rotulada como inadequada para determinadas funções e espaços, principalmente os relacionados a gestão e liderança. O imaginário simbólico relega ao feminino uma condição de inferioridade aos homens”.

Essas barreiras, de acordo com a pesquisadora, não se traduzem em falas diretas de interdição. “Ninguém fala que você não pode ser uma diretora porque você é mulher, mas as atitudes dizem isso quando invalidam a sua fala, por exemplo”, aponta. “Essas barreiras atitudinais, então, se transformam em barreiras de acesso, que são ainda mais sentidas pelas mulheres mães, trans, negras”. Ela cita o exemplo da UFRJ. “Não temos o benefício da creche na universidade para deixar os filhos. Isso facilitaria a rotina feminina de dupla jornada e ajudaria no desempenho na vida profissional e pessoal. Isso se torna uma barreira concreta que vai te exigir manobras e criação de estratégias para conciliar a maternidade”, diz a pesquisadora. “Embora a maternidade faça parte do feminino, ela não é considerada dentre os desafios para a realização profissional de uma mulher”.

A docente alerta para os efeitos emocionais causados pelas barreiras impostas, somadas à grande exigência de performance acadêmica e à atuação em casa, nos cuidados com filhos ou pais idosos. “Tudo isso gera sobrecargas física, emocional e mental, que podem se desdobrar como quadros psicossomáticos e transtornos mentais comuns”, explica Ana Cunha. “Quando o estresse chega a um nível de exaustão, o corpo grita e a mulher pode desenvolver psoríase, fibromialgia, síndrome do colo irritável, alopécia. Tudo isso pode gerar quadros ainda mais graves como depressão e burnout”, aponta a pesquisadora. “Especialmente em casos de maior exigência como pesquisadoras cientistas com bolsa de produtividade, para quem a alta qualidade da produção científica é obrigatória”.

O desenvolvimento de políticas públicas para a redução desses quadros é um caminho, acredita a docente, mas sozinhas não resolverão o problema. “Se não forem implementadas em níveis de promover a sensibilização e o letramento sobre o feminino, essas políticas vão ser inócuas. A política é uma estratégia, mas a mudança de crenças que sustentam os estigmas sobre a mulher é o grande desafio”.

Diretora de Gestão da Capes, a pesquisadora Luciana Mendonça Gottschall concorda. Ela atua na agência para promover justamente essa sensibilização interna. “Quando pautamos esse debate internamente, atuamos para que essas ações reverberem também nas nossas políticas de pós-graduação e pesquisa”, avalia. “Nós trabalhamos para conscientizar as equipes e avaliadores sobre as violências invisíveis que atingem as mulheres no ambiente de trabalho. Esse processo precisa ser pensado em conjunto com as políticas de promoção da equidade de gênero”, acredita.

Ela conta que no início da gestão da atual presidenta da entidade, a professora Denise Pires de Carvalho (ex-reitora da UFRJ), em 2024, foi instituído na Capes o Comitê Permanente de Ações Estratégicas e Políticas para Equidade de Gênero, e que as ações desenvolvidas têm participação dos homens. “Normalmente falamos para nós mesmas, mas temos investido em trazer homens para esse debate. Eles são gestores, são também avaliadores. Nós gerenciamos políticas públicas na área científica e precisamos dessa mudança de cultura, desse olhar diferenciado”. Ela faz um apelo aos colegas pesquisadores: “Compreendam seus privilégios e entrem conosco nessa luta”.

Em 2014, na primeira turma de alunas do Ensino Médio inscritas no projeto de extensão “Tem Menina no Circuito”, a professora Thereza Paiva, do Instituto de Física, teve uma grande alegria e uma imensa decepção. Das cinco alunas participantes, duas ingressaram na UFRJ — e viriam a se tornar professoras, uma de Física e a outra, de Português. Mas uma terceira aluna, em quem as criadoras do projeto depositavam muita esperança, sumiu do mapa. “Aprendemos desde o início que há barreiras imensas que as mulheres têm que superar para seguir adiante dos estudos. E na própria vida”, reflete Thereza.

A professora recorda que, ao conceber o projeto com as colegas do IF Elis Helena Sinnecker e Tatiana Rappoport, a nobre intenção de atrair jovens mulheres de periferias para o campo das Ciências Exatas se deparou com a realidade que muitas vezes fica escondida em histórias como a da aluna que sumiu do mapa: “Nós tentamos saber com colegas dela o que tinha acontecido e descobrimos que o pai dela, um pastor evangélico, não havia deixado ela ingressar na universidade. Naquela linha de que mulher que estuda questiona muito e não arruma marido. Foi muito triste, mas essa é uma realidade de muitas meninas como ela, um problema com o qual nos deparamos e que nos encorajou a prosseguir”.

DESEJO E REALIDADE
No terreno das alegrias, foi uma conquista e tanto do projeto ter contribuído para que duas das cinco primeiras alunas do Colégio Estadual Alfredo Neves, em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, concluíssem a graduação na UFRJ. “Foi a primeira escola em que atuamos, estamos lá até hoje. Mas a realidade é que nessas escolas de periferia, em geral, o ensino é terminal. As pessoas concluem o Ensino Médio e vão trabalhar. Nosso desejo sempre foi, e continua sendo, mudar essa realidade”, diz Thereza.

Atualmente, o projeto atua em seis escolas públicas de regiões periféricas do Rio de Janeiro (Nova Iguaçu, Duque de Caxias, Mesquita, Realengo, São João de Meriti e Rocinha), onde oferece oficinas de eletrônica com materiais alternativos, atraindo a atenção das alunas para temas que antes pareciam distantes de suas realidades. Além disso, o projeto oferece aulas ministradas por alunas da UFRJ para preparar as meninas do terceiro ano do Ensino Médio para o Enem — o chamado “Terceirão”. Em 2019, o projeto se expandiu para uma escola pública de Uberlândia (MG).

A participação das monitoras tem sido fundamental para criar uma conexão entre as estudantes e o ambiente universitário. “A evasão nos cursos de Exatas é alta, não quer dizer que as meninas que ingressam na graduação chegarão ao final do curso. Mesmo em uma universidade gratuita, há os custos de alimentação e transporte, sobretudo para pessoas de baixa renda e que vivem nas periferias. Então nós tentamos ajudar essas meninas com a oferta de bolsas de monitoria”, explica Thereza.

Em 2022, o “Tem Menina no Circuito” foi o vencedor do Nature Awards for Inspiring Women in Science, na categoria “Science Outreach”. O prêmio, concedido pela revista Nature, reconhece as iniciativas voltadas para que meninas se interessem e permaneçam na área das Ciências Exatas.

Para Thereza Paiva, o prêmio foi mais um incentivo para prosseguir. “Eu não vivo só de extensão na UFRJ. Tenho uma carreira de pesquisadora, dou aulas, estou assumindo a coordenação do programa de pós-graduação do IF. O projeto consome muito tempo, mas ele muda a vida das pessoas. Lá atrás, quando começamos, alguns colegas do IF diziam: “Ah, você gasta muito tempo brincando de massinha com as meninas, devia estar publicando mais”. E hoje em dia as pessoas passaram a entender o valor do que a gente faz. Quem criticava lá atrás, hoje me dá tapinha nas costas”.

PORTA DE ENTRADA
De acordo com a pró-reitoria de Extensão (PR-5), das 2.222 ações ativas de extensão da UFRJ até o início deste mês, 1.394 são coordenadas por mulheres. É uma maioria considerável e, na visão da pró-reitora Ivana Bentes, reflete uma firme determinação da extensão em ser uma porta de entrada para as mulheres na universidade. “Temos um ecossistema muito forte na extensão coordenado por mulheres e também voltado para o público feminino, dando visibilidade a temas críticos, como o combate à violência, ao assédio e à desigualdade de gênero”, pontua a professora.

Ivana também destaca a multiplicidade de ações de extensão que envolvem o público feminino: “Chama a atenção a diversidade de temas dessas ações coordenadas por mulheres, tanto para crianças e adolescentes quanto para adultos, desde empreendedorismo, saúde e cultura até alfabetização de jovens e adultos, combate à desinformação e apoio a mulheres no campo dos direitos humanos. Temos uma ação voltada a mulheres encarceradas, outra voltada à formação de conselheiros tutelares, que vão lidar com as questões de proteção a crianças e adolescentes”, enumera ela.

No conceito de porta de entrada, o projeto “Dynamic Women”, coordenado pela professora Luciana Salgado, do Instituto de Matemática, se encaixa como uma luva. Ele nasceu para confrontar a percepção de que o universo da Matemática é “coisa de homem”. Criado em 2019 para estudantes de graduação e de pós-graduação, o projeto visa a dar mais visibilidade a mulheres que fazem ciência, por meio de debates, palestras e encontros como o “Celebrando a Mulher na Matemática”. Nesses encontros, são exaltadas as conquistas de mulheres como a alemã Amalie Emmy Noether, considerada a “mãe da Álgebra moderna”, e a iraniana Maryam Mirzakhani, a primeira mulher a receber a Medalha Fields, mais alta condecoração mundial no campo da Matemática.

“Por meio de exemplos de mulheres como essas, nós tentamos atrair mais mulheres para a universidade, e quebrar conceitos ainda arraigados. O filme “Picture a Scientist” mostra uma pesquisa interessante. Quando você pede para crianças desenharem um cientista, as de até seis anos desenham do seu gênero. A partir dos sete anos de idade, a grande maioria desenha um homem. Há uma mudança de paradigma na visão das crianças, a partir de uma certa idade, de que quem faz ciência é o homem. Nesse filme há uma fala de uma professora universitária norte-americana que eu trago comigo, ela diz assim: “No fundo, eu só queria fazer ciência”. Parece simples, né? Mas as mulheres têm que superar muitas barreiras para isso”, reflete Luciana.

O assédio, tanto moral quanto sexual, é uma dessas barreiras, observa a professora. Ela já sentiu isso na própria pele. “Essa frase da professora eu levo comigo. Porque ela resume muita coisa. Ter de estar sempre alerta, sempre tentando se defender. Isso drena energia que deveria estar sendo usada para um bem maior que é fazer a ciência. Só me deixa em paz. Antes de ser matemática, eu cantava e tocava, sou musicista. O assédio é grande, é explícito. Agora a gente ainda pode falar, antes nem podia. E hoje mesmo as pessoas que denunciam sofrem retaliações pesadas. Esse não é o foco do projeto, mas temos que falar sobre isso. Nós estamos aqui, nós somos resistência”, diz a professora.

Ela trabalha no Fundão, mas seu coração está no Irã. Maral Mostafazdehfard nasceu, cresceu e se formou em Teerã, onde fez o mestrado em Álgebra não Comutativa na Tarbiat Modares University. Em 2010, veio fazer o doutorado no Brasil, e há sete anos é professora do Instituto de Matemática da UFRJ. Seus dias e noites nunca foram tão difíceis. Ela acompanha com aflição as notícias da guerra. A mãe e a irmã são diabéticas e já não conseguem remédios com regularidade. As comunicações estão cortadas e o único contato é com um sobrinho.

“Não há mais internet”, conta a docente, líder de um grupo de pesquisa sobre mulheres matemáticas. “No Irã, as professoras precisam lecionar usando o hijab. As dificuldades para obter vistos muitas vezes impedem pesquisadores de participar de eventos científicos no exterior. Muitas colegas não conseguem participar de conferências internacionais”, lamenta a professora, que costuma voltar ao Irã a cada dois anos. “Mas, a cada viagem, eu sinto que a situação está piorando. Para mim, é como uma cortina de teatro que se abre a cada dois anos e revela um cenário cada vez mais difícil para a vida acadêmica, para a ciência e para a sociedade”.

Professoras e alunas foram as primeiras vítimas dos Estados Unidos na Guerra no Irã. A senhora acha que isso foi por acaso?
Por que atacar uma escola de meninas? Infelizmente, o petróleo no Golfo Pérsico sempre foi um ponto de grande interesse e também de conflitos. Poucas horas após o início da guerra, houve um ataque a uma escola que resultou na morte de 168 pessoas e deixou 96 feridos. A maioria era de estudantes — meninas e meninos —, além de 26 professoras e alguns pais. Era uma escola de Ensino Fundamental, com crianças entre 7 e 12 anos, localizada em uma cidade pequena e não estratégica. É muito preocupante quando civis, especialmente crianças, se tornam vítimas de um conflito. A direção dessa guerra parece inflamar ainda mais a situação, em vez de buscar soluções. A grande questão agora é quem conseguirá controlar essa escalada de violência.

Qual a diferença entre ser professora de uma universidade aqui e no Irã?
Há algumas diferenças importantes entre ser professora universitária no Brasil e no Irã. No Irã, as professoras precisam lecionar usando o hijab, mas em termos de carreira acadêmica elas podem fazer pesquisa e são avaliadas de forma semelhante aos homens. Uma das maiores dificuldades está relacionada às condições econômicas e às relações internacionais do país. A desvalorização da moeda e as dificuldades para obter vistos muitas vezes impedem pesquisadores de participar de eventos científicos no exterior. Muitas colegas minhas, por exemplo, não conseguiram participar de conferências internacionais por esses motivos. A relação internacional do Brasil com outros países, especialmente na emissão de vistos, é bem melhor. O Brasil tem uma economia mais estável e existem várias agências de fomento com editais que apoiam a pesquisa e incentivam a participação das mulheres na ciência. Além disso, as mulheres têm mais autonomia em relação às suas escolhas e à própria aparência. Isso contribui para um ambiente acadêmico mais aberto e acolhedor para pesquisadoras.

Como a senhora mantém o contato com a sua familia no Irã depois que a guerra começou?
Depois que a guerra começou, meu contato com meus pais foi completamente interrompido. No momento, consigo falar apenas com um sobrinho, que conseguiu usar um VPN específico para se conectar, embora eu não saiba exatamente como. Pedi que ele me escreva todos os dias para me dizer se todos estão bem. Ele me contou que a situação tem sido muito difícil. Por causa do barulho das explosões e do medo constante, muitas pessoas não conseguem dormir à noite. Em alguns momentos, eles chegam a ouvir aviões militares passando, o que aumenta ainda mais a sensação de insegurança. Estar longe e sem conseguir falar diretamente com minha família é uma das partes mais dolorosas dessa situação.

A senhora tem duas filhas pequenas. Como a senhora está falando sobre a guerra com elas ?
Explico que, infelizmente, conflitos existem no mundo, mas que toda guerra termina em paz. Será melhor pensar em paz desde do início. Como mãe e professora, acredito que educar para o diálogo, para o respeito e para a empatia é uma das formas mais fortes de contribuir para um futuro melhor.

Mulheres e crianças são as que mais sofrem em guerras. Como sua mãe e suas irmãs estão no Irã?
Minha mãe e a minha irmã mais nova saíram de Teerã e foram para uma cidade pequena no norte do Irã, buscando mais segurança. Mesmo assim, a situação continua muito preocupante. Elas são diabéticas e, ainda antes do início da guerra, já enfrentavam dificuldades para encontrar seus medicamentos. Quando consegui falar com elas pela última vez, me contaram que a farmácia só conseguiu vender remédios para um mês. Isso me deixa muito preocupada, porque até tratamentos básicos para doenças crônicas, como diabetes, podem se tornar difíceis de manter em uma guerra.

A senhora está no Brasil há mais de 10 anos. Nesse período, já pensou em voltar a morar no Irã?
Sim, já pensei em voltar várias vezes. Antes da guerra, eu costumava viajar ao Irã a cada dois anos para visitar minha família e também universidades em Teerã e Isfahan, onde encontrava colegas matemáticos. Mas, a cada viagem, eu sinto que a situação está piorando. Para mim, é como uma cortina de teatro que se abre a cada dois anos e revela um cenário cada vez mais difícil para a vida acadêmica, para a ciência e para a sociedade.

Como educadora que forma matemáticos e cidadãos do futuro, como a senhora vai abordar o tema da guerra em sua sala de aula este semestre?
Na sala de aula, procuro manter o foco na educação e na ciência. A guerra não tem relação com o que buscamos construir na universidade, que é conhecimento, diálogo e pensamento crítico. Sou muito grata aos meus alunos. Eles me ajudam a permanecer ativa e a manter uma mentalidade positiva.

Qual o papel de uma professora na construção da paz?
O papel de uma professora é orientar e formar pessoas. Em momentos difíceis, como os que vivemos hoje, precisamos ser pragmáticos e manter a esperança. Muitas vezes as soluções não são claras — a situação pode parecer um labirinto. Mas, para encontrar a saída, precisamos continuar tentando, aprendendo e acreditando que é possível construir caminhos de paz.

O regime iraniano é muito cruel com as mulheres. Como a senhora convivia com essas crueldades no seu país?
O regime iraniano tem regras muito restritivas em relação às mulheres. Restrições estão implementados nas próprias leis. Ou seja, trata-se de uma forma de desumanidade legalizada! No meu caso, as fiscalizações relacionadas ao uso do hijab eram algo frequente e bastante incômodo. Eu sempre gostei de me arrumar e usar maquiagem, e muitas vezes as estudantes eram questionadas ou repreendidas por sua aparência. Isso acaba tirando o foco do que realmente importa na universidade, que deveria ser o estudo e a formação acadêmica. Lembro que, durante o meu mestrado, percebi que a fiscalização no portão da universidade começava por volta das 7h da manhã e terminava por volta de 19h. Então eu costumava chegar antes desse horário e ficava estudando até a noite. No fim, esse período de dedicação intensa também contribuiu para que eu me tornasse a primeira colocada no mestrado em Matemática pura na minha universidade. Sobre mudanças, acredito que transformações acontecem quando há consciência, intenção e iniciativa.

A senhora tem esperança?
Não acredito que a lógica da guerra de Trump e Israel e a crueldade dos aiatolás estejam alinhadas com o objetivo de trazer paz, segurança e bem-estar para a sociedade iraniana. O desenvolvimento de um país não pode ser construído por meio da destruição. A esperança é que, no longo prazo, a sociedade possa caminhar em direção a soluções mais pacíficas e construtivas.

Ela é a caçula entre os mais de quatro mil professores da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Annah Bárbara nasceu em São Gonçalo (RJ), tem 26 anos e um orgulho gigante de ser docente do curso de Gastronomia. Não foi fácil chegar até aqui. Na graduação, era bolsista de iniciação científica, monitora e ainda se desdobrava trabalhando numa padaria. Hoje tenta fazer do magistério um espaço diário de transformação de destinos. Particulamente das mulheres.

“Na gastronomia, essa discussão é particularmente importante. Historicamente, a cozinha doméstica foi atribuída às mulheres, enquanto as cozinhas profissionais foram ocupadas majoritariamente por homens e marcadas por hierarquias rígidas e, muitas vezes, ambientes de trabalho hostis”, conta. “Trazer esse debate para a sala de aula significa questionar essas estruturas e construir uma cultura profissional mais justa e respeitosa”.

Por que escolheu ser professora?
Porque acredito profundamente na educação pública como um instrumento de transformação social. A universidade, especialmente em um país marcado por desigualdades estruturais, tem o papel de ampliar horizontes e criar possibilidades que muitas vezes não estavam dadas no início da trajetória de um estudante.
Na gastronomia, isso se torna ainda mais evidente. A cozinha é um espaço onde se cruzam cultura, ciência, política alimentar e cuidado. Ensinar gastronomia não é apenas ensinar técnicas culinárias, mas discutir sistemas alimentares, sustentabilidade, saúde coletiva e o direito humano à alimentação adequada. Ser professora, para mim, é justamente participar desse processo de formação crítica, ajudando estudantes a compreender que cozinhar também é um ato político e social.

Ser mulher hoje é conviver com o medo diário. Qual o papel de uma professora para reduzir a violência de gênero?
A universidade é fundamental para transformar mentalidades e estruturas sociais. Como professora, acredito que nosso papel é contribuir para formar profissionais e cidadãos capazes de reconhecer e enfrentar as desigualdades de gênero.
Na gastronomia, essa discussão é particularmente importante. Historicamente, a cozinha doméstica foi atribuída às mulheres, enquanto as cozinhas profissionais foram ocupadas majoritariamente por homens e marcadas por hierarquias rígidas e, muitas vezes, ambientes de trabalho hostis.
Trazer esse debate para a sala de aula significa questionar essas estruturas e construir uma cultura profissional mais justa e respeitosa.
Reduzir a violência de gênero passa também por educação, por diálogo e por visibilidade. Cada aula pode ser um espaço de construção de novas referências, onde respeito, equidade e cuidado sejam valores centrais.

Como imagina que será o ofício docente daqui a 40 anos, quando você tiver apenas 66 anos?
Imagino que o ofício docente continuará sendo profundamente humano, mesmo em um mundo cada vez mais mediado por tecnologia. Ferramentas digitais e inteligência artificial certamente transformarão a forma como acessamos e produzimos conhecimento, mas o papel do professor continuará sendo o de mediar, contextualizar e dar sentido a esse conhecimento.
Na gastronomia, acredito que veremos mudanças muito significativas relacionadas à sustentabilidade, aos sistemas alimentares e às novas relações de trabalho.
A formação universitária terá um papel fundamental em preparar profissionais capazes de lidar com os desafios climáticos e sociais do futuro. Espero que, daqui a 40 anos, a universidade pública continue sendo um espaço de pensamento crítico, diversidade e compromisso com a sociedade. E a gastronomia seja um espaço profissional com regulamentação e organização trabalhista forte.

Qual mensagem gostaria de deixar para as docentes mais experientes?
Gostaria de expressar, antes de tudo, minha profunda admiração e gratidão. A universidade pública que hoje habitamos foi construída por gerações que dedicaram suas vidas à educação, à pesquisa e à defesa do conhecimento. Às professoras, em especial, agradeço por todas as portas que foram abertas e lutas que foram sustentadas para que hoje eu e diversas outras jovens pesquisadoras tenham espaço na universidade.
Para quem chega agora à docência, essas trajetórias são referências fundamentais. A universidade é, em essência, um projeto coletivo entre gerações. Se hoje posso estar aqui, é porque muitas professoras vieram antes e abriram caminhos. Meu desejo é que possamos seguir construindo esse espaço juntas, com diálogo, respeito e compromisso com a educação pública.

Qual o desafio de ser docente com apenas 26 anos de idade?
Ser uma professora jovem traz desafios e também possibilidades. Ter uma idade próxima à dos estudantes cria uma dinâmica particular em sala de aula. Essa proximidade muitas vezes facilita o diálogo e torna o ambiente de aprendizagem mais aberto, pois os alunos se sentem confortáveis para compartilhar dúvidas, experiências e desafios da profissão. No entanto, essa mesma proximidade exige um cuidado constante na construção da autoridade pedagógica e na definição de limites claros em relação à ética profissional.
A questão geracional também se cruza com questões de gênero. Em muitos ambientes acadêmicos e profissionais, professores homens jovens podem circular em espaços mais informais com os alunos sem que isso seja necessariamente questionado ou implique sobre a sua imagem profissional.
Para uma professora mulher, especialmente sendo jovem, existe frequentemente uma expectativa de delimitar essas fronteiras de forma mais explícita. Procuro lidar com isso de maneira serena, mas consciente, estabelecendo parâmetros claros de respeito, profissionalismo e responsabilidade nas relações.
Ao mesmo tempo, fui muito bem recebida pelos colegas e alunos e encontrei um ambiente de grande acolhimento e validação profissional na UFRJ, o que torna esse início de carreira seguro e estimulante.
Na gastronomia, essa proximidade geracional também permite que debates muito presentes na realidade dos alunos apareçam com força no espaço acadêmico. Questões relacionadas às condições de trabalho nas cozinhas profissionais, às jornadas exaustivas e às discussões atuais sobre modelos, como a escala 6x1, fazem parte do cotidiano de muitos estudantes que já atuam no setor.
Trazer essas experiências para a universidade é fundamental para que possamos refletir criticamente sobre o mundo do trabalho na gastronomia, e pensar caminhos mais justos e sustentáveis para a profissão.
Acredito que a juventude também traz uma escuta atenta às transformações do presente. Estamos vivendo debates intensos sobre sustentabilidade, cultura alimentar, sistemas produtivos e justiça social. Estar próxima da geração de estudantes me permite dialogar com essas mudanças de forma muito viva. Tento transformar essa condição em uma ponte entre tradição e inovação, entre o conhecimento consolidado e as inquietações do nosso tempo.

As palavras da iraniana Leili Babashahi são um soco no estômago. Aluna do mestrado na Coppe/UFRJ, ela mora no Brasil há três anos, e traduz em descrições secas o cotidiano de perseguição enfrentado pelas mulheres no Irã. Inclusive as pesquisadoras.

“No Irã, as universidades são centros de vigilância. A segurança do campus funciona como uma espécie de “polícia moral” do governo islâmico. Eles monitoram suas opiniões políticas, sua expressão religiosa e até mesmo suas amizades, conta. “Em 2012, a República Islâmica proibiu oficialmente as mulheres de ingressar em 77 diferentes áreas de estudo, incluindo Engenharia e Física Nuclear, alegando que seriam “inadequadas” para mulheres. Mesmo quando temos excelentes resultados nos exames, cotas frequentemente limitam nossa admissão em favor dos homens”.

Leili tem saudades da família, sonha em trazer a irmã mais nova para cá, e acompanha com aflição o noticiário sobre a guerra. “O regime islâmico frequentemente impõe apagões de internet, às vezes por semanas, para controlar o fluxo de informações. Isso torna extremamente difícil e angustiante saber se minha família está segura em momentos de instabilidade”, lamenta.

Há quanto tempo você está no Brasil e o que a trouxe para cá?
Estou no Brasil desde fevereiro de 2023. Minha irmã mora aqui há mais de 12 anos, e decidi vir para perto dela para continuar meus estudos e buscar uma vida com dignidade. O que me trouxe ao Rio foi o agravamento da situação no Irã — social, econômica e em relação aos direitos civis, especialmente para as mulheres. Os protestos após a morte de Mahsa Amini, em setembro de 2022, desencadearam o movimento “Mulher, Vida, Liberdade”, um ponto de virada. O governo islâmico respondeu com uma repressão brutal. As restrições aos direitos das mulheres — desde vestimentas e liberdade de expressão até casamento, divórcio, herança e até mesmo a possibilidade de viajar — tornaram a vida cada vez mais insuportável.

Por que você escolheu a UFRJ?
Minha formação é em Tecnologia da Informação (TI), e eu queria continuar meus estudos em dados e engenharia do conhecimento. Eu tinha amigos na UFRJ que me ajudaram a conhecer as oportunidades aqui, e tive a sorte de conseguir uma vaga na universidade. A UFRJ é uma universidade reconhecida mundialmente e oferecia a liberdade acadêmica e o ambiente de pesquisa que eu procurava.

Em que curso você está matriculada atualmente?
Sou estudante de pós-graduação no Programa de Engenharia de Sistemas e Computação (PESC), com foco na área de Engenharia de Dados e do Conhecimento.

Você se sentiu acolhida na UFRJ?
Sim, me senti muito acolhida. No início, foi difícil me adaptar a uma nova cultura, língua e sistema educacional, mas com o tempo as coisas melhoraram. Durante esse processo, estudantes e professores foram extremamente gentis e solidários. Na UFRJ, encontrei uma comunidade que valoriza a diversidade e incentiva os estudantes a crescer sem o medo ou a vigilância que eu vivenciei no passado.

Como era o Irã quando você saiu do país?
Quando saí, o Irã enfrentava um colapso econômico e uma sufocante rede de restrições legais. O sistema jurídico, aplicado pelo governo islâmico, favorece os homens em quase todos os aspectos da vida. Os homens têm o direito unilateral ao divórcio, enquanto as mulheres só podem solicitá-lo em condições extremamente limitadas. Uma das leis mais dolorosas é que as mães frequentemente perdem a guarda dos filhos depois que eles completam sete anos. Mulheres casadas precisam até mesmo da permissão do marido para obter passaporte ou viajar. A discriminação começa cedo: meninas menores de 18 anos precisam do consentimento de um tutor masculino para viajar, enquanto os meninos não. Legalmente, uma menina pode se casar aos 13 anos, ou até mais nova com autorização judicial. A herança de uma mulher e seu testemunho em tribunal valem legalmente apenas metade do que o de um homem. Para além dessas leis, o regime censura todos os aspectos da vida e utiliza uma estratégia de “mentiras oficiais” para negar repressões e assassinatos, frequentemente culpando “forasteiros” pela violência que ele próprio pratica.

Como era o ambiente universitário lá?
No Irã, as universidades são centros de vigilância. A segurança do campus funciona como uma espécie de “polícia moral” do governo islâmico. Eles monitoram opiniões políticas, expressões religiosas e até mesmo amizades. Estudantes correm o risco de sofrer punições severas, incluindo expulsão, por defenderem visões contrárias à interpretação do Islã feita pelo governo. Isso cria um estado de profunda ansiedade; você nunca é realmente “apenas um estudante”, mas sim alguém constantemente vigiado.

Quais são as principais diferenças entre as universidades do Irã e as do Brasil?
As diferenças são enormes. No Brasil, vejo estudantes concentrados em suas pesquisas sem o medo de serem expulsos por suas crenças pessoais. No Brasil, a vida universitária é centrada no aprendizado e no crescimento pessoal. Os estudantes debatem abertamente política e religião — algo que no Irã poderia levar à prisão. As universidades brasileiras oferecem recursos para o bem-estar e a saúde mental dos estudantes, algo que muitas vezes não existe no Irã. Aqui, a roupa é uma escolha pessoal; no Irã, o uso obrigatório do hijab é uma exigência para poder estudar. No Brasil, universidade é um lugar para encontrar sua voz; no Irã, é um lugar onde você aprende a silenciá-la.

As diferenças atingem também a infraestrutura dos campi?
As diferenças atingem praticamente todos os aspectos da vida. O ambiente físico também é muito diferente. As universidades brasileiras são pensadas para o desenvolvimento integral do estudante, com centros esportivos integrados e amplos espaços verdes. No Irã, a infraestrutura é mais utilitária e restritiva; faltam espaços sociais inclusivos, e a atividade física costuma ocorrer em ambientes segregados e com horários rígidos. Nosso cotidiano é marcado pela separação: dormitórios e refeitórios são estritamente segregados e, nas salas de aula, muitas vezes somos obrigadas a sentar em áreas separadas. É um lembrete constante de que o seu gênero define seus limites.

A situação é particularmente diferente para as mulheres?
Sim, as mulheres enfrentam barreiras sistêmicas. Em 2012, o governo proibiu oficialmente as mulheres de ingressar em 77 diferentes áreas de estudo, incluindo Engenharia e Física Nuclear, alegando que seriam “inadequadas” para mulheres. Mesmo quando temos excelentes resultados nos exames, cotas frequentemente limitam nossa admissão em favor dos homens. Socialmente, a pressão é enorme. As estudantes devem usar o hijab de forma “perfeita”. Essas restrições também se cruzam com discriminações religiosas e étnicas: o governo impõe um rígido enquadramento no islamismo xiita. A liberdade religiosa é limitada. Por exemplo, a apostasia (abandonar o Islã) pode levar à pena de morte, e grupos minoritários, como os de cristãos e judeus, enfrentam discriminação constante. Mahsa Amini, por exemplo, era curda, e sua morte simbolizou a luta de ser ao mesmo tempo mulher e pertencente a uma minoria étnica sob esse regime.

Como é a vida hoje para as mulheres e pesquisadoras no Irã?
Desde os protestos de 2022, o ambiente ficou ainda mais militarizado. Para pesquisadoras, o desafio inclui um verdadeiro “teto legal”. Um marido ainda pode legalmente impedir sua esposa de trabalhar ou estudar se considerar que a carreira dela é “contrária aos interesses da família”. O governo islâmico continua a enganar a comunidade internacional sobre a dimensão da repressão, mas para quem está dentro do país a realidade é de repressão de alta tecnologia. O regime brutal utiliza tecnologias de vigilância para identificar mulheres que desafiam os códigos de vestimenta, e acadêmicos são impedidos de publicar pesquisas que reflitam as verdadeiras realidades sociais do país. Apesar disso, a coragem das mulheres no Irã permanece. Elas lutam por uma autonomia que muitas mulheres brasileiras — com razão — costumam considerar garantida.

Você voltou ao Irã desde que veio para o Brasil? Como mantém contato com sua família?
Não, eu não voltei. Mantenho contato com minha família por meio de aplicativos como WhatsApp e Google Meet. No entanto, a comunicação muitas vezes é difícil. O regime islâmico frequentemente impõe apagões de internet, às vezes por semanas, para controlar o fluxo de informações. Isso torna extremamente difícil e angustiante saber se minha família está segura em momentos de instabilidade.

Você espera voltar algum dia ou talvez trazer sua família para o Brasil?
Isso depende totalmente de como a situação no Irã evoluir. Meu sonho é poder visitar minha família e depois retornar para minha vida aqui no Brasil. Também gostaria muito de trazer minha família para cá, especialmente minha irmã mais nova, para que ela possa experimentar a liberdade e as oportunidades que o Brasil oferece. Mas, no final, essa decisão cabe a eles.

Como você tem acompanhado as notícias sobre a guerra?
Acompanho as notícias de perto por várias agências internacionais, como Fox News, Reuters e CNN, além de veículos em língua persa como Iran International. Plataformas de redes sociais — Instagram, Telegram e X (antigo Twitter) — também são essenciais para receber atualizações em tempo real diretamente de pessoas que estão no Irã, apesar da censura.

Como você avalia a intervenção norte-americana e israelense em seu país?
Nenhuma nação ou indivíduo quer ver seu país atacado ou sua infraestrutura destruída. A guerra nunca é algo que alguém deseje. No entanto, muitos iranianos sentem que, após décadas de manifestações pacíficas respondidas com massacres e silêncio, esse foi o único caminho que restou para enfraquecer o regime. Eu não vejo essa intervenção como um ataque ao povo iraniano, mas como uma ação contra um regime islâmico repressivo que está completamente separado de seus cidadãos. Durante décadas, estivemos presos sob um sistema de repressão, tortura e execuções. De acordo com relatórios oficiais, mais de 32 mil civis foram mortos, embora estimativas não oficiais sugiram que o número ultrapasse 50 mil. Essas vítimas incluem crianças e estudantes, e temo que esses números continuem a crescer enquanto o regime segue matando na escuridão de suas prisões — especialmente mulheres — e enquanto esconde essa realidade do mundo. Nesse contexto, ações direcionadas contra zonas militares e centros governamentais são vistas por muitos como uma forma de apoio para desmontar a máquina de repressão e permitir que o povo recupere seu país.

Você acredita que o assassinato do aiatolá Ali Khamenei e de seus aliados pode levar a uma mudança real no regime?
Sim, acredito que um evento assim poderia ser um catalisador de transformação. Por 47 anos, essa ditadura tem dependido de uma estrutura específica de liderança para negar liberdades básicas. A história mostra que, quando a liderança de um sistema autoritário é desestabilizada, surgem fissuras que podem abrir caminho para que a população pressione por mudanças profundas. O povo iraniano tem demonstrado uma resiliência incrível. Se o controle da liderança for quebrado, isso pode acelerar o processo de retomada do próprio destino pelo povo iraniano.

Você acha que existe um caminho realista para a democracia em seu país no curto prazo?
No curto prazo, o caminho é extremamente difícil. O regime brutal está profundamente enraizado e já demonstrou que usará violência extrema para se manter no poder. No entanto, a determinação do povo nunca foi tão forte. Embora uma transição completa para a democracia talvez não aconteça de um dia para o outro, as bases estão sendo construídas. As fissuras internas do regime e a coragem persistente dos cidadãos sugerem que a mudança é inevitável, mesmo que leve tempo.

Você acredita que suas filhas poderão um dia viver em um Irã mais justo e igualitário para as mulheres?
Tenho esperança de que um dia minhas filhas, e todas as mulheres no Irã, viverão em uma sociedade onde sejam tratadas como iguais. Atualmente, a realidade é de discriminação sistêmica e repressão severa. Mas a coragem demonstrada pelas mulheres iranianas, que lideraram os protestos recentes e se recusaram a ser silenciadas, é extraordinária. A resiliência delas é a razão pela qual acredito que um futuro de justiça e igualdade seja possível. Elas não estão mais aceitando a opressão nem o status de cidadãs de segunda classe.

Por fim, qual mensagem você gostaria de deixar para as estudantes e professoras da UFRJ neste mês da Mulher?
Peço às mulheres da UFRJ, estudantes e professoras que valorizem a justiça, a educação e os direitos humanos — que se solidarizem com as mulheres do Irã. As vozes de vocês amplificam as nossas e lembram ao mundo que a luta pela liberdade é universal. As mulheres iranianas estão lutando por seus direitos e por suas vidas, apesar dos imensos riscos. Quando mulheres apoiam umas às outras além das fronteiras, construímos a base de um futuro em que liberdade, igualdade e justiça não sejam apenas sonhos, mas uma realidade vivida por todas e todos.

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