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Aqui tem Professor. Esse é o lema da nova campanha de valorização das atividades docentes que a AdUFRJ vai lançar nos próximos dias. A ideia do projeto é mostrar as várias faces do trabalho de professoras e professores da UFRJ nos campi e nas unidades isoladas da universidade. Ao todo, 2.233 mulheres e 2.319 homens dão aulas, são gestores, pesquisam, produzem conhecimento, artes, cultura, ciência, formam, orientam e fazem história. Tudo com excelência, compromisso e dedicação, em um trabalho que atravessa gerações, há mais de um século. A campanha inclui peças voltadas para o público externo e interno, com windbanners, adesivos, reportagens, outdoors, cartazes, bolsas, cadernetas e muita disposição para mostrar e enaltecer o trabalho docente — veja algumas dessas peças. A UFRJ tem docentes que mudam o futuro.

O Senado aprovou o fim da lista tríplice para a escolha de reitores de universidades federais em 10 de março. A partir da sanção do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, as comunidades universitárias terão autonomia para escolher o dirigente máximo da instituição.
O peso da votação dos docentes (70% em relação aos demais segmentos) também foi extinto na lei. Pelo projeto, o peso do voto de professores, técnicos e estudantes será definido por um conselho em cada universidade.
O relator do PL 5.874/2025 no Senado, Randolfe Rodrigues (PT-AP), destacou o caráter democrático da matéria: “O projeto garante que a comunidade universitária eleja o seu reitor e garanta a sua posse”, disse.
A comunidade acadêmica comemorou. “É o fim de uma prática antidemocrática e o reconhecimento da autonomia universitária, um dos pilares da educação pública brasileira”, declarou nas redes sociais a pró-reitora de Extensão da UFRJ, professora Ivana Bentes.
José Geraldo Ticianeli, presidente da Andifes, afirmou que a aprovação do projeto é um marco para as universidades federais. “A Associação Nacional dos Dirigentes do Ensino Superior celebra este momento como uma conquista da democracia, do diálogo institucional e do reconhecimento da vontade das universidades”.
Presidenta da AdUFRJ, a professora Ligia Bahia destacou a importância da medida. “É o reconhecimento de um princípio constitucional. Consagra o princípio da autonomia universitária. É uma importante conquista pela qual temos lutado por décadas”, avaliou a dirigente. “Agora, as universidades finalmente terão o direito de decidir sobre sua reitoria. Não é uma notícia irrelevante. Ao contrário, é algo fundamental para as instituições de ensino superior brasileiras”.
Tão fundamental que o jornal O Globo publicou um editorial contra a decisão do Senado. O texto apresentava desinformações sobre as universidades. A AdUFRJ criticou o editorial, apontando equívocos (veja a íntegra acima).
A lista tríplice deixa brechas para a nomeação de reitores que não foram eleitos pela comunidade universitária. Foi o que aconteceu com a UFRJ, em 1998. O professor Henrique Vilhena perdeu a eleição, mas foi nomeado pelo então presidente Fernando Henrique Cardoso. Mais de 20 instituições federais sofreram intervenção em suas reitorias sob a gestão Bolsonaro.
O fim da lista tríplice é parte do projeto de reestruturação de cargos do Serviço Público Federal. O PL prevê a criação de mais de 24 mil novos cargos. Desses, 3.800 de professores do MS e 9.587 do EBTT.
Uma pesquisa inédita feita pelo Instituto de Macromoléculas Professora Eloisa Mano (IMA/UFRJ) mostra que o isopor proveniente de quentinhas e embalagens de alimentos é hoje o principal responsável pela contaminação por microplásticos da areia da orla costeira do Rio de Janeiro. Foi constatada a presença do material em 70% das amostras de areia coletadas na Praia Vermelha, na Urca, Zona Sul do Rio, local escolhido para a pesquisa.
“Quando se descarta na areia uma embalagem de quentinha, ela vai gerar o microplástico. Infelizmente verificamos um aumento enorme da quantidade de isopor, o poliestireno expandido (EPS). Ele só tem 2% de polímero, o resto é ar. Então se quebra facilmente, pode se fracionar em pequenas partículas que o vento leva, o mar leva, a chuva leva. E isso vai parar em algum lugar. Hoje ele é onipresente. E isso é assustador”, constata a diretora do IMA, professora Maria Inês Tavares.
TRABALHO PIONEIRO
O estudo foi iniciado em dezembro de 2022 como pesquisa de mestrado da hoje doutoranda Marina Sacramento, sob orientação de Maria Inês Tavares. “Foi até uma surpresa para mim constatar que foi a primeira pesquisa de campo em microplásticos do IMA e da UFRJ. A área escolhida foi a Praia Vermelha, um local pequeno e de grande movimento, inclusive um ponto turístico. E constatamos que 70% das amostras continham o poliestireno expandido (EPS), proveniente basicamente de marmitas e embalagens descartadas na areia. Identificamos outros tipos de polímeros, em menor quantidade, como polipropileno e polietileno”, relata Marina.
Em cinco seções da praia, um total de 32 microplásticos foram identificados, sendo o poliestireno o polímero predominante. Por meio da microscopia óptica, a pesquisa revelou que a forma mais comum de microplásticos era a espuma, com diâmetros médios das amostras variando de 2 a 4 milímetros.
Segundo a doutoranda, o estudo não se resumiu a validar um protocolo de coleta e extração. “Foi também realizado in loco um trabalho de flotação (separação de misturas), que geralmente é feito em laboratório. E esse trabalho de campo está sendo expandido agora em meu doutorado. Fizemos coletas mensais em 2025. E agora em 2026 vamos fazer uma a cada estação. Já concluímos a coleta de verão, e virão mais três. Isso vai nos permitir fazer um estudo comparativo dessa poluição proveniente do descarte inadequado de produtos plásticos. É um desafio ambiental”, diz Marina.
A professora Maria Inês Tavares ficou particularmente impressionada com os resultados da coleta de abril do ano passado. “Fizemos logo depois dos feriados de Tiradentes e São Jorge. Foi uma quantidade imensa de microplástico que colhemos. Mais de 400 em apenas um ponto de coleta! É apavorante”, comenta a diretora do IMA. Além da coleta, a pesquisa cumpre mais duas etapas: a higienização, feita em laboratóirio, e a caracterização dos itens coletados, para identificar os tipos de polímeros.
Marina Sacramento destaca que o trabalho de campo atrai muita curiosidade. “Quando fazemos a coleta, muita gente se aproxima, adultos e crianças. É nosso momento ouro, quando fazemos um trabalho de conscientização ambiental, explicando a importância do descarte adequado. Essa pesquisa tem a intenção de transformar dados científicos em um chamado de ação. O que descobrimos na Praia Vermelha acaba sendo um alerta. Esse microplástico encontrado ali não é fruto só de um descarte inadequado naquele local, ele vem também carreado de outros lugares, pelo ar, pela água, pela maré. Isso nos leva a refletir sobre nossas escolhas diárias”, comenta a doutoranda.
PERIGO GLOBAL
Em agosto do ano passado, a Academia Brasileira de Ciências (ABC) publicou um relatório específico sobre microplásticos, dando a dimensão do perigo que essas substâncias representam para o planeta. O estudo “Microplásticos: um problema complexo e urgente” foi organizado por um grupo de dez especialistas, coordenados pela professora Maria Inês Tavares, e pelos professores Mário Barletta (UFPE) e Adalberto Luis Val, vice-presidente da ABC. Segundo o relatório, cerca de 400 milhões de toneladas de plástico são produzidas todos os anos, das quais apenas 10% são recicladas.
O acúmulo de microplásticos nos seres vivos foi um dos focos do relatório. Eles já foram detectados em peixes, em diversos produtos de origem bovina e suína, em aves, anfíbios e até no mel das abelhas. Estão também em vegetais e cereais como a alface, o arroz, o milho e a soja. Há ainda evidências da presença de microplásticos em seres humanos — já foram detectados no intestino, nos pulmões, no coração, em fezes, na urina e até no leite materno. “Os microplásticos estão ultrapassando duas barreiras fundamentais do nosso corpo, a placentária e a cerebral. Já observamos microplásticos em fetos, inclusive no cérebro”, alertou no estudo o professor Adalberto Luis Val.
Para a professora Maria Inês Tavares, a legislação brasileira sobre o tratamento de resíduos sólidos é muito boa, só que precisa ser cumprida. “Ela é formidável, talvez nem precise de reparos, mas não é respeitada. Nós também queremos ajudar nisso, a implementar políticas públicas”, defende ela.
Outro ponto crucial é a educação ambiental, que deve ser estimulada desde a educação básica. Esse é um trabalho que a diretora do IMA faz espontaneamente desde 2009, em escolas municipais de todo o estado do Rio de Janeiro, em paralelo às suas atividades de professora, pesquisadora e gestora na UFRJ. “Esse trabalho me fascina, eu faço com o maior prazer, vou aonde me chamarem. As crianças entendem rápido e ensinam aos mais velhos. Elas trazem esperança”, diz a professora. Ela já visitou dezenas de estabelecimentos de ensino ao longo desses 17 anos de trabalho voluntário, levando professores e alunos do IMA às palestras.
FUTURO LABORATÓRIO SERÁ DEDICADO A MICROPLÁSTICOS
Já estão fincadas as seis bases de concreto do contêiner que vai abrigar o futuro Laboratório de Microplásticos do IMA. Da janela de sua sala, a professora Maria Inês Tavares mostra o local
onde será instalado o laboratório, em um terreno entre o prédio do IMA e CT da Ilha do Fundão. “Se tudo der certo, ele vai começar a funcionar este ano. Será um laboratório experimental, com equipamentos de pequeno porte, e um setor voltado à reciclagem de materiais”, adianta a diretora do IMA.
O laboratório ainda não abriu as portas, mas dois de seus futuros frequentadores já estão “na fila”. O professor Paulo Rangel e o aluno de iniciação científica Kauã Becker já trabalham com os materiais oriundos da pesquisa na Praia Vermelha, transformando diversos tipos de isopor em placas que se assemelham a cerâmicas. Kauã conta que os artefatos são produzidos em uma prensa com os resíduos de isopor, ganhando tonalidades variadas de cor: “Temos mais resíduos de isopor branco e preto, mas a mistura produz cores diferentes”
RECICLAGEM
Responsável pelo Laboratório de Aplicações em Nanotecnologia e Polímeros do IMA, o professor Paulo Rangel diz que as placas podem ser utilizadas como azulejos, pastilhas de revestimento de paredes ou pisos, ou mesmo como objetos de decoração. “Esse novo laboratório vai ampliar esse trabalho, que fazemos no intuito de mostrar que esse material pode ser reaproveitado”, explica Rangel.
No próximo dia 26 de março, às 18h, será lançada a Rede Universitária Segurança Pública para Todos RJ (Artigo 5º), iniciativa que reúne instituições científicas em torno da construção de argumentos que norteiem a política de segurança pública do estado.
O objetivo da rede é a garantia de direitos humanos e a redução da violência no Rio de Janeiro, notadamente, a violência de Estado. O evento ocorre na sede do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF), ao lado do campus Praia Vermelha da UFRJ.
Estão confirmadas as presenças do diretor do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF), Marcio Portes de Albuquerque; o presidente da Fundação Oswaldo Cruz, Mário Moreira; e dos reitores Antonio Cláudio Lucas da Nóbrega (UFF), Gulnar Azevedo e Silva (Uerj), Roberto Medronho (UFRJ) e José da Costa Filho (Unirio), além de dirigentes de instituições científicas do RJ.
A iniciativa surgiu a partir de uma parceria entre a AdUFRJ, a SBPC, o CBPF e a Fiocruz. De caráter multidisciplinar, a Rede é formada por pesquisadores da UFRJ, PUC-Rio, Uerj, Fiocruz e UFF. A coordenação do evento será do professor Marcelo Burgos, e a apresentação ficará a cargo da professora Lígia Bahia, presidenta da AdUFRJ e uma das fundadoras da Rede.
Para Ligia, cabe também à academia pensar os problemas contemporâneos. “Para nós, a perspectiva de contribuir para uma abordagem racional sobre segurança pública é vital. Vivemos e trabalhamos no Rio”, afirma a pesquisadora, que é referência nacional em saúde coletiva.
Ela aponta as contradições da política pública de segurança que não resolve o tema da violência. Ao contrário, faz novas vítimas a cada dia. “A fórmula matar e deixar morrer fracassou sucessivamente, mas segue orientando as políticas públicas”, diz. “A pesquisa tem o que dizer, há alternativas não letais de combate ao crime”, conclui a presidenta da AdUFRJ.
Para o diretor do CBPF, Marcio Portes de Albuquerque, a iniciativa é agregadora. “As instituições de pesquisa acreditam que o conhecimento produzido pela ciência é capaz de transformar realidades. Nesse esforço, nosso apoio reforça a importância de colocar a ciência a serviço da sociedade”, diz.
Ele concorda que as instituições de pesquisa são fundamentais para formular políticas. “Utilizar dados, informações e saberes construídos pela academia e por métodos científicos ao longo dos anos é um caminho sólido e viável para propor e desenvolver ações de segurança pública que permitam mudar a realidade que vivemos cotidianamente”, conclui.
Presidente da Fiocruz, o pesquisador Mario Moreira lembra que a segurança pública, assim como a saúde, é um desafio complexo "que exige compromisso com a vida, com os direitos e com políticas baseadas em evidências". "Temos urgência de uma abordagem orientada pela prevenção e pela proteção da vida. Diante desse cenário, a criação desta Rede reafirma o papel da ciência, da universidade pública e das instituições de pesquisa na defesa da paz.”
Uma pesquisa do Observatório Nacional da Violência contra Educadores mostra dados alarmantes da violência física e simbólica à qual professores, da educação básica ao ensino superior, estão submetidos em todo o país. Mais de três mil educadores responderam ao questionário aplicado eletronicamente em todas as regiões brasileiras. Cerca de 90% responderam já ter vivenciado ou conhecer quem vivenciou violência física ou censura em sala de aula. Quase 60% já foram vítimas diretas.
Os dados foram apresentados durante aula inaugural do Programa de Formação Profissional em Ensino de História da UFRJ (ProfHistória). O evento aconteceu no Salão Nobre do IFCS/IH. O professor Fernando Penna, diretor da Faculdade de Educação da UFF, coordena o observatório responsável pelo estudo. “Perseguir e expor educadores se tornou uma forma de ganhar capital financeiro e político no Brasil”, afirmou ele, ao lembrar que gravações de professores vão parar nas redes sociais como conteúdos monetizados. “Além disso, tivemos parlamentares que foram eleitos por expor educadores”.
A amostra analisada indicou que 61% professores do Ensino Básico foram vítimas de violência, enquanto no Ensino Superior, o percentual é de 55%. Na rede EBTT, 62% responderam ter sido vítimas diretas de ameaças e censuras. “Fica claro que este é um fenômeno que está espalhado pelas nossas instituições de ensino”, observou Fernando Penna. “A violência está atravessando o trabalho do docente. O saber profissional do professor se tornou menos importante do que evitar os temas polêmicos em sala de aula”.
A Região Sul lidera os casos de ataques a docentes, com 64% dos professores vítimas diretas de violência. A Região Sudeste figura em segundo lugar, com 62%. O Centro-Oeste aparece em terceiro lugar, com 57%. O Nordeste aparece com 53% dos docentes vítimas de violência e, na Região Norte, 52% responderam ter passado por violência na docência.
Censura e perseguição ideológica são as violências mais comuns vivenciadas pelos educadores, de acordo com os resultados da pesquisa. Os números mostram que 73% dos entrevistados responderam que foram agredidos por questões políticas, enquanto 53% disseram que foi por questões de gênero e sexualidade.
CENSURA AUMENTA EM ANOS ELEITORAIS
Outro achado da pesquisa diz respeito ao momento em que essas violências são mais praticadas. Os picos coincidem com anos eleitorais (veja gráfico na página 9). “Elas crescem a partir de 2010, pioram em anos eleitorais, se tornam recorrentes e permanecem altas. Estamos em ano eleitoral. A probabilidade de termos um novo pico de violências é bem alta”, afirmou Fernando Penna.
Para o docente, garantir a segurança de educadores nas escolas e universidades é um compromisso que precisa ser assumido por toda a sociedade. “O desafio coletivo e político de todos nós é garantir a segurança para que os professores sigam trabalhando conforme sua formação, sem medo de abordar os temas que fizeram parte de sua formação”, defende ele.
A pesquisa apresentada pelo professor da UFF tem o objetivo de subsidiar os agentes políticos. “O Observatório atua no sentido de realizar recomendações para elaboração de políticas públicas voltadas a reduzir a violência contra os professores”, explicou. “Fazem parte de seu conselho consultivo sindicatos e federações nacionais, entidades científicas e associações”, concluiu o docente. O relatório completo com os dados da pesquisa pode ser acessado aqui.
VIOLÊNCIA E EXTREMA DIREITA
De acordo com Ynaê Lopes, professora de História da UFF, muito da violência observada na pesquisa e no dia a dia de professores de todo o país tem relação direta com o recrudescimento da extrema direita brasileira. “Parte dessa violência é também uma resposta à diversidade que vem ganhando espaço nas instituições de ensino”, afirmou.
Em sua análise, a violência tem um contexto conjuntural. “Houve 253% de aumento da violência contra professores no Brasil. Isto é projeto político e está embebido no crescimento da extrema direita”.
A docente fez um apanhado histórico desde o século XIX e concluiu que a educação foi instrumentalizada como elemento de manutenção do racismo e da desigualdade social no Brasil. “Em 1854, um artigo proibia o acesso de meninos com doenças contagiosas e escravizados à escola. Havia, ainda, um controle pesado sobre quem eram as pessoas aptas e não aptas a ensinar no país”, disse. “Aproximadamente 75% da população era analfabeta naquele momento. A educação era controlada pela Igreja Católica e era para poucos”, lembrou a pesquisadora.
Ynaê Lopes destacou também a Lei Saraiva, de 1881, que determinava que o voto fosse realizado apenas por pessoas alfabetizadas. “O acesso à escola vai definir quem pode votar no Brasil”, observou.
Com a abolição da escravatura, em 1888, a população negra fica livre no papel, mas segue sem liberdades individuais garantidas. “Não há nenhuma política pública a partir de 14 de maio de 1988, um dia após a assinatura da Lei Áurea, portanto, que garanta o acesso da população negra à educação”.
Já na Era Vargas, a professora Ynaê destaca que o Brasil passa a absorver variados segmentos da população, mas de forma desigual. “Aqui, de novo, a educação será um pilar fundamental. É ela que vai atualizar a ideia falaciosa de harmonia racial no Brasil”, disse. “A escola foi construída para manter as desigualdades. A eugenia passa a ser o princípio norteador da educação e da saúde no Brasil”.
Antes de 2010, a professora explicou que o período mais agudo de violência contra professores foi a ditadura militar. Desde a redemocratização, a educação vem se transformando. “A educação passa a ser instrumento do compromisso pela liberdade, igualdade e democracia”, disse. “Esses avanços geram reações. Os ideais básicos de civilidade estão sendo questionados. Não por acaso, as tensões vão estourar nas escolas”.
Diretor de Relações Étnico-raciais e Pautas Racistas da Associação Nacional de História e coordenador do ProfHistória, o professor Amilcar Pereira mediou o encontro e revelou que os casos que chegam à associação são muito preocupantes. “São muitos os casos de ataques, sobretudo a professores de História quando tratam a temática de História e Cultura Afroindígenas”, contou.
O docente pediu vigilância dos movimentos ligados à educação. “Há um projeto de lei em tramitação que pretende acabar com a obrigatoriedade do ensino de história afroindígena. Precisamos barrar esse processo”, disse.
Ele se referiu ao Projeto de Lei 1007/2025, da deputada federal Clarissa Tércio (PP-PE), que tramita na Câmara e propõe tornar opcional o ensino de história e cultura afro-brasileira e indígena, com a alteração da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB). As leis que instituíram os conteúdos obrigatórios são de 2003 e 2008.
Depoimento | Valéria Borges
Professora perseguida pelo ‘Escola Sem Partido’
“Eu tinha um aluno gay. A escola, em 2017, era um antro bolsonarista. Na época, eles ainda eram chamados de ‘coxinhas’, pois não existia a noção estabelecida do bolsonarismo. Esse aluno, além de gay, era drag queen e estava se sentindo acuado por conta do clima do Brasil e da escola. Certo dia, eu estava dando aula sobre fascismo, falando sobre as características, e ele levantou a mão para falar que tudo aquilo que eu descrevia era muito parecido com o Bolsonaro.
Naquele momento, eu minimizei a figura do Bolsonaro e disse a ele que o maior problema eram as pessoas que o seguiam: misóginas, machistas, racistas, homofóbicas. No final daquela aula, soube que um aluno me gravou.
O áudio foi parar na internet. As milícias digitais compartilhavam dizendo que eu havia atacado um aluno. A versão era que o que eu falei era para agredir a um aluno, tiraram de contexto. Carlos Jordy era vereador nessa época e encabeçava, junto com Flávio Bolsonaro, uma forte campanha nos municípios pela aprovação do Escola Sem Partido. Ele queria palco para sua audiência pública sobre o tema. O palco foi essa gravação não autorizada e Jordy passou de vereador a deputado federal com esta plataforma.
A minha vida profissional foi revirada, a minha família ficou com medo. Passei a ser conhecida na cidade de Niterói. As pessoas me paravam na rua para me falar que viram ameaças, ou que eu deveria sair da escola, ou que deveria ser demitida.
Fui chamada ao Conselho Tutelar, sofri processos, sofri perseguição de grupos políticos. Havia ameaças à minha vida. Todas as informações sobre mim estavam na internet.
Venci todos os processos. Tive muito apoio de colegas, partidos políticos. Aquele momento passou, mas deixou marcas. Adoeci, precisei de acompanhamento psiquiátrico, tive síndrome do pânico laudada, depressão, passei a fazer uso de remédios controlados e me tornei insulinodependente.
De lá para cá, aquele bolsonarismo explícito de gritar ‘mito’ nos corredores não existe mais, mas há consequências graves. Muitos colegas hoje estão apanhando. Estão acontecendo coisas horríveis nas escolas. A maioria das atitudes agressivas parte de meninos embebidos pela machosfera, que torna meninas e professoras as maiores vítimas. Esse movimento começou lá com o bolsonarismo e se fortaleceu. Quanto a mim, não tenho mais medo de falar, mas sei que muitos colegas evitam certos temas. Os professores até hoje estão autocontidos.”