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Alexandre Medeiros e Ana Beatriz Magno‘Não há força maior no mundo do que a esperança de um povo que sabe que vai voltar a ser feliz”. Foi com essa frase que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva abriu a semana final de campanha, em seu discurso na live “Brasil da Esperança! Lula Presidente 13!”, na segunda-feira (26). No patamar dos 50% dos votos válidos nas duas principais pesquisas divulgadas esta semana — a do Ipec e a do Datafolha —, Lula lembrou que “falta só um tiquinho” para que vença no primeiro turno: “O tempo do ódio, o tempo da guerra, o tempo da desunião e da discórdia está chegando ao fim. Eu nunca tive tanta fé e tanta esperança como tenho hoje”.
É isso. Chegou a hora. A esperança de que a eleição presidencial seja decidida já no domingo foi alimentada pelas pesquisas do Ipec e do Datafolha. Na segunda-feira (26), o Ipec mostrou que Lula tem 52% dos votos válidos e Bolsonaro, 34% — os mesmos percentuais da rodada anterior. Ao analisar a pesquisa do Ipec, o sociólogo e cientista político Paulo Baía, professor do IFCS/UFRJ, enxerga duas ondas em formação nos últimos dias de campanha. “São ondas diferentes, mas são sinérgicas a favor de Lula. Há uma onda de contágio pró-Lula. E existe uma onda anti-Bolsonaro que impede o candidato do PL de crescer. Ele está rigorosamente estabilizado há mais de 20 dias”, avalia o professor.
Paulo Baía acha real a possibilidade de Lula vencer em primeiro turno, sobretudo se crescer a adesão ao voto útil ou necessário. “O levantamento do Ipec mostra uma indefinição em relação a Ciro Gomes (PDT), que teve uma pequena queda, e há uma tendência de desidratação de sua campanha. Pode ser que Ciro mantenha seu percentual de votos entre 6% e 8%, mas podemos ter uma surpresa, com ele despencando para o quarto lugar, com menos de 4%. Simone Tebet (MDB) se mostra mais estável e conquista entre 3% e 5% dos votos. Ambos estão sendo pressionados pelo voto necessário ou pelo voto útil dentro de seus próprios partidos”, diz Baía.
A onda antiBolsonaro identificada pelo professor Paulo Baía teve algumas adesões expressivas durante a semana. Na terça-feira (27), o ex-presidente do STF, Joaquim Barbosa — que foi relator no tribunal do processo do mensalão, no qual votou pela condenação de dirigentes do PT — divulgou um vídeo com duras críticas ao candidato do PL. “Bolsonaro não é um homem sério. Não serve para governar um país como o nosso. Não está a altura. Não tem dignidade para ocupar um cargo dessa relevância. Nas grandes democracias, Bolsonaro é visto como um ser humano abjeto, desprezível”, diz Barbosa. O ex-ministro encerra assim o vídeo: “É preciso votar já em Lula no primeiro turno para encerrar essa eleição no próximo domingo”.
A onda anti-Bolsonaro também atingiu outro ex-presidente da Corte, o ex-decano Celso de Mello, que divulgou carta em que qualifica o presidente como “um político menor, sem estatura presidencial, de elevado coeficiente de mediocridade”. “Em defesa da sacralidade da Constituição e das liberdades fundamentais, em prol da dignidade da função política e do decoro no exercício do mandato presidencial e em respeito à inviolabilidade do regime democrático, tenho uma certeza absoluta: não votarei em Jair Bolsonaro! É por tais razões que o meu voto será dado em favor de Lula no primeiro turno”, diz a carta. Tucanos históricos, como o economista André Lara Resende, também declararam voto em Lula esta semana.
Divulgada na quinta-feira (29), pouco antes do debate entre os presidenciáveis na TV Globo (veja matéria sobre o debate na página 5), a pesquisa do Datafolha mostra Lula com 50% dos votos válidos e Bolsonaro, com 36%. A pesquisa revela uma leve queda de Ciro Gomes, de 7% para 6%, também detectada pelo Ipec. Para o professor Paulo Baía, a vitória de Lula em primeiro turno pode ser decidida em detalhes. “Vamos ver o comportamento dos eleitores de Ciro e Simone. Se houver uma movimentação do chamado voto necessário, ou útil, essa movimentação pode favorecer tanto Lula quanto Bolsonaro. Os dois estão trabalhando a tese do voto útil”.
A estabilidade nas intenções de votos de Lula e Bolsonaro nas pesquisas pode ser mais um fator a favor do candidato do PT nas suas pretensões de liquidar a fatura no próximo domingo. Em debate no programa Prós e Contras, da Jovem Pan News, de quinta-feira (29), a cientista política Mayra Goulart, vice-presidente da AdUFRJ, observou que essa estabilidade vem se mantendo. “Pesquisa é uma fotografia do momento, e as preferências estão estáveis ao longo do tempo, com poucas oscilações”, atesta Mayra, para quem a vitória de Lula em primeiro turno é uma possibilidade real.
Possibilidade feita de esperança. A poucas horas do voto na urna, vale lembrar outra frase de Lula na live do início da semana: “Nós vamos juntos reescrever a história”.
PEDRO
LIMA
Professor de Ciência Política da UFRJ
“Fazer política é disputar hegemonia. Me parece que hoje a esquerda tem a hegemonia na chapa Lula e Alckmin. Alckmin saiu do PSDB, foi para o PSB, colocou boné do MST, cantou a Internacional, se aliou a Lula. Claro, que pode ser farsa e teatro, e que só saberemos se essa aliança empurrará o PT para a direita no decorrer do governo, mas até agora, me parece que a esquerda hegemoniza. Isso é muito importante num cenário eleitoral disputado como esse. É mais um indicador da importância de liquidar a eleição no primeiro turno porque fortalece a esquerda e reduz a margem de negociação.
Isso não significa que ter um segundo turno seja uma derrota. Claro que não é. Pode até ter um gostinho de derrota, mas não é uma derrota de jeito nenhum. Temos que colocar as coisas em perspectiva. Estamos lidando com um presidente fascista, bandido, criminoso. Lula foi preso, viu um golpe se realizar para evitar sua eleição. Neste contexto, somar 48%, 49% ou 51% dos votos não faz diferença. É uma supervitória.
A última pesquisa do Datafolha, divulgada na quinta-feira, não permite que a gente crave o resultado. Lula está em algum lugar entre 48 e 52%. O viés de alta da semana anterior parece, segundo a pesquisa, ter se estabilizado. É um cenário delicado porque Lula está muito perto de vencer no primeiro turno e qualquer mudança de voto é significativa. De quinta a domingo, a decisão girará em torno do que irá acontecer com os 2% de indecisos e com os votos de Ciro. Se parte de votos de Ciro e dos indecisos migrar para Simone Tebet, fortalece ainda mais a senadora na política nacional, e não favorece Lula. Já se parte desses votos forem para Lula, liquidaremos a fatura no primeiro turno, o que seria fantástico, porque derrotaríamos com força uma aberração política e fortaleceríamos a democracia”.
O professor Pedro Lima, da Ciência Política, monitora com rigor as pesquisas eleitorais e avalia que as perspectivas de vitória de Lula no primeiro turno são grandes. “Mas não posso ser um torcedor. O cenário ainda não está definido. Falta pouco, mas não está definido”, resume. “Temos que ficar atentos com o que vai acontecer com duas faixas de renda: a dos muito pobres com até dois salários mínimos, e os que ganham entre dois e cinco. Esse setor, de dois a cinco, é um perigo. Bolsonaro cresceu alguns pontos aí nos últimos dias”, alerta.
Jornal da AdUFRJ - Qual a novidade dessa semana nas pesquisas?
Pedro Lima – Acho que a novidade é a estabilidade do cenário. Lula cresceu essa semana e voltou ao patamar de um mês atrás. Tinha 47%, caiu para 44%, depois subiu para 45% e agora voltou aos mesmos 47%. Mesma coisa em sentido inverso ocorreu com Bolsonaro. É um cenário estável, em que as oscilações ocorrem dentro da margem de erro.
O Datafolha aponta um aumento de 2 pontos de Lula. De onde vieram esses pontos?
São poucos pontos, e por isso não há como precisar o movimento de migração de votos. É provável que tenha vindo de várias fontes, uma parte do Ciro, outra dos indecisos e até de Bolsonaro e dos candidatos nanicos. Os nanicos aparecem nas pesquisas como sem pontuação, mas eles têm eleitores.
Nessa reta final, qual deve ser a estratégia de vira voto?
Primeiro temos que entender que o voto vira para os dois lados nesse momento. É natural que os eleitores migrem para os melhores colocados nesse momento. Isso vale, portanto, para Bolsonaro e Lula. Outro ponto que devemos tratar com muito cuidado é a performance dos candidatos em cada faixa. Isso é decisivo nessa reta final. As pessoas falam muito dos resultados gerais e esquecem os segmentados. A estratégia tem que focar nos segmentos de renda.
O que está ocorrendo de relevante nos votos por segmentos de renda?
Ocorreu algo muito importante e que a campanha de Lula deve tomar cuidado. É o crescimento de alguns pontos de Bolsonaro entre os eleitores da faixa de 2 a 5 salários mínimos. E prestar atenção à faixa entre os muito pobres, com até dois salários mínimos. Se somarmos esses dois grupos temos a grande maioria do eleitorado. Por outro lado, no setor de mais de dez salários, o movimento de vira voto já está acontecendo e é meio natural que seja assim. Não é necessário se preocupar muito.
Bolsonaro passou a semana dizendo que vai ganhar no primeiro turno. É cena ou é sinal de trama?
Acho que são as duas coisas. E as duas coisas preocupam e se alimentam. Ele faz essa cena mentirosa para alimentar sua base. Só que ele é bizarro e a base dele também é bizarra. Não vejo uma grande disposição institucional das Forças Armadas de entrar numa aventura golpista, mas a base eu não sei.
A campanha de Lula parece pouco presente nas ruas aqui do Rio. Quase não vemos carros com adesivos e bandeiras nas janelas. Por quê?
As pessoas estão com medo de ataques. Os bolsonaristas são violentos, atuam com ódio e não suportam a divergência.
Os professores e técnicos-administrativos da UFRJ acabam de ganhar mais opções de planos de saúde, com valores em geral mais baixos que os praticados no mercado, além de outras vantagens. A universidade anunciou esta semana a adesão a um contrato celebrado entre o MEC e a administradora de benefícios Qualicorp. A negociação contou com decisiva participação da diretoria da AdUFRJ que, desde dezembro de 2021, insiste com a reitoria sobre a importância da oferta de um plano de saúde para professores, dentro de condições financeiras favoráveis e de qualidade de serviço.
Os professores e técnicos-administrativos da UFRJ acabam de ganhar mais opções de planos de saúde, com valores em geral mais baixos que os praticados no mercado, além de outras vantagens. A universidade anunciou esta semana a adesão a um contrato celebrado entre o MEC e a administradora de benefícios Qualicorp. A negociação contou com decisiva participação da diretoria da AdUFRJ que, desde dezembro de 2021, insiste com a reitoria sobre a importância da oferta de um plano de saúde para professores, dentro de condições financeiras favoráveis e de qualidade de serviço.
“A AdUFRJ foi absolutamente fundamental. Quando herdamos essa discussão da gestão anterior do sindicato, nós tínhamos a informação que a reitoria não tinha se interessado por este projeto”, explica o presidente, professor João Torres. “Somos ardentes defensores do SUS, mas sem hipocrisia. É uma das questões mais prementes do conjunto dos professores. Muita gente se preocupa não só com o preço do plano de saúde na ativa, mas também na aposentadoria”.
Em março de 2021, por ofício, a então pró-reitora de Pessoal, Luzia Araújo, respondeu à Qualicorp que a UFRJ não tinha interesse em aderir ao acordo de parceria. Depois da negativa, a empresa entrou em contato com o setor de convênios da AdUFRJ e as conversas foram retomadas.
A Qualicorp procurou a AdUFRJ no final de agosto, ainda na gestão anterior. O setor jurídico fez uma avaliação preliminar da proposta em setembro. A diretoria atual tomou posse em outubro e, dois meses depois, iniciou as tratativas com a administração superior da universidade.
O sindicato oferece alguns convênios, mas a diretoria já queria apresentar opções mais baratas aos professores: “Sempre buscamos oferecer um plano mais vantajoso, com um desconto maior. O que a gente não vinha conseguindo. E pesquisamos bastante. As corretoras praticam valores muito próximos. Até que ficamos sabendo desse acordo feito através do MEC”, diz a professora Karine Verdoorn, 2ª secretária da AdUFRJ. “Mas somente as universidades podem fazer. Tivemos que buscar a reitoria para fazer a negociação e mostrar esta possibilidade. Não havia nenhum impedimento e convencemos a reitoria a dar andamento neste processo. O benefício é oferecido a todos os servidores, não só aos associados. O que achamos bom”, completa.
PREÇOS COMPETITIVOS
O contrato da Qualicorp oferece planos de saúde das operadoras Assim, SulAmérica, Amil e Bradesco, além de planos odontológicos SulAmérica e Dentaluni. Funcionária do setor de convênios da AdUFRJ, Meriane Paula comparou as principais tabelas da parceria do MEC com outras praticadas no mercado.
Na SulAmérica, no plano Especial 100 R1 (apartamento), que possui atendimento nas melhores redes de hospitais, há economia de mais de R$ 200 em relação aos atuais, para pessoas com mais de 49 anos. Os descontos ficam maiores para pessoas que já possuem um plano de saúde e estão sofrendo com novos reajustes. No Amil S450, com apartamento, o desconto é de quase mil reais para pessoas com mais de 59 anos e de R$ 500 para pessoas na faixa de 49 anos até 59 anos. Já os planos do Bradesco estão com valores bem elevados, superiores a algumas tabelas existentes. A AdUFRJ não trabalha com Assim, então não há um comparativo.
Em apresentação virtual realizada no dia 22, a consultora de relacionamento da Qualicorp com a Administração Pública, Rosana Ferreira, explicou que os valores mais competitivos têm relação com o alto número de segurados já sob abrangência do contrato com o MEC. “Só no Rio de Janeiro, são 3.817 vidas. Isso sem ter trazido a UFRJ”. Dentro do ministério, em todo o país, são aproximadamente 44 mil vidas. “Por ter uma carteira robusta, a gente tem um poder de negociação maior com as operadoras”, disse. “Cada uma das operadoras tem um mês de reajuste diferente. As tabelas da SulAmérica e da Assim acabaram de ter reajuste. Terão reajuste só daqui a um ano”, completou. À reportagem, Rosana não soube explicar a diferença encontrada no caso do Bradesco.
Universidades federais do Ceará, de Pernambuco, de São Paulo e de Santa Catarina, entre outras, já fazem parte do contrato celebrado via MEC. No Rio de Janeiro, instituições como UFF, UniRio, IFRJ, Instituto Federal Fluminense e Cefet também celebraram o acordo.
“As grandes vantagens oferecidas são: inclusão dos dependentes, pensionistas (os que já eram dependentes, antes do falecimento) e ausência da taxa de inclusão”, diz Meriane. A inclusão de dependentes é comum nos planos, mas estaria bastante ampliada neste contrato.
A representante da Qualicorp respondeu à reportagem da AdUFRJ que não haverá limite de idade para adesão aos planos. “Há muitos professores que pagam R$ 5 mil de plano, mas não conseguem migrar por causa da idade”, informa Meriane. “Para o professor que já possui plano e teve um alto reajuste, também é uma boa opção migrar para as novas tabelas, que possuem um valor mais baixo e ausência de carência, se for solicitada a portabilidade”.
SERVIÇO
Canais de atendimento
da Qualicorp
• Telefone: 0800 254 26 22
• WhatsApp: (11) 96058-0665
• Simulador:
www.aliancaadm.com.br
Taxas
Não há necessidade de pagamento de taxas, apenas da mensalidade do plano contratado
Quem pode aderir
Servidores ativos e inativos, de cargos de natureza especial ou de cargos comissionados e os pensionistas. No caso dos pensionistas, somente será assegurado o direito à inclusão no plano o beneficiário que já configure como dependente do servidor antes da data do falecimento.
Auxílio-saúde
Assim que fizer o plano, o professor precisa fazer o cadastro no Sigepe (Sistema de Gestão de Pessoas do governo federal) para garantir o recebimento do auxílio-saúde.
Pagamento
O desconto pode ser feito no contracheque, por débito em conta ou no boleto bancário
Tabelas, dependentes e carência:
Confira, AQUI, a apresentação da Qualicorp realizada no dia 22, com as tabelas e os detalhes sobre adesão de dependentes e carência
Eles não têm dúvidas sobre a importância de liquidar a eleição no primeiro turno para garantir a democracia no Brasil. “Essa não é um disputa normal entre candidatos que respeitam as regras democráticas. Bolsonaro é um candidato fascista que prefere dar um golpe a ganhar a eleição. Derrotá-lo no primeiro turno é reduzir ao máximo a ameaça golpista”, resume Pedro Lima, professor da Ciência Politica.
Mayra Goulart, também da Ciência Política e vice-presidente da AdUFRJ, defende que a missão dos próximos 15 dias é a conquista do voto útil em Lula. “Ganhar no primeiro turno é reduzir o risco de golpe”, diz. A seguir, os dois professores analisam as pesquisas e cena eleitoral do país.
ENTREVISTA I MAYRA GOULART
Professora da Ciência Política e vice-presidente da AdUFRJ
Jornal da AdUFRJ -O que os movimentos sociais e os eleitores de Lula devem fazer nos próximos 15 dias para ajudar a uma vitória no primeiro turno?
Mayra Goulart – É preciso deixar claro que há risco de contestação do resultado eleitoral e que isso torna importante o voto em primeiro turno. No primeiro turno, são eleitos os legisladores, que serão os principais obstáculos para essa contestação.
E como a comunidade universitária, hoje ainda muito desmobilizada, pode se engajar nesse processo e convencer colegas da própria universidade?
Acho que a estratégia é estimular o voto útil no candidato democrático com maior chance de vitória. E, claro, vale rememorar os feitos do Reuni. Foi a maior política para a educação superior de todos os tempos e foi feita durante os mandatos do PT.
Ipec e Datafolha coincidem na tendência de certa estabilidade com leve ascensão de Lula e leve queda de Bolsonaro. Isso significa que Bolsonaro chegou ao topo?
Bolsonaro ainda irá mobilizar o antipetismo através de fake news, o que pode, eventualmente, permitir elevações moleculares nas intenções de voto. O antipetismo é a bala de prata de Bolsonaro. Ele já tentou outros elementos, como por exemplo, a transferência de renda direta para as camadas populares, mas isso não surtiu o resultado esperado. O antipetismo é o que lhe resta, é sua bala de prata na reta final da campanha. Isso já começou. O último programa de televisão, por exemplo, já foi todo voltado para falar mal do Lula.
Isso já era esperado?
Sim, já era esperado. O que não era esperado é que as estratégias de elevação do auxílio Brasil e de outros programas de transferência de renda e de desoneração tributária surtissem tão pouco efeito.
Lula cresceu um pouquinho entre evangélicos. Ainda dá para crescer mais?
Sim, ainda dá para Lula crescer. Principalmente com essa movimentação de desembarque, ou de relativa neutralidade da Igreja Universal com relação às candidaturas de Lula e de Bolsonaro. Se eles se mantiverem assim, acho que dá para crescer. É preciso lembrar que há uma memória de bem estar econômico, e mesmo de protagonismo político que os evangélicos tiveram ao longo dos governos do PT.
Como deve ser essa abordagem com os evangélicos?
É preciso lembrar que Lula tem um perfil relativamente conservador. É um homem que sempre esteve casado, heterossexual, com uma imagem de protetor que flerta com o machismo. Lula está investindo muito nessa ideia de protetor/provedor, de alguém que vem trazer a concórdia, a harmonia. Essa ideia é importante para atingir, sobretudo, as mulheres evangélicas, mostrando que Lula vai recuperar a harmonia nas famílias, reduzindo a beligerância das disputas políticas.
Por que há mulheres e gays que votam em Bolsonaro?
Há o empoderamento que o discurso conservador fornece para determinadas pessoas dentro de suas realidades materiais. Para quem está lidando com a marginalização, com eventual risco de muita violência, o discurso conservador protege. Protege de violência sexual, protege de abuso de drogas. É um discurso que empodera a mulher diante da sua família, por exemplo. Então há uma racionalidade nesse discurso conservador, assim como no voto em Bolsonaro.
Então como chegar nesse eleitor?
O mais importante é a gente nunca desqualificar o eleitor. Ele é racional no seu voto, mesmo quando não concordamos com ele.
ENTREVISTA I PEDRO LIMA
Professor de Ciência Política da UFRJ
Jornal da Adufrj - Há uma resiliência do eleitor de Ciro Gomes. É possível que os ciristas desembarquem e ainda apoiem Lula no primeiro turno?
Pedro Lima - Acho difícil essa mudança nos setores de classe média, incluindo aí os servidores públicos e os professores. Quem a essa altura não está convencido do risco demorático em jogo tem, no mínimo, um antipetismo arraigado que dificilmente se dissolverá nessa reta final.
Por que os eleitores de Lula insistem tanto na importância da vitória do primeiro turno?
Veja, não é um capricho petista. Não estamos tratando de uma eleição normal, entre dois projetos políticos divergentes, como já ocorreu no passado diversas vezes entre o PT e o PSDB. Antes tratávamos, por exemplo, de dois projetos antagônicos de universidade, um mais elitista e outro inclusivo. Agora, temos um candidato que quer a destruição da universidade. Veja, Bolsonaro é o candidato que defende a tortura, que defende o golpe, que prefere ser presidente por meio de um golpe do que pela eleição. Defender a vitória no primeiro turno nesse contexto não é, portanto, algo que pretende engolir a minoria, mas sim um gesto que defende o futuro das oposições.
O Bolsonarismo sobreviverá à derrota de Lula?
Bolsonaro é bizarro e ainda me assusto com ele todos os dias. Mas precisamos lembrar como ele virou presidente, como chegamos até aqui. Chegamos com o golpe de 2016, executado com forte protagonismo do Legislativo, do Judiciário, do empresariado e da imprensa comercial. Esse consórco preferiu um defensor da tortura ao invés de um professor.
O 1º Encontro de Comunicadores e Comunicadoras com Lula reuniu na terça-feira (13) mais de 6.300 profissionais de todo o país, de forma virtual, para discutir estratégias de comunicação na reta final da campanha. Um dos destaques do encontro foi o alerta do deputado federal André Janones (Avante-MG), que abriu mão de sua candidatura à Presidência em favor de Lula, em relação ao que chamou de “ponto cego” nas redes sociais nos últimos dias de campanha.
“São os últimos três dias: quinta, sexta e sábado. Não tem mais televisão, não tem comunicação oficial, não adianta ingressar com ação na Justiça que não dá tempo de fazer nada. Esses três últimos dias são um ponto cego que você não consegue mensurar. Por isso há algumas viradas de última hora, como a que aconteceu em Minas Gerais em 2018 com o (Romeu) Zema, que ninguém entendia. Vem no momento desse ponto cego, os institutos de pesquisa não conseguem pegar esse movimento final de redes, que vem e varre, elege candidatos. Precisamos ficar atentos a isso”, alertou Janones.
Janones destacou três pontos que devem ser prioritários nas redes nos últimos dias de campanha. “Primeiro, cada rede social tem uma linguagem. Não adianta falar de preço do arroz no Twitter. O cara do Twitter não está preocupado com o preço do arroz. Temos que personalizar a comunicação. Segundo ponto: resposta rápida. Às vezes a gente quer uma resposta melhor, com mais conteúdo, mas não tem jeito, a gente está lutando contra o fascismo, não dá tempo de dialogar muito profundamente. Não podemos deixar boato viralizar sem resposta. Terceiro: sinto que o eleitor do Lula está oprimido, nas redes e nas ruas. A gente tem que fazer emergir nesse eleitorado que está oprimido o orgulho de ser Lula, colocar isso para fora, sem medo. O bolsonarismo é essa coisa ruim, que prega ódio e desamor. Vamos levar um tom sereno, de amor, de verdade”.