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Fotos: Alessandro CostaRenan FernandesA sala 1 da Estação NET de Botafogo ficou pequena para tanta gente. Mais de 250 pessoas assistiram à sessão que celebrou os 25 anos do filme “Notícias de uma guerra particular”, de João Moreira Salles e Kátia Lund, em evento organizado pela Universidade da Cidadania (UC), na terça-feira (dia 1º). O órgão é vinculado ao Fórum de Ciência e Cultura da UFRJ.
Era a estreia do “Cine Cidadania”. O público teve a oportunidade de ver — e, no caso de muitos, rever — o documentário que retrata o cotidiano dos traficantes e moradores da favela Santa Marta no fim dos anos 1990. Em seguida, houve um debate com o cineasta João Moreira Salles, o antropólogo e cientista político Luiz Eduardo Soares e Itamar Silva, líder comunitário local e um dos entrevistados do filme.
Salles revelou que não assistia ao filme há pelo menos 15 anos. O diretor e produtor de cinema falou sobre sua relação com o gênero documentário. “Me interesso muito pela natureza do documento. Os arquivos são vivos. Dizem algo no momento e outra coisa diferente, quando o tempo passa”.
Para o cineasta, o filme confirma a premissa. “‘Notícias’ nasceu como um documento contemporâneo do Rio de Janeiro da década de 1990, se tornou um documento histórico, voltou a ser atual e, agora, voltou a ser um documento sobre o passado”.
A relação entre o crime organizado e a política foi o ponto central da mudança. “No filme, o crime não se mistura ao Estado. Hoje, o crime tem seus candidatos, elege seus representantes para criar leis”, concluiu.
Já Luiz Eduardo Soares, coordenador da Cátedra Patrícia Acioli do Colégio Brasileiro de Altos Estudos da UFRJ, brincou ao contrapor a visão de Salles. “Vou discordar do João pela primeira vez na vida. O filme é de uma atualidade absurda. Está presente nele o cansaço com a repetição e o vazio provocados pela brutalidade e a falta de resultados da política de segurança pública”, argumentou.
REAÇÃO
A professora Cristina Motta, do Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho, saiu do cinema com uma mistura de sentimentos. “Senti uma angústia durante o filme. Era muito jovem naquela época e não tinha a dimensão de tudo isso que acontecia. Os relatos causam dor, mas a conscientização é muito importante e fico feliz de ter visto essa sala cheia”, completou. “Como professora, acredito que a gente pode transformar essa situação. Eventos como esse são fundamentais para levar o debate às novas gerações”.
Diretora da Universidade da Cidadania, a professora Eleonora Ziller comemorou o sucesso do Cine Cidadania. “A ideia é levar cinema, arte, cultura, política e reflexão para diversos territórios do Rio de Janeiro. É um papel fundamental na luta pela preservação da democracia, que se faz na garantia dos espaços públicos, na rua e no cotidiano das pessoas”, afirmou.
ENTREVISTA I JOÃO MOREIRA SALLES
“HÁ A DIMENSÃO DO AFETO, DA ESPERANÇA, DA COLETIVIDADE”
João Moreira Salles é jornalista, diretor, produtor e roteirista de cinema. Fundou com seu irmão e também cineasta Walter Salles a produtora VideoFilmes, inicialmente voltada para a realização de documentários e programas para a televisão.
Jornal da Adufrj - Você disse que não assistia ao filme há 15 ou 20 anos. Mudaria algo no filme hoje?
O “Notícias” deflagrou um processo que passou pelo “Ônibus 174”, “Cidade de Deus” e tantos outros. Acho que esse cinema é politicamente problemático porque transforma esses territórios em territórios unicamente de violência. Se eu fizesse o “Notícias” hoje, incluiria essa dimensão que já estava lá e ficou de fora. Há a dimensão do afeto, da esperança, da coletividade. O Morro Dona Marta não é só o lugar onde coisas ruins acontecem. Mas eu não faria um novo filme porque não sou eu que preciso fazer esse filme. Aliás, esses filmes já existem. Por exemplo, “Marte Um” é um filme excepcional que não poderia ser feito por mim porque tem essa perspectiva de entender essa sociabilidade desse lugar onde eu nunca vivi e não conheço. Isso está ligado às políticas sociais. Assim como temos hoje intelectuais no debate público que vieram da favela, temos criadores e cineastas que passaram pela universidade e agora estão fazendo seus filmes com uma perspectiva que não pode ser a minha.
Como foi a relação com o traficante Marcinho VP?
A Kátia Lund — codiretora do filme — produziu o clipe do Michael Jackson e por isso estabeleceu uma conexão com a comunidade e o Márcio. Ele estava foragido em Belo Horizonte, fui até lá pelo contato dela e ele me autorizou a filmar. Meses depois de terminar as filmagens do filme, eu estava trabalhando em um documentário sobre futebol. O Paulo César Caju estava me dando uma volta, dizia que ia aparecer e não aparecia. Eu estava em Copacabana esperando por ele quando recebi um telefonema do Márcio que me disse: “Vem aqui filmar porque vão me prender”. Pegamos o carro e fomos para lá na hora. Acho que ele me chamou por pensar que ter uma equipe de filmagem o protegeria.
ENTREVISTA I ITAMAR SILVA, LÍDER COMUNITÁRIO
“É PERCEPTÍVEL COMO OS JOVENS VÃO CRESCENDO”
Itamar Silva é líder comunitário no Morro Dona Marta e personagem em “Notícias de uma guerra particular”.
Qual a sensação que você teve ao assistir ao “Notícias” hoje?
Esse filme me tira dos meus poucos momentos de ilusão. Por vezes, acho que tudo está indo muito bem, que a gente avançou, que temos mais jovens na universidade, jovens qualificados, mas o filme mostra que a estrutura da sociedade e a polícia que opera esse braço do Estado que chega na favela não atende nossos anseios. Temos uma polícia que cada vez mais toma partido dependendo da ocasião e da territorialidade. E pior: existe uma tensão maior entre os grupos do tráfico de drogas que disputam o controle do território e que está muito mais violento. A consolidação da milícia na estrutura do Estado nos vinte anos anos corroi por dentro nossa democracia. Hoje, está muito clara a incapacidade da nossa sociedade de enfrentar essa situação. É nítida a incompetência em criar mecanismos de controle sobre essas forças que estão atuando no estado do Rio de Janeiro.
Como está a situação da juventude do Santa Marta em comparação à época do lançamento do filme?
As cotas foram um elemento efetivo de transformação em territórios de pobreza. No Santa Marta, muitos jovens estão concluindo o ensino médio e caminhando em direção à universidade. Tenho um trabalho no Grupo ECO, que atua na comunidade, e é perceptível como os jovens vão crescendo, ganhando perspectivas. Os sonhos se ampliam e a busca por efetivar os desejos e vontades se concretiza. É importante ressaltar isso para não falarmos apenas das dificuldades e deixar o desânimo nos abater.
Por meio da Secretaria Regional do Rio de Janeiro, o Andes realizará, nos próximos dias 31/10 e 1º/11, o Encontro Pós-15º Conad Extraordinário, cujo tema é “Ofensiva neoliberal à carreira docente, ao orçamento público e os horizontes de luta”. A diretoria da Regional RJ destaca que “carreira, orçamento público e financiamento das universidades” serão temas do evento, no Centro de Convenções da UENF, em Campos dos Goytacazes.
Fotos: Alessandro CostaRenan FernandesO brilho do olhar de jovens estudantes da Escola Municipal Olga Benário Prestes, de Macaé, iluminou o Salão Nobre do Fórum de Ciência e Cultura da UFRJ na manhã de sexta-feira (20). O evento de lançamento do livro “A evolução é fato”, publicado pela Academia Brasileira de Ciências, reuniu o trabalho de pesquisadores renomados de todo o Brasil com a curiosidade e a sede de saber dos alunos da educação básica.
O tema encantou desde principiantes até autoridades no assunto. A ministra da Saúde, Nísia Trindade, fez uma breve participação no evento e ressaltou a relação do Ministério com o conhecimento produzido nas universidades. “Há um tempo não pensávamos que precisaríamos escrever um livro sobre evolução. É muito importante e atual pensar a evolução na relação entre os seres vivos”, explicou.
O professor Sérgio Danilo Pena, da UFMG, é autor de três capítulos do livro. O geneticista destacou em sua apresentação um dado alarmante de uma pesquisa realizada em 2010 no Brasil. “59% dos entrevistados acreditavam na evolução guiada por Deus e apenas 8% na evolução sem intervenção divina. 25% eram criacionistas e a negavam”, apontou.
Os alunos de Macaé que vieram para o lançamento aprenderam os males do negacinismo. “Estou amando essa experiência. Meu caderno está todo riscado, estou anotando tudo”, disse eufórica a jovem Manuella Gomes, aluna do sétimo ano e uma das estudantes mais interessadas.
Manuella fez perguntas aos cientistas após as apresentações, tirou fotos e pediu autógrafos no livro que ganhou. O aquecimento global foi a principal preocupação de Manuella e foi o tema da pergunta que direcionou à professora Marina Bento Soares, do Museu Nacional. “O humano destroi muito o planeta. O desmatamento que acontece hoje, especialmente, agora na Amazônia e no Pantanal é preocupante. Será que o aquecimento global pode provocar destruição como já aconteceu no passado com os dinossauros?”.
Paleontóloga, a professora Marina Soares respondeu às dúvidas de Manuella e suas colegas. “A extinção dos dinossauros foi apenas um dos cinco grandes eventos que acabaram com ao menos 75% da vida na Terra”, afirmou. A docente alertou para uma questão preocupante no futuro. “As previsões de aquecimento global são alarmantes para uma sexta extinção em massa na Terra”.
VIAGEM
Os estudantes acordaram antes do nascer do sol para encarar as três horas de viagem entre Macaé e o Rio de Janeiro. A visita dos alunos da escola pública foi organizada pelo professor Rodrigo Nunes da Fonseca, diretor da AdUFRJ e autor de um dos capítulos do livro. “Essa é uma escola muito especial para nós do NUPEM. Já são dez anos de parceria. Por isso, fiz questão de organizar essa vinda dos alunos”.
A escola está localizada a poucos metros do Instituto de Biodiversidade e Sustentabilidade da UFRJ (NUPEM) no Norte Fluminense. A proximidade ajudou na parceria com o Instituto para o desenvolvimento de projetos de extensão universitária, cursos de capacitação e bolsas de estímulo à pesquisa para estudantes e professores. O acordo resultou ainda na construção de um laboratório de ciências com recursos da Faperj.
A professora Patrícia Coutinho exaltou os frutos da parceria entre a escola e o NUPEM. “As portas abertas da universidade possibilitam uma sensação de pertencimento para nossos alunos”, afirmou. “O NUPEM tornou-se uma segunda escola, onde fazer e viver a ciência é algo prazeroso e cheio de boas descobertas”, concluiu.
Para o professor Gedmar Carvalho, a aproximação entre a universidade e o ensino básico é importante para transformar o futuro dos estudantes. “Essa relação abre portas nas aspirações de crianças que estão na periferia de Macaé e, muitas vezes, não vislumbram a universidade como uma possibilidade”.
O LIVRO
O livro defende a evolução como o princípio fundamental da ciência moderna e reforça o combate ao negacionismo científico. Ao todo, 28 pesquisadores de diversas áreas da academia foram convidados para escrever os capítulos abordando aspectos de seus trabalhos que comprovam a evolução como um fato científico.
“Certa vez, ouvi um professor dizer que nada foi feito de novo depois de Darwin. O livro prova que ele está errado”, declarou o professor Carlos Frederico Martins Menck, do Instituto de Ciências Biomédicas da USP, responsável pela organização da publicação.
“O nome do livro seria ‘A evolução da vida na Terra’, mas terminou sendo ‘A evolução é fato’. Porque é um livro que tenta falar de forma simples para a população com base em fatos científicos, muitos deles produzidos no nosso país”, concluiu Menck.
Neto de Arthur Moreira Lima, o também pianista Chico Lira, representou o avô ao receber a homenagem - Fotos: Fernando SouzaO pianista Arthur Moreira Lima é oficialmente Doutor Honoris Causa da UFRJ. A cerimônia aconteceu no dia 24. O pianista de 84 anos participou do evento remotamente, bem como parte de sua Comissão de Honra. Seu neto, o também pianista Chico Lira, representou o avô ao receber a homenagem das mãos do reitor Roberto Medronho.
Coube ao professor Giulio Draghi, da Escola de Música, fazer um resumo da trajetória do homenageado, que ganhou o primeiro concurso de Jovens Solistas da Orquestra Sinfônica Brasileira com apenas 9 anos de idade. Além de destacar o brilhantismo de Moreira Lima, o docente falou de sua dimensão humanística, ao levar a arte erudita ao povo brasileiro. “Passou a dar concertos na Mangueira e na Rocinha, iniciativas que antecipariam o projeto Piano pela Estrada, que gerou mais de 500 concertos gratuitos”, contou. “Com o projeto, foram percorridos 128 mil quilômetros de estrada, o equivalente a três voltas à Terra. Um milhão de pessoas foram alcançadas pelo projeto. Arthur Moreira Lima devolveu ao povo brasileiro tudo o que abundantemente recebeu”, frisou.
O reitor da UFRJ, professor Roberto Medronho, se mostrou profundamente emocionado. “Ele não só brilhou nos grandes palcos do mundo inteiro, como levou a arte ao povo. Era um deleite ouvi-lo tocar”, destacou o reitor. “Eu, estudante do Pedro II, saía do meu colégio e ia assistir aos seus concertos gratuitos”, lembrou. “A universidade se sente honrada em conceder este título”.
A filha, Beatriz Moreira Lima, também esteve presente à cerimônia. “Mais recentemente tive a oportunidade de acompanhar o projeto Piano pelas Águas, a versão amazônica do Piano pela Estrada. Era muito emocionante ver a reação das pessoas que não conheciam um piano”, lembrou.
“Naturalmente, vovô Arthur é uma influência gigantesca para mim”, completou o neto Chico Lira. “É uma referência estética, afetiva”, avaliou. “Ele foi determinante para minha profissão”.