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Foto: Alessandro CostaDepois de quatro anos fechado para reformas, o Museu da Geodiversidade do Instituto de Geociências da UFRJ reabriu no último dia 3 de junho com um mergulho nas “Memórias da Terra”. A fascinante exposição retrata as diferentes eras do nosso planeta. Cada sala revela origens e estruturas minerais - como um supergeodo de ametista do Sul do Brasil - e conta a história da evolução dos primeiros seres vivos, até chegar aos humanos. Reconstruções de dinossauros e de grandes mamíferos, além de exposições de fósseis reais são algumas das novidades da coleção que promete encantar todas as idades.
O espaço passou por uma ampla revitalização, com obras estruturais como a reforma dos telhados e calhas, além impermeabilização de paredes, pintura, readequação das saídas de emergência e construção de nova sala de exposição, voltada a atividades educativas e oficinas. Os recursos foram disponibilizados por meio de emendas parlamentares do deputado federal Chico Alencar, que é professor licenciado da UFRJ.
Logo na entrada, o meteorito Campinorte saúda os visitantes. Incorporado ao acervo da UFRJ em agosto de 2021, o Campinorte é terceiro maior meteorito do Brasil. Pesa aproximadamente 1,5 tonelada e tem cerca de 4,5 bilhões de anos. Ele foi descoberto em uma fazenda no município de Campinorte, a 300 km de Goiânia. Estima-se que tenha caído no planeta há mais de mil anos.
“Essa exposição é uma tentativa de resgatar a história desse planeta, desde a sua formação, e de refletirmos sobre os futuros possíveis”,
Foto: Fernando Souza afirma a diretora do museu, Adriana Vicente (foto ao lado), que recebeu a reportagem da AdUFRJ para uma visita exclusiva. “É um acervo científico riquíssimo, organizado numa exposição cenográfica. Nosso principal público é formado por crianças, então é uma exposição que tem acessibilidade, ludicidade e interatividade”, conta diretora, que é produtora cultural da universidade.
A Sala dos Mares mostra formações rochosas e estruturas de ferro. Algumas, com idade estumada de 2,7 bilhões de anos. Um quartzito com marcas de ondas, que se formou há cerca de 1,5 bilhão de anos, é uma das peças mais encantadoras. “Essa sala nos mostra que o sertão já foi mar no nosso país”, ilustra a diretora.
Coordenadora do Fórum de Ciência e Cultura da UFRJ, instância à qual todos os museus da universidade são vinculados, a professora Christine Ruta comemorou a reabertura do espaço. “Os museus universitários têm uma importância ímpar no Brasil. Eles guardam parte fundamental da memória científica, cultural e educacional do país”, afirmou.
Foto: Alessandro CostaApesar da importância, ela destaca o reconhecimento e financiamento ainda aquém do necessário para a manutenção dos museus no país. “Infelizmente, ainda convivem com fomento insuficiente para que esses espaços, tão essenciais para a pesquisa, o ensino, a extensão e a formação cidadã, possam viver plenamente sua missão junto à sociedade”, disse. “Por isso, a reabertura do Museu da Geodiversidade é uma notícia tão importante. Revitalizar esse espaço significa reafirmar o compromisso da universidade pública com a preservação do patrimônio científico, com a democratização do conhecimento e com o diálogo entre ciência, educação e sociedade”.
SERVIÇO
O Museu da Geodiversidade funciona de segunda a sexta-feira, das 9h às 17h, e fica localizado no Centro de Ciências Matemáticas e da Natureza (CCMN). A entrada é gratuita. Grupos podem agendar visitas guiadas pelo e-mail Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.. As visitas de grupos contam com mediação de estudantes do Instituto de Geociências.
Foto: João LaetCantos de pássaros, cheiro de folhas e animais silvestres por todos os lados. Desde o último dia 19, basta atravessar um portão da Casa da Ciência da UFRJ, em Botafogo, para sair da selva de pedra carioca e passear por um pedacinho da Mata Atlântica. É a nova exposição “Floresta em Jogo - uma aventura pela biodiversidade”, que fica em cartaz na universidade até 20 de dezembro.
“A exposição é um jogo que estimula o aprendizado sobre o bioma da Mata Atlântica: sua fauna e sua flora. É uma experiência imersiva muito interessante que todos estão convidados a conhecer”, afirmou o diretor da Casa da Ciência, professor Ismar Carvalho, na inauguração.
“A gente percebeu que essa dinâmica de jogo atrai bastante o público e ajuda a entender o conteúdo apresentado”, reforça Lívia Mascarenhas, produtora cultural e uma das curadoras da mostra. “Tudo foi construído nessa ‘vibe’ de RPG (Role-playing Game)”, completa.
O ponto de partida da brincadeira é a “ibirá” (árvore, em tupi). Um visor no tronco cenográfico apresenta as instruções do que fazer dali em diante. Ao longo da mostra, eles passam por diversas estações, coletando informações que deverão ser transformadas em um código.
Na fase final, após um diálogo sobre a preservação da Mata Atlântica, o código encontrado será inserido em um teclado para “despertar” uma segunda árvore cenográfica – a embaúba, símbolo da recuperação ecológica. “A embaúba está dormindo e os visitantes-jogadores precisam acordá-la. Ela foi escolhida por servir a muitos animais e a outras plantas dentro do bioma”, diz Lívia.
Coordenadora do Fórum de Ciência e Cultura, a professora Christine Ruta destacou a importância da exposição. “É um dos biomas fundamentais para a gente conversar com a sociedade”, disse.
A AdUFRJ apoiou a realização da mostra. “Temos compromisso com a produção científica, com o ensino e também com a divulgação científica”, afirmou a presidenta do sindicato, professora Ligia Bahia. “Tive a oportunidade de visitar a exposição e fiquei absolutamente encantada. É um reino encantado. Acredito que será o maior sucesso”, completou.
PALESTRANTES Da esquerda para a direita: os docentes Cheilamar Prates, Máximo Masson, Alessandra Carvalho e Marina Campos - Foto: Fernando SouzaO que se espera da escolarização da população e da formação de professores no Brasil contemporâneo? O questionamento do professor Máximo Masson, titular da Cátedra Darcy Ribeiro do Colégio Brasileiro de Altos Estudos (CBAE) permeou o debate que celebrou os 78 anos do Colégio de Aplicação da UFRJ. O encontro festejou a trajetória da instituição, fundada em 20 de maio de 1948, e discutiu o papel da universidade pública na formulação de políticas para a educação básica e no combate às desigualdades no país. O evento também aprofundou o diagnóstico sobre a o CAp-UFRJ e seus desafios pedagógicos.
Um desses desafios – e também motivo de maior orgulho – é o trabalho em torno da inclusão de crianças e adolescentes com deficiência. Em um cenário nacional onde a inserção de estudantes PCD ainda enfrenta grandes gargalos estruturais, o CAp se destaca como uma escola de referência. “Temos 673 estudantes, dos quais 63 são oriundos da educação especial”, destacou a professora Marina Campos, vice-diretora do colégio.
O grupo engloba alunos com deficiências físicas, intelectuais e neurodivergências. Crianças com o Transtorno do Espectro Altista correspondem a 80% dos alunos da educação especial. “Inclusão, diversidade e excelência não são campos opostos. Seguimos com rigor acadêmico e mantemos nossa produção no topo”, destacou a professora. “A diversidade enriquece nossa produção coletiva. Deixamos de ser uma escola de elite para nos tornar uma escola que forma para cidadania, na democracia”.
A vice-diretora apresentou a escola como a unidade da UFRJ que mais possui projetos de extensão, o que expressa o vínculo profundo da comunidade escolar com a sociedade. São 65 projetos de extensão articulados com o ensino e a pesquisa. A formação do quadro de professores também foi destacada pela dirigente. “Dos nossos atuais 97 docentes efetivos, 50 são doutores, 40 são mestres e 3 são especialistas”.
A docente também falou sobre os desafios estruturais. “Atuar na educação contemporânea demanda muito preparo, pois precisamos garantir espaços que sejam verdadeiramente democráticos, equânimes. E isso passa por infraestrutura física, por financiamento. Há inúmeros desafios. Hoje não somos uma unidade gestora de recursos, o que nos impõe limitações”, criticou.
Ao pensar na escola do futuro, Marina Campos afirmou que o CAp segue criando uma pedagogia própria. “É uma construção coletiva. Estamos criando maneiras de fazer inclusão aliada a mudanças nas práticas pedagógicas. É um processo permanente. Democratizar o acesso exige reinventar nossos modos de ensinar, gerir e criar formas de permanência e pertencimento”.
A ex-coordenadora pedagógica do CAp, professora Cheilamar Prates, lembrou da escola que ajudou a construir até 1997, quando se aposentou. “Quando eu era bem jovem, saindo da UFRJ como professora de Inglês, eu me deparei com a escola que eu queria para todos. Porém, ainda era uma escola que não era para todos”, disse. “Porém, sempre houve a preocupação que o aluno fosse visto integralmente. Havia acompanhamento pedagógico, quando isso sequer existia em outras escolas. A formação integral do estudante sempre foi um ativo do colégio”, lembrou.
A docente também destacou o caráter do colégio como campo de formação de professores. “A construção do saber do CAp está no topo porque ele nasce como campo de experiência. É um colégio para os licenciandos, de forma que a tecnologia pedagógica é trazida pelos licenciandos. É por isso que o CAp acompanha tão fortemente as mudanças sociais”, defendeu.
RAÍZES PROFUNDAS
As quase oito décadas de existência exigem também o exercício de revisitar o passado. O economista e ex-aluno Victor Hugo Klagsbrunn lembrou que a escola sempre seguiu na vanguarda das mudanças sociais. “É uma grande conquista termos o acesso por sorteio, termos as cotas, a inclusão, mas isso só é possível hoje porque esse papel de vanguarda é parte do DNA da criação da escola”, afirmou.
“Sempre tivemos uma formação questionadora da realidade, sempre fomos instigados a pensar a realidade do país”, lembrou Klagsbrunn, que foi aluno entre 1957 e 1964. “Eu vivi momentos de grande revolução na mentalidade política social e o CAp sempre acompanhou esses movimentos na ponta, trazendo para os seus alunos o mais moderno do pensamento”, destacou o economista, que revelou ter sido preso durante a ditadura militar.
“Fomos formados por professores muito críticos e para sermos críticos. Começamos, então, a pensar e questionar a realidade do Brasil. Quando fui preso, apontaram pra mim e disseram: ‘Aí, mais um do Colégio de Aplicação’. Isso ilustra muito esse espírito que sempre acompanhou o CAp”.
Coube ao professor Máximo Masson fazer a costura entre a importância estratégica dos colégios de aplicação e a missão institucional das universidades federais num momento de mudanças radicais no país. O CAp foi criado no final da década de 1940, quando terminava o Estado Novo e começava a Quarta República. “Naquele momento, tínhamos uma escola que não era para todos. Portanto, um colégio que, como outras instituições que surgiam no Brasil da época, em especial o colégio de aplicação da USP, surge para ser referência”, explicou Masson.
Com o tempo, esses colégios se tornaram ‘ilhas’ de excelência na educação básica pública. Um projeto que segue em transformação, mas que precisa mudar mais. Para o docente, a educação básica brasileira precisa abraçar a tarefa de transformação da sociedade.
“Qual é a relação que nós queremos que a escolarização da população e a formação de professores venha a ter? Onde foi que a escola no Brasil falhou? Estamos em tempos de pessoas questionarem a forma esferoide da Terra, então não basta assegurar formas de mobilidade individual. Precisamos superar os entraves a processos de desigualdade social, que não se resolvem apenas pela formação”, afirmou. “O CAp, assim como toda a universidade, deve estar firmemente atrelado às demandas históricas da classe trabalhadora. Essas instituições devem ser referências para se refletir, para se pensar sobre os processos de escolarização, sobre os processos educacionais e a relação desses processos com os interesses majoritários”.
João Saboia
Professor emérito do
Instituto de Economia da UFRJ.
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Tenho discutido em artigos no Valor Econômico o comportamento da produtividade do trabalho no Brasil nos últimos anos. Os dados são bastante desfavoráveis. Excetuando-se os casos da agropecuária, da indústria extrativa mineral, dos serviços industriais de utilidade pública e da intermediação financeira, a regra geral tem sido a estagnação ou queda da produtividade nos últimos trinta anos.
O período mais favorável para a evolução da produtividade agregada na economia brasileira no passado recente ocorreu entre 2003 e 2013, quando a produtividade por pessoal ocupado cresceu 20,9% e a produtividade por horas trabalhadas aumentou 25,2%. Tal diferença se deve à redução das horas trabalhadas por pessoa ocupada no período.
Analisando-se a evolução da economia como um todo, observa-se que esses anos coincidem com um crescimento excepcional do PIB, totalizando 48,3% na referida década. Em outras palavras, dependendo da medida de produtividade do trabalho utilizada, pode-se afirmar que cerca de metade do crescimento da economia foi transferido para a produtividade.
Tal associação entre crescimento do PIB e da produtividade nos remete à Lei de Kaldor-Verdoorn (LKV). Trata-se de um resultado originalmente formulado por Petrus Verdoorn e desenvolvido por Nicholas Kaldor, onde, no longo prazo, o aumento da produtividade seria induzido pelo crescimento da produção, impulsionado pelos retornos crescentes de escala. Tal resultado destaca o papel central da indústria como setor dinâmico da economia, que ao aumentar a produção geraria ganhos de eficiência. Embora originalmente a LKV tenha sido pensada para a indústria de transformação, vários estudos têm sido desenvolvidos para outros setores da economia com resultados satisfatórios.
A experiência brasileira, desde o início dos anos 1980, a partir dos dados de crescimento econômico e da evolução da produtividade do trabalho por pessoal ocupado mostra uma nítida associação positiva entre as duas variáveis. Destacamos alguns anos de alto crescimento econômico (1985, 1986 e 2010). Nos três casos, a produtividade cresceu, especialmente em 2010, quando houve um aumento de 7,5% no PIB e de pouco menos de 6% na produtividade do trabalho. Os destaques negativos em termos de crescimento econômico (1983, 2015, 2016 e 2020) representam anos de queda da produtividade, exceto 2020, por conta da Covid, que retirou importante parcela do setor informal da economia, acarretando crescimento de cerca de 5% na produtividade
A discussão da produtividade do trabalho torna-se ainda mais importante nesse momento em que estamos chegando ao fim da escala 6x1 com redução da jornada de trabalho no país. Em nosso artigo “Produtividade, Investimento e Escolaridade” publicado no Valor Econômico em 30/11/2023, discutimos a importância dos investimentos e da escolaridade dos trabalhadores na evolução do nível de produtividade do trabalho no Brasil. A falta de crescimento econômico, entretanto, dificulta que tais efeitos sejam integralmente repassados à produtividade.
A redução da jornada máxima de trabalho e a eliminação da escala 6 x 1 trazem ao centro da discussão a questão da estagnação da produtividade do trabalho nos últimos anos. Até que ponto tais mudanças serão compatíveis com o que se passa em termos de produtividade no país?
Há vários argumentos favoráveis à redução da jornada de trabalho no Brasil, que vão da melhoria das condições de trabalho, ao crescimento do tempo dedicado ao lazer e à família, à busca de aproximação ao padrão internacional dos países mais desenvolvidos e aos efeitos indiretos sobre o aumento da produtividade no futuro. As críticas estão mais voltadas para a elevação do custo do trabalho, os reflexos sobre a inflação e o risco de aumento do desemprego.
Como é usual, não há consenso entre os economistas. Em artigo publicado no Valor Econômico em 22/02/2026, por exemplo, o economista Naércio Menezes Filho mencionou a experiência da redução de 48 para 44 horas semanais determinada pela Constituição de 1988, mostrando que os custos para as empresas foram relativamente pequenos e não houve aumento do desemprego. Já Fernando de Holanda Barbosa Filho, no mesmo jornal, em 26/02/2026, chama a atenção para os riscos de substituição de trabalhadores, aumento do desemprego e da informalidade com a aprovação da atual mudança. Argumenta que “devemos buscar ganhos de produtividade para alcançar os reais avanços de bem-estar que a sociedade brasileira tanto almeja e merece”.
Concordamos com os argumentos favoráveis à redução da jornada de trabalho para o máximo de 40 horas semanais, mas simultaneamente é preciso tirar o país do atual atoleiro em que se encontra a produtividade do trabalho. Segundo o IBGE, a jornada média de trabalho no país em 2024 era de 38,4 horas semanais. Portanto, importante parcela dos trabalhadores não será atingida com a redução para 40 horas. Mas alguns setores com jornadas mais elevadas certamente serão afetados. Já a proposta de redução para 36 horas semanais poderia permanecer como uma ambição para o futuro, quando a produtividade voltar a crescer como no período 2003/2013.
Conforme os resultados sugeridos pela LKV e confirmados pela experiência brasileira das últimas décadas, o fim da escala 6 x 1 e a redução da jornada para o máximo de 40 horas semanais poderão ser absorvidos pela economia com mais facilidade se o país voltar a crescer por um longo período a taxas mais elevadas. Tal crescimento, especialmente se associado à recuperação dos investimentos e à melhoria do ensino e da escolaridade dos trabalhadores, deverá contribuir para o aumento da produtividade do trabalho, que teima em permanecer estagnada há vários anos.
Este texto está baseado no artigo do autor publicado no Valor Econômico em 31/03/2026.
A Capes acaba de lançar um edital inédito de apoio às mães cientistas, o Aurora. Serão concedidas 300 bolsas para pós-doutores que serão supervisionados por professoras grávidas ou que tenham se tornado mães no período de até dois antes da submissão das propostas.
Cada beneficiária poderá selecionar um bolsista para auxiliá-la nas pesquisas em conjunto com o programa ao qual está vinculada, como docente permanente ou colaboradora e credenciada como orientadora.
Professoras ligadas aos cursos de pós que formalizaram uma adoção ou guarda no período de até dois anos anteriores à data de submissão da proposta também poderão participar do edital, assim como mães com filhos deficientes ou transtornos do neurodesenvolvimento. Nos dois casos, independentemente da idade da criança.
“Foi uma surpresa muito positiva perceber que havia uma política pública voltada especificamente para reconhecer os desafios enfrentados por mães pesquisadoras”, disse a professora Tatiana Ferreira, do campus Duque de Caxias. “Sou mãe de dois meninos lindos e atípicos, com transtorno do espectro autista: Alex Paulo, de 6 anos, e Raphael, de 5 anos. A maternidade atípica traz desafios muito particulares, que envolvem cuidado, rotina terapêutica, demandas escolares e uma presença constante da família”, conta.
“Para muitas de nós, especialmente aquelas que cuidam de crianças pequenas ou crianças com necessidades específicas de cuidado, como é o meu caso, a trajetória acadêmica exige um esforço adicional que nem sempre é visível nos currículos, nas métricas ou nos processos seletivos”, diz a professora vinculada ao Programa de Pós-Graduação em Farmacologia e Química Medicinal.
Como professora nova na UFRJ – foi contratada em novembro do ano passado –, Tatiana afirma que a bolsa teria um impacto muito significativo em sua carreira. “Estou em uma fase de construção e consolidação da minha trajetória institucional: estruturando projetos, fortalecendo parcerias, orientando alunos e buscando manter uma produção científica consistente. Ter um bolsista vinculado aos meus projetos seria fundamental para ampliar a capacidade de execução das pesquisas, organizar dados, desenvolver experimentos, apoiar análises e contribuir para a produção de artigos científicos”.
A professora está reunindo a documentação necessária para participar do primeiro ciclo do programa, com inscrições abertas até 5 de junho. O resultado final será divulgado até 25 de julho e as primeiras bolsas começam a ser implementadas até 10 de agosto. Atualização: O segundo ciclo já está aberto, com inscrições até 6 de julho. E assim avança o cronograma até a distribuição das 300 bolsas de R$ 5,2 mil mensais, com duração de dois anos.
INÉDITO
O programa foi batizado em homenagem à deusa romana do amanhecer e representa um recomeço para as mães cientistas. “O objetivo do Aurora é mitigar os efeitos da maternidade na vida acadêmica. A iniciativa é inédita na Capes, no Brasil e, talvez, no mundo”, afirma a presidente da Capes, professora Denise Pires de Carvalho.
As mulheres grávidas poderão participar a partir do segundo trimestre da gestação. “Porque os efeitos são a partir de questões relacionadas à maternidade que surgem justamente, na maioria, a partir desta etapa e na fase do aleitamento”, explica a docente.
As 300 bolsas não representam um número definitivo para as próximas edições do Aurora. “Lançamos este número devido ao orçamento que dispomos, mas, se houver demanda maior e for qualificada, podemos ajustar, devido à importância do programa”, afirma Denise.
REPERCUSSÃO POSITIVA
“Maravilhosa!”. Assim a professora Sabrina Ferreira, do Instituto de Química, classificou a iniciativa da Capes. Ela é embaixadora na UFRJ do movimento que busca promover a inclusão e equidade de gênero na Academia, o Parent in Science. “Representa muito mais do que um edital de fomento: simboliza um reconhecimento institucional de que a maternidade impacta a trajetória acadêmica e precisa ser considerada nas políticas científicas. É uma mudança de paradigma nas políticas de fomento, ao compreender que excelência científica e maternidade não devem ser concebidas como dimensões incompatíveis”, afirmou.
Sabrina conta que um programa como esse seria muito importante nos momentos de gestação e idade inicial de suas duas filhas. “Eu diria que principalmente na primeira gestação que ocorreu no início de minha carreira como docente na UFRJ e estava começando meu grupo de pesquisa”, explicou.
A pró-reitoria de Pós-graduação e Pesquisa da UFRJ também avaliou o programa de forma positiva. “É um edital muito oportuno. Socialmente, essa questão do cuidado com os filhos ainda recai muito sobre o gênero feminino. A gente sabe que as mulheres ficam com muitas responsabilidades e isso dificulta a produção científica”, diz a professora Fernanda Mello, superintendente acadêmica de pós-graduação.
AÇÕES AFIRMATIVAS
O programa contempla ações afirmativas. No mínimo 30% do total das bolsas concedidas ao longo da vigência do edital serão, necessariamente, destinados a proponentes autodeclaradas pretas, pardas, indígenas ou quilombolas. E, no mínimo, 10% do total serão voltados para professoras com deficiência ou transtorno do neurodesenvolvimento.
“Qualquer edital que contempla essa população já tão excluída a gente vê com muito bons olhos”, afirmou Rita Gomes, diretora de Acessibilidade da Superintendência Geral de Ações Afirmativas, Diversidade e Acessibilidade (SGAADA). “Não podemos tratar todos da mesma forma. Existem as questões que atravessam o universo feminino. Gerar uma ação afirmativa para essa mulher que engravida, para essa mulher que tem deficiência, é um avanço social importante”, completou.