A Capes acaba de lançar um edital inédito de apoio às mães cientistas, o Aurora. Serão concedidas 300 bolsas para pós-doutores que serão supervisionados por professoras grávidas ou que tenham se tornado mães no período de até dois antes da submissão das propostas.
Cada beneficiária poderá selecionar um bolsista para auxiliá-la nas pesquisas em conjunto com o programa ao qual está vinculada, como docente permanente ou colaboradora e credenciada como orientadora.
Professoras ligadas aos cursos de pós que formalizaram uma adoção ou guarda no período de até dois anos anteriores à data de submissão da proposta também poderão participar do edital, assim como mães com filhos deficientes ou transtornos do neurodesenvolvimento. Nos dois casos, independentemente da idade da criança.
“Foi uma surpresa muito positiva perceber que havia uma política pública voltada especificamente para reconhecer os desafios enfrentados por mães pesquisadoras”, disse a professora Tatiana Ferreira, do campus Duque de Caxias. “Sou mãe de dois meninos lindos e atípicos, com transtorno do espectro autista: Alex Paulo, de 6 anos, e Raphael, de 5 anos. A maternidade atípica traz desafios muito particulares, que envolvem cuidado, rotina terapêutica, demandas escolares e uma presença constante da família”, conta.
“Para muitas de nós, especialmente aquelas que cuidam de crianças pequenas ou crianças com necessidades específicas de cuidado, como é o meu caso, a trajetória acadêmica exige um esforço adicional que nem sempre é visível nos currículos, nas métricas ou nos processos seletivos”, diz a professora vinculada ao Programa de Pós-Graduação em Farmacologia e Química Medicinal.
Como professora nova na UFRJ – foi contratada em novembro do ano passado –, Tatiana afirma que a bolsa teria um impacto muito significativo em sua carreira. “Estou em uma fase de construção e consolidação da minha trajetória institucional: estruturando projetos, fortalecendo parcerias, orientando alunos e buscando manter uma produção científica consistente. Ter um bolsista vinculado aos meus projetos seria fundamental para ampliar a capacidade de execução das pesquisas, organizar dados, desenvolver experimentos, apoiar análises e contribuir para a produção de artigos científicos”.
A professora está reunindo a documentação necessária para participar do primeiro ciclo do programa, com inscrições abertas até 5 de junho. O resultado final será divulgado até 25 de julho e as primeiras bolsas começam a ser implementadas até 10 de agosto. Um novo ciclo começa em 6 de julho. E assim avança o cronograma até a distribuição das 300 bolsas de R$ 5,2 mil mensais, com duração de dois anos.
INÉDITO
O programa foi batizado em homenagem à deusa romana do amanhecer e representa um recomeço para as mães cientistas. “O objetivo do Aurora é mitigar os efeitos da maternidade na vida acadêmica. A iniciativa é inédita na Capes, no Brasil e, talvez, no mundo”, afirma a presidente da Capes, professora Denise Pires de Carvalho.
As mulheres grávidas poderão participar a partir do segundo trimestre da gestação. “Porque os efeitos são a partir de questões relacionadas à maternidade que surgem justamente, na maioria, a partir desta etapa e na fase do aleitamento”, explica a docente.
As 300 bolsas não representam um número definitivo para as próximas edições do Aurora. “Lançamos este número devido ao orçamento que dispomos, mas, se houver demanda maior e for qualificada, podemos ajustar, devido à importância do programa”, afirma Denise.
REPERCUSSÃO POSITIVA
“Maravilhosa!”. Assim a professora Sabrina Ferreira, do Instituto de Química, classificou a iniciativa da Capes. Ela é embaixadora na UFRJ do movimento que busca promover a inclusão e equidade de gênero na Academia, o Parent in Science. “Representa muito mais do que um edital de fomento: simboliza um reconhecimento institucional de que a maternidade impacta a trajetória acadêmica e precisa ser considerada nas políticas científicas. É uma mudança de paradigma nas políticas de fomento, ao compreender que excelência científica e maternidade não devem ser concebidas como dimensões incompatíveis”, afirmou.
Sabrina conta que um programa como esse seria muito importante nos momentos de gestação e idade inicial de suas duas filhas. “Eu diria que principalmente na primeira gestação que ocorreu no início de minha carreira como docente na UFRJ e estava começando meu grupo de pesquisa”, explicou.
A pró-reitoria de Pós-graduação e Pesquisa da UFRJ também avaliou o programa de forma positiva. “É um edital muito oportuno. Socialmente, essa questão do cuidado com os filhos ainda recai muito sobre o gênero feminino. A gente sabe que as mulheres ficam com muitas responsabilidades e isso dificulta a produção científica”, diz a professora Fernanda Mello, superintendente acadêmica de pós-graduação.
AÇÕES AFIRMATIVAS
O programa contempla ações afirmativas. No mínimo 30% do total das bolsas concedidas ao longo da vigência do edital serão, necessariamente, destinados a proponentes autodeclaradas pretas, pardas, indígenas ou quilombolas. E, no mínimo, 10% do total serão voltados para professoras com deficiência ou transtorno do neurodesenvolvimento.
“Qualquer edital que contempla essa população já tão excluída a gente vê com muito bons olhos”, afirmou Rita Gomes, diretora de Acessibilidade da Superintendência Geral de Ações Afirmativas, Diversidade e Acessibilidade (SGAADA). “Não podemos tratar todos da mesma forma. Existem as questões que atravessam o universo feminino. Gerar uma ação afirmativa para essa mulher que engravida, para essa mulher que tem deficiência, é um avanço social importante”, completou.




