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WhatsApp Image 2026 05 29 at 20.52.42 14João Saboia
Professor emérito do
Instituto de Economia da UFRJ.
E-mail:Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

 

Tenho discutido em artigos no Valor Econômico o comportamento da produtividade do trabalho no Brasil nos últimos anos. Os dados são bastante desfavoráveis. Excetuando-se os casos da agropecuária, da indústria extrativa mineral, dos serviços industriais de utilidade pública e da intermediação financeira, a regra geral tem sido a estagnação ou queda da produtividade nos últimos trinta anos.
O período mais favorável para a evolução da produtividade agregada na economia brasileira no passado recente ocorreu entre 2003 e 2013, quando a produtividade por pessoal ocupado cresceu 20,9% e a produtividade por horas trabalhadas aumentou 25,2%. Tal diferença se deve à redução das horas trabalhadas por pessoa ocupada no período.
Analisando-se a evolução da economia como um todo, observa-se que esses anos coincidem com um crescimento excepcional do PIB, totalizando 48,3% na referida década. Em outras palavras, dependendo da medida de produtividade do trabalho utilizada, pode-se afirmar que cerca de metade do crescimento da economia foi transferido para a produtividade.
Tal associação entre crescimento do PIB e da produtividade nos remete à Lei de Kaldor-Verdoorn (LKV). Trata-se de um resultado originalmente formulado por Petrus Verdoorn e desenvolvido por Nicholas Kaldor, onde, no longo prazo, o aumento da produtividade seria induzido pelo crescimento da produção, impulsionado pelos retornos crescentes de escala. Tal resultado destaca o papel central da indústria como setor dinâmico da economia, que ao aumentar a produção geraria ganhos de eficiência. Embora originalmente a LKV tenha sido pensada para a indústria de transformação, vários estudos têm sido desenvolvidos para outros setores da economia com resultados satisfatórios.
A experiência brasileira, desde o início dos anos 1980, a partir dos dados de crescimento econômico e da evolução da produtividade do trabalho por pessoal ocupado mostra uma nítida associação positiva entre as duas variáveis. Destacamos alguns anos de alto crescimento econômico (1985, 1986 e 2010). Nos três casos, a produtividade cresceu, especialmente em 2010, quando houve um aumento de 7,5% no PIB e de pouco menos de 6% na produtividade do trabalho. Os destaques negativos em termos de crescimento econômico (1983, 2015, 2016 e 2020) representam anos de queda da produtividade, exceto 2020, por conta da Covid, que retirou importante parcela do setor informal da economia, acarretando crescimento de cerca de 5% na produtividade
A discussão da produtividade do trabalho torna-se ainda mais importante nesse momento em que estamos chegando ao fim da escala 6x1 com redução da jornada de trabalho no país. Em nosso artigo “Produtividade, Investimento e Escolaridade” publicado no Valor Econômico em 30/11/2023, discutimos a importância dos investimentos e da escolaridade dos trabalhadores na evolução do nível de produtividade do trabalho no Brasil. A falta de crescimento econômico, entretanto, dificulta que tais efeitos sejam integralmente repassados à produtividade.
A redução da jornada máxima de trabalho e a eliminação da escala 6 x 1 trazem ao centro da discussão a questão da estagnação da produtividade do trabalho nos últimos anos. Até que ponto tais mudanças serão compatíveis com o que se passa em termos de produtividade no país?
Há vários argumentos favoráveis à redução da jornada de trabalho no Brasil, que vão da melhoria das condições de trabalho, ao crescimento do tempo dedicado ao lazer e à família, à busca de aproximação ao padrão internacional dos países mais desenvolvidos e aos efeitos indiretos sobre o aumento da produtividade no futuro. As críticas estão mais voltadas para a elevação do custo do trabalho, os reflexos sobre a inflação e o risco de aumento do desemprego.
Como é usual, não há consenso entre os economistas. Em artigo publicado no Valor Econômico em 22/02/2026, por exemplo, o economista Naércio Menezes Filho mencionou a experiência da redução de 48 para 44 horas semanais determinada pela Constituição de 1988, mostrando que os custos para as empresas foram relativamente pequenos e não houve aumento do desemprego. Já Fernando de Holanda Barbosa Filho, no mesmo jornal, em 26/02/2026, chama a atenção para os riscos de substituição de trabalhadores, aumento do desemprego e da informalidade com a aprovação da atual mudança. Argumenta que “devemos buscar ganhos de produtividade para alcançar os reais avanços de bem-estar que a sociedade brasileira tanto almeja e merece”.
Concordamos com os argumentos favoráveis à redução da jornada de trabalho para o máximo de 40 horas semanais, mas simultaneamente é preciso tirar o país do atual atoleiro em que se encontra a produtividade do trabalho. Segundo o IBGE, a jornada média de trabalho no país em 2024 era de 38,4 horas semanais. Portanto, importante parcela dos trabalhadores não será atingida com a redução para 40 horas. Mas alguns setores com jornadas mais elevadas certamente serão afetados. Já a proposta de redução para 36 horas semanais poderia permanecer como uma ambição para o futuro, quando a produtividade voltar a crescer como no período 2003/2013.
Conforme os resultados sugeridos pela LKV e confirmados pela experiência brasileira das últimas décadas, o fim da escala 6 x 1 e a redução da jornada para o máximo de 40 horas semanais poderão ser absorvidos pela economia com mais facilidade se o país voltar a crescer por um longo período a taxas mais elevadas. Tal crescimento, especialmente se associado à recuperação dos investimentos e à melhoria do ensino e da escolaridade dos trabalhadores, deverá contribuir para o aumento da produtividade do trabalho, que teima em permanecer estagnada há vários anos.

Este texto está baseado no artigo do autor publicado no Valor Econômico em 31/03/2026.

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