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WhatsApp Image 2026 01 22 at 19.43.13 7DESTRUIÇÃO. Prédio de Matemática do IVIC foi o mais danificado pelo bombardeio do dia 3 - Fotos: Departamento de Imprensa da USBNo dia 3 de janeiro, o mundo acordou atordoado com a notícia do bombardeio dos Estados Unidos à Venezuela e com o sequestro do presidente Nicolás Maduro e da primeira-dama, Cilia Flores. O ataque foi precedido de uma série de operações no mar do Caribe com ataques a barcos que supostamente traficavam drogas para o país norte-americano. A “atuação do governo venezuelano como cartel” foi a justificativa utilizada pelo governo de Donald Trump para os bombardeios.
Logo após o ataque à soberania venezuelana e a captura de Maduro, Trump declarou que o petróleo da Venezuela “voltará a ser dos Estados Unidos” e orientou que grandes petrolíferas norte-americanas iniciassem a extração do combustível. O plano, no entanto, encontra resistência. Segundo as empresas consultadas pelo governo Trump, a Venezuela não tem a infraestrutura necessária à exploração do petróleo nacional. Os custos de investimento seriam muito altos. Um preço que o grande capital privado não pretende pagar.
O petróleo, no entanto, está longe de ser a única perda do país. Mais de cem mortos, entre civis e militares, também são consequências diretas do bombardeio em solo venezuelano. A destruição de instalações de infraestrutura também era um objetivo dos ataques, que ainda atingiram instituições de ensino e pesquisa do país. É o que conta o reitor da Universidade Simón Bolívar (USB) e presidente da Sociedade Venezuelana de Física, professor Jorge Stephany. Ele concedeu entrevista ao Jornal da AdUFRJ para falar como a Venezuela busca se reestruturar após os ataques de 3 de janeiro. As instalações do Instituto Venezuelano de Pesquisas Científicas (IVIC, na sigla em espanhol) foram atingidas. “O edifício de Matemática foi o mais afetado, pois entre os alvos estavam as antenas de comunicação que se encontravam ao lado (do prédio) e foram atacadas com mísseis de grande potência”, contou o reitor.
Ele diz que a população tenta seguir adiante, apesar dos traumas. “As pessoas estão tentando retomar suas atividades normais, que, no caso da comunidade científica, incluem pesquisa e ensino, mas as constantes ameaças do agressor estão afetando severamente a produtividade”.
Confira a seguir.

WhatsApp Image 2026 01 22 at 19.43.13 6Jornal da AdUFRJ - Como está a infraestrutura de serviços como telefone, água e energia após os bombardeios?
Jorge Stephany -
Os ataques foram realizados com muitos recursos e tecnologia avançada, os danos ficaram restritos aos alvos escolhidos, como as instalações da rede elétrica e das empresas de telecomunicações. No dia seguinte ao ataque, a companhia elétrica nacional foi acionada para restabelecer a energia nas áreas afetadas, e as empresas de telecomunicação se concentraram na reconstrução da rede. A maioria das áreas voltou ao normal nas primeiras 48 horas.

O Instituto Venezuelano de Pesquisa Científica (IVIC) foi severamente afetado, com danos em muitos prédios. Quais foram os mais atingidos?
O prédio de Matemática foi o mais afetado, pois as antenas de comunicação localizadas ao lado do edifício estavam entre os alvos e foram atacadas com mísseis de alta potência. A onda de choque afetou o interior do prédio de Matemática e quebrou portas e janelas nos prédios de Física, Química e Ecologia. Danos menores também foram relatados no novo prédio da Universidade de Ciências. Felizmente, os laboratórios de Física Nuclear e Radiofísica da Saúde não foram afetados.

Qual o valor total dos prejuízos ou seu valor aproximado? E o custo da reconstrução das instalações do instituto?
O Ministério da Ciência e Tecnologia e a Direção do IVIC realocaram os pesquisadores afetados em outros espaços e estão avaliando os danos para iniciar a reconstrução. Não é possível neste momento estimar o tempo de reconstrução, pois é preciso avaliar se os prédios sofreram danos estruturais. O governo nacional priorizou a recuperação das áreas afetadas pelos ataques e, em particular, os danos ao IVIC serão reparados sob a supervisão direta da ministra Gabriela Jiménez (da Ciência e Tecnologia).

O que acontece com os recursos e suprimentos de pesquisa danificados? Existe a possibilidade de apoio de outros países?
Desde o governo Barack Obama, a Venezuela tem sido alvo de severas sanções comerciais e financeiras que a impedem de manter sua infraestrutura científica em pleno funcionamento. Os equipamentos perdidos neste ataque agravam o déficit existente. A colaboração internacional deveria ser um canal para tentar solucionar a situação, mas, infelizmente, não tem sido muito eficaz nos últimos anos devido à visão completamente distorcida da Venezuela que outros países propagam por campanhas de desinformação.

Os danos não são apenas físicos, mas também emocionais e impactam as atividades de pesquisa. Como a pesquisa pode ser conduzida em meio a tamanho horror?
De fato, o pior aspecto deste ataque é que a população da Venezuela, um país que não está em guerra com nenhuma outra nação desde a rendição espanhola, precisa conviver com a consciência de que os Estados Unidos da América não hesitam em assassinar 100 ou mais pessoas e bombardear uma cidade para alcançar seus objetivos políticos e econômicos. As pessoas estão tentando retomar suas atividades normais, que, no caso da comunidade científica, incluem pesquisa e ensino, mas as constantes ameaças do agressor estão afetando severamente a produtividade.

Como lidar com o trauma vivenciado pela população e pela comunidade científica?
A população respondeu com grande maturidade à situação, atendendo a todos os apelos por paz e tranquilidade. Não houve violência interna. No entanto, muitas pessoas, especialmente aquelas que vivem nas áreas onde ocorreram os ataques, estão profundamente afetadas.

Os efeitos a longo prazo dos ataques são difíceis de prever, mas como a comunidade científica pode contribuir para a superação dessa crise?
Antes de tudo, devemos evitar que esse ataque exacerbe as divisões que a polarização política vem criando dentro e entre nossos países. A comunidade científica, por outro lado, deve buscar mais e melhores oportunidades de colaboração. E não apenas na busca e aplicação do conhecimento, mas também na consolidação de espaços onde os valores humanísticos que compartilhamos possam florescer e impactar a criação de um mundo melhor do que este em que vivemos. Para isso, é preciso fortalecer todas as iniciativas com objetivos concretos que vêm sendo desenvolvidas no âmbito diplomático e entre pesquisadores em cada área específica.

NOTA DA ADUFRJ: SOLIDARIEDADE AO POVO VENEZUELANO

A diretoria da ADUFRJ assiste com grave preocupação aos eventos relacionados à ação militar dos EUA invadindo a Venezuela, com bombardeios e captura de seu presidente, em grave violação dos princípios basilares de direito internacional – em especial do respeito à soberania nacional e autodeterminação dos povos. Tal operação – e suas “justificativas” oficiais propagadas pelo governo americano – cria um perigoso precedente que banaliza o uso da força como instrumento de política externa, fragiliza o sistema multilateral de governança internacional e coloca em risco as populações atingidas, além de promover a instabilidade e insegurança para os países da região.
Eventuais críticas ao regime político venezuelano de modo algum justificam a violação da soberania nacional, nem a imposição de mudanças políticas pela força de governo externo.
Manifestamos nosso repúdio à invasão e ao uso da força para imposição dos interesses do governo dos EUA na região, bem como nossa solidariedade aos colegas pesquisadores e ao povo venezuelano.
Entendemos que soberania e autodeterminação são princípios fundamentais para uma ordem internacional pacífica e não podem ser relativizados.

WhatsApp Image 2026 01 22 at 19.43.13 1Kelvin Melo e Silvana Sá

Além das universidades, o governo Lula recompôs os orçamentos da Capes e do CNPq. A medida foi bastante comemorada pela Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) e pela Academia Brasileira de Ciências (ABC).
As entidades divulgaram uma nota conjunta no dia seguinte à medida: “A ABC e a SBPC reconhecem o esforço do governo em reconstruir o financiamento da educação superior e da ciência e apostam que essa recomposição represente o início de um novo ciclo de valorização das universidades, da pós-graduação e da pesquisa científica”, diz um trecho.
Antes da recomposição, deputados e senadores haviam reduzido o orçamento do CNPq em R$ 92,4 milhões, em relação à proposta do Executivo. A Capes havia perdido R$ 359,3 milhões.
“Isso demonstra que estas pautas estão entre as prioridades do atual governo”, afirmou a presidente da SBPC, professora Francilene Garcia, à reportagem. “Mas precisamos de um orçamento mais adequado aos desafios (da área)”, completou.
A presidente da SBPC cobra mais investimentos e continuidade, algo que não cabe no atual modelo de negociação do orçamento. “Fora do ambiente do FNDCT (Fundo Nacional do Desenvolvimento Científico e Tecnológico), você não consegue fazer um planejamento para três, quatro ou mais anos em algumas áreas”, argumenta. “Para dar um exemplo, se o Brasil quiser daqui a dez anos estar na linha de frente da área das tecnologias quânticas, precisa investir de forma robusta e continuada desde agora”.
Para ajudar a pensar uma nova forma de financiamento da ciência e de olho nas eleições no fim do ano, a SBPC realiza um seminário nesta sexta-feira (23). “A cada ano de eleições federais, fazemos um debate com comunidade científica para apresentar pautas aos candidatos. Este será sobre orçamento. Em meados de abril, vamos lançar uma publicação com o resultado dessas discussões”, afirma Francilene.
Presidente da ABC, a professora Helena Nader celebrou a recomposição, mas também reforçou a necessidade de mais recursos para o setor: “Os valores ainda estão aquém do ideal que o Brasil precisa”, disse.
“Se você olhar, o país tem um número de doutores e engenheiros por população muito abaixo de outros países da América Latina. Quando você compara com os países desenvolvidos, é mais abaixo ainda. Então o Brasil teria que estar formando mais recursos humanos”, completou.

EDUCAÇÃO VALORIZADA
O Ministério da Educação recebeu uma recomposição de R$ 977 milhões. Os valores serão destinados à formação técnica e superior. Desse total, R$ 488 milhões serão usados no custeio das universidades federais, enquanto R$ 230 milhões irão para a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes). Também serão destinados R$ 218 milhões para obras do Programa de Acaleração do Crescimento (PAC) que engloba infraestrutura para as instituições de ensino.
Ministro da Educação, Camilo Santana declarou que a devolução de valores cortados pelo Legislativo revela o compromisso do governo em defesa da educação. “Vamos continuar na luta para que cada vez mais a gente possa aumentar os recursos para as nossas instituições”, afirmou Santana.
A Capes, instituição de fomento à pesquisa ligada ao MEC, ainda não recebeu a recomposição integral dos valores. Dos R$ 359,3 milhões cortados, o governo restabeleceu R$ 230 milhões neste primeiro momento.
Apesar do valor parcial, a recomposição é uma boa notícia para a presidente da instituição, professora Denise Pires de Carvalho. “A Capes recebe a notícia com entusiasmo, porque os cortes efetuados pelo Parlamento foram muito duros e sem nenhuma razão, uma vez que executamos totalmente o orçamento de 2025 com muita responsabilidade e apoio do ministro Camilo Santana”, conta a dirigente. “Desde que soubemos dos cortes orçamentários no final de 2025, temos trabalhado incessantemente para que pudéssemos ter o orçamento recomposto”, diz.
A restauração do orçamento ajudará a agência a manter as bolsas de estudo e os contratos. ”Ainda não tivemos o valor total recomposto, mas este movimento do Executivo no primeiro mês do ano demonstra claramente a prioridade que o atual governo dá à Educação, Ciência, Tecnologia e Inovação”, celebra Denise. “Se os cortes fossem mantidos, não conseguríamos honrar bolsas e contratos até dezembro”.
Para a coordenadora do Observatório do Conhecimento, professora Mayra Goulart, a movimentação célere do governo federal para restabelecer o orçamento das instituições de ensino e pesquisa mostra que governo e Congresso têm visões distintas sobre a política. “O Congresso tem uma visão solapsista, muito mais voltada para seus próprios interesses”, avalia a cientista política. “Enquanto o governo mantém uma perspectiva republicana”, diz.
Para a docente, a atuação do Observatório ao denunciar os cortes do chamado orçamento do conhecimento ajuda a sociedade a compreender a dimensão dessas perdas. “É um tema transversal a todos os setores republicanos, não só os ligados à esquerda. É uma questão relacionada ao desenvolvimento do país”, defende.
Presidenta da AdUFRJ, a professora Ligia Bahia também elogia a recomposição anunciada pelo governo. “É uma notícia que causou alívio. Entretanto, sabemos que necessário não é sinônimo de suficiente”, ressalta.
Ligia avalia que a conjuntura política internacional mostra a urgência do investimento em Ciência e Tecnologia. “Nesse momento no qual as tensões mundiais se agudizam, fica totalmente evidente a impossibilidade de avançar as fronteiras do desenvolvimento, sustentabilidade e paz sem investimento no conhecimento”, afirma a dirigente.
O CNPq e o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação – a pasta recebeu uma recomposição de R$ 186,3 milhões destinados exclusivamente à agência de fomento – não responderam aos questionamentos da reportagem até o fechamento desta edição.

A primeira segunda-feira de 2026 teve ares de festa para a pesquisadora Tatiana Sampaio, chefe do Laboratório de Biologia da Matriz Extracelular, do Instituto de Ciências Biomédicas da UFRJ. Logo às seis da manhã, ela confirmou pelo Diário Oficial da União o que dezenas de ligações para o seu celular já tentavam informar: a aprovação, pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), do início da primeira fase de estudos clínicos com humanos da polilaminina, medicamento experimental para tratamento de lesões da medula ao qual ela se dedica há mais de duas décadas.

"Foi uma felicidade acordar com a notícia da aprovação do estudo clínico. Saiu no Diário Oficial logo cedo. E ela veio junto com a aprovação pelo Comitê de Inovação, uma instância nova criada pela Anvisa para avaliar os casos mais urgentes e com maior impacto para o desenvolvimento científico e tecnológico do país. A aprovação do estudo clínico da polilaminina foi a primeira decisão desse novo comitê", comemorou Tatiana, recebida no ano passado pelo presidente Lula, que entrou na "campanha" pela aprovação do estudo clínico pela Anvisa.

O objetivo da primeira fase de estudos é avaliar a segurança da polilaminina, observando potenciais riscos e efeitos colaterais da aplicação. "É importante dizer que esse estudo clínico inicial é pequeno, apenas para cinco pacientes, e deve evoluir rapidamente. Acredito que ele comece daqui a um mês, e que possamos logo ter a comprovação da segurança em um estudo regulatório. Isso vai abrir as portas não apenas para a fase 2, para lesões recentes, a próxima etapa que já está programada, mas também nós vamos poder pedir outros estudos, inclusive para testar o efeito da polilaminina em lesões crônicas, de meses ou anos", se entusiasma a pesquisadora.

Nessa primeira fase do estudo clínico, o medicamento será aplicado em cinco pacientes de 18 a 72 anos, com lesões da medula entre as vértebras T2 e T10, ocorridas até 72 horas antes. Até agora, a polilaminina tem se mostrado altamente promissora para o tratamento desse tipo de lesão. Um caso de evolução notável já registrado com a droga foi o do bancário Bruno Drummond de Freitas, de 31 anos, que foi diagnosticado com tetraplegia depois de um acidente de carro em 2018. Graças ao uso da polilaminina, ele recuperou parte dos movimentos.

Foto: Fernando Souza/Arquivo AdUFRJ

WhatsApp Image 2026 01 22 at 19.43.13 9A UFRJ passou exatamente um mês sob a angústia de iniciar 2026 com um orçamento mais apertado do que esperava. No dia 19 de dezembro, o Congresso cortou R$ 488 milhões do custeio das universidades, sendo R$ 25,3 milhões da instituição. Na noite de 19 de janeiro, o alívio veio com a notícia de recomposição das verbas pelo governo Lula.
“Traz um ótimo alento para nós”, comemorou o reitor Roberto Medronho. “Entretanto, teremos ainda a necessidade de suplementação orçamentária ao longo do ano para que possamos desempenhar melhor nossas atribuições”.
“Mas, assim como em 2025, posso assegurar que não haverá corte de nenhum item essencial. Vamos manter a universidade aberta, pois é isso que a sociedade espera da gente”, completou o dirigente.
A “tesourada” na UFRJ fez parte de uma manobra do Legislativo para turbinar emendas parlamentares e o Fundo Eleitoral em mais de R$ 11 bilhões, o que deixou o reitor indignado.
“Estavam cortando a Educação para fazer a política de varejo. Emendas parlamentares podem até existir — o ideal seria que nem existissem — mas em um nível muito menor do que estamos vendo hoje”, disse Medronho. “Isso é muito ruim para a sociedade. O governo foi eleito para implantar suas políticas públicas, mas precisa de dinheiro”.
O reitor apontou resultados de ações da UFRJ — como a pesquisa de apoio à exploração do pré-sal e o medicamento polilaminina para reversão de lesões medulares (leia mais em entrevista na página 8) — para justificar a importância do investimento na educação superior. “Se a gente faz o que faz com um orçamento muito aquém das nossas necessidades, imagine se a gente estivesse recebendo recursos adequados ao nosso funcionamento”, completou.

AINDA FALTA
Por enquanto, a recomposição aconteceu na rubrica voltada para o funcionamento da universidade: R$ 19,2 milhões, já divulgada no Diário Oficial de terça-feira (20). A administração central aguarda outras publicações do governo com o restante das verbas retiradas pelo Congresso. Em especial, na assistência estudantil, que sofreu uma redução de R$ 4,6 milhões. “Estamos esperando que saia uma nova portaria com esses itens que são muito importantes para o nosso funcionamento”, afirmou Medronho.
Enquanto isso não acontece, a universidade faz contas para fechar o ano: as chamadas receitas próprias (de R$ 61,3 milhões) não sofreram alteração entre a proposta do governo e a aprovação do Congresso. Mas, como o próprio nome indica, são recursos que dependem da arrecadação da universidade a partir de aluguéis de terrenos, entre outras fontes.
Sobre estes valores, porém, haverá uma perda gradativa ao longo do exercício fiscal. Desde o ano passado, entrou em vigor um dispositivo que ampliou o alcance da Desvinculação das Receitas da União (DRU) para as verbas patrimoniais das universidades.
No caso da UFRJ, a medida representou um recolhimento ao Tesouro de aproximadamente R$ 18 milhões em 2025. E a expectativa da pró-reitoria de Finanças (PR-3) é que o valor seja um pouco maior este ano, em função do reajuste dos contratos de aluguel.
A conta da UFRJ é ainda mais complexa por carregar um passivo de exercícios anteriores. A PR-3 estimava um déficit acumulado de R$ 64 milhões desde 2016 até o fim do ano passado, sendo R$ 25,5 milhões o total até 2024 . O déficit preciso de 2025 ainda não foi calculado pois a maioria das notas fiscais de dezembro ainda não chegou.

SOLUÇÕES INOVADORAS
Apesar de todas as dificuldades, as despesas consideradas principais estão em dia ou dentro do prazo que as empresas devem entregar o serviço sem suspensão do serviço, pela legislação federal. “Contratualmente, as empresas se obrigam a ter dois meses no caixa delas para fazer frente às oscilações do orçamento do poder público. O problema é que certas empresas não têm esse capital de giro”, afirmou o pró-reitor de Gestão e Governança, Fernando Peregrino.
Um caso recente que circulou nas redes sociais foi o da firma responsável pelos restaurantes universitários, atrasando o pagamento de salários dos funcionários terceirizados. “Nós não temos dívida com eles. Ela que não pagou aos funcionários”, disse Peregrino.
Em paralelo à demanda por mais orçamento, a administração central vai lançar ainda este ano uma iniciativa inédita em busca de respostas para os problemas da UFRJ. O 1º Concurso de Soluções Inovadoras convocará a própria comunidade acadêmica a pensar ideias que poderão ser contratadas pela instituição em um futuro próximo, com potencial de redução das despesas.
“Vamos eleger alguns problemas. Por exemplo, reduzir custo de água na universidade. Eu descrevo este problema. As pessoas apresentam suas propostas e, após as filtragens, chegamos a um vencedor. Vamos poder comprar aquela solução sem fazer uma licitação tradicional”, disse Peregrino.
“O poder público só pode comprar alguma coisa de mercado. Neste caso, ele vai comprar algo que não existe: uma ideia. E poderemos financiar o desenvolvimento dessa ideia”, explicou.

Gisele Pires assume pró-reitoria de Finanças

A tarefa de dirigir a pró-reitoria de Finanças (PR-3) em um ano tão delicado caberá à professora Gisele Viana Pires, da Faculdade de Medicina. Ela foi nomeada pro tempore, no lugar do professor Helios Malebranche. A indicação precisa ser aprovada pelo Consuni, que está em recesso.
“Agradeço muito a dedicação do professor neste período todo. Já a professora Gisele agrega à nossa equipe uma experiência fantástica. Ela foi diretora de graduação da Faculdade de Medicina, pró-reitora de graduação da UFRJ (2019 a 2023) e trabalhou os últimos anos na SESu (Secretaria de Educação Superior). Estou muito feliz com a chegada dela”, afirmou o reitor Roberto Medronho. “Eu a nomeei em caráter temporário. O nome será colocado em votação na primeira sessão do Conselho Universitário do ano”, completou. O colegiado retorna aos trabalhos em fevereiro.

OBSERVATÓRIO DO CONHECIMENTO DENUNCIA INTERFERÊNCIA DE
EMENDAS PARLAMENTARES  NA EXECUÇÃO DE POLÍTICAS PÚBLICAS

A crescente influência das emendas parlamentares no orçamento da União não é objeto de indignação apenas do reitor da UFRJ. Em nota divulgada esta semana, o Observatório do Conhecimento — rede de associações docentes que defendem a universidade pública — critica que esse tipo de execução das verbas não permite previsibilidade às políticas públicas, “uma vez que as emendas dependem da configuração política e prioridades parlamentares, ressaltando seu caráter altamente instável e dissipativo”.
“As emendas parlamentares, enquanto fontes de financiamento, são precárias, instáveis e erráticas”, analisa a professora Mayra Goulart, coordenadora do Observatório do Conhecimento. “As emendas dificultam a programação e a previsibilidade das instituições de ensino e pesquisa”, analisa a docente.
Dados extraídos em 20 de janeiro do Painel do Orçamento Federal mostram que as receitas das universidades de 2026 serão suplementadas em R$ 506 milhões por emendas parlamentares (R$ 242 milhões, individuais, e R$ 263 milhões, de bancada). Um valor que supera a atual recomposição feita pelo governo Lula nas instituições federais de educação superior. Só a UFRJ terá R$ 21,1 milhões deste montante.
Enquanto as emendas ganham espaço, o orçamento geral continua muito abaixo das necessidades e do montante já destinado, no passado, às universidades federais. O Observatório aponta que o montante de recursos de 2026 equivale a 45,9% do orçamento de 2014, em valores corrigidos pela inflação.
“Embora tenhamos tido importantes recomposições, especialmente no atual governo, o orçamento ainda está aquém daquilo que já foi. Então, muitos parlamentares tentam contribuir de alguma maneira com o orçamento dessas instituições”, explica Mayra. (colaborou Silvana Sá)

WhatsApp Image 2025 12 18 at 09.54.49 8Magno Junqueira
Professor Associado da Universidade Federal do Rio de Janeiro.
Coordenador do Laboratório de Espectrometria de Massa Translacional e Neuroproteômica - LEMTEN

 

A universidade pública brasileira vive hoje um conflito profundo entre seu papel social, suas ambições científicas e a realidade do financiamento. De um lado, espera-se que ela seja inclusiva, garanta permanência estudantil por meio de políticas como o restaurante universitário, bolsas e moradia. De outro, cobra-se produtividade científica de padrão internacional, inovação, patentes, empreendedorismo e impacto econômico. O problema central é que essas duas missões vêm sendo exigidas sem o financiamento compatível com nenhuma delas. Desde 2018, o orçamento discricionário das universidades federais, que sustenta laboratórios, contratos de limpeza, segurança, energia, insumos e assistência estudantil, sofreu cortes severos em termos reais. Em vários períodos, as perdas ultrapassaram 40%. Embora tenha havido recomposições parciais recentes, a instabilidade orçamentária tornou o planejamento de médio e longo prazo praticamente inviável. Não se faz ciência de fronteira com orçamento intermitente.
WhatsApp Image 2025 12 18 at 09.54.49 9O debate sobre o “bandejão” é emblemático. Ele consome parcela visível do orçamento, mas não é um luxo: é política de permanência. Sem alimentação subsidiada, estudantes de baixa renda simplesmente abandonam a universidade. Cortar o RU não gera eficiência; gera exclusão social. Ao mesmo tempo, enquanto se financia corretamente o acesso, falta investimento estrutural em infraestrutura científica, manutenção predial, atualização tecnológica e pessoal técnico.
Sobre o professor universitário, a contradição é ainda mais aguda. Além de ensinar e pesquisar, passou a ser pressionado a fazer extensão, ser empreendedor, captar recursos, gerar patentes e criar startups. Porém, grande parte das universidades não dispõe de escritórios de inovação estruturados, núcleos de patentes eficientes, apoio jurídico ou administrativo. Exige-se produtividade de “Harvard” com condições de país em austeridade permanente.
Isso nos leva à pergunta central: afinal, que universidade a sociedade quer? Um modelo altamente seletivo, caro, competitivo e globalizado? Ou uma universidade massificada, inclusiva, com forte função social? O erro histórico do Brasil foi tentar impor simultaneamente os dois modelos sem financiar adequadamente nenhum deles.
A universidade é, ao mesmo tempo, instrumento de mobilidade social, produtora de conhecimento estratégico, formadora de profissionais e motor de inovação. Seu retorno para a sociedade não é apenas econômico: é sanitário, tecnológico, cultural, democrático e civilizatório. Cada real investido retorna em forma de médicos, engenheiros, professores, vacinas, tecnologia, pensamento crítico e soberania nacional.
Sem um pacto real de financiamento estável, com previsibilidade orçamentária, proteção das políticas de permanência e investimento em infraestrutura e inovação, a política pública atual empurra a universidade para o sucateamento: nem plenamente inclusiva, nem verdadeiramente excelente.
O dilema não é “comida ou ciência”. O dilema é se o Brasil escolhe, de fato, ter uma universidade pública forte, ou apenas mantê-la funcionando no limite da sobrevivência.

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