Accessibility Tools
PALESTRANTES Da esquerda para a direita: os docentes Cheilamar Prates, Máximo Masson, Alessandra Carvalho e Marina Campos - Foto: Fernando SouzaO que se espera da escolarização da população e da formação de professores no Brasil contemporâneo? O questionamento do professor Máximo Masson, titular da Cátedra Darcy Ribeiro do Colégio Brasileiro de Altos Estudos (CBAE) permeou o debate que celebrou os 78 anos do Colégio de Aplicação da UFRJ. O encontro festejou a trajetória da instituição, fundada em 20 de maio de 1948, e discutiu o papel da universidade pública na formulação de políticas para a educação básica e no combate às desigualdades no país. O evento também aprofundou o diagnóstico sobre a o CAp-UFRJ e seus desafios pedagógicos.
Um desses desafios – e também motivo de maior orgulho – é o trabalho em torno da inclusão de crianças e adolescentes com deficiência. Em um cenário nacional onde a inserção de estudantes PCD ainda enfrenta grandes gargalos estruturais, o CAp se destaca como uma escola de referência. “Temos 673 estudantes, dos quais 63 são oriundos da educação especial”, destacou a professora Marina Campos, vice-diretora do colégio.
O grupo engloba alunos com deficiências físicas, intelectuais e neurodivergências. Crianças com o Transtorno do Espectro Altista correspondem a 80% dos alunos da educação especial. “Inclusão, diversidade e excelência não são campos opostos. Seguimos com rigor acadêmico e mantemos nossa produção no topo”, destacou a professora. “A diversidade enriquece nossa produção coletiva. Deixamos de ser uma escola de elite para nos tornar uma escola que forma para cidadania, na democracia”.
A vice-diretora apresentou a escola como a unidade da UFRJ que mais possui projetos de extensão, o que expressa o vínculo profundo da comunidade escolar com a sociedade. São 65 projetos de extensão articulados com o ensino e a pesquisa. A formação do quadro de professores também foi destacada pela dirigente. “Dos nossos atuais 97 docentes efetivos, 50 são doutores, 40 são mestres e 3 são especialistas”.
A docente também falou sobre os desafios estruturais. “Atuar na educação contemporânea demanda muito preparo, pois precisamos garantir espaços que sejam verdadeiramente democráticos, equânimes. E isso passa por infraestrutura física, por financiamento. Há inúmeros desafios. Hoje não somos uma unidade gestora de recursos, o que nos impõe limitações”, criticou.
Ao pensar na escola do futuro, Marina Campos afirmou que o CAp segue criando uma pedagogia própria. “É uma construção coletiva. Estamos criando maneiras de fazer inclusão aliada a mudanças nas práticas pedagógicas. É um processo permanente. Democratizar o acesso exige reinventar nossos modos de ensinar, gerir e criar formas de permanência e pertencimento”.
A ex-coordenadora pedagógica do CAp, professora Cheilamar Prates, lembrou da escola que ajudou a construir até 1997, quando se aposentou. “Quando eu era bem jovem, saindo da UFRJ como professora de Inglês, eu me deparei com a escola que eu queria para todos. Porém, ainda era uma escola que não era para todos”, disse. “Porém, sempre houve a preocupação que o aluno fosse visto integralmente. Havia acompanhamento pedagógico, quando isso sequer existia em outras escolas. A formação integral do estudante sempre foi um ativo do colégio”, lembrou.
A docente também destacou o caráter do colégio como campo de formação de professores. “A construção do saber do CAp está no topo porque ele nasce como campo de experiência. É um colégio para os licenciandos, de forma que a tecnologia pedagógica é trazida pelos licenciandos. É por isso que o CAp acompanha tão fortemente as mudanças sociais”, defendeu.
RAÍZES PROFUNDAS
As quase oito décadas de existência exigem também o exercício de revisitar o passado. O economista e ex-aluno Victor Hugo Klagsbrunn lembrou que a escola sempre seguiu na vanguarda das mudanças sociais. “É uma grande conquista termos o acesso por sorteio, termos as cotas, a inclusão, mas isso só é possível hoje porque esse papel de vanguarda é parte do DNA da criação da escola”, afirmou.
“Sempre tivemos uma formação questionadora da realidade, sempre fomos instigados a pensar a realidade do país”, lembrou Klagsbrunn, que foi aluno entre 1957 e 1964. “Eu vivi momentos de grande revolução na mentalidade política social e o CAp sempre acompanhou esses movimentos na ponta, trazendo para os seus alunos o mais moderno do pensamento”, destacou o economista, que revelou ter sido preso durante a ditadura militar.
“Fomos formados por professores muito críticos e para sermos críticos. Começamos, então, a pensar e questionar a realidade do Brasil. Quando fui preso, apontaram pra mim e disseram: ‘Aí, mais um do Colégio de Aplicação’. Isso ilustra muito esse espírito que sempre acompanhou o CAp”.
Coube ao professor Máximo Masson fazer a costura entre a importância estratégica dos colégios de aplicação e a missão institucional das universidades federais num momento de mudanças radicais no país. O CAp foi criado no final da década de 1940, quando terminava o Estado Novo e começava a Quarta República. “Naquele momento, tínhamos uma escola que não era para todos. Portanto, um colégio que, como outras instituições que surgiam no Brasil da época, em especial o colégio de aplicação da USP, surge para ser referência”, explicou Masson.
Com o tempo, esses colégios se tornaram ‘ilhas’ de excelência na educação básica pública. Um projeto que segue em transformação, mas que precisa mudar mais. Para o docente, a educação básica brasileira precisa abraçar a tarefa de transformação da sociedade.
“Qual é a relação que nós queremos que a escolarização da população e a formação de professores venha a ter? Onde foi que a escola no Brasil falhou? Estamos em tempos de pessoas questionarem a forma esferoide da Terra, então não basta assegurar formas de mobilidade individual. Precisamos superar os entraves a processos de desigualdade social, que não se resolvem apenas pela formação”, afirmou. “O CAp, assim como toda a universidade, deve estar firmemente atrelado às demandas históricas da classe trabalhadora. Essas instituições devem ser referências para se refletir, para se pensar sobre os processos de escolarização, sobre os processos educacionais e a relação desses processos com os interesses majoritários”.
A Capes acaba de lançar um edital inédito de apoio às mães cientistas, o Aurora. Serão concedidas 300 bolsas para pós-doutores que serão supervisionados por professoras grávidas ou que tenham se tornado mães no período de até dois antes da submissão das propostas.
Cada beneficiária poderá selecionar um bolsista para auxiliá-la nas pesquisas em conjunto com o programa ao qual está vinculada, como docente permanente ou colaboradora e credenciada como orientadora.
Professoras ligadas aos cursos de pós que formalizaram uma adoção ou guarda no período de até dois anos anteriores à data de submissão da proposta também poderão participar do edital, assim como mães com filhos deficientes ou transtornos do neurodesenvolvimento. Nos dois casos, independentemente da idade da criança.
“Foi uma surpresa muito positiva perceber que havia uma política pública voltada especificamente para reconhecer os desafios enfrentados por mães pesquisadoras”, disse a professora Tatiana Ferreira, do campus Duque de Caxias. “Sou mãe de dois meninos lindos e atípicos, com transtorno do espectro autista: Alex Paulo, de 6 anos, e Raphael, de 5 anos. A maternidade atípica traz desafios muito particulares, que envolvem cuidado, rotina terapêutica, demandas escolares e uma presença constante da família”, conta.
“Para muitas de nós, especialmente aquelas que cuidam de crianças pequenas ou crianças com necessidades específicas de cuidado, como é o meu caso, a trajetória acadêmica exige um esforço adicional que nem sempre é visível nos currículos, nas métricas ou nos processos seletivos”, diz a professora vinculada ao Programa de Pós-Graduação em Farmacologia e Química Medicinal.
Como professora nova na UFRJ – foi contratada em novembro do ano passado –, Tatiana afirma que a bolsa teria um impacto muito significativo em sua carreira. “Estou em uma fase de construção e consolidação da minha trajetória institucional: estruturando projetos, fortalecendo parcerias, orientando alunos e buscando manter uma produção científica consistente. Ter um bolsista vinculado aos meus projetos seria fundamental para ampliar a capacidade de execução das pesquisas, organizar dados, desenvolver experimentos, apoiar análises e contribuir para a produção de artigos científicos”.
A professora está reunindo a documentação necessária para participar do primeiro ciclo do programa, com inscrições abertas até 5 de junho. O resultado final será divulgado até 25 de julho e as primeiras bolsas começam a ser implementadas até 10 de agosto. Atualização: O segundo ciclo já está aberto, com inscrições até 6 de julho. E assim avança o cronograma até a distribuição das 300 bolsas de R$ 5,2 mil mensais, com duração de dois anos.
INÉDITO
O programa foi batizado em homenagem à deusa romana do amanhecer e representa um recomeço para as mães cientistas. “O objetivo do Aurora é mitigar os efeitos da maternidade na vida acadêmica. A iniciativa é inédita na Capes, no Brasil e, talvez, no mundo”, afirma a presidente da Capes, professora Denise Pires de Carvalho.
As mulheres grávidas poderão participar a partir do segundo trimestre da gestação. “Porque os efeitos são a partir de questões relacionadas à maternidade que surgem justamente, na maioria, a partir desta etapa e na fase do aleitamento”, explica a docente.
As 300 bolsas não representam um número definitivo para as próximas edições do Aurora. “Lançamos este número devido ao orçamento que dispomos, mas, se houver demanda maior e for qualificada, podemos ajustar, devido à importância do programa”, afirma Denise.
REPERCUSSÃO POSITIVA
“Maravilhosa!”. Assim a professora Sabrina Ferreira, do Instituto de Química, classificou a iniciativa da Capes. Ela é embaixadora na UFRJ do movimento que busca promover a inclusão e equidade de gênero na Academia, o Parent in Science. “Representa muito mais do que um edital de fomento: simboliza um reconhecimento institucional de que a maternidade impacta a trajetória acadêmica e precisa ser considerada nas políticas científicas. É uma mudança de paradigma nas políticas de fomento, ao compreender que excelência científica e maternidade não devem ser concebidas como dimensões incompatíveis”, afirmou.
Sabrina conta que um programa como esse seria muito importante nos momentos de gestação e idade inicial de suas duas filhas. “Eu diria que principalmente na primeira gestação que ocorreu no início de minha carreira como docente na UFRJ e estava começando meu grupo de pesquisa”, explicou.
A pró-reitoria de Pós-graduação e Pesquisa da UFRJ também avaliou o programa de forma positiva. “É um edital muito oportuno. Socialmente, essa questão do cuidado com os filhos ainda recai muito sobre o gênero feminino. A gente sabe que as mulheres ficam com muitas responsabilidades e isso dificulta a produção científica”, diz a professora Fernanda Mello, superintendente acadêmica de pós-graduação.
AÇÕES AFIRMATIVAS
O programa contempla ações afirmativas. No mínimo 30% do total das bolsas concedidas ao longo da vigência do edital serão, necessariamente, destinados a proponentes autodeclaradas pretas, pardas, indígenas ou quilombolas. E, no mínimo, 10% do total serão voltados para professoras com deficiência ou transtorno do neurodesenvolvimento.
“Qualquer edital que contempla essa população já tão excluída a gente vê com muito bons olhos”, afirmou Rita Gomes, diretora de Acessibilidade da Superintendência Geral de Ações Afirmativas, Diversidade e Acessibilidade (SGAADA). “Não podemos tratar todos da mesma forma. Existem as questões que atravessam o universo feminino. Gerar uma ação afirmativa para essa mulher que engravida, para essa mulher que tem deficiência, é um avanço social importante”, completou.
Foto: João LaetA dramática situação de Cuba, agravada pelo recrudescimento do bloqueio norte-americano sob o segundo mandato de Donald Trump, e a corrente de solidariedade ao regime e ao povo caribenho foram os principais temas da palestra de Frei Betto, um dos mais destacados intelectuais do país, em 30 de abril, no Centro de Tecnologia, no Fundão. O encontro foi organizado pela AdUFRJ, em parceria com o Sintufrj, o DCE Mário Prata e a APG/UFRJ.
“Cuba vive uma crise terrível. Não tem energia, não tem gás, muitas pessoas estão usando lenha para cozinhar”, descreveu Frei Betto. Segundo ele, o bloqueio imposto pelos Estados Unidos em 1962 foi intensificado desde que Donald Trump assumiu a presidência, em janeiro do ano passado. “Trump incluiu Cuba na lista de países patrocinadores do terrorismo, e isso fechou todo o sistema bancário internacional ao país, prejudicando importações e exportações”, exemplificou o escritor.
Frei Betto destacou que cresce em todo o mundo um sentimento de solidariedade a Cuba: “O Brasil tem ajudado muito, com medicamentos, alimentos. Estamos introduzindo lá um sistema de captação de água das chuvas, por exemplo. Temos que ampliar essa corrente solidária”.
A presidenta da AdUFRJ, professora Ligia Bahia, fez coro com Frei Betto e anunciou uma iniciativa imediata: uma campanha de arrecadação de recursos para a compra de medicamentos, batizada de UFRJ 100 mil. “É importante que a gente consiga arrecadar esses R$ 100 mil, e espalhar essa campanha para trazer mais pessoas e instituições para ajudar, vamos criar uma onda”, defendeu Ligia Bahia. A iniciativa ainda está em estudo, e prevê a arrecadação de doações em dinheiro via PIX, em faixas que vão de R$ 10 a R$ 200.
Leia a seguir os principais trechos da palestra.
JUVENTUDE
Desde os 13 anos eu já tinha uma cabeça de esquerda, por ser da juventude católica, que, assessorada pelos frades dominicanos em Belo Horizonte, já nos dava uma formação bem progressista. Atuávamos na política estudantil, com a juventude comunista. Isso nos fez torcedores da Revolução Cubana de 1959. Mas eu nunca imaginei a possibilidade de ir a Cuba, pelos fatores decorrentes do golpe de 1964, em que o Brasil, inclusive, rompeu relações com Cuba.
REVOLUÇÃO SANDINISTA
Em 1979, eu fui a Costa Rica e tive contato com guerrilheiros sandinistas da Nicarágua, por meio do poeta Ernesto Cardenal. Naquele ano, eu convidei o Cardenal e o padre Miguel d’Escoto para o primeiro congresso da Associação dos Teólogos do Terceiro Mundo, em São Paulo. O d’Escoto veio ao congresso, em janeiro de 1980, com o Daniel Ortega, o que criou um problema diplomático. Ortega acabara de liderar uma revolução, era presidente da Nicarágua, e o Brasil estava de nariz torcido para a Revolução Sandinista, porque a considerava uma continuação da Revolução Cubana. Ortega entrou como turista, e não como chefe de Estado. A Polícia Federal ofereceu segurança para ele, para saber quais contatos ele teria aqui. Em julho de 1980, eles convidaram três pessoas do Brasil para o primeiro aniversário da Revolução Sandinista: Dom Paulo Evaristo Arns, cardeal de São Paulo, Lula e eu. Dom Paulo não pôde ir, então eu fui com o Lula.
PRIMEIRO ENCONTRO
COM FIDEL
Nessas comemorações, houve uma recepção para o Fidel Castro, e fomos eu e Lula. Às duas da madrugada, o padre d’Escoto nos convidou para conversar com o Fidel na biblioteca. Entramos às duas da madrugada, saímos às seis da manhã. A primeira pergunta que eu fiz a ele foi por que o Estado e o partido de Cuba eram confessionais. Ele levou um maior susto: “Como confessionais? Somos ateus”, ele disse. Eu sabia que o Estado cubano era oficialmente ateu, e o partido também. Disse a ele que afirmar ou negar a existência de Deus é mera confessionalidade, e que o Estado e o partido não podem ser confessionalizados, tinham de ser laicos. Ele me deu razão. Alguns anos depois, a Constituição cubana foi modificada. E o partido também modificou o seu estatuto. Hoje o Partido Comunista Cubano é laico e qualquer crente, qualquer pessoa de convicção religiosa pode ingressar no partido.
CONVITE DO COMANDANTE
A segunda pergunta que fiz foi sobre a relação da Revolução com a Igreja Católica. Eu sabia que era muito tensa, porque a Igreja Católica de Cuba era de formação franquista, da ditadura de Franco na Espanha, um clero e um episcopado muito reacionários, anticomunistas, e ligados aos Estados Unidos. Antes que ele me respondesse, eu citei três hipóteses. A primeira é que a Revolução perseguia a Igreja Católica. A segunda é que a Revolução era indiferente à Igreja Católica. E a terceira é que, sendo a Igreja Católica uma das instituições do povo cubano, a Revolução dialogava com ela. Então Fidel me disse que há 16 anos ele não recebia um bispo cubano, e que a atitude correta seria dialogar, e me pediu para ajudá-lo nisso. Eu disse que estava disposto. Fidel disse: “Então vamos cuidar disso”.
PRIMEIRA VIAGEM A CUBA
No ano seguinte eu fui a Cuba pela primeira vez, em 1981, e consegui fazer uma reunião com toda a Conferência Episcopal Cubana. Uma reunião extremamente tensa. Eu coloquei para eles a conversa e a proposta de Fidel, e eles começaram a discutir entre si, com mil fantasmas, que eu estava sendo manipulado, isso e aquilo, até que finalmente aceitaram conversar. Então, durante dez anos eu trabalhei na reaproximação entre a Revolução e a Igreja Católica.
A ENTREVISTA
Em 1985, o Fidel marcou de me dar uma entrevista. Em maio, eu fui para Havana. Quando cheguei, ele me chamou e delicadamente me disse que não poderia me dar a entrevista porque os contrarrevolucionários cubanos de Miami acabavam de inaugurar a rádio José Martí. Eu insisti, tinha preparado 64 perguntas. Na última tentativa, comecei a ler as perguntas. Quando cheguei na quinta, ele falou: “Amanhã iniciamos”. Qual a minha interpretação? Quando ele viu que eu estava perguntando como era a formação religiosa, como é que era a fé da mãe dele, do pai dele, a catequese, ele se entusiasmou. A entrevista foi traduzida em 23 idiomas.
IMPACTOS DA ENTREVISTA
Foi a primeira vez na história que um chefe comunista no poder falou positivamente da religião. Isso foi uma grande revolução, inclusive pela crítica que o Fidel faz à interpretação leninista e stalinista da famosa frase de Marx e Engels: “A religião é o ópio do povo”. A entrevista teve muito impacto no mundo socialista, que estava desabando na Europa. Eles se deram conta do grande erro que a esquerda de tradição stalinista cometeu de considerar que, para ser comunista ou para ser socialista, tinha que ser ateu. Os camponeses e operários comunistas no Brasil mantinham a fé, como na União Soviética, onde o povo praticava a fé ortodoxa, e em Cuba. E para não se queimar, para não poder ser vetado em empregos, escondiam isso.
PAULO FREIRE
Percebi que em Cuba havia três nomes proibidos: Freud, Trotsky e Paulo Freire. E eu pensei: como Paulo Freire? Se há alguma dívida que nós todos na América Latina temos com Paulo Freire é um cara como Lula ser presidente pela terceira vez. Quando me perguntam no exterior como é que explica esse fenômeno, num país tão elitista como o Brasil, eu falo: vocês têm que ler Paulo Freire. Foi ele que resgatou a autoestima dos oprimidos e eles se assumiram como protagonistas. Até então a esquerda, vanguarda do proletariado, era dirigida pela intelectualidade. E quando o proletariado resolveu criar seu próprio partido foi uma indignação na esquerda brasileira. Ficaram enciumados porque um grupo de sindicalistas resolveu fundar um partido que está aí até hoje, o PT.
EDUCAÇÃO POPULAR
Fidel acabou lendo Paulo Freire e se convenceu da importância dele. Eu nunca trabalhei com educação formal, trabalho com educação popular. Como enfiar educação popular, o método Paulo Freire, na escola formal? Você pode enfiar pequenos ingredientes, mas estruturalmente é como querer pôr um elefante na caixa de fósforos. A Nicarágua sandinista tentou, não conseguiu. Por quê? Porque o timing dos alunos não é o mesmo. Você não pode ter ano letivo. Não existe isso no método Paulo Freire. O João, que é camponês, ele vai fazer o primeiro grau em três anos, porque ele tem que conciliar o estudo com o trabalho. Mas a Maria, que é filha de um comerciante que tem recursos, ela pode fazer até em seis meses, porque ela não precisa trabalhar. Aí o Fidel propôs organizar em Cuba um encontro latino-americano de educação popular. Nenhum cubano participou do encontro, pelo preconceito a Paulo Freire. Dois anos depois, fizemos o segundo encontro. Os cubanos assistiram, não participaram. Só no terceiro encontro eles participaram. E aí se fundou em Cuba uma instituição que existe até hoje, à sombra da Igreja Batista, chamado Centro Martin Luther King de Educação Popular.
TRABALHO EM CUBA
Desde 2019 eu trabalho em Cuba pela FAO no Projeto de Soberania Alimentar e Educação Nutricional (Plan San). Nunca fui a Cuba a turismo, sempre vou a trabalho. Toda família cubana recebe uma cesta básica mensal. Agora, com a assessoria do Ministério de Desenvolvimento Social do Brasil, estamos fazendo o cadastro único em Cuba, como há aqui, para poder retirar a cesta básica daqueles que já são classe média ou até um pouco elite, por causa da introdução de iniciativa privada crescente na economia cubana, e poder reforçar a cesta básica daqueles que são mais vulneráveis.
ECOS DA REVOLUÇÃO
A Revolução Cubana foi feita para beneficiar toda a população, e não uma elite, e não uma classe. É o único país da América Latina que garante a toda a população os três direitos humanos fundamentais: alimentação, saúde e educação. Cuba hoje vive uma crise terrível, a revolução está praticamente desmontada por uma questão de sobrevivência e urgência. Há desigualdade gritante, há pobreza, mas ainda não a ponto de haver miséria. O cubano não come o que gostaria, come o pouco que dispõe, com muita dificuldade, com falta de energia, falta de gás. Tem gente cortando a árvore do quintal de casa para poder fazer fogo e cozinhar.
BLOQUEIO NORTE-AMERICANO
O bloqueio foi decretado em 1962, pelo ódio do Kennedy, porque Cuba expropriou várias empresas norte-americanas que exploravam o povo cubano. A revolução não foi feita para ser socialista, foi feita para ser uma revolução de libertação nacional. No grupo do iate Granma, que levou os guerrilheiros do México para Cuba, só havia uma pessoa verdadeiramente marxista, que era o Che Guevara. Os outros tinham o ideal de libertação nacional inspirado, não em Lenin ou Mao Tse Tung, mas em José Martí, pelas lutas de libertação que Cuba teve. Na Guerra Fria, Cuba passou a ser tutelada pela União Soviética, porque, senão, a revolução fracassaria. Hoje, quando me perguntam se eu acho que os Estados Unidos vão invadir Cuba, eu digo que não. Um país que foi tão agredido durante tantas décadas, evidentemente se preparou para uma agressão. O Trump, no primeiro mandato, estabeleceu 243 novas medidas para o bloqueio, e incluiu Cuba na lista de países patrocinadores de terrorismo. Isso significa fechar todo o sistema bancário internacional aos trâmites de importação e exportação. Cuba precisa fazer muitos negócios porque o país hoje importa 80% dos alimentos que consome.
TECNOLOGIAS DA TERRA
Cuba é o único país agricultável do Caribe. Mas a Revolução propiciou ao filho do camponês ir para a universidade. O filho do camponês foi para a universidade e não voltou para a terra. Ele virou médico, físico, economista, professor e foi para a cidade. Tudo bem se Cuba tivesse tecnologia rural, mas não tem. O que nós estamos fazendo no Plan San é introduzir novas tecnologias. Tecnologias criadas por próprios camponeses, como nós criamos aqui no Brasil, como um camponês do Sergipe que criou a cisterna que capta a água da chuva. A cisterna abastece uma família de quatro pessoas por oito meses. Estamos introduzindo isso em Cuba. E os chineses estão introduzindo muitos sistemas energéticos alternativos, como as placas solares.
PETRÓLEO
O Brasil não pode mandar petróleo para Cuba porque o Fernando Henrique Cardoso privatizou uma parte da Petrobras. Há uma parcela das ações da Petrobras na Bolsa de Nova York. Esses acionistas não aprovam o envio de petróleo brasileiro para Cuba, que consome 100 mil barris de petróleo por dia. Consegue produzir 40 mil, mas há um déficit de 60 mil. A Venezuela estava fornecendo petróleo, assim como o México, mas não estão mandando mais. A Rússia é que está enviando, mas é paliativo.
SOLIDARIEDADE
Como é que a gente faz solidariedade a Cuba hoje? Primeiro: denunciar o bloqueio. Não usem a palavra embargo. Embargo é algo palatável pelo direito internacional. Bloqueio é crime. Segundo: turismo político para Cuba. Está se preparando uma grande caravana para agosto, nos 100 anos de nascimento de Fidel, que nasceu em 13 de agosto de 1926. Terceiro: enviar remédios. Aí você tem duas maneiras. Se você vai viajar, leve uma mala de remédios. Eu já levei muitas vezes. O MST, através do Instituto Cultivar, está mandando medicamentos para Cuba. Conseguiu acordo com laboratórios para comprar no mesmo preço que o farmacêutico compra, estão colocando em aviões e mandando para Cuba em grande escala.
A professora M.*, do Instituto de Física, recebeu uma ótima notícia ao abrir o e-mail pessoal na semana retrasada. Entre as mensagens usuais do trabalho e as propagandas de sempre, descobriu que o governo havia liberado seu pagamento de ação dos 3,17%, movida pela AdUFRJ. O percentual é resultado de um reajuste ignorado pelo governo Fernando Henrique Cardoso logo no início do Plano Real (leia mais no quadro). Agora, a docente faz parte de um grupo de 858 colegas já beneficiados nestes processos, 152 somente em abril último.
“Foi uma grata surpresa. Não tenho nenhum plano especial para o dinheiro. Coloquei na poupança”, disse. “Quando velhos, ficamos preocupados com o dia de amanhã. Os seguros de saúde estão muito ruins, muito caros”, completou.
Não foi a primeira vez que a docente ganhou uma quantia graças a uma ação judicial do sindicato. “Na época da hiperinflação, décadas de 1980 e 90, a gente era garfado o tempo todo. Tinha ação judicial que a gente ganhava, que a gente perdia. Há uns dois anos, recebi um dinheiro que nem sei de qual ação da AdUFRJ saiu”, brincou.
O marido e o irmão, professores da UFRJ, também já receberam os valores relativos aos 3,17%. “Tenho um irmão professor que sofreu um AVC e entrei com o pedido dele. Ele recebeu no final do ano passado. Só posso fazer altos elogios aos advogados. O atendimento é muito bom”, afirmou.
A professora fica atenta ao meios de comunicação do sindicato para não perder nenhuma oportunidade como essa. “Sou fundadora da AdUFRJ, frequento muito a AD (associação docente) e leio sempre o jornal. Assim que saiu a ação, eu fiquei sabendo. E avisei outros colegas”, contou.
A professora só apresenta uma preocupação: as seguidas tentativas de golpes de falsos advogados. “Dois professores conhecidos levaram um trambique neste processo. Meu professor orientador sofreu um prejuízo de R$ 3 mil. Eles conseguem nossos telefones, nossos dados, usam a foto dos advogados da AdUFRJ. Isso é uma preocupação enorme”, relatou.
Um receio compartilhado pelo professor S.*, do Museu Nacional, que também recebeu o ganho judicial em abril. “Achei o atendimento jurídico muito bom. Nesse processo todo, o que incomodou foram as diversas tentativas de golpe. Algumas vezes, tive que verificar junto à AdUFRJ”, contou.
“Sabia que o dinheiro viria, mas não tinha planos específicos para uso. Por enquanto, pretendo manter investido”, completou.
MIL PROCESSOS
AGUARDAM DESFECHO
Assessor jurídico da AdUFRJ, o advogado Renan Teixeira informa que 152 processos de 3,17% foram pagos em abril deste ano. Destes, 138 foram precatórios. O restante é fruto de Requisições de Pequeno Valor. “As RPV são processos com pagamentos abaixo de 60 salários mínimos e são liberados mais rapidamente: em até 60 dias da ordem do juiz”, explica.
Já os precatórios, com o pagamento de valores superiores a 60 salários mínimos, dependem de liberação do orçamento por parte do governo e da data em que houve a ordem do juiz. “Precatórios inscritos até 1 de abril de 2024 foram pagos em 2025”, exemplifica Renan. “E desde a inscrição do precatório até a data do pagamento, existe correção monetária”.
Por conta de prazos legais, não é mais possível ingressar com novas ações dos 3,17%, mas ainda há 1.012 processos em andamento na Justiça, aguardando um desfecho.
O advogado da AdUFRJ informa, no entanto, que não dá para prever quando eles serão pagos. “Os processos são distribuídos pelas mais de 30 Varas Federais do estado. Cada uma com carga e ritmo de trabalho diferentes”.
Renan orienta que os professores devem desconfiar de qualquer pedido de taxas para liberação de valores relativos aos processos. “Os valores de processos judiciais são depositados em conta judicial no nome do autor da ação, da qual somente ele poderá sacá-los diretamente na instituição bancária”, explica. “Ao receber contatos exigindo pagamento de quantias para liberação de valores, entre em contato direto com os canais oficiais da AdUFRJ, a fim de averiguar a situação”.
O diretor da AdUFRJ, professor Pedro Lagerblad, considera a assessoria jurídica fundamental para a defesa dos direitos docentes, em temas como a ação dos 3,17%. “Os contracheques, com um monte de linhas que nem sempre têm um significado claro para nós, representam uma vulnerabilidade do ponto de vista dos nossos direitos. São valores que nem sempre se repetem e erros de cálculo, muitas vezes, passam despercebidos”, afirma. “A vigilância jurídica é um elemento importante neste sentido. A dinamização do serviço nos últimos anos contribuiu para ampliar a presença do sindicato junto aos professores”, completa Pedro.
“São vários processos e esse dos 3,17% foi, talvez, o que mais capilarizou no conjunto dos docentes, com valores que fazem a diferença na rotina. E isso nos dá também uma indicação do tamanho das perdas que sofremos ao longo do tempo”, diz o diretor.
Além dos 3,17%, a assessoria jurídica aborda temas como licença-prêmio, abono permanência, pagamentos de exercícios anteriores, entre muitas outras ações coletivas. Para se informar, o interessado deve marcar um horário no plantão realizado às terças, quartas e quintas. Envie e-mail para Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo. ou mensagem de whatsapp para (21) 99808-0672.
*Os professores não foram
identificados para não favorecer
a ação de golpistas
Foto: DivulgaçãoA exuberância da Floresta da Tijuca, uma das mais belas e conservadas porções da Mata Atlântica do país, se deve em boa parte ao trabalho de um morador ilustre daquelas matas, também ele um exemplo de beleza e conservação: o tucano-de-bico-preto. Reintroduzido no Parque Nacional da Tijuca (PNT) no início dos anos 1970, depois de praticamente desaparecido da fauna carioca por conta do desmatamento, o animal não só recuperou seu espaço na floresta como vem contribuindo para a proliferação de espécies vegetais nativas e ameaçadas de extinção na Mata Atlântica, como a palmeira-juçara. O sucesso da reintrodução do tucano-de-bico-preto no Parque Nacional da Tijuca e a importância de sua ação como dispersor de sementes são avaliados em um estudo liderado por pesquisadoras do Instituto de Biologia da UFRJ (IB/UFRJ), publicado em fevereiro na revista científica sueca Oikos. Principal autora do estudo, a bióloga Flávia Zagury destaca que a reintrodução da ave recuperou, em média, 76% das interações de frugivoria (consumo de frutos e dispersão de sementes) no Parque, no período de um ano de análise. Para as interações com sementes médias e grandes o resultado é ainda mais expressivo: 89% e 88%, respectivamente. Os tucanos são ótimos dispersores de sementes. Eles conseguem consumir frutos de vários tamanhos, e voam longas distâncias. “A dispersão de sementes é um processo muito importante nos ecossistemas”, explica Flávia, doutoranda no Programa de Pós-graduação em Ecologia do IB. Ela explica que que a Floresta da Tijuca, assim como outras áreas remanescentes de Mata Atlântica, é um ecossistema defaunado. “Ou seja, por ter passado por um processo de degradação, perdeu muitas espécies de mamíferos e de aves, sobretudo as de maior porte, como os tucanos. E, sem esses animais, as plantas que têm sementes de frutos médios e grandes perdem os seus dispersores. Os resultados desse estudo revelam que há um grande potencial de recuperação dessas interações”, avalia.
TRABALHO PIONEIRO
A história do estudo liderado pelas pesquisadoras da UFRJ começa no fim dos anos 1960, com a apreensão em massa de tucanos-de-bico-preto no comércio ilegal por agentes do então Instituto Brasileiro de Desenvolvimento Florestal (IBDF), o atual Ibama. E tem um personagem central: o biólogo cearense Adelmar Coimbra-Filho (leia box com perfil do pesquisador). Ao lado de Antonio Aldrighi, então diretor do PNT, Coimbra-Filho foi o responsável pela reintrodução de 47 tucanos-de-bico-preto na área do Parque, entre os anos de 1970 e 1973. Todos apreendidos no comércio ilegal. Em um trabalho publicado em 2000, o próprio Coimbra-Filho assim descreveu suas impressões sobre a reintrodução: “Após as solturas, os tucanos voavam imediatamente para árvores mais altas, onde permaneciam algum tempo, ocasião em que alguns emitiam suas inconfundíveis vocalizações, hoje frequentes nas matas da região. Aos poucos afastavam-se pelas ramagens do arvoredo da floresta, procurando alcançar as partes mais altas, de onde voavam e desapareciam da nossa vista”. Apaixonado pelo trabalho de Coimbra-Filho, Flávia Zagury tem orgulho em poder resgatar e avançar nas pesquisas com os tucanos-de-bico-preto. “O trabalho dele foi pioneiro e rende frutos até hoje. A população proveniente da reintrodução conduzida por Coimbra-Filho e Antonio Aldrighi já recuperou grande parte das interações de frugívora esperadas”, diz Flávia. De acordo com a bióloga, por ser uma ave de grande porte e capaz de voar longas distâncias, o tucano-de-bico-preto consegue dispersar sementes para novas áreas por meio da zoocoria — os animais ingerem frutos e dispersam as sementes longe da planta-mãe. “Para este estudo, fizemos observações em campo durante um ano para verificar com quais espécies a população de tucanos-de-bico-preto, proveniente da reintrodução, estava interagindo em termos de frugívora. Seguimos indivíduos ou bandos de tucanos durante o máximo de tempo possível, observando e anotando todas as espécies de fruto que eles consumiam. Totalizamos cerca de 520 horas em campo”.
NOVOS ESTUDOS
Para a professora Rita Portela (IB/UFRJ), outra autora do estudo, a pesquisa tem um viés de continuidade e resgate do trabalho feito por Coimbra-Filho nos anos 1970. “As reintroduções feitas na Floresta da Tijuca são muito recentes, casos dos bugios e das araras. Essa dos tucanos feita pelo Coimbra-Filho é a que temos um histórico mais longo, nos mostra como essas reintroduções são viáveis e como são importantes para a restauração das interações e funcionalidades da floresta”, explica a docente. “O tucano é um dispersor muito eficiente de sementes grandes, e essas sementes são de árvores que acumulam muito carbono. Esse é um outro fator importante da restauração dessa interação, já que essa dispersão seria muito pequena sem a ação de animais como os tucanos”, diz Rita. No estudo, os pesquisadores utilizaram a abordagem de “crédito de interações”, que se baseia na ideia de que, ao reintroduzir uma espécie localmente extinta, não apenas a espécie retorna ao ambiente, mas ela também tem o potencial de trazer de volta interações ecológicas que foram perdidas com a sua extinção. O tucano-de-bico-preto chegou a ser considerado extinto na área do PNT em 1968. Além de Flávia e Rita, assinam o estudo os professores Henrique Rajão (PUC-RJ), Ângelo Corrêa (USP) e Luisa Genes (Stanford University). Em sua pesquisa de doutorado, Flávia Zagury quer ir além. “Uma das espécies que a gente mais constatou como alimento dos tucanos-de-bico-preto foi a palmeira-juçara. No meu doutorado eu ampliei a gama de olhares para entender as interações ecológicas da palmeira-juçara na Floresta da Tijuca e no Poço das Antas (reserva biológica no interior fluminense). Tento entender o quanto cada espécie, como o tucano-de-bico-preto, está colaborando para aumentar a população da juçara, por meio da dispersão de sementes”, diz Flávia. Mais uma vez passado, presente e futuro se unem: a reserva de Poço das Antas foi criada a partir do trabalho de Adelmar Coimbra-Filho. A bióloga passa mais tempo em campo do que em laboratório. “Não é fácil trabalhar com tucanos, muito menos seguir os animais na floresta. Eles fazem ninhos em cavidades de árvore, você tem que escalar para conseguir monitorar”, conta. “De início fizemos esse trabalho no Jardim Botânico do Rio. Foi aí que começou a minha história com os tucanos-de-bico-preto. Eu vejo essas aves como um grande exemplo da história do Rio de Janeiro, da exploração que tivemos de nossas florestas, do desmatamento, até a recuperação que temos tido nos últimos tempos, com a refauna”, compara a pesquisadora.
E que os tucanos-de-bico-preto voem cada vez mais longe.
Embora tenha feito um trabalho notável com os tucanos-de-bico-preto na área do PNT, o biólogo Adelmar Faria Coimbra-Filho é mais conhecido por suas ações de preservação de outro animal: o mico-leão-dourado. Que, por sinal, era por ele chamado de sauí-piranga, que significa “primata vermelho” em tupi-guarani.
Considerado um dos maiores conservacionistas do Brasil, Coimbra-Filho foi o responsável pela criação da Reserva Biológica de Poços das Antas, em Silva Jardim (RJ), a primeira do gênero do país, em 1974. É lá que o sauí-piranga, antes ameaçado de extinção, vive em harmonia com a natureza.
Nascido em Fortaleza em 1924, Coimbra-Filho iniciou sua vida profissional no Rio de Janeiro, onde estudou História Natural e Zoologia, e desenvolveu trabalhos em áreas como Primatologia, Biologia de Vertebrados, Biogeografia e Conservação de Ecossistemas Naturais. Foi o primeiro diretor do Parque Florestal da Gávea (atual Parque da Cidade), em 1947. Depois de ocupar diversos cargos em instituições como o Jardim Zoológico do Rio de Janeiro e o Serviço de Parques e Reservas Biológicas, do antigo Estado da Guanabara, o biólogo dedicou-se ao estudo dos primatas — além da reserva de Poço das Antas, ele criou e foi o primeiro diretor do Centro de Primatologia do Rio de Janeiro (CPRJ), em 1979.
O CPRJ tem como principal objetivo assegurar a continuidade das espécies, por meio de um banco genético que dá suporte às colônias de primatas brasileiros. O centro cria somente primatas de espécies nativas do Brasil, com atenção especial para aquelas sob algum risco de ameaça de extinção. Por essas iniciativas, Coimbra-Filho é considerado “o pai da primatologia brasileira”. O biólogo faleceu no Rio de Janeiro aos 92 anos, em 2016.