Nos últimos 20 anos, o Brasil avançou na busca pela equidade de gênero na pesquisa. Hoje, 49% das autorias de artigos científicos brasileiros são de mulheres, o que deixa o país em terceiro lugar no ranking mundial de participação feminina na pesquisa. Os ótimos números, no entanto, escondem grandes desafios ainda enfrentados pelas cientistas. Ao longo do desenvolvimento da carreira acadêmica, as mulheres deixam de ser maioria e se tornam minoria. Esse é o chamado “efeito tesoura”, que descreve a queda desproporcional de mulheres em cargos de liderança científica.
Dados do Plano Nacional da Pós-Graduação mostram que mulheres são maioria entre os estudantes de pós-graduação.
Elas representam 57%do total das vagas ativas. Quando falamos das doutoras formadas, o número cai para 54%. Elas são 43% dos docentes de pós-graduação e apenas 35% do total de bolsistas de produtividade do CNPq. No nível mais alto da bolsa, a de Pesquisador 1-A, as mulheres são apenas 23%.
Para tentar mudar essa realidade, agências de fomento estaduais e federais passaram a desenvolver uma série de iniciativas, como editais específicos para mulheres e prêmios para destacar a atuação feminina na pós-graduação. Além dessas iniciativas, há ações que buscam pontuar diferenciadamente ou reconhecer os períodos de licença-maternidade das pesquisadoras. Muitas dessas ações foram pautadas pelo movimento Parent in Science.
A professora Sabrina Baptista Ferreira é a embaixadora do Parent in Science na UFRJ. Ela conta que foi do grupo a iniciativa de pleitear junto ao CNPq a introdução da linha que indica os períodos de licença-maternidade no Currículo Lattes. “Tivemos atuação nessa conquista e em outras. Hoje a Plataforma Sucupira, da Capes, tem o campo destinado à licença-maternidade. Atuamos nas discussões sobre aumento de prazos para a avaliação das mulheres que têm filhos pequenos”, elenca. “No caso da UFRJ, dentro das políticas de ações afirmativas há um fator de correção para alunas mães. Enfim, são várias frentes”.
Apesar dos avanços, ainda há um longo trajeto a percorrer. “Indicamos, por exemplo, a importância de termos mais mulheres em Comitês de Área. O que percebemos muito fortemente é o ‘efeito tesoura’ na ciência. Há um número muito mais expressivo de mulheres do que de homens na graduação, mas esse número começa a se inverter quando chegamos à carreira acadêmica”.
O esforço, segundo a docente, é que essas iniciativas se traduzam em políticas públicas para garantir a ampliação da participação de mulheres em todos os níveis da carreira, não só nos iniciais. “Por isso precisamos batalhar para que mais mulheres estejam em posições de liderança e decisão. Diversidade de gênero se traduz em diversidade de ideias e ações”, defende. O estereóripo, para a docente, ainda é um desafio para as pesquisadoras. “Quando uma mulher levanta a voz e tenta se impor numa reunião, ela é caracterizada como estressada, nervosinha. Ainda é um grande desafio para as docentes pesquisadoras se impor sem serem rotuladas”.
BARREIRAS ATITUDINAIS
Esses rótulos estariam dentro de um conjunto de atitudes que a professora Ana Cristina Barros da Cunha, titular do Instituto de Psicologia, chama de barreiras atitudinais. “São barreiras que todas as minorias que não têm direitos assegurados enfrentam”, explica. “Essas barreiras são relacionadas a crenças, que geram as atitudes e formam rótulos frente a tudo que é feminino. Crença de que a mulher é mais frágil e, por isso, inábil para determinadas tarefas. Mas não se trata só da força física, mas de uma força simbólica que classifica o feminino como inferior”, analisa. “A mulher, então, é rotulada como inadequada para determinadas funções e espaços, principalmente os relacionados a gestão e liderança. O imaginário simbólico relega ao feminino uma condição de inferioridade aos homens”.
Essas barreiras, de acordo com a pesquisadora, não se traduzem em falas diretas de interdição. “Ninguém fala que você não pode ser uma diretora porque você é mulher, mas as atitudes dizem isso quando invalidam a sua fala, por exemplo”, aponta. “Essas barreiras atitudinais, então, se transformam em barreiras de acesso, que são ainda mais sentidas pelas mulheres mães, trans, negras”. Ela cita o exemplo da UFRJ. “Não temos o benefício da creche na universidade para deixar os filhos. Isso facilitaria a rotina feminina de dupla jornada e ajudaria no desempenho na vida profissional e pessoal. Isso se torna uma barreira concreta que vai te exigir manobras e criação de estratégias para conciliar a maternidade”, diz a pesquisadora. “Embora a maternidade faça parte do feminino, ela não é considerada dentre os desafios para a realização profissional de uma mulher”.
A docente alerta para os efeitos emocionais causados pelas barreiras impostas, somadas à grande exigência de performance acadêmica e à atuação em casa, nos cuidados com filhos ou pais idosos. “Tudo isso gera sobrecargas física, emocional e mental, que podem se desdobrar como quadros psicossomáticos e transtornos mentais comuns”, explica Ana Cunha. “Quando o estresse chega a um nível de exaustão, o corpo grita e a mulher pode desenvolver psoríase, fibromialgia, síndrome do colo irritável, alopécia. Tudo isso pode gerar quadros ainda mais graves como depressão e burnout”, aponta a pesquisadora. “Especialmente em casos de maior exigência como pesquisadoras cientistas com bolsa de produtividade, para quem a alta qualidade da produção científica é obrigatória”.
O desenvolvimento de políticas públicas para a redução desses quadros é um caminho, acredita a docente, mas sozinhas não resolverão o problema. “Se não forem implementadas em níveis de promover a sensibilização e o letramento sobre o feminino, essas políticas vão ser inócuas. A política é uma estratégia, mas a mudança de crenças que sustentam os estigmas sobre a mulher é o grande desafio”.
Diretora de Gestão da Capes, a pesquisadora Luciana Mendonça Gottschall concorda. Ela atua na agência para promover justamente essa sensibilização interna. “Quando pautamos esse debate internamente, atuamos para que essas ações reverberem também nas nossas políticas de pós-graduação e pesquisa”, avalia. “Nós trabalhamos para conscientizar as equipes e avaliadores sobre as violências invisíveis que atingem as mulheres no ambiente de trabalho. Esse processo precisa ser pensado em conjunto com as políticas de promoção da equidade de gênero”, acredita.
Ela conta que no início da gestão da atual presidenta da entidade, a professora Denise Pires de Carvalho (ex-reitora da UFRJ), em 2024, foi instituído na Capes o Comitê Permanente de Ações Estratégicas e Políticas para Equidade de Gênero, e que as ações desenvolvidas têm participação dos homens. “Normalmente falamos para nós mesmas, mas temos investido em trazer homens para esse debate. Eles são gestores, são também avaliadores. Nós gerenciamos políticas públicas na área científica e precisamos dessa mudança de cultura, desse olhar diferenciado”. Ela faz um apelo aos colegas pesquisadores: “Compreendam seus privilégios e entrem conosco nessa luta”.





