Ela é a caçula entre os mais de quatro mil professores da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Annah Bárbara nasceu em São Gonçalo (RJ), tem 26 anos e um orgulho gigante de ser docente do curso de Gastronomia. Não foi fácil chegar até aqui. Na graduação, era bolsista de iniciação científica, monitora e ainda se desdobrava trabalhando numa padaria. Hoje tenta fazer do magistério um espaço diário de transformação de destinos. Particulamente das mulheres.
“Na gastronomia, essa discussão é particularmente importante. Historicamente, a cozinha doméstica foi atribuída às mulheres, enquanto as cozinhas profissionais foram ocupadas majoritariamente por homens e marcadas por hierarquias rígidas e, muitas vezes, ambientes de trabalho hostis”, conta. “Trazer esse debate para a sala de aula significa questionar essas estruturas e construir uma cultura profissional mais justa e respeitosa”.
Por que escolheu ser professora?
Porque acredito profundamente na educação pública como um instrumento de transformação social. A universidade, especialmente em um país marcado por desigualdades estruturais, tem o papel de ampliar horizontes e criar possibilidades que muitas vezes não estavam dadas no início da trajetória de um estudante.
Na gastronomia, isso se torna ainda mais evidente. A cozinha é um espaço onde se cruzam cultura, ciência, política alimentar e cuidado. Ensinar gastronomia não é apenas ensinar técnicas culinárias, mas discutir sistemas alimentares, sustentabilidade, saúde coletiva e o direito humano à alimentação adequada. Ser professora, para mim, é justamente participar desse processo de formação crítica, ajudando estudantes a compreender que cozinhar também é um ato político e social.
Ser mulher hoje é conviver com o medo diário. Qual o papel de uma professora para reduzir a violência de gênero?
A universidade é fundamental para transformar mentalidades e estruturas sociais. Como professora, acredito que nosso papel é contribuir para formar profissionais e cidadãos capazes de reconhecer e enfrentar as desigualdades de gênero.
Na gastronomia, essa discussão é particularmente importante. Historicamente, a cozinha doméstica foi atribuída às mulheres, enquanto as cozinhas profissionais foram ocupadas majoritariamente por homens e marcadas por hierarquias rígidas e, muitas vezes, ambientes de trabalho hostis.
Trazer esse debate para a sala de aula significa questionar essas estruturas e construir uma cultura profissional mais justa e respeitosa.
Reduzir a violência de gênero passa também por educação, por diálogo e por visibilidade. Cada aula pode ser um espaço de construção de novas referências, onde respeito, equidade e cuidado sejam valores centrais.
Como imagina que será o ofício docente daqui a 40 anos, quando você tiver apenas 66 anos?
Imagino que o ofício docente continuará sendo profundamente humano, mesmo em um mundo cada vez mais mediado por tecnologia. Ferramentas digitais e inteligência artificial certamente transformarão a forma como acessamos e produzimos conhecimento, mas o papel do professor continuará sendo o de mediar, contextualizar e dar sentido a esse conhecimento.
Na gastronomia, acredito que veremos mudanças muito significativas relacionadas à sustentabilidade, aos sistemas alimentares e às novas relações de trabalho.
A formação universitária terá um papel fundamental em preparar profissionais capazes de lidar com os desafios climáticos e sociais do futuro. Espero que, daqui a 40 anos, a universidade pública continue sendo um espaço de pensamento crítico, diversidade e compromisso com a sociedade. E a gastronomia seja um espaço profissional com regulamentação e organização trabalhista forte.
Qual mensagem gostaria de deixar para as docentes mais experientes?
Gostaria de expressar, antes de tudo, minha profunda admiração e gratidão. A universidade pública que hoje habitamos foi construída por gerações que dedicaram suas vidas à educação, à pesquisa e à defesa do conhecimento. Às professoras, em especial, agradeço por todas as portas que foram abertas e lutas que foram sustentadas para que hoje eu e diversas outras jovens pesquisadoras tenham espaço na universidade.
Para quem chega agora à docência, essas trajetórias são referências fundamentais. A universidade é, em essência, um projeto coletivo entre gerações. Se hoje posso estar aqui, é porque muitas professoras vieram antes e abriram caminhos. Meu desejo é que possamos seguir construindo esse espaço juntas, com diálogo, respeito e compromisso com a educação pública.
Qual o desafio de ser docente com apenas 26 anos de idade?
Ser uma professora jovem traz desafios e também possibilidades. Ter uma idade próxima à dos estudantes cria uma dinâmica particular em sala de aula. Essa proximidade muitas vezes facilita o diálogo e torna o ambiente de aprendizagem mais aberto, pois os alunos se sentem confortáveis para compartilhar dúvidas, experiências e desafios da profissão. No entanto, essa mesma proximidade exige um cuidado constante na construção da autoridade pedagógica e na definição de limites claros em relação à ética profissional.
A questão geracional também se cruza com questões de gênero. Em muitos ambientes acadêmicos e profissionais, professores homens jovens podem circular em espaços mais informais com os alunos sem que isso seja necessariamente questionado ou implique sobre a sua imagem profissional.
Para uma professora mulher, especialmente sendo jovem, existe frequentemente uma expectativa de delimitar essas fronteiras de forma mais explícita. Procuro lidar com isso de maneira serena, mas consciente, estabelecendo parâmetros claros de respeito, profissionalismo e responsabilidade nas relações.
Ao mesmo tempo, fui muito bem recebida pelos colegas e alunos e encontrei um ambiente de grande acolhimento e validação profissional na UFRJ, o que torna esse início de carreira seguro e estimulante.
Na gastronomia, essa proximidade geracional também permite que debates muito presentes na realidade dos alunos apareçam com força no espaço acadêmico. Questões relacionadas às condições de trabalho nas cozinhas profissionais, às jornadas exaustivas e às discussões atuais sobre modelos, como a escala 6x1, fazem parte do cotidiano de muitos estudantes que já atuam no setor.
Trazer essas experiências para a universidade é fundamental para que possamos refletir criticamente sobre o mundo do trabalho na gastronomia, e pensar caminhos mais justos e sustentáveis para a profissão.
Acredito que a juventude também traz uma escuta atenta às transformações do presente. Estamos vivendo debates intensos sobre sustentabilidade, cultura alimentar, sistemas produtivos e justiça social. Estar próxima da geração de estudantes me permite dialogar com essas mudanças de forma muito viva. Tento transformar essa condição em uma ponte entre tradição e inovação, entre o conhecimento consolidado e as inquietações do nosso tempo.





