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As mudanças climáticas são um problema grave a ser enfrentado pela humanidade. Quem diz isso é um grupo de centenas de cientistas espalhados por todo o mundo, fireque atua em conjunto no Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (da sigla em inglês IPCC) das Nações Unidas. O painel conta com a participação de professores da UFRJ, referências nas suas áreas de pesquisa, mostrando a excelência da universidade. O painel apresentou um novo relatório, no dia 9 de agosto, fruto de um enorme trabalho coletivo. O Jornal da AdUFRJ conversou com duas pesquisadoras da UFRJ que integram o IPCC para saber como é construído um trabalho dessa dimensão.

Claudine Dereczynski é professora do Departamento de Meteorologia do Instituto de Geociências da UFRJ. Foi a sua primeira colaboração para o IPCC, e para integrar o time de pesquisadores do painel a professora concorreu com 900 cientistas por 250 vagas. Em outubro de 2017, ela se candidatou a uma das vagas para produzir o sexto Relatório de Avaliação (AR6) do IPCC. “Me candidatei como lead author do capítulo sobre extremos climáticos, e em fevereiro de 2018 recebi a notícia que fui selecionada”, contou a professora.

O IPCC é dividido em três grupos de trabalho. O Grupo 1 é responsável pelas análises das bases físicas e científicas das mudanças do clima. O Grupo 2 estuda o impacto da mudança do clima na sociedade e ecossistemas, e o Grupo 3 analisa as estratégias de mitigação das mudanças climáticas. Claudine faz parte do primeiro grupo. “O que nós fazemos é uma avaliação de tudo o que foi publicado desde o último relatório, em 2013, até o presente”, explicou a professora. O primeiro relatório do IPCC foi publicado em 1990, e a cada ciclo de aproximadamente cinco anos, um novo documento é elaborado.

No papel de lead author, Claudine foi responsável pelo capítulo 11, sobre eventos extremos, como picos de temperatura, de chuvas e fenômenos climáticos como furacões, e qual é a projeção para o futuro. “Eu coordenei a seção 11.9 no meu capítulo e o time de pesquisadores da América do Sul”, contou a professora, que já pesquisava o tema desde o começo dos anos 2000.

“Eu já fazia trabalhos com mudança climática, sobre detecção das mudanças climáticas no Brasil e América do Sul. Para nós que trabalhamos com mudanças climáticas, esse relatório do IPCC é a palavra final, o que há de mais importante sobre o tema, uma referência muito forte”, avaliou Claudine. Ela concorda que a dinâmica de trabalho e pesquisa cria um ciclo virtuoso de progresso da Ciência, porque as lacunas de um relatório anterior tendem a ser preenchidas no seguinte. “A cada ano vai melhorando. Outros pesquisadores ficam interessados e vão pesquisar sobre os assuntos para os quais faltaram dados no ciclo atual de elaboração do relatório”, contou.

Embora enriquecedora do ponto de vista científico, a experiência de trabalhar em conjunto com pesquisadores de todo o mundo não é fácil, e tudo ficou mais difícil com a pandemia. O grupo chegou a fazer três encontros presenciais, mas um quarto encontro foi descartado. “As reuniões online eram muito prejudicadas pela diferença de fuso horário dos autores. O encontro que era presencial e duraria uma semana, teve que durar um mês online, para diminuir o cansaço”, relatou.

PRESENÇA BRASILEIRA

A vice-diretora da Coppe, Suzana Khan Ribeiro, também reconheceu os impedimentos impostos pela pandemia ao trabalho do IPCC. “A pandemia dificultou muito o trabalho, principalmente para os países em desenvolvimento porque é preciso um bom acesso à internet”, disse a pesquisadora, que participa do IPCC desde o terceiro relatório, publicado em 2001. “Há ainda a questão da língua. Usamos o inglês, e uma coisa é falar uma língua estrangeira pessoalmente, outra por videoconferência, onde se perde um pouco da linguagem corporal”, explicou.

Suzana está no Grupo 3 e é responsável pelo capítulo que apresenta opções de tecnologias para o setor de transportes, como a eletrificação, uso do hidrogênio como combustível, cidades inteligentes e utilização mais eficiente do solo, mas não pôde dar mais detalhes em respeito ao compromisso de confidencialidade assumido com o IPCC.

Trabalhando junto ao IPCC há mais de 20 anos, Suzana é testemunha da mudança de papel que o Brasil teve na discussão sobre o clima. “Quando participei da primeira vez, o Brasil era muito ativo nas negociações climáticas, e não tinha tanta gente trabalhando com mudanças climáticas naquela época, o país participava muito desses debates”, contou a professora. “Como eu participava muito dessas discussões, fui chamada para contribuir na questão da transferência de tecnologia, principalmente na questão do etanol e do BRT de Curitiba, casos em que o Brasil era exemplo”, complementou. Na opinião da pesquisadora, é um desastre que o Brasil tenha perdido seu protagonismo nas discussões climáticas, mas ainda é possível reverter o quadro. “É uma situação ruim. Acho que ainda é possível retomar, mas estamos perdendo muito espaço no fórum internacional”, avaliou.

A presença de pesquisadores brasileiros no painel há tanto tempo ajuda a criar uma cultura de pesquisa sobre o tema no país, mas é pouco. “Sem recursos, sem condições de as pessoas se dedicarem às suas pesquisas, é muito difícil”, disse Suzana, reconhecendo a crise pela qual passa a pesquisa brasileira, e o não reconhecimento da emergência climática por parte da esfera pública. “Ainda temos muitos pesquisadores trabalhando, quase como teimosia, mas é uma perda irreparável para a nossa pesquisa e para a nossa política”, explicou. Na sua visão, as discussões sobre mudanças climáticas não tratam apenas do planeta, mas de economia, de processo de desenvolvimento e de pensar o futuro da sociedade, mas a tarefa é inglória. “É muito frustrante ser cientista do clima, porque não tem eco na sociedade, ainda mais na atual conjuntura”, resumiu.


URGÊNCIA CLIMÁTICA

O aquecimento da temperatura do planeta é um fato, os efeitos serão catastróficos para a humanidade e o curso da sociedade deve mudar imediatamente para que haja uma redução desses impactos. Assim pode ser resumido o Relatório de Avaliação 6 do Grupo 1 do IPCC, que analisa as mudanças climáticas pelas quais passa o planeta. O físico Paulo Artaxo, professor da USP e um dos cientistas colaboradores do painel, apresentou os resultados em um colóquio virtual organizado pelo Instituto de Física da UFRJ, no último dia 19.
O pesquisador começou a sua fala apresentando a abordagem direta da comunicação que o IPCC adotou na apresentação do texto mais recente, efeito da urgência imposta pela velocidade das mudanças. O relatório apresenta algumas frases importantes, que passam o senso de urgência e que foram apresentadas pelo físico. Entre elas:
“Mudanças recentes no clima são generalizadas, rápidas e intensificadas e sem precedentes em pelo menos 6,5 mil anos”.
“É indiscutível que as atividades humanas estão causando mudanças climáticas, tornando eventos climáticos extremos, incluindo ondas de calor, chuvas fortes e secas, mais frequentes e severas”.
“Todas as regiões do globo já são afetadas por eventos extremos como ondas de calor, chuvas fortes, secas e ciclones tropicais provocadas pelo aquecimento global”.
“Cada uma das últimas quatro décadas foi sucessivamente mais quente do que qualquer outra década que a precedeu desde 1850”.
“A menos que haja reduções imediatas rápidas e em larga escala nas emissões de gases de efeito estufa, limitar o aquecimento a 1,5ºC pode ser impossível”.
Artaxo também apresentou uma correlação entre o crescimento de tendências socioeconômicas, como a população urbana, uso da água e de fertilizantes, com fenômenos que aumentam o aquecimento do planeta, como a emissão de gases do efeito estufa e a diminuição de área de floresta tropical. “Em um planeta onde você tem recursos naturais finitos, não existe crescimento exponencial ad infinitum”, explicou o professor. “Estamos no antropoceno, a era em que os humanos se tornaram uma força geofísica planetária”, concluiu.

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