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WhatsApp Image 2021 08 20 at 13.24.26ANDRÉA BORDE (depoimento dado para as jornalistas ANA BEATRIZ MAGNO e SILVANA SÁ, da AdUFRJ)

Recebi a notícia do leilão do Palácio Capanema no dia do meu aniversário. Já não bastava trocar de idade, eu ainda tinha que perder minhas memórias? O MEC é a minha memória afetiva. Tenho muitas lembranças dali. O Capanema é o que chamamos de síntese das artes. Todas as artes estão representadas e integradas à arquitetura naquele espaço.
Lembro-me que ao iniciarmos a pesquisa sobre os ícones urbanos e arquitetônicos do Rio de Janeiro, coordenada pelo professor Roberto Segre, do PROURB, tínhamos planos de fazer vários deles. No entanto, a importância do Palácio Capanema nos levou a dedicar mais de dez anos o estudando. Esta pesquisa virou um livro publicado pela Romano Guerra. O subtítulo “O ícone da modernidade brasileira do século XX” não foi escolhido à toa. O edifício inscreveu o Brasil no cenário da arquitetura moderna internacional desde os anos 1940.
O Palácio Capanema é uma ‘mini-Brasília’. Nele trabalharam Jorge Machado Moreira, que depois foi projetar a Cidade Universitária da UFRJ e seus primeiros edifícios, Oscar Niemeyer, Lúcio Costa, Carlos Leão, Affonso Eduardo Reidy, Ernani Vasconcellos, Le Corbusier. O prédio é uma escola para outros arquitetos. É um dos primeiros edifícios de pilotis, nessa escala de palácio. Ele integra a quadra à cidade. E essa integração é algo fundamental. Existe um aprendizado. Você vai passeando, vai descobrindo lugares. É algo que te instiga a andar, a conhecer mais a cidade. Edifícios que têm esse valor são documentos. Victor Hugo dizia que a arquitetura é o livro de pedra da humanidade. Eu diria que o MEC é um documento de valor inestimável.WhatsApp Image 2021 08 20 at 13.22.01
O edifício é a aula e a alma da arquitetura, que podemos usufruir como aluno, como professor, como arquiteto. É um edifício profundamente inovador. Um dos primeiros a ter piso elevado, em que toda a fiação passa por baixo. Ali há uma plena integração da arquitetura com a engenharia. É uma aula não só para arquitetos, mas para engenheiros e para quem trabalha com restauro.
Também podemos dizer que o Capanema expressa o início da Cidade Universitária. O Edifício Jorge Machado Moreira, antiga sede da Faculdade de Arquitetura, no Fundão, tem muitos elementos do primeiro projeto do MEC, sobretudo da versão proposta para a rua Santa Luzia. A experiência de Jorge Machado Moreira, ao ter participado desse projeto que concebeu o MEC, naquele momento histórico, é a raiz da Cidade Universitária da UFRJ. Nosso campus é um dos poucos exemplos desse conjunto moderno. Ele é contemporâneo a Brasília, contemporâneo à Universidade de Brasília.
No momento em que Paulo Guedes decide vender esse patrimônio para a iniciativa privada, ele impede que a sociedade continue tendo acesso a este bem. A justificativa é que o edifício está há muitos anos em restauro. A dificuldade não é de conhecimento técnico para realizar as obras, é orçamentária. Em 1945, foi dito que a Cidade Universitária seria construída no Fundão. Ao mesmo tempo, começou a ser restaurado o Palácio Universitário. Em 1953, foi inaugurado o IPPMG. Em 1955, começaram a construir Brasília, a UnB e outros edifícios da Cidade Universitária. A verba vinha do mesmo lugar que vem hoje. Mas antes existia vontade política de atuar nessas frentes. Havia o entendimento de que era importante o Brasil superar seus atrasos de desenvolvimento.
WhatsApp Image 2021 08 20 at 13.23.32Felizmente, a venda para a iniciativa privada não pode acontecer. Esse é um patrimônio tombado e todos os imóveis públicos tombados são inalienáveis. Eles só podem ser vendidos para outros entes federativos. Talvez tenha sido essa a motivação para o Governo do Estado e a Prefeitura do Rio aventarem a possibilidade de compra: mantê-lo como um imóvel público acessível a todos. A notícia de última hora, no entanto, é que o Paulo Guedes desistiu de colocar o MEC nesse leilão. O fato de o governo ter aparentemente desistido é, sem dúvidas, uma vitória da articulação de todas as instituições ligadas ao patrimônio e à arquitetura. Várias associações nacionais se mobilizaram para dizer não a este absurdo. Há coisas que não têm preço. Esta é uma vitória da história e do futuro. Quando apreciamos um edifício como esse, é o nosso olhar do presente que olha para este passado e projeta o futuro. Proteger esse patrimônio, portanto, é fazer com que ele chegue ao futuro, com que as ideias ali agrupadas alcancem o futuro.
Não desistamos da arquitetura, jamais. A arquitetura é a memória geral de uma sociedade.

* O Palácio Capanema, também conhecido como “prédio do MEC”, foi projetado e construído entre 1937 e 1945, numa das áreas resultantes da demolição do Morro do Castelo, para abrigar o Ministério da Educação e Saúde. Esta nova pasta era chefiada, à época, pelo ministro Gustavo Capanema. É o primeiro prédio moderno nesta escala  na América Latina, que agrupa os chamados “Cinco Pontos da Nova Arquitetura”, de Le Corbusier: planta livre, fachada livre, janelas em fita, pilotis e terraço jardim. Foi projetado por uma equipe composta por Lúcio Costa, Carlos Leão, Oscar Niemeyer, Affonso Eduardo Reidy, Ernani Vasconcellos e Jorge Machado Moreira (ex-aluno da então Escola Nacional de Belas Artes, projetou o conceito arquitetônico e urbanístico do campus Fundão), com a consultoria do arquiteto franco-suíço Le Corbusier. Cândido Portinari assina os painéis de azulejo e quadros nos pilotis e no interior do edifício. Ainda há esculturas de Bruno Giorgi, Celso Antônio de Menezes (ex-professor da EBA/UFRJ), Adriana Janacópolos e Jacques Lipchitz. O Palácio foi tombado por sua importância cultural ainda em 1948, logo após sua inauguração.

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