WhatsApp Image 2021 11 05 at 19.27.24Uma intensa articulação de agentes públicos e entidades privadas em apoio a medidas pautadas pela Ciência tornou Macaé a cidade do estado do Rio mais eficiente no combate à pandemia, em 2020. É o que aponta um estudo do Instituto de Biodiversidade e Sustentabilidade (Nupem/UFRJ) publicado em outubro na britânica Nature, uma das revistas científicas mais renomadas do mundo. Nos seis primeiros meses da pandemia, a cidade do Norte Fluminense registrou 1,8% de letalidade com a covid-19. Uma taxa bastante inferior à da capital, de 10,6%, no mesmo período.
O Nupem montou um laboratório que realizou mais de 15 mil testes PCR para detecção do coronavírus, entre abril de 2020 e janeiro deste ano. Todo paciente que procurava a rede pública de saúde em Macaé era testado pela universidade. A iniciativa contou com o apoio da prefeitura local, do Ministério Público Federal e do Ministério Público do Trabalho, além de entidades privadas, que atuaram na compra de insumos. Todo o trabalho, que mobilizou professores, pós-graduandos e técnicos do instituto, recebeu a orientação do Laboratório de Virologia Molecular da UFRJ, coordenado pelos pesquisadores Amilcar Tanuri e Orlando Ferreira.
O artigo mostra que o monitoramento da pandemia, com testagem, acompanhamento permanente de casos e cruzamento de dados entre os resultados e o perfil dos infectados, somado à correlação com a sua localidade, foram medidas determinantes para diminuir o contágio e a letalidade na cidade. Quem explica é a professora Cintia Monteiro de Barros, uma das pesquisadoras que assina o artigo. “Macaé foi uma das cidades do Rio com o menor número de mortes relacionadas à covid-19, e isso é fruto do que fizemos aqui, a testagem com padrão ouro”.
E já que o novo coronavírus representa uma fronteira para a produção de conhecimento, os cientistas do Nupem não vão parar com a publicação na Nature. A partir de todos os dados coletados até aqui, prossegue a investigação dos efeitos da pandemia na população. Uma das frentes de trabalho trata da circulação das variantes na região e a relação delas com o quadro de infecção dos pacientes. “Nós conseguimos observar que determinados tipos de mutações levavam as pessoas à morte. Este artigo está em fase final de redação”, conta a professora. “Vamos analisar as mutações específicas das variantes para avaliar se algumas delas levaram a casos mais graves”.WhatsApp Image 2021 11 05 at 19.42.47
Durante seis meses, 350 pacientes testados pelo grupo também foram chamados, como voluntários, para acompanhamento da imunidade. “As pessoas foram infectadas pela doença e, antes da vacina, nós acompanhamos, mês a mês, a imunidade das pessoas, quais tipos de anticorpos elas produziam e por quanto tempo”, relata Cintia.
A eficácia da vacinação é outro foco de atenção. “Coletamos o sangue das pessoas antes da vacina, e depois fizemos coletas mensais para ver a produção de anticorpos. Já estávamos monitorando a eficácia da primeira e segunda doses, e agora ganhamos um edital da Faperj para fazer o mesmo com pacientes que tomaram a terceira dose”, detalha.
O Nupem se guiou pela multidisciplinaridade. Cintia é biomédica e não atuava na área de virologia, a exemplo de outros colegas envolvidos na pesquisa. Estudava imunologia de invertebrados marinhos. Ela foi uma das voluntárias recrutadas pelo professor Rodrigo Fonseca, coordenador dos testes. Mas adaptar seu trabalho não foi tão complicado. “Todo cientista tem o método científico dentro de si. Sem o apoio que tivemos de especialistas na área, não teríamos todo esse êxito. Foi um conjunto de pessoas com vontade de trabalhar e pessoas com boas ideias relacionadas à Ciência”, diz Cintia. A professora faz questão de ressaltar o apoio dos pesquisadores Amilcar Tanuri, Orlando Ferreira e Leda Castilho, da Coppe. “Eles foram muito gentis com a gente”.
Jornada parecida teve a professora Ana Petry, especialista em ecologia de peixes de lagoas e ambientes costeiros. “Quando soube que os professores estavam começando a se mobilizar para começar os primeiros testes, eu me ofereci. Como entendia de planilhas de Excel, comecei ajudando a organizar o estoque e a calcular a demanda por insumos”, conta a professora, que também trabalhou na higienização dos laboratórios. Em seguida, Ana ajudou na análise dos dados coletados. “Na ecologia, temos formas de analisar os dados que se mostraram muito adequadas para analisar os dados dos infectados. Ficou um trabalho muito multidisciplinar”, explica.
Ana destaca a importância dos resultados alcançados em uma cidade com as características de Macaé, onde o mercado de petróleo gera um fluxo permanente de pessoas chegando e saindo o tempo todo. “Aí está a importância da universidade pública, que foi capaz de fornecer respostas rapidamente para o gestor público”, avalia. A localização dos casos era compartilhada o tempo inteiro com a prefeitura, que tomava as decisões de combate à pandemia. Um esforço que rende frutos até agora: Macaé possui a menor taxa atual de letalidade (2,1) entre os municípios com mais de 500 mil habitantes do estado fluminense.
 “O investimento em testagens fez muita diferença para uma cidade que, possivelmente, estaria fadada a ter números piores de casos e mortes. Essa história poderia servir de exemplo para muitos outros lugares”, conclui Ana.

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