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WhatsApp Image 2021 07 16 at 20.58.19A segunda edição do Festival do Conhecimento mostrou a potência da UFRJ como lugar de criação e encontro dos saberes produzidos dentro e fora da academia. Com o tema “Futuros possíveis”, o evento durou cinco dias, mobilizou mais de 10 mil pessoas e apresentou uma temática ousada e diversa com participação ativa da comunidade acadêmica. Foram exibidas 536 transmissões ao vivo e 700 palestras gravadas. A programação tratou desde vacinas a shows de artistas, como Margareth Menezes e Pretinho da Serrinha. “Não há futuros possíveis sem universidades públicas, sem o local da geração do conhecimento”, resumiu a reitora Denise Pires de Carvalho, na cerimônia de abertura, na manhã do dia 12.
Foi uma solenidade simbólica. Participaram 10 reitores e vice-reitores de universidades brasileiras, sinal da referência que a UFRJ representa no ensino superior público brasileiro. A reitora da UnB, Márcia Abrahão Moura, exaltou a presença de tantos reitores em um evento que se propõe a falar do futuro da universidade pública. “Para falar do futuro das nossas universidades e do país, vimos como é fundamental a existência das universidades”, disse a professora. O reitor da Uerj, Ricardo Lodi, lembrou das dificuldades que o país enfrenta na pandemia. “Eventos como esse nos lembram da necessidade da autonomia universitária, tão decisiva no combate à pandemia”, disse Lodi, que ainda mencionou os casos das universidades que tiveram sua autonomia ferida com intervenções do governo federal. “Fizemos o primeiro Festival do Conhecimento para que ele fosse um encontro da nossa comunidade nesse momento de crise”, disse Ivana Bentes, pró-reitora de Extensão, responsável pela criação e organização do Festival. “O Festival é muito importante nesse momento, afirmando a nossa cultura, os valores da UFRJ. Não é só um festival, mas um ato em defesa das universidades públicas, da ciência e da cultura”, disse.
“O Festival, por si só, já merece de nós todos os agradecimentos e o reconhecimento do papel que ele tem nesse momento, principalmente porque ele traz a público a nossa dignidade acadêmica, a força do pensamento universitário, a vitalidade da vida cultural da universidade brasileira”. Com essa saudação a presidente da AdUFRJ, Eleonora Ziller, começou a sua participação na mesa de abertura. O painel contou com a participação das entidades representativas da universidade: Sintufrj, DCE, APG UFRJ, Attufrj e a própria AdUFRJ. A estudante da Faculdade de Letras, Júlia Vilhena, representante do DCE, fez um discurso político. “É simbólico a UFRJ estar construindo seu Festival do Conhecimento em um período em que o povo está se organizando nas ruas para enfrentar o governo Bolsonaro”, apontou.
“Será um evento de integração e participação indissociável do ensino, pesquisa e extensão”, falou a professora Denise Freire, pró-reitora de Pós-Graduação e Pesquisa. Denise também criticou o descaso governamental com a cultura, ciência e tecnologia, denunciando os cortes de verba que o setor vem sofrendo. “Há um descaso governamental com a ciência e cultura. Estamos na contramão do mundo. O corte de verbas pode inviabilizar nossas pesquisas. Vamos aproveitar esse evento para pensar os desafios do presente e do futuro”.
A seguir, um mosaico com notas que mostram uma pequena parte da intensa semana do Festival do Conhecimento. Para saber mais, procure a íntegra da programação no Youtube.

COBERTURA COLABORATIVA: @adufrj / @midianinja / @estudantesninja / @nadianicolau / @ufrj.oficial

WhatsApp Image 2021 07 16 at 21.43.31Amor planetário

“Precisamos despertar para afetos com esse planeta”. A frase do filósofo e ativista Ailton Krenak resume a sua participação na mesa “Sonhos e Cosmovisões”. O filósofo falou da relação destrutiva que o consumo estabelece entre a humanidade e o planeta. “A compreensão da terra produzindo vida dentro de si é tão maravilhosa, que resta aos humanos observarmos que estamos nos transformando em um organismo pobre, indiferente ao evento da produção da vida”. A analogia feita por Krenak para ilustrar a sua ideia de que “o capitalismo é uma máquina de destruir mundos” é a de um bebê que, mesmo antes de ter consciência de si, já está usando uma fralda que vai levar centenas de anos para desaparecer do planeta.
Também participaram da mesa a cineasta Sabrina Fidalgo e o neurocientista Sidarta Ribeiro, que apresentou saídas para o problema apresentado por Krenak. “Existe uma grande infantilidade no capitalismo, que é achar que você pode externalizar todo o prejuízo infinitamente. Precisamos de uma aliança entre diferentes, uma aliança que busque isonomia nas condições de vida e oportunidades”, defendeu Sidarta.

Vacina Já
A UFRJ desenvolve uma vacina contra a covid que se encontra na etapa final antes dos testes em humanos. Os resultados são promissores até o momento. O anúncio foi feito pela professora Leda Castilho, do Laboratório de Engenharia de Cultivos Celulares da Coppe, em uma das mesas do primeiro dia do evento. A pesquisadora ressaltou que o trabalho, iniciado em fevereiro de 2020, é bastante desafiador: “A gente luta o tempo todo contra a burocracia e contra a falta de verbas”, disse.
O debate sobre o futuro dos imunizantes reuniu representantes de outras instituições de pesquisa. O vice-presidente de Produção e Inovação em Saúde da Fiocruz, Marco Krieger também falou dos esforços da instituição para a produção nacional de vacinas. “Esperamos, num momento entre outubro e novembro, trocar o registro do local de fabricação do insumo farmacêutico ativo: da China para a Fiocruz, no Rio de Janeiro”, observou. Já o pesquisador do Instituto Butantã, Paulo Lee Ho cobrou investimentos no parque industrial brasileiro. Para ele, a falta de insumos foi muito sentida na atual pandemia e o país precisa se preparar melhor para futuras crises de saúde.

WhatsApp Image 2021 07 16 at 21.43.44Corpos insurgentes
Diversidade, inclusão e resistência pautaram a mesa “Corpos Insurgentes” que reuniu grandes nomes do movimento LGBTQIA+ e PCD.
Jonas Maria, Breno Cruz, Leandrinha Du’Art e Ali Prando refletiram sobre questões de gênero, sexualidade, deficiência e existência na sociedade. Os convidados também apontaram o papel das pessoas cisgêneras e sem deficiência na luta por direitos.
“Quando eu falo sobre atualizar essas pautas, eu preciso entender que pessoas com deficiências precisam ir para além de corrimão e rampa. Hoje é preciso falar em empregabilidade, em fazer disso um direito assegurado sem emendas e costuras mal feitas”, explicou Leandrinha Du Art, influenciadora digital e colunista da Mídia Ninja.

Indústria verde
A mesa “Lei de Emergência Climática - Clima e Sustentabilidade” discutiu a atual relação do ser humano com o meio-ambiente, principalmente quanto a escolhas sustentáveis para as indústrias.
O deputado Alessandro Molon (PSB), a professora da UFRJ Mirella Pupo Santos e o professor, também da UFRJ, Rodrigo Lemes, conversaram sobre os atuais desafios legislativos que a pauta ambiental enfrenta. Também falaram da importância da universidade para a construção de projetos mais ecológicos.
“A indústria deve ser nova, que aposta na biotecnologia, deve ser intensiva em conhecimento, pesquisa e inovação, deve partir daquilo que o Brasil tem em recursos naturais”, avaliou Molon.

WhatsApp Image 2021 07 16 at 21.44.09Presença negra
Para que o amanhã seja diferente, é preciso reescrevê-lo hoje. Essa mensagem norteou a mesa “Futuros Negros”, mediada pelo cineasta Lobo Mauro, Coordenador Geral da Central de Produção Multimídia da ECO-UFRJ, no dia 13. “A representatividade é importante, mas a presença é o que vai dar força. Ela que vai possibilitar pararmos de pedir emprego para passar a contratar. Poder parar de falar ‘parem de nos matar’, para passar a dizer ‘eu vou viver, porque sou dono desse espaço’”, afirmou o ator e escritor Lázaro Ramos.
A linguagem também foi destacada pela professora Glenda Melo (Unirio) como uma ferramenta importante na construção de novas narrativas. “A linguagem vai além da comunicação. Precisamos formar professores que saibam lidar com o racismo dentro de sala. Se ele fica em silêncio, já é uma escolha. E um aluno vítima de racismo sente isso”, apontou. Dríade Aguiar, gestora da Mídia NINJA, ressaltou que esse caminho precisa da pluralidade de perspectivas. “A minha realidade não se aplica a todos os negros e negras. Sempre vai ser incompleta, por mais que eu busque compreender o outro”, completou.

WhatsApp Image 2021 07 16 at 21.44.23Última floresta
O filme “A última Floresta”, que ganhou destaque no Festival de Berlim, motivou uma interessante discussão sobre o processo de produção e construção do filme. O longa-metragem dirigido por Luiz Bolognesi, com roteiro de Bolognesi e do xamã yanomami Davi Kopenawa, conta a história do povo Yanomami, que há tempos é ameaçado pela invasão de garimpeiros.
Bolognesi destacou a importância do saber ancestral indígena e a necessidade da valorização desse saber pela academia: “A gente precisa fazer universidade não para dar vaga pros indígenas terem universidade, nós precisamos fazer universidade em que eles são os professores e que nós vamos lá para estudar com eles”.
Além de Bolognesi, participaram da mesa César Guimarães, professor titular da faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da UFMG, e Olívia Resende, pesquisadora da Escola de Comunicação da UFRJ.

WhatsApp Image 2021 07 16 at 21.44.36Ora direis, ouvir estrelas
Ângela Olinto, Eduardo Fraga e Thiago Signorini apresentaram diferentes perspectivas sobre o futuro do universo e da astronomia, no dia 13. O encontro reforçou a necessidade e a importância dos investimentos na ciência e na tecnologia e destacou o valor da parceria entre o governo e a sociedade.
“Graças à tecnologia, graças a pessoas desenvolvendo câmeras, telescópios, formas de lançar coisas no espaço, temos tanta informação e tantas perguntas interessantes para estudar”, resumiu Ângela, professora de Astronomia e Astrofísica da Universidade de Chicago. Ela integra a equipe que desenvolveu a sonda Probe Of Multi-Messenger Astrophysics (POEMMA) para a próxima missão da Agência Espacial Americana (Nasa).
O protótipo está sendo construído e será lançado usando balões superpressurizados a partir de uma base da agência na Nova Zelândia.

Maré de Extensão
Com o tema ‘A importância e o impacto da Extensão Universitária na sociedade e na cidade’ , o debate abriu as discussões do dia 14.
Eliana Silva, que participou de ações de extensão da UFRJ junto à associação “Redes da Maré”, do Complexo da Maré, destacou como a extensão e os projetos sociais são fundamentais para a formação acadêmica e o quanto essa relação da academia com a sociedade é transformadora.
A vereadora da cidade do Rio, Tainá de Paula, apontou novos caminhos possíveis para a extensão universitária. “O que eu quero reivindicar aqui é que a gente consiga, talvez, horizontalizar mais as decisões do extensionismo - que a gente consiga, por exemplo, criar cadeias, coletivos e conjuntos de demandas que venham do chão da sociedade para o inverso; que pautem o chão da universidade”, reivindicou Tainá.

WhatsApp Image 2021 07 16 at 21.45.03Aula de cultura
As culturas, linguagens e estéticas indígenas ocuparam o centro das reflexões do professor e escritor Daniel Munduruku, da comunicadora Anápuàka Muniz Tupinambá e da cineasta Graciela Guarani. Eles contaram suas vivências, que refletem a pluralidade dos povos originários, e afirmaram a importância da representatividade indígena em todos os meios de comunicação e também dentro da universidade.
Provocando uma reflexão a partir do tema “Futuros Possíveis”, Daniel Munduruku disse que, para ele, “o futuro é um exercício de imaginação” e chamou a atenção para o que vivemos agora relembrando uma fala que seu avô costumava dizer: “Se o momento atual não fosse bom, não se chamaria presente”.

Complexo de vira-lata
Na tarde de 14 de julho foi lançado o livro “Complexo de vira-lata: Análise da humilhação colonial”, da filósofa Marcia Tiburi . A obra, editada pela Civilização Brasileira, fala sobre um sentimento de humilhação nacional e as consequências da colonização que ainda se faz presente.
O debate em torno do livro foi riquíssimo, com a autora mostrando como o complexo de vira-lata molda a identidade brasileira. “É a nossa forma de ser, digamos, com uma face estética, uma face moral, uma face política. É a organização da nossa autoimagem e, ao mesmo tempo, algo que vem organizar nossa exposição, nossa forma de se apresentar no mundo e nossa forma, evidentemente, de nos autocompreendermos.”
Antônio Carlos Jucá, historiador e professor da UFRJ, também participou da discussão. “Quando a gente pensa em racismo, machismo, homofobia, ou LGBTfobia, em um sentido mais amplo, quando a gente pensa em todas essas formas de discriminação, todas elas passam pela humilhação. Quanto mais há uma igualdade, ou se tende a uma igualdade, maior é a reação e, portanto, maior o jogo da humilhação”, comentou o historiador.

WhatsApp Image 2021 07 16 at 21.45.22Professora de Swing
A Alegria da Cidade é Ela ! Margareth Menezes levou todo seu swing e dendê para encerrar o terceiro dia do Festival do Conhecimento. Com músicas recentes e antigas do repertório, a rainha do AfroPop mostrou cada pedacinho do seu som com pitadas de axé, de afrobeat, de samba-reggae... Maga é uma força que transborda na sintonia com o músico acompanhante Alex Mesquita e na sua interpretação brilhante!
No intervalo entre as músicas, Margareth falou da importância da universidade pública, do reconhecimento do protagonismo da população preta na sociedade e pediu pelo fim da violência contra a mulher, intensificada na pandemia.
Salve a Bahia, salve a música popular brasileira!

A arte de divulgar a ciência
Com a pandemia, a divulgação científica ganhou um papel estratégico na sociedade. No dia 15, a mesa “Divulgação científica na UFRJ” se propôs a debater as implicações desse momento na Universidade. Renata Zapelli, chefe da seção de Comunicação da Casa da Ciência, destacou que o fechamento dos museus exigiu um aumento das ações online. “Mudam-se os formatos, as linguagens e a tecnologia, mas todos aqueles desafios antigos dos museus de ciência continuam presentes”, disse. “É muito difícil executar esse trabalho a sós, e competir com tudo que há na internet e nas redes”, relatou a professora Silvia Lorenz Martins, do Observatório do Valongo-UFRJ. Rômulo Neris, doutorando em Imunologia e Inflamação na UFRJ, apresentou seu trabalho na mídia de combate às fakenews. “A gente precisa ocupar cada vez mais esses espaços, porque se não formos nós, haverá sempre pessoas contrárias aos interesses científicos ocupando”, afirmou.
O trabalho da Coordenadoria de Comunicação (Coordcom) da UFRJ foi exibido por Ana Carolina Correia, jornalista da equipe. “A gente precisa entender e passar para o mundo que ciência não é só saúde e tecnologia, mas é também social, humana, cultural e artística”, comentou. A professora Christine Ruta, diretora da AdUFRJ, ressaltou o potencial da internet na execução das pesquisas científicas. “Nunca foi tão fácil ter colaborações, trocas e comunicações entre os cientistas, o que economiza bastante nossos recursos financeiros”, apontou Ruta.
Tatiana Roque, mediadora da conversa e coordenadora do Fórum de Ciência e Cultura, apresentou a proposta de criação da Superintendência de Difusão Científica (SuperCiência) para traçar essa política de divulgação científica na UFRJ. “Mais do que estruturar ações, a ideia é construir na Universidade uma cultura de divulgação científica que leve em conta princípios, ações, públicos e mensagens”, completou.

Liberdade e autonomia
Tão atacadas nos dias atuais, a liberdade e autonomia universitária ganharam destaque em mesa do último dia do Festival. Um dos convidados, o professor Antônio José Meirelles, reitor da Unicamp, considera como “embrião do sucesso” das estaduais paulistas a aprovação de um patamar fixo de financiamento das instituições, em 1989, a partir da arrecadação do ICMS. “Aquele valor de 8,4% sofreu mudanças e hoje corresponde a 9,57% do ICMS”, explicou.
Alice Portugal, deputada federal (PCdoB), defendeu um percentual fixo também para as universidades federais, a exemplo das estaduais paulistas, para que “a autonomia didático-científica e administrativa possa também ser exercida em sua completude”.
O pró-reitor de Planejamento e Finanças da UFRJ, professor Eduardo Raupp, reforçou o argumento. “Ninguém consegue ter autonomia, se não souber seu orçamento para o próximo ano, como nós não sabemos até agora”, afirmou. “Precisamos pensar num modelo de organização universitária que avance em relação ao que temos, que nos garanta agilidade, flexibilidade e a eficácia que uma instituição de ensino, pesquisa e extensão exige”.
Presidente eleito da SBPC e ex-ministro da Educação, Renato Janine Ribeiro criticou o retrocesso vivido pela ciência brasileira. “Tivemos um significativo retrocesso, não só pelo corte de verbas, mas também por uma política sistematicamente voltada contra o caráter emancipador da educação, contra a própria ciência”, defendeu. “Nosso papel como educador tem que ser o de formar para o bem comum, formar para melhorar a vida de todos. O Brasil tem um potencial extraordinário e é preciso que esse potencial se realize”.

WhatsApp Image 2021 07 16 at 21.45.42Cidades democráticas
O deputado federal Marcelo Freixo foi um dos convidados da mesa “Futuro das cidades e da democracia” na última tarde do evento. “O debate da democracia precisa ser aprofundado nas cidades, porque é onde desenvolvemos nossos trabalhos, é onde moramos. Daí o termo cidadania. O projeto de cidade precisa enfrentar o debate das desigualdades”, afirmou o parlamentar.
No caso do Rio de Janeiro, segundo Freixo, que é historiador, o grande debate se dá sobre o território. “Há alguns territórios em que a noção de democracia passa muito longe da realidade. Segundo os últimos levantamentos da UFF, 58% do território da cidade do Rio de Janeiro estão nas mãos da milícia, 25% em disputa. Só sobrou o cartão postal. Nesse sentido, o cartão postal é uma fake news de cidade”. Também participaram o ex-ministro da Cultura, Juca Ferreira, e Felipe Altenfelfer, da Mídia Ninja.

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