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WhatsApp Image 2022 02 18 at 18.19.50Este é um editorial muito difícil de escrever e profundamente impactado pela tragédia de Petrópolis. Muitos professores, estudantes e técnicos da universidade vivem na região serrana e passaram os últimos dias atônitos com a multiplicação das mortes, das perdas, do desespero. Há colegas com alunos de mestrado que velaram quatro familiares. Há alunos sem casa e sem esperança. E há professores que, mesmo com a vida sitiada pelos escombros, se desdobram para montar redes de solidariedade. Essa, aliás, é uma das forças mais potentes de nossa comunidade acadêmica: a empatia entranhada em nosso cotidiano.  

Menos de 20 horas depois de as encostas desmoronarem, na última terça-feira, professores, técnicos e alunos montaram redes solidárias para arrecadar doações. Só no Fundão, há hoje quatro pontos de coleta. De nosso lado, na AdUFRJ, tentamos fortalecer esse amálgama de solidariedade e cuidado. Ligamos para professores que moram na região, integramos com o Sintufrj e o DCE a campanha por donativos e montamos uma modesta ação emergencial de amparo. Na quarta-feira, mandamos um caminhão com 10.782 garrafas de água mineral, o que corresponde a 16.128 litros. O material foi entregue ao sindicato municipal de professores. Mas queremos, podemos e devemos ajudar mais. Com doações, com reflexões e informações.

273771187 3626706357453826 2318157644341626519 nEstamos de portas, braços e páginas abertos para ideias de campanhas de solidariedade, de artigos e de movimentos que colaborem para reconstruir Petrópolis e interromper o ciclo macabro dessa tragédia que une fatalidades naturais, agravadas pelas mudanças climáticas, com o repetido descaso das autoridades públicas. O efeito concreto desse desmazelo fica evidente quando lemos os depoimentos das páginas 8 e 9 desta edição, em que professores e estudantes da UFRJ, todos moradores de Petrópolis, detalham as consequências concretas da irresponsabilidade política que já dura décadas na região serrana. Um único aluno, Deivid Ribeiro de Souza, estudante do mestrado em Caxias e professor do Ensino Fundamental, perdeu essa semana quatro familiares. Ele próprio é um sobrevivente da enchente de 1988, quando sua mãe viu a casa desmoronar. “Mesmo assim, jamais recebemos um auxílio do governo para sairmos das áreas de risco. Ninguém mora em área de risco porque quer. Mora porque não tem alternativa”, desabafa o Deivid na reportagem.

Seguiremos acompanhando os professores, técnicos e estudantes petropolitanos, e reiteramos que podem contar conosco. Temos certeza que a força da UFRJ não se resume às nossas aulas ou a nossas pesquisas. Tampouco está limitada aos muros invisíveis dos campi. Somos fortes porque somos uma comunidade enraizada e comprometida com o coletivo.
Boa leitura.

PS: O jornal dessa semana tem nove páginas, uma a mais do que o normal, para cobrir a tragédia de Petrópolis. Mas a edição está também repleta de outros a assuntos relevantes, como uma reflexão difícil, porém necessária, sobre a construção da greve dos servidores públicos federais, na página 3. Além de uma matéria forte sobre o exponencial crescimento de agrotóxicos no Brasil. Aliás, mais um recorde do governo Bolsonaro: em três anos, foram mais de 1.500 agrotóxicos liberados. A situação pode piorar se for aprovado no Senado — já passou pela Câmara — um projeto de lei que afrouxa ainda mais a liberação desses produtos no país. Leia na página 7.

“Foi um horror. Eu estava com minha aluna no computador, preparando a apresentação para a Semana de Integração Acadêmica, quando começou a chover forte. Abri a janela e mostrei a força da chuva para ela. Logo depois, interrompi a reunião. Eram 16h30. Meia hora depois, meu filho veio correndo e disse que havia um barulho estranho e que parecia a queda de algo grande. Corremos para a varanda. Os vizinhos estavam apavorados. O morro que fica atrás da minha rua desabou. O morro despencou. Um lamaçal imenso desceu e tirou um fino do meu muro. Ficamos sem luz. O transformador pifou, o 4G também. Ficamos ilhados, isolados, sem dar nem receber informação. No meu bairro não tem sirene. Sou professora da UFRJ há 30 anos, moro em Petrópolis há 22. Nunca vi nada igual. Estou bem, mas senti muito medo e uma necessidade enorme de saber notícias dos outros colegas da UFRJ que moram em Petrópolis”.

O desabafo de Ana Luísa Palhares de Miranda, professora da Faculdade de Farmácia, revela a aflição de quem sobreviveu à tragédia de terça-feira (15), em Petrópolis, WhatsApp Image 2022 02 18 at 18.30.23mas retrata também uma característica entranhada na comunidade acadêmica da UFRJ: a solidariedade. Em menos de 12 horas, professores, estudantes e técnicos organizaram redes de apoio e coletaram doações para aliviar a dor dos petropolitanos. Só no Fundão, há quatro pontos de coleta — veja os endereços na página 2.  “Temos que nos ajudar. São situações muito dolorosas. Tenho aluno que perdeu quatro parentes. É de partir o coração”, lamentou a professora Mônica Lacerda, coordenadora de pós-graduação do campus da UFRJ em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, onde trabalham e estudam mais de dez docentes e 30 alunos moradores de Petrópolis. “Graças a Deus, não aconteceu nada com a minha casa nem com a minha família, mas na cidade foram muitas mortes e muitas perdas”.

Aluno do mestrado de Caxias, o professor Deivid Ribeiro de Souza, de 35 anos, perdeu a esperança, uma tia, um tio e dois primos. Os quatro eram moradores do Morro da Oficina, área desfigurada pela chuva e que integra um desolador mapa criado em 2017 pela Prefeitura de Petrópolis. Segundo o estudo, há 27 mil residências em locais de risco alto ou muito alto de deslizamentos na cidade. “Só encontramos os corpos do meu tio e de um dos meus primos. Não tenho mais esperança de que os outros dois estejam vivos. Minha família materna acabou. Só sobrou a minha avó”, lamenta. Dona Olinda foi salva pela escola. Tem 85 anos e está cursando a 5ª série do Ensino Fundamental. Estava no colégio na hora da tragédia. “Ela é danada, sempre quis aprender. Agora está inconsolável”, conta Deivid. Sua história é marcada por tempestades e descaso das autoridades. “Sou sobrevivente da enchente de 1988. Naquela época, minha outra avó faleceu e minha mãe perdeu a casa. Eu e minha mãe viemos morar em Itaipava, mas o resto da família ficou em Petrópolis. Em 2011, de novo, fomos atingidos pelas chuvas, ninguém morreu, mas nossa casa ficou a um palmo de ser alagada. O mais impressionante é que nenhum de nós jamais recebeu ajuda do governo para sair das áreas de risco. É uma história muito triste, um drama que se repete”.

A tristeza familiar de Deivid não ofusca sua capacidade de analisar a conjuntura política que molda as tragédias naturais e políticas na região serrana fluminense. “Ninguém mora em comunidade ou em área de risco porque quer. Mora por necessidade, por falta de alternativa. Petrópolis é vitima da especulação imobiliária. Qualquer pedaço de terra aqui vira condomínio de luxo”, lamenta o professor, que se desdobra entre o serviço de inspetor escolar na rede estadual, a docência em escolas particulares e o mestrado na UFRJ. “Com toda essa dor, é muito bonito ver a força da solidariedade. Quando fui pegar minha avó, vi um monte de gente se ajudando, gente que não tem nada dividindo o nada. Só tenho a agradecer”.

Gratidão é a palavra que se repete na voz acelerada da professora Sabrina Silva, de 31 anos, moradora da Rua Teresa, uma das mais atingidas pelas chuvas. A enchente arrastou o apartamento de sua irmã, as paredes de sua própria casa e inundou a morada de seus pais, um pedreiro e uma dona de casa. “Perdemos tudo. Casas, móveis, eletrodomésticos, roupas, documentos, histórias. Minha mãe estava sozinha com meus sobrinhos, um bebê de seis meses e um menino de três anos. Ela ligou para o meu cunhado, ele veio correndo, mas dois minutos depois de pegar as crianças, o apartamento desabou. Perdemos as coisas, mas estamos vivos”, pondera a mestranda do campus de Caxias, que se divide entre o curso e o magistério em escolas privadas da região serrana.  

“Meus colegas me ajudaram de uma forma impressionante. Recebi tudo: roupas, dinheiro, comida, carinho. Fui abraçada, fui agarrada por uma onda de solidariedade. Só tenho a dizer muito obrigada. Sou só agradecimento. Não tenho palavras”, diz a moça, dez horas depois de retornar aos escombros de sua casa para tentar resgatar seus dois cachorros, Thor e Sheide. “A Defesa Civil não me deixa levá-los. Hoje eu fui lá e quase consegui. Mas me disseram que uma pedra estava tremendo e que era arriscado. Eles têm comida e água, mas não sei até quando aguentam”.

A professora Mônica Lacerda não aguentou ver a dor dos alunos vitimados pelas chuvas. Docente da UFRJ há dez anos, moradora de Petrópolis, ela lidera uma campanha para arrecadar doações no campus de Caxias. Em 48 horas, com a parceria incansável da assistente social do campus, Michele Rocha, a campanha rastreou todos os alunos e docentes que vivem no município e coletou recursos financeiros, mantimentos, roupas. “Temos que nos ajudar. É uma tragédia muito grande. Hoje fui para a escola estadual aqui perto de casa. Virou abrigo. Estão precisando de tudo, mas principalmente de brinquedos. As crianças estão traumatizadas e não há nada para passar o tempo. Eu não tenho medo. Tenho que ajudar. O Estado é omisso. Eu não sou. Faço o que eu posso. Sou uma cidadã de Petrópolis, voto aqui, meus filhos foram criados aqui”.

O professor Eduardo Mach, 64 anos, mora em Petrópolis há mais de quatro décadas, já testemunhou várias enchentes, mas nunca viu uma chuva como a de terça-feira — choveu 259,8 milímetros em 24 horas, maior volume desde 1932, quando o Instituto Nacional de Meteorologia começou a medir o índice pluviométrico da região. “Choveu mais do que nunca. Não aconteceu nada com a minha casa, moro numa região que ficou intacta, mas estou muito preocupado, passo os dias ligando para os amigos. Temos muita gente da UFRJ que mora aqui. Só na Escola de Química somos cinco professores. Assim que eu percebi o tamanho da tragédia, entrei em contato com cada um. Estão todos bem, graças a Deus, mas a cidade está destruída”, lamenta Mach, titular da UFRJ e ex-diretor da Escola de Química. “Que eu saiba, a situação mais grave entre os professores foi a da professora Ana Luísa, da Farmácia”.

A professora Ana Luísa Palhares de Miranda, a mesma que aparece no começo dessa reportagem, ainda não se recuperou. Moradora de Castelânea, um dos bairros mais sacrificados pelas quedas de barrancos, não consegue dormir direito, fica pensando nos vizinhos, remói a lembrança de uma senhora idosa que não queria abandonar a casa destruída pela chuva, pragueja contra as autoridades que insistem no descaso, e lista cada um dos conhecidos da universidade que moram em Petrópolis. “Temos que nos ajudar. De terça para quarta, eu não preguei o olho. Quando a chuva passou, colocamos os celulares para carregar no carro e comecei a catar notícias da família e dos colegas da universidade”, conta a docente, filha de Mariana Miranda, uma professora aposentada da UFRJ, de 87 anos, nascida em Petrópolis, em 31 de janeiro de 1934, durante uma enchente. “As chuvas fazem parte da história de Petrópolis, mas o descaso, a repetição das tragédias, isso é culpa dos homens”.

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AdUFRJ se une a outras entidades da sociedade civil em ato neste sábado em repúdio ao brutal assassinato do congolês Moïse Kabagambe

Por 283 votos favoráveis, 182 contrários e 16 abstenções, a assembleia geral da AdUFRJ decidiu apoiar a possibilidade de construção de uma greve unificada dos WhatsApp Image 2022 02 11 at 22.33.412servidores públicos federais. Os principais argumentos em torno da decisão levaram em consideração as perdas salariais da categoria. Cerca de 80 professores participaram da discussão realizada em meio remoto nesta sexta-feira (11), pela plataforma de teleconferência Zoom. Ao final da assembleia, a diretoria informou que convocará uma reunião do Conselho de Representantes para o dia 22 de fevereiro.

Houve amplos consensos sobre a defasagem salarial dos servidores públicos federais e em defesa de uma agenda de mobilizações que se reverta em pressão sobre o Executivo nacional para melhorias nas condições de trabalho e no orçamento das universidades. Mas não houve consenso de que essa construção deva abrir possibilidade para uma greve nacional.

“A assembleia foi tranquila. Houve fortes falas contra uma greve geral, por tempo indeterminado, algo que também não concordamos. Mas conseguimos construir consensos”, avaliou o professor João Torres, presidente da AdUFRJ. “O que aprovamos aqui não foi um indicativo de greve, mas a construção de um movimento nacional”, afirmou. “Agora vamos aguardar os próximos encaminhamentos do Andes para discutir em futuras assembleias”, disse o dirigente.

Votação eletrônica
A votação aconteceu pelo Sistema Helios, da UFRJ, adaptado para a AdUFRJ. A urna eletrônica permaneceu aberta até as 18h. Como a assembleia não votou indicativo e nem deflagração de greve, apenas os filiados à seção sindical receberam o link da urna pelo e-mail de cadastro.

A pergunta era: “Você é a favor da construção de greve unificada dos servidores públicos federais com a pauta da reposição salarial (índice definido no Fonasefe); condições de trabalho; revogação da PEC 95; luta contra a aprovação da PEC 32; e a construção de uma pauta específica da educação com as demais entidades que atuam nas IFES?”. Os docentes puderam responder sim, não ou abstenção.

Debate
A diretoria encaminhou o “sim crítico” à consulta do Andes. Ou seja, favorável à mobilização nacional, desde que qualquer deliberação sobre indicativo ou deflagração de greve seja decidida em nova assembleia aberta a sindicalizados e não sindicalizados. “Estamos cientes da necessidade de fazermos um movimento contra o governo Bolsonaro, em várias frentes. E é nesse sentido que a diretoria está apontando uma adesão crítica à proposta do Andes”, afirmou o professor João Torres.

A professora Mayra Goulart, vice-presidente da AdUFRJ, falou no mesmo sentido. Para ela, o momento é o ideal para pressionar o governo. “Propomos atuar na construção coletiva, com os demais sindicatos dos servidores federais. Mais do que atuar, pretendemos liderar junto ao Andes um processo que visa buscar novas formas de mobilização e pressão”, afirmou. “Entendemos que a greve não seria o melhor instrumento no contexto atual. Isso não significa deixar de lutar. Significa a necessidade de se reinventar e construir novos caminhos”, defendeu.

Markos Klemz, professor do IFCS e vice-presidente da Regional Rio do Andes, explicou que o ponto de pauta da assembleia foi construído no Andes a partir da seletividade do governo federal, ao anunciar reajuste apenas para a segurança. “O estopim foi a declaração de Bolsonaro, de que daria aumento apenas para os policiais. Só neste governo, perdemos um quinto do nosso poder de compra”, pontuou. “Precisamos de um movimento unificado. De maneira geral, a construção da greve já foi aprovada nas seções sindicais do Rio”, disse, em referência às assembleias que aconteceram na UFF, na UniRio, na Rural e no Cefet nesta semana.

O professor Luis Acosta, da Escola de Serviço Social, também defendeu a greve nacional. “Além dos 19,9% de perdas no atual governo, muitos professores da UFRJ perderam os 26,05% (referentes ao Plano Verão, cortados em 2020). Também tivemos o aumento da contribuição previdenciária de 11% para 14%”, listou. “São muitas perdas salariais neste período”.

“Motivos para fazer greve não nos faltam, nunca nos faltaram”, completou a professora Marinalva Oliveira, da Faculdade de Educação. “Além da caracterização do governo genocida, precisamos refletir sobre como enfrentar um governo como esse. Um sim crítico é muito pouco. Uma greve ainda é muito pouco”, afirmou.

Ex-diretor da AdUFRJ, o professor Felipe Rosa, do Instituto de Física, apoiou a indicação da atual gestão. “A nossa imagem altamente qualificada, perante a sociedade, por nossa colaboração no combate à pandemia, fica sabotada porque a universidade está há muito tempo vazia. E uma greve agora pode piorar essa imagem”, alertou. “Por isso sou a favor desta postura crítica à pauta do Andes”.

Eleonora Ziller, professora da Faculdade de Letras e ex-presidente da AdUFRJ, fez um apelo pela construção da unidade. “A gente constrói unidade cedendo e compondo com o conjunto de servidores. Mas há uma força política na UFRJ muito significativa contra a forma que se conduz greve”, afirmou. “Como vamos dizer que a greve nos unifica? Vamos pensar o que é unificar sob um governo que tem feições neonazistas”.

Polêmica sobre método
Ao final da etapa de debate, alguns professores que fazem parte da oposição sindical apresentaram uma lista de encaminhamentos e pediram que houvesse votação dos pontos. Dentre as sugestões, estavam a criação de uma comissão de mobilização e de uma comissão de comunicação, que pudesse fazer denúncias à imprensa sobre problemas de infraestrutura dos prédios. A diretoria do sindicato, no entanto, esclareceu que é uma tradição das últimas quatro gestões o voto em urna, com pauta previamente publicizada. “Compomos um grupo que foi eleito com esta forma de organização, é um desejo expresso pela categoria. Os encaminhamentos apresentados poderão ser discutidos no próximo Conselho de Representantes”, afirmou o presidente João Torres.

Agenda
A agenda de mobilização dos servidores federais começou na semana passada, com a pauta de reivindicações protocolada na sede do Ministério da Economia, em Brasília. No próximo dia 15, às 10h, haverá um ato simbólico em frente ao prédio do IBGE, no centro do Rio (Av. Franklin Roosevelt, 166). Ao meio dia, outra manifestação está programada para acontecer em frente ao Ministério da Economia (Av. Presidente Antônio Carlos, 375).

WhatsApp Image 2022 02 04 at 18.23.38Há um consenso entre os professores da UFRJ sobre a necessidade de reposição salarial. É um reflexo direto das perdas pela inflação alta, resultado da condução desastrosa da economia no governo Bolsonaro, e dos anos sem reajustes impostos aos professores. Somam-se a isso os ataques frequentes às universidades, com uma retórica de desqualificação do ensino superior público e a asfixia orçamentária imposta à educação.
Mas se o motivo une os professores, as estratégias de reivindicação dividem a classe. E quando a proposta de greve, mencionada pelo Andes e pelo Fórum das Entidades Nacionais dos Servidores Públicos Federais (Fonasefe), é posta na mesa, o debate ganha corpo entre os docentes da UFRJ.
“O Andes usa a expressão ‘construção da greve’, que é um pouco vaga”, afirma o professor João Torres de Mello Neto, presidente da AdUFRJ. A expressão foi usada em uma reunião do setor das federais do Andes, no dia 12 de janeiro. Um dos encaminhamentos aprovados foi a realização de assembleias nas seções sindicais para “deliberar sobre a construção de greve unificada dos servidores públicos federais com a pauta da reposição salarial, condições de trabalho, revogação da emenda constitucional 95, luta contra a aprovação da PEC 32”, segundo o relatório, distribuído pelo Andes.
Para discutir o tema com os docentes da UFRJ, a diretoria da AdUFRJ convocou uma assembleia para 11 de fevereiro, sexta-feira, às 9h30. O encontro será realizado de maneira remota. Serão dois os principais assuntos: a participação no Congresso do Andes em março e a análise de conjuntura. “Vamos fazer a assembleia, mas não será discutido indicativo de greve, até porque o Andes não pautou isso. Vamos discutir a possibilidade de um movimento conjunto com todo o funcionalismo público e reavaliamos a situação mais perto de março”, explicou João Torres.
“Nosso compromisso é que o corpo de professores da UFRJ discuta o mais amplamente possível a questão e que participe da decisão da forma mais ampla possível”, explicou João Torres. Para ele, é importante fazer a campanha pela reposição salarial, e que o movimento construído pelo funcionalismo desgaste politicamente o governo e ganhe a adesão da sociedade, mas, pessoalmente, o docente tem dúvidas da adoção da greve como estratégia política. “Será que fazer uma greve hoje, trabalhando online como estamos, seria algo que desgastaria o governo ou desgastaria a UFRJ?”, questionou. João reconhece que o tema divide os docentes da universidade. “Essa diversidade de posições e opiniões sobre a greve está representada inclusive dentro da nossa diretoria, então nós vamos ter esse debate”, contou.
No espírito de elevar a discussão sobre o tema, o Jornal da AdUFRJ traz a opinião de dois professores e ex-diretores do sindicato que têm pontos de vistas distintos a respeito da adoção da greve Pedro Lagerblad, do Instituto de Bioquímica Médica, questiona a efetividade de uma greve na atual conjuntura. Por outro lado, Luis Acosta, da Escola de Serviço Social, defende que a aprovação de uma greve parte da vontade dos professores, construída a partir da base.

WhatsApp Image 2022 02 04 at 17.42.22 1PEDRO LAGERBLAD
Professor do Instituto de Bioquímica Médica e 1º secretário da AdUFRJ na gestão 2019-2021

Embora o ministro dublê-de-posto-de-gasolina-Guedes afirme, repetidamente, que os funcionários são privilegiados e têm reajuste todo ano, o fato é que estamos sem reajuste desde 2016. As perdas do salário dos funcionários públicos do Executivo (militares excluídos, claro) são maiores do que as registradas para a média do salário do trabalhador brasileiro. Embora existam ainda aqueles que acham que o funcionário público é ocioso e privilegiado, os anos de pandemia registraram um movimento contrário da opinião pública, com valorização do SUS, hoje quase herói nacional, dos professores que mantiveram a duras penas suas atividades em ambiente remoto, e da Ciência (pública, das universidades e institutos de pesquisa) que esteve na linha de frente no combate ao negacionismo e na defesa da vida. Mas a recompensa vem sob a forma da perda acumulada de mais de 50%, segundo o DIEESE. O governo destina R$ 1,7 bilhão para policiais e nada para aqueles que trabalham com Saúde ou Educação. O sentimento na base docente é de indignação e revolta.
O cenário que se apresenta para a luta sindical é complexo. A força política do movimento virá da sua capacidade de trazer a opinião pública mais para o nosso lado. A experiência destes dois anos de pandemia mostrou que o espaço virtual pode ser ocupado como espaço de luta política, mas não consegue substituir a mobilização presencial: a presença nas ruas segue sendo o critério de verdade dos movimentos sociais. Já o quadro epidemiológico atual limita as mobilizações presenciais, inviabilizando manifestações mais expressivas ainda neste próximo mês. Porém, existe um cenário plausível de queda rápida da transmissão, tornando possível (mas não certa) a retomada de mobilização presencial de forma responsável em março.
Outra limitação importante é que a concessão de reajustes salariais é vedada por lei a partir do início de abril, por conta do ano eleitoral. Tomados conjuntamente, esses dois fatores definem uma janela de tempo estreita para mobilizações de maior impacto.
Assim, a reivindicação por recursos suplementares para um reajuste salarial é justa e defensável, mas transitará em um espaço restrito pelos motivos acima, e pelo quadro político atual dado por um governo antipúblico, como pelo Congresso, que tem uma agenda própria em relação a orçamento. O quadro exigirá negociação e, mais importante do que o desfecho imediato, será conseguir manter e reforçar a opinião pública favorável a saúde e educação públicas (e assim ao servidor), pois esse é o trunfo que pode repor as perdas ao longo dos próximos anos e proporcionar uma retomada do investimento público.
A perspectiva de um movimento grevista pouco participativo, decretado a partir de assembleias esvaziadas (o que aconteceu no passado) soa incompatível com o quadro atual e com a necessidade imperiosa de garantir o apoio da população. Paralisação de aulas virtuais com a permanência dos docentes em suas casas é certeza de derrota e isolamento nas lutas futuras.
Uma greve autêntica e poderosa é sempre produto da mobilização, não sua causa. A estratégia do movimento sindical docente agora deve ser de acumular forças no interior das universidades, buscar investir maciçamente em forma de comunicação digital nas próximas semanas, preparando mobilizações presenciais e massivas em um eventual relaxamento do quadro epidemiológico. Será ainda essencial a mobilização de outras categorias de servidores, em especial da área de Saúde. Manifestações associadas a paralisações de um ou mais dias ou mesmo uma paralisação mais extensa são cenários plausíveis. O tamanho da adesão da base e a sua capacidade de conquistar o apoio da população deverão decidir o rumo e formato do movimento.

WhatsApp Image 2022 02 04 at 17.42.22 2LUIS ACOSTA
Professor da Escola de Serviço Social, presidente da AdUFRJ na gestão 2009-2011 e vice-presidente em 2011-2013

Construir a luta unificada dos SPFs pela reposição das perdas salariais, a recomposição do orçamento das universidades e o retorno presencial seguro

O FONASEFE indicou a construção de uma greve unificada dos(as) servidores(as) públicos federais por uma pauta reivindicativa emergencial de reposição das perdas salariais deste último período de governo (2019 - 2021), estimada em 19,99%, junto ao arquivamento da PEC 32 (Reforma Administrativa) e a revogação da Emenda Constitucional 95 (congela investimentos nas áreas de Saúde e Educação por 20 anos). O setor das Instituições Federais de Ensino Superior do ANDES-SN acrescentou a construção de pauta específica da Educação com as entidades que atuam nas IFES. Indicou a realização de uma rodada de assembleias até o dia 11 de fevereiro, e nova reunião dos setores a ser realizada na semana de 14 a 18 de fevereiro.
A reivindicação dos 19,99% de reposição salarial unifica todas as categorias dos SPFs. Entretanto, as perdas salariais da categoria docente são muito maiores, seja pela (des)estruturação da carreira pactuada pelo Proifes e o governo em 2015, pela contrarreforma da previdência que aumentou a alíquota de 11% para 14% para as maiores remunerações, assim como, no caso da UFRJ, pela perda para muitos docentes dos 26,05% referente ao Plano Verão de 1989.
Temos também que construir uma pauta local na UFRJ. Para o retorno presencial às aulas, precisamos de uma infraestrutura que se deteriorou ainda mais nestes últimos anos de falta de investimento. Temos que lutar por recursos e políticas de assistência estudantil para garantir o acesso e permanência dos estudantes.
Aprovar o indicativo de greve, ou no seu lugar, o estado de greve, indica a vontade do movimento docente de lutar em unidade com os SPFs. As greves não se decretam de cima para baixo por parte da direção do sindicato. São construídas nas reuniões de unidade, no Conselho de Representantes, nas assembleias, nas conversas informais. Se o trabalho com a base do movimento aponta para efetivar a greve, então se abre um novo momento, que é o momento da assembleia geral amplamente representativa de avaliar, em unidade com as outras categorias dos SPFs, a deflagração da greve.
Recentemente, por exemplo, o anúncio, por parte da CNTE, da disposição de lutar e deflagrar uma greve no setor da educação básica, a partir do mês de março, pelo aumento do piso salarial nacional do magistério, levou o governo a recuar e aceitar a porcentagem de 33,24%.
Nossas greves são greves de disputa da opinião pública, diferentemente das greves que afetam diretamente a produção e prejudicam os lucros dos proprietários dos meios de produção. Paramos para ir para a rua, para construir Universidade na Praça, para publicar manifestos e produzir conteúdo para as mídias sociais e sensibilizar a opinião pública sobre a importância da educação pública orientada pelos interesses populares, da cultura, da arte e da ciência e tecnologia. Trata-se de transformar nosso tempo de trabalho em tempo de mobilização, de luta, de vida.

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