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Nesta segunda-feira (25), o Estado de Israel cometeu mais um dentre as centenas de crimes de guerra contra a população e as instalações da Faixa de Gaza. Pelo menos 20 pessoas morreram no bombardeio a um hospital. Cinco vítimas eram jornalistas de veículos internacionais. O Jornal da AdUFRJ ouviu o professor Michel Gherman, do IFCS, para analisar o episódio e o uso político da guerra por parte de Benjamin Netanyahu. O docente é judeu, especialista em estudos judaicos, antissemitismo e temas do Oriente Médio, além de uma voz crítica à política de extermínio impetrada por Israel contra a população palestina. Justamente por isso, tem sido vítima constante de ataques por parte da extrema-direita judia.

 

Em mais um ataque contra civis em Gaza, Israel assassinou cinco jornalistas durante bombardeio a um hospital. Isso não vai parar nunca? Qual o limite de um genocídio?

A verdade é que o projeto é justamente a construção constante de ataques, produção de vítimas, numa estratégia de guerra eterna. Quando a gente fala sobre a perspectiva de Netanyahu, a gente percebe que o fim da guerra em Gaza significaria a queda do governo e mais, a limitação dos projetos e das reformas que estão acontecendo dentro do governo. O assassinato de jornalistas – e isso não é novo, tem acontecido desde o início dos ataques em Gaza, e na realidade, desde antes deles –, tem a ver com uma perspectiva de que a construção de uma narrativa sobre a questão palestina é absolutamente criminosa e é preciso acionar as forças de defesa de Israel contra esses produtores dessa narrativa.

Na perspectiva do governo Netanyahu, já antes do 7 de outubro, os jornalistas são inimigos, e o nível de mortes dos jornalistas, que excede e muito qualquer outro conflito armado, acaba produzindo uma narrativa complexa que estabelece a ideia de que a produção de uma perspectiva genocidária tem pouca relação com o que acontece no campo em Gaza e tem muita relação com a narrativa sobre Gaza. Ou seja, falar sobre Gaza nesse atual momento coloca pessoas como alvo de um governo de Israel que tem como perspectiva estabelecer uma guerra eterna que só vai acabar com a destruição completa e absoluta do território, ou seja, nunca.

 

O jornalismo tem sido um alvo constante de Israel. É coincidência ou é escolha?

Não é coincidência. Eu acho que é parte de uma construção que coloca a produção de narrativa sobre Gaza e a denúncia dos crimes de guerra do governo de Israel como sendo um ato criminoso e, por ser um ato criminoso, quem estabelece os vínculos com a possibilidade dessa denúncia é tratado como inimigo. E nessa guerra de extermínio, ser tratado como inimigo é ser alvo de extermínio. A narrativa de que esses jornalistas têm relação com Hamas justificaria a morte, o assassinato deles pelo exército.

Agora, anterior ao ataque em Gaza, anterior ao 7 de outubro, houve o assassinato de uma jornalista palestina, Shirin, que sequer muçulmana é. Ela é cristã. Então, essa narrativa de jornalista como inimigo é construída a partir de uma lógica que entra no 7 de outubro, mas era anterior a isso.

Falar sobre Gaza, sobre a criação do Estado Palestino e sua necessidade, sobre os direitos palestinos, sobre os crimes da ocupação israelense nos territórios palestinos é ser colocado como produção de crime. Nesse sentido, os que estão comprometidos com essas denúncias são tidos como inimigos e como alvos de uma máquina de guerra.

Hoje na França, o embaixador americano foi convocado a depor por se intrometer em assuntos internos. O ataque às soberanias nacionais virou algo sistemático no governo Trump. Acredita numa aliança internacional em defesa das soberanias?

Eu acredito na necessidade da defesa internacional das soberanias. Acredito que os governos dessa nova extrema-direita – eu articulo aqui um vínculo profundo entre Estados Unidos, Hungria, Argentina e Israel – são a possibilidade de intervenção interna e essa intervenção se dá a partir da construção de grupos de pressão, de lobby, que vão supostamente denunciar governos ou sistemas judiciários como sendo sistemas que devem ser derrubados, governos que devem ser derrubados. A estratégia de uma aliança internacional pela soberania é fundamental para o campo progressista e eu acho que o Brasil, o governo Lula e a candidatura do Lula em 2026, ou de qualquer uma que seja do campo progressista, tem que levar em consideração a importância do Brasil na defesa da ideia de soberania contra os ataques à extrema-direita internacional. Essa extrema- direita está vinculada a Trump, mas utilizando a referência de um suposto combate ao antissemitismo. O antissemitismo está sendo instrumentalizado pela extrema-direita para justificar intervenções.

Entender que as universidades são a barreira fundamental de resistência democrática pela soberania e pelos direitos das minorias é fundamental para resistir à intervenção dos governos neofascistas. A defesa da ciência e de uma produção científica livre e soberana é fundamental para derrotar essa expansão intervencionista da extrema-direita. E de novo, no campo democrático brasileiro, Lula é um elemento fundamental não só na eleição de 2026, mas depois da vitória para garantir uma base, uma barreira contra a expansão da extrema-direita.

 

Uma das estratégias da aliança Bibi/Trump é atacar o antissemitismo. Como os judeus democráticos e humanistas devem responder a essa farsa que procura confundir fascismo com antissemitismo?

A instrumentalização do antissemitismo é um terreno importante de defesa da extrema-direita. Aqui cabe dizer que isso tem pouco a ver com o combate ao antissemitismo de fato. O antissemitismo existe. É um fenômeno que ameaça a democracia há anos e deve ser considerado uma ameaça efetiva às estruturas democráticas, não só aos judeus, mas ao campo democrático. Agora, o que está acontecendo tem pouquíssima relação com o antissemitismo. As denúncias aos crimes de guerra, ao genocídio, as denúncias à extrema-direita vêm sendo tratadas como antissemitismo. As grandes vítimas dessa instrumentalização do antissemitismo são os intelectuais judeus, os judeus do campo democrático. Eu acho que a UFRJ e outras universidades precisam entender a importância de preservar e fortalecer vozes de professores judeus que estão produzindo pesquisa e denunciando os crimes. Eles estão sendo acusados de antissemitismo por essa instrumentalização que tem dois efeitos perversos: a perseguição e a deslegitimação da luta legítima contra o antissemitismo.

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