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WhatsApp Image 2025 10 01 at 18.14.56A UFRJ e toda a comunidade científica brasileira estão de luto. Um dos mais respeitados virologistas do país, o professor Amilcar Tanuri nos deixou no dia 26 de setembro, aos 67 anos. Titular do Departamento de Genética do Instituto de Biologia, Tanuri era reconhecido mundialmente por suas pesquisas sobre HIV e arboviroses. O docente teve importante contribuição para a associação entre o zika vírus e a microcefalia em bebês, além de ser uma das principais vozes pró-vacinação do país, durante a pandemia de covid-19. Era chefe do Laboratório de Virologia Molecular da UFRJ, que se tornou referência na testagem de covid padrão ouro no Brasil. O Jornal da AdUFRJ e colegas relembram a trajetória do pesquisador e destacam seu legado para a ciência.

‘Amilcar tem tantas e lindas facetas. Foi um pai incrível, que sempre apoiou os filhos em todas as escolhas. Era um filho amoroso, que nunca deixou de cuidar de sua mãe. Foi um pai zeloso também para os meus filhos. Era apaixonado pelo nosso neto”. Foi assim, com ternura e tristeza, que Andréa Tavares, viúva do professor Amilcar Tanuri, o descreveu poucos dias após perder o companheiro. “Ele sempre estava disposto a ajudar, independentemente de quem fosse. Ajudava inclusive a quem não conhecia. Na pandemia, nossa casa parecia um ambulatório. Ele não deixava ninguém sem resposta, ninguém sem atendimento, ninguém sem ajuda”, recorda. “Era muito ativo. Uma mente brilhante e generosa”.
O relato é corroborado por colegas e amigos que conviveram com o pesquisador. “Amilcar era um exemplo de dedicação e inteligência, inspirou várias gerações de pesquisadores. Era também pessoa com ótimo senso de humor, coisa tão importante em nossos ambientes muitas vezes tão estressantes”, resumiu o 2º vice-presidente da AdUFRJ, professor Antonio Solé, colega de Tanuri no Instituto de Biologia.
Os legados para a ciência e para a UFRJ são diversos. Na segunda metade da década de 1980, o professor ganhou notoriedade pelos estudos e empenho no entendimento do vírus HIV. “Amilcar se envolveu muito com a questão do HIV a partir de 1985. O Hospital Universitário Clementino Fraga Filho era referência para pacientes de HIV”, contou a professora Denise Pires de Carvalho, presidente da Capes e ex-reitora da UFRJ. “Nessa época, ele migrou sua atuação para a área de virologia e se tornou referência no mundo. Foi quando começaram suas cooperações com a África”, lembrou.
“Ele esteve à frente de um grande projeto de massificação dos testes de HIV em Moçambique”, contou o professor Hélio de Mattos, da Faculdade de Farmácia. “Quando chegou ao país, em 2001, apenas 300 testes eram feitos anualmente. No primeiro ano de atuação, foram atendidas 110 mil pessoas. Em 2013, já eram feitos dois milhões de testes no país”, revelou o docente.
Na epidemia de zika, o pesquisador ajudou a construir a correlação entre o vírus e o nascimento de crianças com microcefalia. “Conheci Amilcar em 2015, no auge da epidemia de zika”, conta a pesquisadora Adriana Melo, médica paraibana que descreveu a zika congênita. “Ele me ligou certa noite para perguntar se eu queria ajuda nas pesquisas. É claro que eu precisava – tínhamos coletado sangue e urina de cerca de mil mulheres, mas não tínhamos como analisar. Faltavam equipamentos, kits e recursos. A partir daquele contato, nunca mais nos faltou apoio”, lembrou. “Mais do que conhecimento, ele tinha ética e humanidade. Amilcar não precisava de mais artigos nem de notoriedade, mas estava sempre presente quando uma nova epidemia surgia, estendendo as mãos, compartilhando saberes e transformando ciência em prática”.

WhatsApp Image 2025 10 01 at 18.14.57Durante a pandemia de covid-19, Amilcar Tanuri se tornou um dos principais nomes do país a desvendar os segredos do novo vírus. Seu laboratório passou a realizar testagens moleculares padrão ouro para hospitais de todo o Rio de Janeiro. Por pelo menos três meses, de março a junho, só a UFRJ era capaz de realizar esse tipo de teste no estado do Rio, graças à expertise do pesquisador.
“As universidades vêm mostrando a sua importância dentro desse tópico de doenças emergentes e reemergentes. Não foi só a covid-19. Teve a zika, em 2015, e a monkeypox, recentemente. Cada vez mais o mundo vai estar exposto a esse tipo de doenças, e ter uma universidade e cientistas que possam dar uma resposta rápida é fundamental”, declarou o pesquisador, em 2022, em uma das muitas entrevistas que gentilmente concedeu ao Jornal da AdUFRJ.
Além do laboratório que coordenava, Tanuri fundou o Departamento de Genética, na Biologia e, mais recentemente, com a professora Terezinha Castiñeiras, criou o Núcleo de Enfrentamento e Estudos de Doenças Infecciosas Emergentes e Reemergentes (Needier). Também foi importante articulador do processo de interiorização da UFRJ, ao criar o Laboratório de Doenças Emergentes e Negligenciadas (LIDEN) no NUPEM-Macaé. “Ele foi muito importante para muita gente. Mesmo assim, era tão simples. Estou devastado”, revelou o professor Rodrigo Nunes da Fonseca, da diretoria da AdUFRJ e grande colaborador de Tanuri.
Seus estudos permitiram mais segurança a doadores e receptores de sangue. “Sua contribuição foi essencial para a implementação do teste molecular para assegurar a proteção nas transfusões de sangue quanto à transmissão de vírus como HIV e hepatites B e C”, afirmou a ex-ministra da Saúde e pesquisadora da Fiocruz, Nísia Trindade. “Esse é um legado essencial para a segurança da hemorede”.
Amilcar Tanuri foi o primeiro servidor da UFRJ a receber a vacina da covid-19. “Mesmo correndo risco, sendo imunodeprimido e paciente oncológico, ele seguia na linha de frente durante a pandemia. Não deixava o laboratório. Por isso, foi escolhido como primeiro servidor a receber a vacina na UFRJ”, relembra a professora Denise Pires, reitora à época. “Ele era referência para todos nós, um exemplo”.
Em março deste ano, o docente lançou o livro “Pandemia de covid-19 no Brasil: A visão de um cientista”. O evento aconteceu no Fórum de Ciência e Cultura. Durante sua conferência, o docente afirmou que o vírus SARS-Cov2 sempre esteve um passo à frente da ciência. E fez uma provocação: “Será que na próxima pandemia isso vai se repetir?”. A pergunta infelizmente não será mais respondida por ele, mas pelos cientistas que seguirem seu legado.
O professor faleceu por complicações no coração. Deixou a esposa Andréa, os filhos Luiza e João e o neto Francisco. “Está sendo muito difícil lidar com a perda. Sinto um vazio absoluto. Meu doce companheiro e amigo... Tenho certeza que fará muita falta para todos que puderam conhecê-lo”, conclui Andréa.

Com profunda dor e pesar, a AdUFRJ comunica o falecimento do professor Amilcar Tanuri na sexta-feira, 26 de setembro, aos 67 anos. O virologista era chefe do Laboratório de Virologia Molecular e professor Titular do Instituto de Biologia da UFRJ. Ele deixa orfã uma legião de alunos, amigos e colegas.
"Amilcar era um exemplo de dedicação e inteligência, inspirando várias gerações de pesquisadores e criando um grande laboratório de genética viral no Departamento de Genética da UFRJ. Era também pessoa com ótimo senso de humor, coisa tão importante em nossos ambientes muitas vezes tão estressantes", resume com tristeza o 2º vice-presidente da AdUFRJ, professor Antonio Solé, colega de Tanuri no IB. "Fará muita falta, mas permanece o seu enorme legado para a UFRJ e para o mundo", conclui.
Comendador da Ordem Nacional do Mérito Científico e membro titular da Academia Brasileira de Ciências, Amilcar Tanuri era pesquisador associado da Universidade Columbia (EUA) e coordenador das Ciências Biológicas da Faperj. Ele foi o primeiro servidor da UFRJ a receber a vacina da covid-19 e buscava, em seu laboratório, entender o funcionamento do vírus causador da doença. Também era mundialmente reconhecido por suas pesquisas na área de HIV e zika.
O docente também foi importante articulador do processo de interiorização da UFRJ ao criar o Laboratório de Doenças Emergentes e Negligenciadas (LIDEN) no NUPEM-Macaé. "Ele foi muito importante para muita gente. Mesmo assim, era tão simples. Estou devastado", revela o professor Rodrigo Nunes da Fonseca, também da diretoria da AdUFRJ e grande colaborador de Tanuri.
A AdUFRJ lamenta a perda. A UFRJ, o Brasil e a Ciência ficam mais pobres hoje. Desejamos forças aos amigos e familiares.
 
Na foto: Amilcar Tanuri recebe o imunizante da covid-19 na UFRJ, em janeiro de 2021. Crédito: Alessandro Costa/AdUFRJ

Prezadas e prezados,

Convidamos para a Assembleia Geral da Adufrj-SSind, quando será realizada a cerimônia de posse da diretoria e do conselho de representantes da entidade para o biênio 2025-2027. O evento acontecerá no dia 15 de outubro de 2025, quarta-feira, às 18h, no Fórum de Ciência e Cultura da UFRJ, Av. Rui Barbosa, 762.

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WhatsApp Image 2025 09 24 at 20.16.55 8Fotos: Fernando SouzaRecém-iniciada, a primavera ganhou um colorido diferente na UFRJ. Desde segunda-feira, professores, alunos e técnicos apresentam uma parte da fina flor do ensino, pesquisa e extensão produzidos na universidade. É a 14ª Semana de Integração Acadêmica (SIAC) — a maior dos últimos anos, com 6.615 trabalhos (veja infográfico AQUI) — ocupando salas e corredores em todos os campi.
E uma festa do conhecimento deste porte não poderia ter um começo melhor: em grande evidência na mídia nacional com a revolucionária pesquisa sobre o tratamento de lesões medulares, a professora Tatiana Sampaio realizou a conferência de abertura. “Não posso nem descrever a honra que é ter sido convidada a falar na abertura deste evento tão importante que é a SIAC”, disse a docente do Instituto de Ciências Biomédicas.
No lotado salão nobre do Centro de Ciências Matemáticas e da Natureza, Tatiana mostrou as idas e vindas de um projeto que nasceu em 1999 na bancada do laboratório — como muitas iniciativas da SIAC —, virou estudo clínico em humanos em 2018 e, após longos 25 anos, está cada vez mais perto de se tornar um medicamento comercializado no mercado: a polilaminina.
Poli o quê? “Só para falar já é difícil. É um trava-língua. Mas a culpa não é minha. Foi um editor de revista científica que deu o nome. Para editor, a gente fala ‘sim, senhor’. Se vocês tiverem alguma ideia de como encurtar isso, me mandem”, brincou Tatiana logo no início da apresentação, arrancando risadas da plateia.
A polilaminina é uma “malha” inventada a partir de proteínas naturais, as lamininas, presentes em várias partes do corpo e com alto poder regenerativo no sistema nervoso periférico. “Quem fez uma cirurgia, uma cesariana, perde a sensibilidade no local, porque cortou um nervo, mas a sensibilidade volta após um tempo”, explicou Tatiana.
O estudo coordenado pela docente potencializou esse efeito para a medula espinhal, onde a laminina deixa de existir poucos dias após as pessoas nascerem. E, entre 2018 e 2021, chegou a um estudo experimental com seres humanos. Os pacientes receberam injeções de polilaminina até três dias após as lesões sofridas em acidentes ou ataques por arma de fogo. Dois deles morreram por condições não ligadas ao tratamento e seis recuperaram movimentos que haviam perdido, em diferentes graus.
Em linguagem didática e descontraída ao mesmo tempo, Tatiana mostrou como a investigação científica depende de muita colaboração para sair do papel. “Que tal organizar um estudo clínico para pacientes humanos com lesão medular completa nas emergências dos hospitais públicos do Rio e injetar uma droga completamente nova na medula espinhal deles, com pouco financiamento público?”, brincou. “Tive muita ajuda de muitas pessoas que embarcaram nessa ‘furada’, a princípio, e ajudaram a tornar a pesquisa uma realidade”, disse.
Uma dessas ajudas tornou possível a cooperação do setor produtivo, algo que representa um certo tabu nas universidades públicas brasileiras. Amigos que tinham contato com uma empresa farmacêutica de São Paulo fizeram o “meio-campo” entre Tatiana e o presidente da Cristália. As conversas avançaram para um contrato assinado em 2021 com a UFRJ. “A Cristália é brasileira. Eu tenho muito orgulho da UFRJ, mas também muito orgulho de cooperar com essa empresa. Os anestésicos do SUS são produzidos pela Cristália. Por isso não teve gente morrendo durante a pandemia sem anestésico para poder intubar”, informou.
Hoje, a polilaminina aguarda a aprovação de um estudo regulatório em humanos — que será conduzido na USP — para poder chegar ao mercado. E, em paralelo, já avança uma pesquisa em animais para investigação dos efeitos da polilamina em lesões crônicas, ou seja, que já aconteceram há mais tempo.
Humilde, a professora atribuiu o sucesso midiático da pesquisa ao momento atual do país, que defende a soberania dos ataques do presidente norte-americano. “Depois que apareceu no Fantástico, outros meios de comunicação se interessaram. Virou um boom. Veio ao encontro de um momento do país de a gente poder dizer que somos independentes, que podemos fazer nossas coisas”, disse. Mas não teve jeito. A pesquisadora foi aplaudida de pé pelo público e a SIAC ganhou uma abertura histórica.
Pró-reitor de pós-graduação e pesquisa, o professor João Torres arrematou: “Dou aula de história da ciência. E às vezes pergunto aos meus alunos quais são as fotos mais impressionantes da Ciência. Citam as fotos do Atol do Bikini, no Pacífico, onde foram realizadas as primeiras experiências da bomba atômica. Citam as fotos do hospital do Canadá, com crianças diabéticas tomando insulina pela primeira vez. Quem sabe daqui a alguns anos a foto citada será dos pacientes da Tatiana levantando das cadeiras?”, questionou.

“ENFRENTEM PROBLEMAS CONCRETOS COM IMAGINAÇÃO E MÉTODO”

WhatsApp Image 2025 09 24 at 20.16.55A 14ª SIAC cresceu em relação ao ano anterior: são 6.615 trabalhos e 15.125 participantes inscritos contra 6.404 e 14.119, respectivamente, de 2024 (veja os números na página 5).
“Os números são surpreendentes. E destes mais de 6 mil trabalhos, 907 se apresentam dentro da modalidade de ensino, pesquisa e extensão, já integrados. Essa é uma tendência crescente. Temos trabalhado para que esta integração se dê de forma recorrente nas três dimensões”, disse a pró-reitora de Extensão, professora Ivana Bentes, durante a mesa de abertura do evento.
O pró-reitor de Pós-graduação e Pesquisa, professor João Torres, considera a SIAC o grande momento do calendário acadêmico. “Para mim, o momento mais especial do calendário da UFRJ é a Semana de Integração Acadêmica — e, em particular, as apresentações do PIBIC. É aqui que a universidade, apesar das adversidades, floresce à vista de todos, com a criatividade, o rigor e a generosidade que caracterizam o nosso fazer universitário”.
João Torres avaliou o evento como uma oportunidade para o diálogo entre diferentes áreas. “Procurem colaborações improváveis, misturem linguagens, compartilhem dados e ideias, enfrentem problemas concretos com imaginação e método. A universidade pública se afirma quando transforma excelência em propósito, rigor em serviço, conhecimento em bem comum”, completou.
Já a pró-reitora de Graduação, professora Maria Fernanda Quintela, fez um apelo para que a SIAC cresça ainda mais. “Venho pedir um envolvimento maior. A SIAC são cinco dias letivos. Essa semana tem que ser valorizada. Nós temos que parar nossas aulas, não posso ter professor dando prova hoje”, disse.
O reitor Roberto Medronho situou a realização da SIAC no debate atual em torno da soberania do país. “Hoje se discute muito a questão da soberania. Soberania depende de ciência, tecnologia e inovação. Precisa de educação. Nós precisamos produzir nosso próprio conhecimento. Não podemos mais ficar dependentes de nenhum outro país”.

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