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cnods bg bannersmartphoneO Observatório do Conhecimento participou, no último dia 18, da 9ª reunião ordinária da Comissão Nacional para os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (CNODS) —colegiado consultivo criado pelo governo brasileiro para implementar a Agenda 2030 da ONU no Brasil. A CNODS reúne representantes do governo, sociedade civil e outras entidades para discutir, monitorar e promover ações para acabar com a pobreza, proteger o planeta e garantir prosperidade até 2030.

O encontro iniciou os preparativos da primeira conferência nacional dos ODS no Brasil, no próximo ano (ainda sem data marcada).

O Observatório acompanha as discussões da comissão para a garantir um financiamento adequado da educação pública no Brasil  — o tópico integra um dos objetivos da Agenda 2030.

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A defesa do professor Marcos Dantas, Titular aposentado da Escola de Comunicação da UFRJ, entrou com recurso na Justiça de São Paulo pedindo a anulação da condenação do docente. Em outubro, a 1ª Vara Cível de Pinheiros (capital paulista) considerou Dantas culpado por um comentário que citava guilhotina em resposta a um post que, por sua vez, comentava outro post que continha a foto de Roberto Justus e da influenciadora Ana Paula Siebert Justos, com Vicky Justus, de 5 anos, filha do casal. Na foto, a menina usava uma bolsa de grife de R$ 15 mil. A decisão impôs ao docente o pagamento de uma multa de R$ 150 mil por danos morais à família da menina.

Na apelação, apresentada no final de novembro, os advogados de defesa Walter Vieira Ceneviva e Alexandre Del Rios Minatti sustentam que o comentário feito pelo docente se tratava de uma linguagem figurativa que remetia aos ideais da Revolução Francesa. "O que o Apelante fez foi uma crítica social, política e também ética. Uma crítica à desigualdade social e a forma como aqueles, bem-sucedidos, esbanjam e ostentam bens de consumo para a população em geral, ainda quando a realidade vivida por milhões é de fome".

A defesa continua: "O ato de lembrar aos opulentos ostentadores sobre a revolta do povo não é matar, nem mesmo ameaçar. As guilhotinas não existem mais. O alerta grave, forte, contra a ostentação pública no país das injustiças sociais é crítica política e ética. Não há, nem remotamente, qualquer ameaça: a referência a um instrumento que não existe na vida real, cuja utilização é indelevelmente colada a uma revolução estruturante do Ocidente e do Brasil, torna óbvio que se tratava – como sempre se tratou – do legítimo exercício do direito de crítica", diz trecho do recurso.

Outro ponto levantado pelos advogados é que a crítica não tinha sido endereçada à criança ou à família, mas respondia tão somente a um usuário específico do X (antigo Twitter). "Sublinhe-se este ponto: o post do Apelante foi em resposta direta a @Guy Jong Un, sem se dirigir diretamente aos personagens da fotografia", afirmam os advogados.

A defesa também alega que o docente não vive da exposição de sua imagem na internet e que seu perfil possui alcance muito limitado, com taxa média de 0,29 compartilhamentos por post. Afirma, ainda, que a repercussão negativa só aconteceu após os pais famosos da menina explorarem o fato em suas redes sociais. E que foi o docente o mais prejudicado, pois passou a receber ataques e ameaças de inúmeros perfis após a viralização do fato. "A partir desta alimentação do assunto pelos Apelados-maiores, o Apelante, então um ilustre desconhecido nas redes sociais, passou a ser alvo de ataques, receber mensagens ameaçadoras (em redes sociais, em seu WhatsApp, e até mesmo por SMS, ou seja, com violação de seu sigilo de dados e invasão de sua privacidade)".

O recurso ainda compara o caso com outros, em que pessoas famosas também entraram na Justiça paulista pedindo indenização por danos morais, cujas penas foram fixadas entre R$ 10 mil e R$ 15 mil. Por fim, os advogados pedem que, em caso de manutenção da pena, que o valor seja fixado em R$ 10 mil, para ser equiparada a outras similares.

Ainda não há prazo para o julgamento da apelação.

WhatsApp Image 2025 12 03 at 18.41.14CEPG do dia 28 de novembro discute crise das bolsas - Foto: Silvana SáA UFRJ perdeu 700 bolsas de doutorado e 600 de mestrado do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Os números retratam o período de 2018 a 2025. Os dados são da Pró-reitoria de Pós-Graduação e Pesquisa (PR-2), mas o problema já vinha sendo alertado pelas coordenações dos programas de pós da universidade.
Para tentar recompor parte dessas perdas, a PR-2 mudará temporariamente os critérios para a distribuição de bolsas de sua cota do CNPq. A ideia é dar peso maior a programas de excelência, que foram os mais prejudicados pelas mudanças na concessão de bolsas financiadas pela agência. “Nós não queremos que os programas mais bem avaliados da UFRJ caiam de produção, por isso essa saída provisória”, explica o pró-reitor João Torres.
A próxima distribuição de bolsas já trará essas mudanças para tentar equalizar os prejuízos. A agência de fomento disponibilizará em 2026, para a cota da PR-2, 82 bolsas de doutorado (41 por semestre) e 144 de mestrado (72 por semestre). O número, no entanto, segue sendo insuficiente. “Veja, 41 bolsas é o número que apenas um dos programas perdeu do CNPq”, observa o pró-reitor.
Também houve uma redução absoluta de 106 bolsas da Capes em 2025, fruto de novos critérios de distribuição que reverberam a queda de bolsas do CNPq. “Os critérios da Capes levam em conta o Índice de Desenvolvimento Humano do município onde o programa está localizado e um multiplicador ligado ao número médio de defesas de teses e dissertações por ano do programa”, explica João Torres. “A combinação dos fatores acaba afetando os programas da UFRJ”.
A ideia de usar o IDH é estimular a pesquisa acadêmica para o desenvolvimento das regiões mais empobrecidas do país. Porém, o alto IDH do Rio de Janeiro reduz a pontuação da UFRJ em comparação com universidades localizadas em regiões de baixo IDH. Os programas, de acordo com o pró-reitor, entraram num ciclo vicioso. “Além do multiplicador do IDH, a redução de bolsas do CNPq diminui a entrada de novos alunos. Menos alunos geram menos defesas, ou seja, há queda também nesse multiplicador, e isso gera menos bolsas da Capes no ciclo seguinte”, ilustra. “Esse efeito é observado sobretudo nos programas de excelência da UFRJ que historicamente tinham muitas bolsas do CNPq”, analisa o pró-reitor.WhatsApp Image 2025 12 03 at 19.13.14 6
A pró-reitoria ainda não definiu como estabelecerá o peso diferente para tentar refrear essa espiral negativa. “Ainda não fechamos. Temos 136 programas de pós-graduação e um número insuficiente de bolsas”, observa João Torres. “O que tentamos é atuar da maneira mais republicana e igualitária possível”, afirma o pró-reitor. “No entanto, percebemos que neste momento os programas 6 e 7 precisam de mais apoio”.

Mais bolsas
Representante do Centro de Ciências da Saúde no CEPG e coordenadora de pós-graduação do CCS, a professora Cláudia Pinto Figueiredo, do Instituto de Biofísica, propõe que das 82 bolsas que serão destinadas pelo CNPq à PR-2, 50 sejam distribuídas para os programas que foram mais prejudicados no Centro. “Queremos essas bolsas para corrigir emergencialmente as perdas acumuladas”, pleiteia a professora Cláudia.
A docente afirma que sem esse fomento vários programas 6 e 7 não terão condições de abrir seleção para o doutorado. “Se esses programas caem, toda a UFRJ cai junto. Não é bom para ninguém essa crise”, diz. Ela destaca a importância de um esforço coletivo: “Está todo mundo do mesmo lado. Estamos todos trabalhando pelo mesmo objetivo: fortalecer a universidade e garantir condições equilibradas para todos os programas”.
Para a docente, a fórmula da Capes deixa de ver as perdas que os programas tiveram com as bolsas do CNPq. “A Capes tratou como se fosse um problema só do CNPq, quando, na verdade, reverbera em todo o sistema de pós-graduação”, aponta a professora. “Ao invés de a PR-2 corrigir esse problema, o aprofundou. Não há como tratar diferentes de forma igualitária. É preciso tratar com equidade. Dar mais bolsas a quem perdeu mais”, defende.
Ela dá dois exemplos: no caso da cota CNPq, um dos programas do CCS perdeu 60% de suas bolsas e a PR-2 repôs 6,2% desses benefícios. Em contrapartida, outro programa que não tinha bolsas (e por isso não teve perdas) recebeu 6 bolsas. “A PR-2 colocou suas cotas de maneira aleatória, sem olhar de maneira estratégica para os PPGs que vem sendo desmontados”, critica a professora Cláudia Figueiredo. “A cota da PR-2 é para ser estratégica, discricionária. É para equalizar os prejuízos”, acredita. “Os programas que estão agonizando são os maiores da UFRJ”, afirma.
O professor João Torres rebate e argumenta que a PR-2 tem critérios. “Não é aleatório. Nos baseamos nas bolsas utilizadas, nas bolsas já distribuídas e em uso, na demanda de bolsas que inclui os ingressantes e, em ordem decrescente, por notas do PPG”, explica o pró-reitor. “Outra informação relevante e não falada é que, em 2021, quando ainda não estávamos na reitoria da UFRJ, a universidade já tinha perdido 400 bolsas de doutorado”.

Evasão de bons alunos
Também muito afetado pelos cortes, o Programa de Pós-Graduação em Química (PGQU), o mais antigo do país na área, viu o número de ingressantes cair vertiginosamente. “Em 2025, foi a primeira vez em 63 anos que a gente teve um processo seletivo com zero bolsa de doutorado. Isso era inimaginável”, conta a professora Sabrina Baptista Ferreira, coordenadora do PGQU. “Perdemos alunos para a USP e para a UFMG porque lá eles tinham bolsa. Estamos vendo nossos bons alunos, formados nas nossas graduações, irem embora”, lamenta.
A queda no número de bolsas afeta muito mais os programas experimentais por uma razão: os estudantes não conseguem conciliar essa formação com outra ocupação formal. “O aluno precisa estar no laboratório gerando resultado e não consegue ter outro emprego. Então, ele precisa da bolsa para se manter”, justifica a professora Sabrina.
“Antigamente os programas tinham cotas de bolsas do CNPq. Quando veio a mudança, implementada em 2019, todos os programas perderam essas cotas. Quando os alunos defendem, essa bolsa não volta mais para a gente, como voltava antes”, explica a professora.
“Atrelado a isso, tivemos cortes de bolsas da Capes. Isso virou uma bola de neve. Como não temos bolsas, temos impacto nas entradas de novos alunos. A gente tinha processos seletivos com 200 alunos e entravam na ordem de 40 de doutorado e 30 de mestrado”, lembra. “Temos 64 docentes e, ao longo de todo o ano passado, recebemos 16 alunos de doutorado e 26 de mestrado. Muitos professores não estão conseguindo ter seus orientados, desenvolver seus projetos, porque faltam alunos”.
A notícia da revisão da fórmula da PR-2 agradou a professora. “Eu acho excelente. É importante colocar nessa conta o tamanho do programa. Se você coloca todo mundo na mesma regra, você distorce a realidade. Se você tem mais professores, precisa de muito mais alunos para fazer a máquina girar”, avalia. “O que está ocorrendo é um balizamento por baixo e os programas 6 e 7 são os que mais estão sofrendo. Vai cair a produção da UFRJ como um todo”.

O que dizem Capes e CNPq
A presidente da Capes, professora Denise Pires de Carvalho, ex-reitora da UFRJ de 2018 a 2022, afirmou que a agência mantém, desde 2020, o mesmo modelo de distribuição de bolsas. Ele é baseado em quatro parâmetros. “Nesse modelo, os cursos de doutorado com notas 6 e 7 e que titulam acima da média da área recebem maior número de bolsas”, explica. “A quarta dimensão, o IDHM, não altera a distribuição entre os PPGs da UFRJ localizados na cidade do Rio de Janeiro, pois todos se encontram na mesma faixa de IDHM, que permaneceu inalterada entre 2024 e 2025”, pondera a dirigente.
De acordo com os dados da Capes, entre 2020 e 2024 houve aumento do número de bolsas na UFRJ. “Tanto pela aplicação do modelo quanto, especialmente, porque a partir de 2024 a Capes passou a conceder para a PR-2 as cotas relativas aos Programas Proex, algo que não ocorria antes. A UFRJ é muito beneficiada pela ação, uma vez que quase metade dos seus programas acadêmicos são de excelência”, diz a professora Denise. “É importante destacar que as cotas repassadas às pró-reitorias, seja com base na Demanda Social ou no Proex, são distribuídas internamente de maneira discricionária, conforme critérios de cada pró-reitoria”.
Segundo a presidência da Capes, a agência também autorizou que, entre 2024 e 2025, as pró-reitorias remanejassem, de forma igualmente discricionária, as bolsas não utilizadas entre PPGs da mesma instituição para evitar que ficassem ociosas e fossem retiradas do sistema no ano subsequente. “No total, a UFRJ perdeu 123 bolsas de 2024 para 2025: 98 de doutorado e 25 de mestrado, devido à falta de utilização das cotas em 2024, as quais poderiam ter sido remanejadas pela PR-2 entre os PPGs para evitar ociosidade”, critica.
O CNPq não respondeu aos questionamentos da reportagem até o fechamento desta edição.

WhatsApp Image 2025 12 18 at 09.54.49 2Foto: Fernando Souza"Meu pai estava na rede, no jardim de inverno, ouvindo ‘A hora do Brasil’ no rádio portátil, num dia de abril de 1969, e eis que ele ouve a notícia de que ele e minha mãe tinham sido aposentados da UFRJ pelo AI-5”, escreveu a professora Angela Leite Lopes, da Escola de Belas Artes, no livro “A vida em outro lugar: crônica do exílio”.
Na obra, recém-lançada pela Editora UFRJ, Angela relata como foi acompanhar o pai, o físico José Leite Lopes, e a mãe, a matemática Maria Laura Lopes ao exterior, fugindo dos horrores do autoritarismo.
“Uma coisa é a notícia do cientista, do militante, do guerrilheiro, mas o que acontece com aquela família? Tem esse outro lado que acaba criando uma visão diferenciada da notícia do jornal e do arquivo”, afirmou Angela durante o lançamento do livro, na Casa da Ciência, no último dia 4.
São os livros lidos, os filmes vistos, os amigos com quem brincou que integram a narrativa. É a descrição do dia na escola em solo estrangeiro e a troca de cartas com os familiares que ficaram no Brasil ou com o próprio pai, quando estavam em países diferentes. “Procurei me ater ao exílio visto pela criança”, completou a autora.
O livro conta a história de dois exílios: o primeiro, a partir de 1964, quando o golpe militar é deflagrado. Angela tinha apenas seis anos. José Leite Lopes aceitou um convite para lecionar na Faculdade de Ciências de Orsay, em Paris. Mas a jornada é precedida de um susto: quando foi ao Departamento de Ordem Política e Social (DOPS) para tirar o passaporte, acharam que estava tentando fugir do país e o prenderam.
Não ficou nem uma noite inteira na cadeia. Foi solto graças à intervenção de um general, também professor do CBPF (Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas, que Leite Lopes ajudou a fundar). O físico conseguiu viajar meses depois para a França e só retornou ao Brasil em 1967, quando reassumiu suas funções na universidade e no próprio CBPF.
O trecho do livro falando da “Hora do Brasil” marca o início do segundo exílio, bem mais difícil, para os Estados Unidos. “As passagens foram compradas em nome do adido científico (do consulado americano) e ele ainda aconselhou meu pai a não contar para ninguém que estava indo embora”, diz outra passagem da publicação.
Com a experiência de ter acompanhado as dificuldades dos pais em tempos tão duros, Angela explicou que a defesa da democracia nos dias atuais foi uma das principais razões para escrever as memórias de sessenta anos atrás (veja mais na entrevista abaixo). “Importante falar sobre isso para que vejam que não são, assim, terroristas ou não sei o quê. São pessoas, né? Com suas famílias, com seus afetos. Esse livro também é por conta disso”.

LEMBRAR PARA NÃO ESQUECER
Uma das pessoas que estimularam Angela a escrever o livro foi Eurídice Figueiredo, sua professora em 1976, na Aliança Francesa, e hoje integrante do Programa de Pós-Graduação em Letras - Estudos de Literatura, da Universidade Federal Fluminense.
“Dei muita força para Angela, porque esses depoimentos são importantes para as pessoas saberem como a ditadura afeta as famílias, como afeta todo mundo”, disse Eurídice, durante o lançamento da obra.
A professora, que publicou o livro “Mulheres contra a Ditadura — escrever é (também) uma forma de resistência”, em 2024, destaca que obras como essa seguem bastante atuais: “É importante que isso seja divulgado, porque a gente viu aqui uma tentativa de golpe (em 2023). Eles estão por aí”, completou.
Diretor da Editora UFRJ, o professor Marcelo Jacques também celebrou o lançamento. “Foi um livro que a editora abraçou. As pessoas fizeram tudo com muito carinho, com muito amor. Também é um pouco da história da UFRJ que é contada aqui”, disse.

ENTREVISTA I ANGELA LEITE LOPES, Professora Titular da Escola de Belas Artes

Jornal da AdUFRJ - Qual a motivação da senhora para escrever este livro?
Angela Leite Lopes
- Durante a eleição da Dilma e do Aécio Neves, que foi muito acirrada, minha filha me perguntou: ‘Mamãe, se o Aécio ganhar, vamos morar na França?’. Bateu fundo, assim, a coisa do exílio. Aquilo já ficou na minha cabeça. Depois, houve o impeachment da Dilma e, em 2018, surgiu um convite para discutir como os físicos foram atingidos durante a ditadura, no CBPF (Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas). Isso me deu um estalo. Percebi que tinha algo para contar, que aquelas memórias de criança tinham a ver para a vida adulta do país hoje. Foi um trabalho que durou de 2019 até 2022. Entreguei o livro para a editora em 2023.

Aqui na apresentação do livro, a senhora fez algumas menções ao filme “Ainda estou aqui”. Quais as semelhanças entre a história de sua família e a de Eunice Paiva?
A grande semelhança é a angústia dessa época. Mas algumas cenas me tocaram muito. No filme, logo quando os policiais acampam na casa dos Paiva, a Eunice pergunta se eles queriam comer algo. Tem um episódio parecido que conto no livro em 1968 ou 1969, quando fizeram uma batida lá em casa. Os policiais pediram que eu, criança ainda, saísse. Minha mãe saiu comigo. Quando a gente voltou, minha avó estava tomando um cafezinho com os dois oficiais que estavam lá. Quer dizer, existe uma civilidade que nós temos que contrasta com a truculência deles.

A senhora encerra o livro expressando alívio com a eleição de Lula, em 2022. Mas a senhora está preocupada com as eleições do ano que vem?
Sim, mas como a Dilma diz, a gente luta todo dia pela democracia. A prisão dos militares agora foi um grande alento. Importantíssimo.

Os versos quase melancólicos de “Saudosa Maloca”, canção de Adoniran Barbosa, ganharam contornos de alegria e saudade no sarau de encerramento das comemorações pelos 40 anos da chegada da Faculdade de Letras à Cidade Universitária, na noite do último dia 14, no Centro Brasileiro de Altos Estudos (CBAE), no Flamengo, Zona Sul do Rio. A música foi o hino da mudança da faculdade de sua antiga sede na Avenida Chile, no Centro — onde hoje está o Edifício Ventura — para a Ilha do Fundão, em 1985.
“Eu era aluna da graduação, e Saudosa Maloca foi nosso hino de despedida daquele lugar onde fomos muito felizes. Estudei lá três anos antes de mudar para o Fundão. Foi uma época em que começavam a soprar os ventos da redemocratização, um tempo de esperança que está na formação da minha geração”, recordou, emocionada, a professora Eleonora Ziller, ex-diretora da Faculdade de Letras e ex-presidenta da ADUFRJ.
As comemorações pelos “40 anos da Letras no Fundão” incluíram debates, homenagens e apresentações artísticas. E culminaram com o caloroso encontro de professores, ex-alunos, artistas, poetas e escritores do professor João Baptista de Medeiros Vargens (Leia abaixo entrevista com o professor).
Vargens era um dos diretores da Faculdade de Letras em 1985, e recorda que a mudança foi feita a toque de caixa. “Encostaram vários caminhões das Mudanças Botafogo, e a ordem dos encarregados era só levar o que não tivesse cupim. Foi tudo muito rápido”, lembrou Vargens. Segundo ele, a atuação da então aluna Eleonora Ziller foi fundamental para que a festa de despedida dos estudantes não terminasse em confusão: “Queriam jogar cadeiras para o alto, coisas assim, e ela subiu numa mesa e conseguiu acalmar os ânimos”.
“Nem lembro o que falei de cima da mesa, só sei que parece que me escutaram”, riu Eleonora, ao lembrar o episódio do passado. “Tinha também um ar de revolta naquela despedida. Afinal era ainda um governo da ditadura militar, comandado pelo general João Figueiredo”. Eleonora recorda ainda que o local da velha sede foi ocupado por um estacionamento durante muitos anos, antes da construção do Edifício Ventura, e sente saudades do teatro da faculdade antiga, um local de debates e apresentações culturais. “Tinha até coxia e camarim, vivemos ali momentos inesquecíveis”.

ENTREVISTA I João Baptista de Medeiros Vargens, PROFESSOR TITULAR DE ESTUDOS ÁRABES DA LETRAS/UFRJ

WhatsApp Image 2025 12 03 at 19.13.14 3Foto: Fernando Souza“Tenho muito orgulho dessa história”

Portelense e autor de obras referenciais sobre o universo do samba — como “Candeia, luz da inspiração” e “Velha Guarda da Portela” —, João Baptista de Medeiros Vargens é um dos precursores do ensino da língua árabe no Brasil e ganhou, em 2012, o Prêmio Sharjah, da Unesco, por suas contribuições à difusão da cultura árabe no mundo. “Entrei para o curso de Português-Árabe em 1971 e, em 1975, comecei a dar aulas como auxiliar de ensino. Tenho muito orgulho dessa história”, lembrou o mestre, de 73 anos, durante o sarau do CBAE. Foi lá que ele contou um pouco dessa bela história para o Jornal da ADUFRJ. Vamos a ela.

Jornal da ADUFRJ: O senhor entrou como aluno na Letras em 1971, lá nos primórdios. Como foi essa chegada, em plena ditadura?
João Baptista Vargens
: Eu fui da terceira turma de Português-Árabe. O curso começou em 1969, com dois alunos. Em 1970, foram dois alunos de novo. Nenhum chegou ao final. Na minha turma foram oferecidas dez vagas, e todas foram preenchidas. Mas em 1974, quando eu me graduei e me licenciei, só havia dois alunos. Represento então 50% da primeira turma graduada em Português-Árabe na UFRJ. E naquela primeira turma, a de 1969, um dos alunos era um agente do DOPS. Inclusive depois ele se tornou meu aluno, ele demorou a sair. Sempre no final do curso ele não fazia as provas, para ficar lá mesmo.

E logo depois de graduado o senhor começou a lecionar.
Sim, em 1975 eu comecei a dar aulas como auxiliar de ensino lá na Avenida Chile. Era o primeiro degrau da carreira naquela época. E estou até hoje, em 2025.

E a mudança da sede, o que lhe marcou?
Foi uma mudança precipitada. A faculdade no Fundão ainda não estava pronta. Não tínhamos mobiliário. Era o final do governo João Figueiredo e a ministra Esther Ferraz queria ver o nome dela e o dele na placa. O reitor na época era o (Adolpho) Polillo, e ele também queria o nome na placa. Então a mudança foi de uma hora para a outra. Quando voltamos à faculdade depois das férias, em março de 1985, muita gente nem sabia que a sede já estava no Fundão. Encostaram vários caminhões das Mudanças Botafogo, e a ordem era: o que está com cupim fica, o resto vai.


O senhor já fazia parte da direção da faculdade?

No ano seguinte, em 1986, que eu assumi como diretor adjunto para Assuntos Culturais, na administração do professor Edwaldo Cafezeiro, recentemente falecido. Foi logo depois da nomeação do professor Horácio Macedo como reitor, em 1985, para mim um grande marco na história da UFRJ. Foi um período em que a Faculdade de Letras estruturou projetos que não poderiam ter sido desenvolvidos na Avenida Chile. A antiga sede da Letras era um pavilhão pequeno doado pelo governo de Portugal. Era para ser um espaço provisório, mas lá ficamos 16 anos, de 1968 ao início de 1985.

Então o senhor está na sede atual desde o início. Como foi essa caminhada?
Ganhamos certamente muita coisa com a sede do Fundão, desenvolvemos muitos projetos. Mas 40 anos são 40 anos, o prédio se deteriorou. Os diretores estão tendo muito trabalho, são poucos os recursos. Temos preciosidades lá. Nossa biblioteca tem obras raras. Logo no início, com a mudança às pressas, às vezes saíamos de casa num domingo, se começasse a chover, correndo para a faculdade, com medo de a chuva molhar os livros. Hoje nós precisamos de reformas no prédio da Letras, é preciso frisar isso, para que não percamos preciosidades, como livros do século XVII que temos lá.

E o livro sobre seus 50 anos de magistério, o que o motivou a escrever?
Eu faço um percurso histórico desde a minha entrada como aluno. Eu não tenho ascendência árabe. Tenho um filho que foi gerado em Damasco, onde estudei por um período depois que me formei, minha mulher engravidou lá. Então não tenho ascendência, mas descendência árabe. Além da Síria, depois eu vivi e trabalhei como professor no Marrocos, durante três anos. Hoje o nosso curso já tem cinco professores, somos reconhecidos. O trabalho universitário é em grupo. Ninguém faz um dicionário sozinho. Aliás, tive a honra de participar da equipe do Dicionário Aurélio, fiz três mil palavras de origem árabe. Já fiz tradução, legenda para filme, enredo para escola de samba.

Mas o caminho do magistério é o que mais o encanta, não?
A função do professor é incentivar. Hoje em dia a carreira é desprestigiada socialmente. O professor ganha mal, você não vai ficar rico. Mas você pode ser feliz. Tenho muito orgulho dessa história. Eu ainda não penso em parar, mas vou ser parado daqui a dois anos, quando fizer 75 anos. Posso parar com a universidade, mas há outros caminhos. Acho que não vou parar, não.

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