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WhatsApp Image 2025 12 18 at 09.54.49 8Magno Junqueira
Professor Associado da Universidade Federal do Rio de Janeiro.
Coordenador do Laboratório de Espectrometria de Massa Translacional e Neuroproteômica - LEMTEN

 

A universidade pública brasileira vive hoje um conflito profundo entre seu papel social, suas ambições científicas e a realidade do financiamento. De um lado, espera-se que ela seja inclusiva, garanta permanência estudantil por meio de políticas como o restaurante universitário, bolsas e moradia. De outro, cobra-se produtividade científica de padrão internacional, inovação, patentes, empreendedorismo e impacto econômico. O problema central é que essas duas missões vêm sendo exigidas sem o financiamento compatível com nenhuma delas. Desde 2018, o orçamento discricionário das universidades federais, que sustenta laboratórios, contratos de limpeza, segurança, energia, insumos e assistência estudantil, sofreu cortes severos em termos reais. Em vários períodos, as perdas ultrapassaram 40%. Embora tenha havido recomposições parciais recentes, a instabilidade orçamentária tornou o planejamento de médio e longo prazo praticamente inviável. Não se faz ciência de fronteira com orçamento intermitente.
WhatsApp Image 2025 12 18 at 09.54.49 9O debate sobre o “bandejão” é emblemático. Ele consome parcela visível do orçamento, mas não é um luxo: é política de permanência. Sem alimentação subsidiada, estudantes de baixa renda simplesmente abandonam a universidade. Cortar o RU não gera eficiência; gera exclusão social. Ao mesmo tempo, enquanto se financia corretamente o acesso, falta investimento estrutural em infraestrutura científica, manutenção predial, atualização tecnológica e pessoal técnico.
Sobre o professor universitário, a contradição é ainda mais aguda. Além de ensinar e pesquisar, passou a ser pressionado a fazer extensão, ser empreendedor, captar recursos, gerar patentes e criar startups. Porém, grande parte das universidades não dispõe de escritórios de inovação estruturados, núcleos de patentes eficientes, apoio jurídico ou administrativo. Exige-se produtividade de “Harvard” com condições de país em austeridade permanente.
Isso nos leva à pergunta central: afinal, que universidade a sociedade quer? Um modelo altamente seletivo, caro, competitivo e globalizado? Ou uma universidade massificada, inclusiva, com forte função social? O erro histórico do Brasil foi tentar impor simultaneamente os dois modelos sem financiar adequadamente nenhum deles.
A universidade é, ao mesmo tempo, instrumento de mobilidade social, produtora de conhecimento estratégico, formadora de profissionais e motor de inovação. Seu retorno para a sociedade não é apenas econômico: é sanitário, tecnológico, cultural, democrático e civilizatório. Cada real investido retorna em forma de médicos, engenheiros, professores, vacinas, tecnologia, pensamento crítico e soberania nacional.
Sem um pacto real de financiamento estável, com previsibilidade orçamentária, proteção das políticas de permanência e investimento em infraestrutura e inovação, a política pública atual empurra a universidade para o sucateamento: nem plenamente inclusiva, nem verdadeiramente excelente.
O dilema não é “comida ou ciência”. O dilema é se o Brasil escolhe, de fato, ter uma universidade pública forte, ou apenas mantê-la funcionando no limite da sobrevivência.

WhatsApp Image 2025 12 18 at 09.54.49Divulgação/Oga MitáA ADUFRJ acaba de ampliar sua cartela de convênios com benefícios aos professores sindicalizados e seus dependentes. A escola Oga Mitá, tradicional instituição da Zona Norte da cidade, está com matrículas abertas em uma parceria inédita com o sindicato. Dependentes de filiados têm 30% de desconto na matrícula e 15% nas mensalidades, desde que pagas até o dia 3 de cada mês. A escola atende da Educação Infantil ao Ensino Médio e tem unidades na Tijuca e em Vila Isabel.
No setor privado de ensino, a escola Oga Mitá se destaca pela atuação e cultura democráticas. Fundada em 1978, seus processos pedagógicos e administrativos têm como base a atuação coletiva. O calendário acadêmico é definido pela equipe escolar, pais e estudantes. Os valores de mensalidade também. “A gente tem um processo de gestão democrática. Semestralmente, a gente faz o planejamento participativo. Esse grupo fez o planejamento para 2026 e definiu o valor da mensalidade. Eu acho que no Rio temos exclusividade nessa metodologia. Chama-se Processo-Projeto Oga Mitá. Não conheço outra escola particular com essa perspectiva”, orgulha-se o diretor e fundador do colégio, Aristeo Leite Filho.
“A gente fez uma escola diferente da que a gente teve. A gente não quer uma escola impostora, impositiva, punitiva”, avalia o diretor. “Se um aluno quebra a vidraça, ele vai para a biblioteca fazer um trabalho sobre quais consequências aquele ato gerou, o que poderia ter acontecido de pior e o que ele fará pra arrumar o que fez. É a conscientização dos atos e a responsabilização na cooperação, na solidariedade”, defende.
A escola resiste a um modelo predatório de ensino, imposto por grandes conglomerados internacionais de educação. “Trabalhamos a consciência ambiental, a educação pela paz, a antiviolência, o antirracismo. Normalmente, são elementos que não aparecem na proposta pedagógica das escolas. A gente integra essas questões sociais e humanitárias na grade curricular”, afirma o diretor.
Aristeo é professor do Departamento de Estudos da Infância, da Faculdade de Educação da UERJ, e professor do curso de Especialização em Educação Infantil da PUC-Rio. A atuação diária na formação de professores e no desenvolvimento de pesquisas sobre educação demonstra que o setor privado tem sucumbido a uma lógica predatória de ensino. “A gente tem visto barbaridades no setor. A qualidade passa pelo equilíbrio pedagógico-financeiro. É isso que norteia esses conglomerados de educação. Não há um compromisso com a formação cidadã”, avalia. “Esses conglomerados compraram as instituições de ensino e as editoras de livro didático”.WhatsApp Image 2025 12 18 at 09.54.49 10DIRETOR: “A gente não quer uma escola impositiva, punitiva” - Foto: acervo pessoal
O diretor conta que manter uma escola independente é um processo difícil, mas necessário. “Resistir é uma luta diária, que passa pelos resultados que a gente tem tido com a formação dos nossos estudantes. Nossos ex-alunos, que retornam com seus filhos e já com seus netos, são resultados desse processo”, acredita Aristeo. “São pessoas que compreenderam que educar crianças é um processo coletivo. A escola não é um prédio. A escola são pessoas. A escola não pode ser encarcerada, não pode ser punitiva. Oga Mitá busca o equilíbrio entre ensinar e educar. Escola boa é onde a gente aprende com relações comunitárias e participativas”.

AFETO E
RESPONSABILIDADE SOCIAL
A escola trabalha três princípios: cooperação, afetividade e autonomia. “A cooperação vai na contramão de escolas que preparam para a competição; a afetividade trabalha o acolhimento e as amizades. Já a autonomia permite a livre expressão dos alunos. Os nossos quadros murais expressam através do registro quem é aquela turma, o que eles gostam, do que têm medo, o que estão fazendo”, conta Aristeo. “É uma escola que expressa essa vivência. A Oga Mitá tem vida”.
O nome Oga Mitá significa, em tupi, oca curumim, a casa da criança. “Esse nome é para reforçar a importância da cultura brasileira, da cultura de quem estava aqui antes de os portugueses chegarem. O nosso nome é um posicionamento crítico e político”, reforça o diretor. “Não formamos o aluno só para passar no Enem. Isso faz parte, mas o cerne é formar o cidadão que respeite o outro, que melhore o mundo, que compreenda que não dá para viver sozinho”, conclui.
A fotógrafa Fabíola Lima, mãe do Antônio, de 7 anos, escolheu a escola justamente pela sua posição político-pedagógica. “O que me faz acreditar no Oga e ter esse encantamento pelo colégio é testemunhar a forma como eles veem a infância. Eles respeitam a criança, ela é ouvida, trabalham sua individualidade”, avalia Fabíola. “A maneira que a escola se posiciona politicamente é outro diferencial. Não há eventos de dia das mães, dia dos pais. A escola consegue fugir da influência do mercado”, conta. “Há forte valorização da cultura afro-brasileira, dos povos originários, e eu vejo o quanto o Antônio se apropria mesmo desses conteúdos”, atesta.
Antônio vai completar cinco anos no colégio. Chegou aos dois anos de idade. “Minha formação inicial é em licenciatura”, conta a mãe. “Quando conheci Oga Mitá, não tive dúvidas de que um dia meu filho estudaria lá. Eu admiro muito como eles conduzem o dia a dia da escola. Confio muito. Trabalham valores inegociáveis de cidadania”.

CARTELA DE CONVÊNIOS AMPLA

A ADUFRJ também possui convênios com outros colégios do Rio e de Macaé, como Meaple Bear Tijuca, Centro Educacional da Lagoa, Creche Escola Amanhecendo, Creche Escola Recriar, Jardim Botânico Educação Infantil e Escola Alpha. Ainda há parcerias com cursos de idiomas, academias, farmácias, home care e outros serviços. Mais informações podem ser obtidas pelo nosso site adufrj.org.br/servicos/convenios. Para solicitar o desconto com algum dos parceiros do sindicato, é necessário enviar e-mail para Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo., com o assunto “solicitação de convênio”.

WhatsApp Image 2025 12 17 at 13.57.49Contrato de concessão do terreno da sede foi assinado com a reitoria, no dia 17, durante a plenária de decanos e diretores - Foto: Alessandro CostaAgora é oficial. Com 451 votos favoráveis contra 122, além de 74 abstenções, os professores da UFRJ aprovaram o projeto de construção da sede da ADUFRJ. O imóvel ficará entre o Horto Universitário e o Espaço Cultural do Sintufrj, ocupando uma área total de 579,06 m².
“Queria, em nome da diretoria da AdUFRJ, agradecer imensamente a participação dos associados. De compartilhar conosco uma decisão tão importante como essa. Estamos muito felizes”, afirmou a presidenta do sindicato, professora Ligia Bahia, sobre o resultado da assembleia — a votação, iniciada no dia 15 pelo sistema online Helios foi estendida até quarta-feira (17), em função de problemas técnicos com a internet da Cidade Universitária.
A concessão do terreno, por 30 anos, já havia passado pelo crivo da Procuradoria da universidade e pelo Conselho de Curadores da UFRJ — instância deliberativa para assuntos de patrimônio da instituição. A assinatura do contrato com a reitoria, que aguardava o “sim” da assembleia, aconteceu no próprio dia 17 (veja na foto acima).
A iniciativa busca aproximar a ADUFRJ da realidade de outras seções sindicais. “A maioria da associações docentes das universidades federais tem sedes bastantes amplas, com instalações que oferecem acolhimento, que são pontos de referência para suas comunidades. A gente está muito atrasado neste ponto”, disse o 1º secretário da ADUFRJ, professor Pedro Lagerblad.WhatsApp Image 2025 12 18 at 09.54.48 3VISTA AÉREA do local onde será instalada a sede da ADUFRJ (em destaque, no círculo vermelho), entre o Horto Universitário e o Espaço Cultural do Sintufrj - Foto: Fernando Souza
A diretoria disse que a participação da comunidade docente na construção da sede será garantida e muito bem-vinda. Foi aprovada a criação de uma comissão de acompanhamento — todos os interessados poderão contribuir para o desenvolvimento do projeto — de todas as etapas do processo. “Todos os associados podem trazer ideias para interferir na concepção do projeto ao longo do próximo tempo. Queremos construir rápido “, informou Pedro.
Durante a assembleia, houve críticas ao aluguel de R$ 8 mil mensais, que será pago à reitoria. O valor, no entanto, é uma exigência da Procuradoria da universidade para todas as concessões de área da universidade. “Seguimos com a ideia de questionar isso no futuro. Concordo do ponto de vista político, mas não como estratégia para construção. Porque condicionar uma coisa à outra significaria o imobilismo e não construir a sede. Para construir, precisamos topar isso hoje”, completou Pedro.

PLANEJAMENTO
Estima-se um gasto entre R$ 3,5 milhões e R$ 4,1 milhões para a obra, além de R$ 45 mil para a manutenção mensal. O planejamento orçamentário para dar conta do desafio também foi objeto da discussão na assembleia e também no Conselho de Representantes da entidade, no dia 12. “Nós precisamos ter segurança que o custeio da operação da sede esteja compatível com nossa estrutura financeira”, disse o 1º tesoureiro da ADUFRJ, professor Daniel Conceição, responsável pela apresentação do ponto.
A situação financeira da AdUFRJ é considerada confortável para garantir a empreitada. Há uma reserva de R$ 9,5 milhões em caixa e o superávit médio do último ano é de R$ 103 mil por mês. Ainda assim, a direção estuda ou já vem implantando medidas para ampliar a segurança das contas.
Um dela foi aumentar a previsibilidade para despesas não recorrentes. Houve a fixação de um teto de R$ 10 mil mensais para solicitações de apoio para ações de servidores, estudantes ou movimentos sociais. A gestão lançou em novembro um edital simplificado — que pode ser visto no alto da página da AdUFRJ, na aba “serviços” — para organizar a demanda.
Mesmo cenários pessimistas não deixariam as contas no vermelho. Se houver um aumento de 20% dos custos estimados com a sede, ainda haveria uma sobra de R$ 50 mil mensais.
Na conclusão da assembleia, a presidenta da ADUFRJ deixou uma mensagem de otimismo. “Esperamos que esta sede já surja com muito bom astral. Queremos que seja um lugar de muita reunião, de muita potência científica, artística e cultural”, afirmou Ligia.

PRÉDIO SERÁ ACESSÍVEL E SUSTENTÁVEL

WhatsApp Image 2025 12 18 at 09.54.48 2PROJETO BÁSICO do imóvel do sindicato, que está sendo elaborado pelo Atelier Universitário Arquilab, buscará a integração com a natureza no entorno - Imagem: Atelier Universitário ArquilabO projeto básico está sendo feito pelo Atelier Universitário Arquilab, da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, que possui ampla experiência na área “O Arquilab surgiu em 2004 tendo como referência o trabalho dos professores do Hospital Universitário que orientam os alunos na prática. Já realizamos aproximadamente 200 projetos para toda a UFRJ”, esclareceu a coordenadora, professora Patricia Lassance.
O prédio, acessível, terá uma área construída entre 800 m² e 1,2 mil m², com dois auditórios (um para 150 pessoas; outro, para 40 pessoas), cozinha com churrasqueira, um bar, uma minilivraria, local para exposições, estúdio de videocast ou podcast, além das salas da comunicação e dos setores administrativo e jurídico, entre outros espaços.
Haverá um vínculo com a intensa vegetação do entorno. “O projeto para a sede da Associação de Docentes da UFRJ baseia-se no conceito da aula sob a árvore — uma referência simbólica à origem do ato de ensinar. A primeira aula teria acontecido à sombra de uma árvore. A proximidade com o Horto Universitário reforça a naturalidade dessa proposta,”, afirmou Patricia. “Além disso, integrará diversos ODS (Objetivos de Desenvolvimento Sustentável) da ONU, alinhando-se às práticas contemporâneas de sustentabilidade”.
Representante do campus Caxias no Conselho de Representantes, a professora Juliany Rodrigues parabenizou a diretoria. “Às vezes, preciso vir ao Fundão e, enquanto espero uma reunião, fico em um café do Parque Tecnológico, que é o local mais agradável no Fundão”.

ASSEMBLEIA TAMBÉM APROVOU CONTAS DA GESTÃO PASSADA

Por 379 votos a 59 e 209 abstenções, os docentes também aprovaram a prestação de contas da diretoria passada (biênio 2023-2025). Todos os demonstrativos do período estão disponíveis no site do sindicato, na aba “transparência”.
“Parece que não, porque realizamos tantas ações, mas nós nos preocupamos muito em economizar”, disse a ex-vice-presidente, a professora Nedir do Espirito Santo em referência aos valores já citados pela diretoria atual no planejamento de construção da sede. “Nós conseguimos fazer uma economia de R$ 100 mil, em média. A poupança que temos é em torno de R$ 9,5 milhões”, completou.
Nedir destacou para o sucesso das contas a campanha de filiação — com descontos na mensalidade, durante os primeiros quatro anos — que trouxe 601 novos colegas para o sindicato, contra aproximadamente 200 desfiliados, no mesmo período.
Pela campanha, professores Assistentes e Adjuntos (magistério superior) e DI, DII e DIII (EBTT, do Colégio de Aplicação) não filiados até outubro de 2022 podiam ficar isentos da contribuição sindical pelos dois primeiros anos e, nos dois anos seguintes, pagavam metade (0,4%) do que pagam os demais sócios (0,8%).
De acordo com Nedir, a assessoria jurídica contratada um pouco antes do mandato 2023-2025 foi outro fator que contribuiu para o aumento das filiações. “Não só pelas questões gerais reivindicadas, mas também pelas situações particulares”, disse a docente. Desde então, 433 ações geraram um valor acumulado de R$ 10 milhões aos filiados beneficiados.
A atual gestão elogiou o trabalho realizado pelos colegas da ex-diretoria. “Realizaram uma gestão extremamente responsável no trato das contribuições dos associados”, afirmou Ligia Bahia.
Por outro lado, a diretora comprometeu-se com a elaboração de demonstrativos que sejam mais facilmente compreendidos. “Estamos implantando um novo modelo de prestação de contas, parecido com o balanço social que tem sido utilizado por várias organizações. É o modelo adotado pelo Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos). Estamos de pleno acordo que é preciso que esta prestação de contas seja muito mais acessível”, completou a presidenta.
Outra preocupação é garantir que os demonstrativos reúnam os números relativos a cada gestão: “Pretendemos ter uma planilha que permita agregar os gastos totais da gestão”, reforçou o diretor Daniel Conceição.

WhatsApp Image 2025 12 18 at 09.54.49 6Foto: Alessandro CostaA ADUFRJ recebeu o historiador Omer Bartov nos dias 9 e 10 de dezembro para duas conferências sobre o genocídio em Gaza, avanço e riscos da extrema direita no mundo, antissemitismo e o papel das universidades e dos pesquisadores para barrar esses processos. As palestras aconteceram no Salão Pedro Calmon, na Praia Vermelha, e na Faculdade de Farmácia, na Cidade Universitária. “É um privilégio poder participar desse banquete intelectual”, afirmou a professora Ana Célia Castro, diretora geral do Colégio Brasileiro de Altos Estudos, ao apresentar o historiador, no dia 9. No dia 10, a mesa foi coordenada pela professora norte-americana Liv Sovik, Titular da Escola de Comunicação da UFRJ e ex-diretora da ADUFRJ.
Apenas três dias depois da visita ao Brasil, a Brown University, onde Bartov é professor Titular de Estudos do Holocausto e Genocídio, foi atacada a tiros. Duas pessoas morreram e outras oito ficaram feridas. O docente se mostrou consternado. “É uma situação verdadeiramente trágica”, disse. Menos de 24 horas depois, na Austrália, outro ataque, desta vez durante o festival judaico Hanukkah, deixou 16 mortos e 40 feridos na praia de Bondi. Os eventos são faces nuas e cruas da violência que emerge a partir de alguns dos temas debatidos por Bartov na UFRJ, como o antissemitismo e o ódio às universidades.
Omer Bartov nasceu em Israel, onde viveu por três décadas até se mudar para os Estados Unidos. É professor Titular de Estudos do Holocausto e Genocídio, além de ser especialista em História Europeia e Estudos Alemães.
As palestras tiveram transmissão simultânea e estão disponíveis no canal da TV ADUFRJ, no Youtube. Também estão disponibilizadas as versões com legendas em inglês, que podem ser traduzidas automaticamente pelo aplicativo. Basta selecionar a opção “Legendas” e depois ir nas configurações: “Traduzir automaticamente” / “Português”.
Confira alguns dos principais momentos:

É GENOCÍDO
Israel está cometendo genocídio em Gaza. Escrevi isso no The Guardian, em julho de 2024. Na época, as opiniões ainda estavam muito divididas. De lá para cá, a opinião pública passou a concordar mais com isso, mas ainda não houve impacto na elite política. O genocídio é uma tentativa de destruir um determinado grupo étnico. É um assassinato de um grupo, sua completa destruição. Há muita gente que ainda insiste em chamar o que está acontecendo em Gaza de guerra. Não é uma guerra. É genocídio, obliteração, limpeza étnica. Historicamente, limpeza étnica acaba virando genocídio.

ISRAEL É UMA DEMOCRACIA?
O objetivo do sionismo era criar um Estado de maioria judaica. Um Estado judaico pode ser democrático? Entre fevereiro e outubro de 2023, houve um forte movimento em que o atual governo buscou enfraquecer a Suprema Corte para mudar o sistema de governo israelense. A Rússia tem eleições, a Turquia tem eleições, mas não são democracia. Israel está nesse caminho. Sem resolver essa ocupação e com o enfraquecimento do Poder Judiciário, o país nunca vai ser uma democracia.

O PÓS 7 DE OUTUBRO
O 7 de outubro (de 2023) foi um choque para a comunidade israelense, não só pelo número de civis mortos - foi realmente brutal, com mulheres e crianças violentadas. Mas ninguém achava que os palestinos poderiam fazer isso. Um povo subjugado, sob cerco, matou 400 soldados israelenses. Não só civis. Então, a raiva tomou conta. Basicamente, a ideia passou a ser exterminar todos eles.
Depois do ataque do Hamas, houve uma mudança de atitude dramaticamente crítica em Israel, de forma a perseguir os alunos palestinos. Tínhamos intimidação em massa a muitos estudantes palestinos nas universidades israelenses. Esses alunos palestinos, logo depois do ataque do Hamas e do ataque de Israel a Gaza, expressaram suas opiniões e foram imediatamente intimidados pelas lideranças universitárias em Israel.
Em 2024, fui a uma universidade dar uma palestra, em Israel, mas não consegui terminar porque muitos alunos estavam lá para me impedir de falar. Nós os convidamos para entrar e foi uma conversa muito difícil. Muitos deles participaram dos massacres em Gaza, serviram como soldados. Depois do 7 de outubro, muitas pessoas que se diziam liberais passaram a dizer que nada podia ser feito. O que se mostrou foi a real face dessas universidades que se diziam ilhas de pluralismo.
O que mais me chocou foi essa indiferença, esse negacionismo sobre o que estava acontecendo em Gaza. As pessoas liberais não querem falar sobre isso. Esse negacionismo permite a justificativa de Israel para os ataques. Essa mudança de paradigma, de afirmar que não há escolha, beneficia os líderes políticos. Mesmo os judeus que concordam que crimes terríveis acontecem em Gaza não conseguem reconhecer que se trata de genocídio. Essa negação israelense é um fenômeno.

CONIVÊNCIA DAS UNIVERSIDADES NORTE-AMERICANAS
Nas primeiras semanas após o 7 de outubro, os protestos cresceram nas universidades dos Estados Unidos e as administrações passaram a responder muito fortemente a isso. Até chamaram a polícia. Prenderam alunos e muitos foram disciplinados pelas administrações, suspensos, punidos, expulsos. De modo que até o fim de 2024 não foram mais feitos muitos protestos. Em maio de 2024, houve um acampamento da Universidade de Brown e foi dada instrução de que os alunos que estivessem lá seriam disciplinados e o corpo docente que fosse lá visitar seria suspenso.

DEPENDÊNCIA FINANCEIRA
O que aconteceu na “Primavera” de 2024 nos diz algo sobre a estrutura das universidades nos Estados Unidos. São universidades privadas, mas que dependem de financiamento federal para pesquisa e de grandes doadores privados.
Os administradores estavam pressionados pelo governo e pelos doadores – boa parte deles, judeus muito ricos. Eles dizem representar a comunidade judaica. Assim como o governo de Israel diz representar todos os judeus do mundo. Os gestores dessas instituições foram pressionados a agir. Quem não o fez, foi demitido, como o presidente de Harvard. Aqui, a gente ainda não está falando da administração Trump, mas de Biden, que era muito sensível a qualquer crítica a Israel. É óbvio também que muitos representantes americanos no Congresso e no Senado são apoiados por lobby de judeus.WhatsApp Image 2025 12 18 at 09.54.49 5
Universidades corporativas se tornaram dependentes de dinheiro de empresas e as empresas, obviamente, não fazem nada de graça. O resultado disso é um processo que começou muito antes do ataque do Hamas. Essas universidades que se diziam liberais já atuavam privilegiando a formação tecnicista. Você deve estudar para ser treinado a fazer perguntas que ninguém mais fará, entender, questionar. Essas áreas pararam de receber financiamentos. As universidades querem se tornar locais de formação para o mercado de trabalho e abrir mão do papel de séculos de pensar, refletir, criar tecnologias. História, Filosofia, Geografia têm ficado em segundo plano.
É preciso revisar esse modelo de universidades. A educação está sendo detonada pelo atual sistema dos Estados Unidos. Se você tenta impor formas de pensamento ou de expressão, você está arruinando a universidade.

FALSO ANTISSEMITISMO
E HOLOCAUSTO INSTRUMENTALIZADO

Gaza se tornou um experimento e expôs algo muito maior que o horror: a tentativa de silenciar o discurso com o efeito ameaçador do antissemitismo. Temos que distinguir o que é antissemitismo e o que não é. Se estou na rua utilizando uma Estrela de Davi e alguém bate em minha cabeça me perguntando por que estou matando tantas pessoas em Gaza, isso é antissemitismo. Mas se alguém me pergunta minha opinião e nós conversamos sobre minhas ideias, isso não é antissemitismo. Esse antissemitismo ao qual acusam quem se opõe a Israel está instrumentalizado para silenciar, controlar o discurso. As universidades são atacadas por supostamente aceitarem discursos antissemitas. Não temos tido resistência suficiente a isso.
Apoiar a Palestina não é antissemítico. Nem mesmo a oposição ao sionismo é antissemitismo. Ser contra o sionismo não é antissemitismo. O sionismo sempre foi uma ideologia étnico-nacional e foi se tornando um Estado religioso, messiânico. O sionismo é uma posição política. Você pode decidir se concorda ou não. Isso não é ser antissemita. O governo de Israel força essa confusão. Netanyahu está empurrando garganta abaixo essa mistura de conceitos.
O Holocausto foi um genocídio, mas há uma insistência judaica em tornar esse evento único. Essa insistência se reverte em receber tratamento único e se torna instrumento ideológico. O Hamas é considerado pior que os nazistas. Israel defende que essa foi a maior matança de judeus desde o Holocausto. Essa memória é automaticamente recuperada. E o que se faz com nazista? Extermina. E as crianças? São potenciais nazistas, nessa concepção, e todas as pessoas de Gaza. Essa foi a lógica construída. O Holocausto serviu como uma permissão para a violência de Israel.

DESUMANIZAÇÃO
E OCUPAÇÕES

A segunda raiz dessa violência é a ocupação de Israel, em si. Se você desumaniza as pessoas, você permite a violência. A violência, do lado da Palestina, é um produto da ação israelense. A resistência à opressão é natural. É um desejo de liberdade, de não estar mais sob o comando de alguém. Se você é tratado como um animal, você vai responder a isso com violência. É claro que eu condeno os ataques brutais do Hamas, mas é uma consequência dos atos de Israel.

IMPORTÂNCIA DOS PROFESSORES E HISTORIADORES
A universidade é, justamente, o seu professorado. Você pode ter um prédio maravilhoso, administradores ótimos, alunos brilhantes, mas sem professores não existe universidade. O corpo docente - não só nas universidades americanas - perdeu a noção de sua importância. As universidades passaram a ser burocratizadas. A perda da atuação (política) desse corpo docente é muito importante.
Eu estou dando o meu melhor para empoderar o corpo docente a falar sobre o que é a liberdade acadêmica. Liberdade de expressão e liberdade acadêmica não são a mesma coisa. O que é a liberdade acadêmica? Os acadêmicos determinam o que é correto e o que não é correto entre colegas. Usam do seu conhecimento e experiência para entender a realidade e ninguém pode interferir nesse processo. O corpo docente, portanto, precisa retomar seu papel.
Como historiador, afirmo que nós temos papel muito importante em tentar, de forma racional e cuidadosa, analisar o que temos agora e avisar sobre o que pode acontecer, com base na nossa análise sobre o passado. Os historiadores perderam a noção do seu papel político-social. Em tempos de crise, eles deveria usar de sua autoridade para falar sobre o que está acontecendo.

DESMONTE DO
TRIBUNAL INTERNACIONAL

O Tribunal Internacional de Justiça foi constituído após o nazismo como forma de estabelecer regras às quais os Estados devem se submeter, para que algo como aquilo nunca mais ocorresse. Essa Corte declarou que o genocídio em Gaza deve parar imediatamente, mas isso não aconteceu. O Tribunal conseguiu julgar alguns integrantes do Hamas, também a Netanyahu por assassinato, tortura, mas esses crimes e seus julgamentos jamais foram reconhecidos.
WhatsApp Image 2025 12 18 at 09.54.49 7Foto: Fernando SouzaVemos Israel agir com total impunidade por mais de dois anos executando crimes contra a humanidade. Isso é classificado como genocídio e ninguém está fazendo nada para parar esse genocídio. A Convenção do Genocídio é justamente para prevenção e punição do genocídio. Todos os países signatários dessa convenção devem atuar para prevenir antes que aconteça. E são responsáveis pela punição, quando acontece. Mas ninguém faz nada e o Tribunal está sendo desmontado. Há uma destruição da lei internacional.

TERRA PARA TODOS
É preciso afirmar que temos que dar uma alternativa e há uma alternativa. Há um grupo, criado por palestinos e judeus israelenses, chamado “A Land for All”, que é uma tentativa de mudar a lógica que Israel produziu. Não dá, simplesmente, para aprovar dois países. Judeus e palestinos podem viver lado a lado. A infraestrutura é muito conectada e cada grupo quer ter direito de retorno à sua terra.
Esse movimento “A Land for All” é uma tentativa de criar essa conscientização. As fronteiras seriam abertas, as pessoas poderiam migrar de um lugar para o outro. Por exemplo: você pode ser alemão e viver em Paris. Seria o mesmo. Você pode ser palestino e viver em Israel. E o que aconteceria com os 700 mil colonizadores? A maior parte vive na Cisjordânia pelo custo de vida mais baixo e não por razões ideológicas. A maioria migraria e os que ficassem estariam submetidos às leis palestinas. É um horizonte que acredito que seja necessário.
A maioria dos cidadãos palestinos e israelenses quer um Estado binacional. Se você tem uma Confederação, você daria aos dois grupos direitos iguais. Seria um passo na direção de um Estado para todos.

CRESCIMENTO
DA EXTREMA
DIREITA NEOFASCISTA

O número de neonazistas aumentou muito na Alemanha. Em 2023, eram 40 mil. É um número crescente que representa essas tendências de extrema direita que têm prevalecido no mundo. O Partido Nazista é o segundo maior partido da Alemanha. Isso é muito significativo e muito preocupante. Isso não acontece desde 1945.
Esses partidos de extrema direita também se expandiram em outros países, como na Itália, que controla o Executivo. Na França, o partido tem 40% do eleitorado. Está acontecendo na Itália, Alemanha, Suécia, Espanha, Portugal e Grã-Bretanha. Temos até uma versão norte-americana disso. O que elegeu Trump foi o movimento MAGA (Make America Great Again), que possui elementos muito marcados desse movimento neofascista.
Setores da população se opõem a receber tantos imigrantes, principalmente após Angela Merkel (ex-chanceler da Alemanha) receber um milhão de sírios. A oposição aos muçulmanos cresceu demais. Somado a isso, 20% da população da Alemanha não nasceram no país ou são filhos de pessoas que não nasceram. O perfil populacional mudou muito. Há um sentimento crescente de que os “alemães tradicionais” foram deixados para trás. Acolher imigrantes foi uma forma da Alemanha se desculpar com o passado, por conta da culpa sobre o Holocausto. Mas isso causou intenso ressentimento entre os alemães.

POR QUE A EXTREMA
DIREITA CRESCE?

Partidos tradicionais progressistas não entregaram o que prometeram e, por isso, perderam a fé pública. Como resultado, partidos de extrema direita entram nesse ‘vácuo’ e se apresentam como uma terceira via nacionalista. Eles se apresentam como disruptivos. Apelam para a democracia individual e rejeitam qualquer visão crítica do passado. Há um esforço de se livrar da memória de como os partidos nazistas e fascistas terminaram. Agem com rebelião contra elites econômicas e acadêmicas. Escolhem militares para alcançarem seus objetivos políticos.
Esses atuais movimentos fascistas se aproveitam desse ressentimento da população, que é mais forte entre os mais jovens, e evocam o orgulho nacional, a família tradicional. São contra estrangeiros e a favor de se desligarem de organizações internacionais, focando nos “franceses de verdade”, nos “alemães de verdade”, nos brancos. Essa retórica captura os jovens pelas redes sociais. As minorias seriam um empecilho para o crescimento da nação, seriam “parasitas”, nessa lógica.
No campo econômico, basicamente esses movimentos populistas passaram a existir em resposta à globalização, cujas políticas bancárias não levaram em conta o bem-estar da população. A globalização pode ter sido muito boa para corporações multinacionais, mas não está ajudando as pessoas reais. A corrupção das corporações e dos governos ajudam nessa descrença geral.

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