Fotos: Acervo pessoalO Brasil viu saltar o número de estudantes com deficiência no ensino superior. Eles correspondiam a 35 mil matrículas ativas em 2016, ano em que a lei de cotas para as universidades federais foi alterada para incluir pessoas com deficiência. Em 2024, na última avaliação divulgada pelo INEP, alunos com deficiência física, transtornos globais do desenvolvimento ou altas habilidades somavam 95 mil matrículas ativas — número quase três vezes maior do que a taxa de antes da mudança na lei.
Diante desse cenário, a Comissão Permanente Acessível e Inclusiva (CPAI) da UFRJ-Macaé criou um manual para orientar professores universitários. O guia “Inclusão no Ensino Superior: Contribuições Docentes para a Permanência e o Sucesso de Estudantes com Deficiência” traz em suas 71 páginas as legislações vigentes, os tipos de deficiência física, intelectual e transtornos elencados na legislação, aborda necessidades adaptativas para cada tipo de deficiência e os tipos de tecnologias assistivas. O documento foi feito em parceria com a Secretaria de Ensino Superior da Prefeitura de Macaé. O Manual pode ser acessado em: https://is.gd/xcuegA .
“Nós temos a cada dia o ingresso de mais estudantes com deficiência, mas onde estão as ações de permanência?”, questiona a professora Cherrine Kelce Pires, presidenta da CPAI. “No final de 2025, tínhamos cerca de 80 estudantes com diferentes tipos de deficiência no Centro Multidisciplinar, mas esses dados levam em conta apenas a entrada pela cota”, explica a docente. “Há deficiências adquiridas ao longo do curso por um acidente ou por
uma doença grave que deixa sequelas. Há ainda os diagnósticos tardios e há quem passe para a universidade na ampla concorrência e não quer expor sua deficiência. O dado não enxerga esses estudantes, esse número ainda é subdimensionado”, analisa a professora. “Precisamos olhar para todos eles. O foco da nossa comissão é formar os professores para que esses alunos aumentem sua participação e seu sucesso acadêmico”, explica.
A publicação foi elogiada por estudantes. “A gente entra na universidade por políticas afirmativas e acha que vai encontrar o suporte necessário, mas a realidade não é bem essa”, aponta a estudante Aline Resende, do 8º período de Farmácia do Centro Multidisciplinar UFRJ-Macaé. “Esse manual é muito positivo, pois ainda falta muita informação em todos os lugares sobre as necessidades das pessoas com deficiência”, diz ela.
Aline tem um condição chamada mielomeningocele, uma má formação na medula espinhal que causa limitações motoras. Ela usa cadeira de rodas na universidade. “Quando cheguei na graduação, em 2022, me deparei com muitas barreiras estruturais. Eu usava cadeira de rodas manual e precisava sempre da ajuda de alguém para acessar os andares”, lembra. “As rampas em Macaé existem, mas são inclinadas demais”, critica. “Passei por muitas dificuldades, até que minha família se cotizou e conseguiu comprar uma cadeira motorizada em 2024. Desde então, não dependo mais de ajuda para chegar às aulas”, conta. “Se tivéssemos elevadores, eu e outros colegas não teríamos esse problema. Acessibilidade é você poder ir e vir sem depender de ninguém”.
BARREIRAS
A estudante lembra que no começo do curso ela se deparou com as chamadas barreiras atitudinais. “Esse debate sobre pessoas com deficiência ainda não estava estabelecido na universidade. Havia, sim, barreiras por parte de colegas e professores”, relembra a estudante. A cultura local foi mudando aos poucos. “Hoje, com as capacitações e maior acesso a informações, o quadro é outro. Por exemplo, eu preciso de uma mesa individual para que eu consiga encaixar a minha cadeira e assistir às aulas. A universidade usa aquelas carteiras com a cadeira fixa. Eu não consigo fazer uso delas. Hoje, se o professor entra em sala e vê que falta a minha mesa, ele vai pedir para trazerem e não inicia a aula sem que eu esteja instalada”.
As barreiras também existem para estudantes neurodivergentes, caso da aluna Alessandra Pereira da Silva, do segundo período de Medicina em Macaé. Ela recebeu o diagnóstico de autismo já na fase adulta e precisa utilizar nas aulas equipamentos de proteção, como óculos escuros e abafadores de ruído.
A UFRJ é a terceira universidade pela qual a estudante passou. Ela tem uma primeira formação em Ciências Sociais, na UnB, e desistiu do curso de Medicina, na Universidade Federal do Delta do Parnaíba, no Piauí. “Na primeira, não tive nenhum suporte porque ainda não tinha diagnóstico fechado. Sofri muito, fiquei em situação de jubilamento duas vezes, mas consegui concluir o curso após longos anos. Na segunda universidade, eu já tinha o diagnóstico, mas simplesmente desisti do curso porque não tinha estrutura”, conta Alessandra. “Aqui eu encontrei equidade para conseguir estudar. Os professores me permitem ser aluna. Uma coisa tão simples, mas geralmente não é a primeira preocupação do estudante PCD. Antes, ele se preocupa com as barreiras que vai enfrentar, se vai conseguir continuar no curso, como vai chegar à aula”, analisa.
Para a professora Cherline, as barreiras atitudinais e o capacitismo só podem ser reduzidos com informação e formação. “Os estudantes precisam ter pleno direito à educação. Precisamos pensar num espaço de desenho universal, acessível a todos. Nossa meta é ter ambientes em que qualquer pessoa, independentemente de sua deficiência, tenha o acesso garantido ao espaço e aos materiais”.
MAPEAMENTO
Rita Gomes, gestora da Diretoria de Acessibilidade (Dirac), vinculada à Superintendência-Geral de Ações Afirmativas, Diversidade e Acessibilidade da UFRJ (Sgaada), elogia o trabalho da comissão de Macaé, mas pede mais unidade nas ações. “Nós temos proximidade grande com a comissão. A gente conhece a competência técnica das pessoas, mas o ideal é que o que a gente produzir tenha caráter coletivo, a chancela da Minerva”, diz. “É preciso formar professores que ainda não pensam na perspectiva da inclusão e da acessibilidade. Estamos organizando a equipe para amadurecer as ações. A gente está falando de alunos com deficiência, com autismo, mas essa demanda vem crescendo também entre técnicos e docentes”.
As ações, no entanto, ainda caminham lentamente. “Um decreto do ano passado instituiu o atendimento educacional especializado, que passou a ser obrigatório, mas não temos psicopedagogia no PCCTAE, nem cuidadores. Há uma série de demandas muito urgentes”, afirma. “Temos um número muito grande de pessoas autistas, então estamos investindo em um planejamento para a área de regulação e realizando mapeamento de barreiras arquitetônicas e urbanísticas”, conta. “Ainda não temos o site da Sgaada contemplando todas as acessibilidades. Então, tem uma pessoa deslocada para atuar nesse sentido. Com o site pronto, disponibilizaremos todos os materiais de consulta, orientação e apoio”, pontua. “São muitas as urgências e necessidades”.




