Foto: Fernando SouzaSobrecarga de trabalho, redução de bolsas de apoio à pesquisa e falta de orientação institucional para atuação junto a alunos e servidores com deficiências. Esses foram os principais temas abordados na reunião entre a diretoria da AdUFRJ e professores do campus de Duque de Caxias, na manhã de segunda-feira (13). O encontro foi a primeira de uma série de visitas do sindicato às unidades para ouvir as demandas dos colegas.
Além das muitas horas de aula que os 64 professores do campus precisam dar conta nos três cursos de graduação e três programas de pós, há um desgaste extra com tarefas administrativas. “Tivemos alguns concursos recentemente aqui e o corpo docente reduzido teve de fazer tudo. O estresse é muito grande”, afirmou o professor William Tavares, que citou outro exemplo do dia a dia. “Adoro dar aulas, mas às vezes não conseguimos dar aula no horário certo, porque temos que correr atrás de cabo HDMI do data-show, limpar ou consertar o equipamento. Precisamos entender melhor nossas atribuições”, completou.
“E agora tudo é no SEI (Sistema Eletrônico de Informações), que tem uma facilidade, mas nos atribui conhecer muito do administrativo. Estamos sobrecarregados”, continuou William. “A gente pensa ser docente-pesquisador e, quando chega aqui, a gente passa boa parte do tempo fazendo gestão ou administração”.
Outra delicada dificuldade enfrentada pelos docentes de Caxias é o crescente número de alunos com deficiências — hoje, somam 21 —, o que tem
impactado no trabalho docente. “Precisamos de treinamento, de outros profissionais mais qualificados que possam atuar em conjunto com psicólogos e neuropsicólogos, e mesmo de alternativas para garantir que o processo de ensino-aprendizagem seja adequado”, explicou Juliany Rodrigues, ex-diretora do campus e agora integrante do Conselho de Representantes da AdUFRJ.
Na maioria dos projetos dos professores do campus, os estudantes precisam defender um trabalho de conclusão de curso experimental, na interface entre a ciência básica e a tecnológica. “Estudantes com determinadas deficiências poderão, e até terão, muitas dificuldades para desenvolver os trabalhos, como aqueles com alguma deficiência física nos membros superiores ou com deficiência visual”, exemplificou Juliany. “Algumas neurodivergências podem causar falta de autonomia e até mesmo déficits cognitivos que impactam a formação, o que pode afetar o trabalho em um laboratório com equipamentos complexos e a manipulação de reagentes químicos perigosos”, completou.
A drástica redução das bolsas de pós-graduação é outro ponto preocupante para os docentes do campus, com programas novos e muitos estudantes de baixa renda. “Se a gente não tem recursos, é degradação de nossa condição de trabalho. Se você tratar igual os desiguais, você será desigual”, observou o professor Karim Dahmouche.
ENCAMINHAMENTOS
O sindicato pretende levar o debate sobre a atuação junto às pessoas com deficiência para a reitoria. Professora da Escola de Química e 2ª secretária da AdUFRJ, Andrea Parente considera que os pontos de sobrecarga docente e acolhimento dos alunos se conectam: “Na minha unidade, também recebemos estudantes atípicos, que pedem mais tempo de prova. E preciso ser duas para arrumar sala para eles fazerem a prova. Nós ficamos perdidos na boa vontade”, concordou. “Acho que a universidade fez um movimento que deve ser apoiado pela inclusão, mas ela exige uma capacitação”, completou o vice-presidente da ADUFRJ, Pedro Lagerblad.
A diretoria da AdUFRJ se solidarizou com os colegas quanto à escassez de bolsas. “Há uma concentração de bolsas. A pessoa que tem bolsa tem três. Outras não têm nenhuma. Não concordamos com isso”, disse a presidenta Ligia Bahia. “Existem programas nota 7 reclamando de cortes também. Essa briga é muito dura. Estamos nos preparando, reunindo informações”, completou.
Sobre os direitos e deveres dos professores, a presidenta da AdUFRJ disse que poderia ser elaborado um documento. “Temos o RJU (Regime Jurídico Único, de todos os servidores federais). Não temos nada específico para dentro da UFRJ. Nosso setor jurídico pode nos ajudar com isso”, afirmou.
Ao final, a docente avaliou de forma positiva o encontro. “Foi uma reunião produtiva para a gente ouvir e se emocionar. Estamos juntos, podemos pensar juntos e assim levar adiante a AdUFRJ”, disse.
Pró-reitor também lamenta falta de bolsas
Sobre a escassez de bolsas, a pró-reitoria de Pós-graduação e Pesquisa respondeu que o problema é geral e não atinge apenas Caxias. “Tem poucas bolsas, sim, para todo mundo. As bolsas não vão apenas para programas consolidados”, afirmou o pró-reitor João Torres.
Com as chamadas bolsas de Demanda Social, distribuídas pela reitoria, há um esforço para contemplar programas com notas menores. De 2023 a 2025, de acordo com apresentação enviada à reportagem, programas nota 5 receberam mais bolsas de doutorado que os cursos notas 6 e 7. Programas nota 4 receberam mais bolsas de mestrado que cursos notas 5, 6 ou 7.
“Do CNPq, tivemos 41 bolsas de doutorado em março e teremos mais 41, em agosto. É muito menos que uma bolsa por programa”, completou.
ADICIONAL DE INSALUBRIDADE É OUTRA PREOCUPAÇÃO
Os professores de Caxias também manifestaram indignação com a não concessão dos adicionais de insalubridade por parte da universidade. Ou com o pagamento em percentuais diferentes para colegas que trabalham no mesmo laboratório, sob as mesmas condições.
A assessora jurídica da AdUFRJ, Mariana Lindenmeyer, que também acompanhou o encontro em Caxias, afirmou que o tema é recorrente nos atendimentos oferecidos pelo sindicato. “Muitos pedidos são indeferidos pela ausência de perícia administrativa. Uma das ações coletivas que fizemos é para obrigar a UFRJ a fazer. Além disso, fazemos ações individuais”. Para quem quiser tirar dúvidas, a advogada orientou a marcação de um horário no plantão jurídico da AdUFRJ.
Durante a reunião, os docentes receberam informações sobre as ações e planos dos primeiros seis meses de mandato na AdUFRJ — com destaque para a sede do sindicato que será construída na Cidade Universitária —, e os convênios oferecidos.




