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Ela trabalha no Fundão, mas seu coração está no Irã. Maral Mostafazdehfard nasceu, cresceu e se formou em Teerã, onde fez o mestrado em Álgebra não Comutativa na Tarbiat Modares University. Em 2010, veio fazer o doutorado no Brasil, e há sete anos é professora do Instituto de Matemática da UFRJ. Seus dias e noites nunca foram tão difíceis. Ela acompanha com aflição as notícias da guerra. A mãe e a irmã são diabéticas e já não conseguem remédios com regularidade. As comunicações estão cortadas e o único contato é com um sobrinho.

“Não há mais internet”, conta a docente, líder de um grupo de pesquisa sobre mulheres matemáticas. “No Irã, as professoras precisam lecionar usando o hijab. As dificuldades para obter vistos muitas vezes impedem pesquisadores de participar de eventos científicos no exterior. Muitas colegas não conseguem participar de conferências internacionais”, lamenta a professora, que costuma voltar ao Irã a cada dois anos. “Mas, a cada viagem, eu sinto que a situação está piorando. Para mim, é como uma cortina de teatro que se abre a cada dois anos e revela um cenário cada vez mais difícil para a vida acadêmica, para a ciência e para a sociedade”.

Professoras e alunas foram as primeiras vítimas dos Estados Unidos na Guerra no Irã. A senhora acha que isso foi por acaso?
Por que atacar uma escola de meninas? Infelizmente, o petróleo no Golfo Pérsico sempre foi um ponto de grande interesse e também de conflitos. Poucas horas após o início da guerra, houve um ataque a uma escola que resultou na morte de 168 pessoas e deixou 96 feridos. A maioria era de estudantes — meninas e meninos —, além de 26 professoras e alguns pais. Era uma escola de Ensino Fundamental, com crianças entre 7 e 12 anos, localizada em uma cidade pequena e não estratégica. É muito preocupante quando civis, especialmente crianças, se tornam vítimas de um conflito. A direção dessa guerra parece inflamar ainda mais a situação, em vez de buscar soluções. A grande questão agora é quem conseguirá controlar essa escalada de violência.

Qual a diferença entre ser professora de uma universidade aqui e no Irã?
Há algumas diferenças importantes entre ser professora universitária no Brasil e no Irã. No Irã, as professoras precisam lecionar usando o hijab, mas em termos de carreira acadêmica elas podem fazer pesquisa e são avaliadas de forma semelhante aos homens. Uma das maiores dificuldades está relacionada às condições econômicas e às relações internacionais do país. A desvalorização da moeda e as dificuldades para obter vistos muitas vezes impedem pesquisadores de participar de eventos científicos no exterior. Muitas colegas minhas, por exemplo, não conseguiram participar de conferências internacionais por esses motivos. A relação internacional do Brasil com outros países, especialmente na emissão de vistos, é bem melhor. O Brasil tem uma economia mais estável e existem várias agências de fomento com editais que apoiam a pesquisa e incentivam a participação das mulheres na ciência. Além disso, as mulheres têm mais autonomia em relação às suas escolhas e à própria aparência. Isso contribui para um ambiente acadêmico mais aberto e acolhedor para pesquisadoras.

Como a senhora mantém o contato com a sua familia no Irã depois que a guerra começou?
Depois que a guerra começou, meu contato com meus pais foi completamente interrompido. No momento, consigo falar apenas com um sobrinho, que conseguiu usar um VPN específico para se conectar, embora eu não saiba exatamente como. Pedi que ele me escreva todos os dias para me dizer se todos estão bem. Ele me contou que a situação tem sido muito difícil. Por causa do barulho das explosões e do medo constante, muitas pessoas não conseguem dormir à noite. Em alguns momentos, eles chegam a ouvir aviões militares passando, o que aumenta ainda mais a sensação de insegurança. Estar longe e sem conseguir falar diretamente com minha família é uma das partes mais dolorosas dessa situação.

A senhora tem duas filhas pequenas. Como a senhora está falando sobre a guerra com elas ?
Explico que, infelizmente, conflitos existem no mundo, mas que toda guerra termina em paz. Será melhor pensar em paz desde do início. Como mãe e professora, acredito que educar para o diálogo, para o respeito e para a empatia é uma das formas mais fortes de contribuir para um futuro melhor.

Mulheres e crianças são as que mais sofrem em guerras. Como sua mãe e suas irmãs estão no Irã?
Minha mãe e a minha irmã mais nova saíram de Teerã e foram para uma cidade pequena no norte do Irã, buscando mais segurança. Mesmo assim, a situação continua muito preocupante. Elas são diabéticas e, ainda antes do início da guerra, já enfrentavam dificuldades para encontrar seus medicamentos. Quando consegui falar com elas pela última vez, me contaram que a farmácia só conseguiu vender remédios para um mês. Isso me deixa muito preocupada, porque até tratamentos básicos para doenças crônicas, como diabetes, podem se tornar difíceis de manter em uma guerra.

A senhora está no Brasil há mais de 10 anos. Nesse período, já pensou em voltar a morar no Irã?
Sim, já pensei em voltar várias vezes. Antes da guerra, eu costumava viajar ao Irã a cada dois anos para visitar minha família e também universidades em Teerã e Isfahan, onde encontrava colegas matemáticos. Mas, a cada viagem, eu sinto que a situação está piorando. Para mim, é como uma cortina de teatro que se abre a cada dois anos e revela um cenário cada vez mais difícil para a vida acadêmica, para a ciência e para a sociedade.

Como educadora que forma matemáticos e cidadãos do futuro, como a senhora vai abordar o tema da guerra em sua sala de aula este semestre?
Na sala de aula, procuro manter o foco na educação e na ciência. A guerra não tem relação com o que buscamos construir na universidade, que é conhecimento, diálogo e pensamento crítico. Sou muito grata aos meus alunos. Eles me ajudam a permanecer ativa e a manter uma mentalidade positiva.

Qual o papel de uma professora na construção da paz?
O papel de uma professora é orientar e formar pessoas. Em momentos difíceis, como os que vivemos hoje, precisamos ser pragmáticos e manter a esperança. Muitas vezes as soluções não são claras — a situação pode parecer um labirinto. Mas, para encontrar a saída, precisamos continuar tentando, aprendendo e acreditando que é possível construir caminhos de paz.

O regime iraniano é muito cruel com as mulheres. Como a senhora convivia com essas crueldades no seu país?
O regime iraniano tem regras muito restritivas em relação às mulheres. Restrições estão implementados nas próprias leis. Ou seja, trata-se de uma forma de desumanidade legalizada! No meu caso, as fiscalizações relacionadas ao uso do hijab eram algo frequente e bastante incômodo. Eu sempre gostei de me arrumar e usar maquiagem, e muitas vezes as estudantes eram questionadas ou repreendidas por sua aparência. Isso acaba tirando o foco do que realmente importa na universidade, que deveria ser o estudo e a formação acadêmica. Lembro que, durante o meu mestrado, percebi que a fiscalização no portão da universidade começava por volta das 7h da manhã e terminava por volta de 19h. Então eu costumava chegar antes desse horário e ficava estudando até a noite. No fim, esse período de dedicação intensa também contribuiu para que eu me tornasse a primeira colocada no mestrado em Matemática pura na minha universidade. Sobre mudanças, acredito que transformações acontecem quando há consciência, intenção e iniciativa.

A senhora tem esperança?
Não acredito que a lógica da guerra de Trump e Israel e a crueldade dos aiatolás estejam alinhadas com o objetivo de trazer paz, segurança e bem-estar para a sociedade iraniana. O desenvolvimento de um país não pode ser construído por meio da destruição. A esperança é que, no longo prazo, a sociedade possa caminhar em direção a soluções mais pacíficas e construtivas.

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