Eleonora Ziller
Professora da Faculdade de Letras
e ex-presidente da AdUFRJ
Já faz um tempo, recebi uma matéria produzida pela diretoria do nosso sindicato nacional sobre o aniversário da fundação do Andes. Reivindicam sua história, reforçam que os compromissos são os mesmos daqueles anos, que a luta continua... e aí eu pergunto: será mesmo? A quantas anda o nosso sindicato nacional?
Um paradoxo me chamou a atenção. O texto ressalta o papel fundamental que a AdUFRJ teve nesse processo, em dois momentos históricos: a organizaçãodo Encontro Nacional Extraordinário (ENExAD), que teve uma participação recorde de 49 ADs, quando foi tomada a decisão histórica de convocar o Congresso Nacional de Docentes Unificados (CNDU) para a criação da entidade nacional. E, anos depois, a assembleia de criação do Sindicato Nacional, substituindo a antiga Associação Nacional de Docentes do Ensino Superior. É importante lembrar ainda, isso não está no texto, que o segundo presidente da Andes foi o Luís Pinguelli Rosa, professor da Coppe/UFRJ. E o que a tal matéria ressalta, o que seria a sua maior característica, mantida até hoje, é a vinculação do Andes às bases, porque é de baixo para cima que se faz o Andes Sindicato Nacional...
Mas... não é bem assim que a banda está tocando faz tempo. A AdUFRJ é a maior associação vinculada ao Andes, está entre as maiores contribuições financeiras, tem levado as maiores delegações para os Congressos e Conselhos (Conads), sempre numa composição pluralista, respeitando a diversidade de posicionamentos existente na sua base de atuação sindical. Tem mantido altos níveis de participação nas eleições, contribuindo de forma objetiva e material com o fortalecimento da entidade. Tem sido nos últimos 11 anos uma voz crítica à diretoria que se mantém no cargo há décadas, mas sempre se expressando de forma transparente e democrática.
Com toda a certeza, a AdUFRJ realizou uma das maiores assembleias para eleição de delegados para o 44º Congresso, que foi realizado há alguns dias, em Salvador, e a escolha da delegação, feita de forma direta e secreta, mobilizou 387 docentes. Não há delegação que tenha alcançado sequer a metade desses números ao ser eleita. Há fortes delegações comprometidas com a pauta da diretoria, com as deliberações dos congressos, mas que não reuniram mais que 15 docentes em suas assembleias (isso em universidades com mais de 1.000 sindicalizados).
Para proibir a participação da nossa delegação, a diretoria do Andes argumenta burocraticamente, como tem feito nas últimas duas décadas, principalmente. É o regimento. Mas e se o regimento, votado casuisticamente no ano anterior, viola o princípio básico da criação do Andes? Ou seja, acaba com a autonomia das seções sindicais e a real participação da base? Hoje, a “democracia” exercida pelo Andes se resume a alcançar um controle numérico nas plenárias se realizar uma votação regimental e, assim, rasgar a nossa história?A base da UFRJ escolheu o processo por votação online, para a escolha direta e secreta de seus delegados, assim como modalidade de assembleia por meio de plataforma digital que permite a presencialidade simultânea de diversos campi, a participação de docentes aposentados com dificuldade de locomoção, docentes interessados no movimento, mas que estão em algum congresso ou missão no exterior etc.
A atual diretoria do Andes quer se manter fiel a uma forma de organização do movimento sindical do século passado. E não porque seja o mais democrático e garanta o vínculo orgânico com a sua categoria, mas sim porque dessa forma ela mantém uma rede de militância capaz de controlar a máquina sindical e deixá-la nas mãos do que eles chamam de voto “qualificado”, que são sempre o de valorosos, porém poucos aguerridos companheiros.
Para se manter fiel ao que foi a Andes da década de 1980, é preciso entender que um sindicato forte é um sindicato de todos os professores, TODOS! Inclusive daqueles que não rezam na mesma cartilha das forças políticas que compõem a diretoria, mas são comprometidos com a universidade pública, gratuita, democrática e de excelência, produtora de pesquisa de ponta, voltada para a resolução dos grandes problemas, das dores reais de nossa gente, de todas as gentes.
Explico agora o título desse texto: a polilaminina, ainda em fase de testes, é o resultado de mais de duas décadas de pesquisa na UFRJ, é capaz de recompor as conexões interrompidas por traumas e já devolveu movimento a tetraplégicos. Não é pouco, e embora seus resultados não sejam definitivos, são promissores. E é dela que precisamos!!!!! Nós precisamos devolver as conexões perdidas entre a diretoria de nosso sindicato com sua imensa base de professores envolvidos em pesquisa de ponta que hoje estão taciturnos, sem entusiasmo e pouco mobilizados. E queira a diretoria do Andes ou não, a AdUFRJ tem demonstrado na prática que isso é possível!!! Temos alcançado números muito expressivos de participantes em todas as nossas votações, temos garantido a participação ampla de nossa base, e é um absurdo que o Andes prefira que fiquemos fora do Congresso.
Façamos um esforço para olhar com olhos livres: a professora Tatiana Sampaio, docente da UFRJ, está em todas as mídias por conta de sua pesquisa com a polilaminina, denunciando o significado nefasto do corte de verbas para a Ciência, de forma independente, altiva e corajosa. Essa sua fala repercute em toda a sociedade, chegando até àquelas famílias que acreditam numa campanha sórdida contra as universidades públicas que a extrema direita vem fazendo. E um detalhe que não nos deve escapar: de 2017 a 2019, a Tatiana integrou a diretoria da AdUFRJ, como segunda secretária, na gestão da saudosa Maria Lucia Werneck.
A diretoria do Andes pode preferir não ver, não saber, mas escolher não ter no seu Congresso delegações amplas, que tenham representação real entre a maioria dos docentes, é inadmissível, é decretar sua falência. É o aviso do fim. A diretoria tem até o direito de manter o histórico da entidade desatualizado no site, sem explicar que já não é mais filiada ao Conlutas(alguém ainda se lembra do Conlutas e do “fora todos”?). Mas não pode proibir que sua base que se manifeste livremente, questionando seus procedimentos burocráticos excludentes. Podem ficar enfurecidos, mas alguém precisa dizer que o rei está nu. Permanecendo nessa política, lhe restará o isolamento, a ausência de conexão, a falta de diálogo com quem está no front, produzindo e pensando um país melhor.





