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50810335328 c27008459d cColetiva de imprensa sobre a eficácia da vacina do Butantan - Foto: Governo de São PauloA notícia da semana foi o anúncio dos dados de eficácia da Coronavac, vacina desenvolvida pelo laboratório chinês Sinovac, em parceria com o Instituto Butantan, de São Paulo. O percentual de 50,38% de eficácia global quase bateu na trave do mínimo exigido pela Organização Mundial da Saúde, que é de 50%. No entanto, não é para ele que devemos olhar, na opinião do professor Paulo Nadanovsky, do Departamento de Epidemiologia do Instituto de Medicina Social da Uerj. “O que mais interessa são os 78% que fazem parte dos números anunciados”, afirma. O percentual indica que somente 22% dos vacinados que desenvolveram a doença precisaram de algum tipo de assistência médico-ambulatorial. “Neste momento de total descontrole da pandemia, isso é muito bom, porque reduz o estresse dos serviços de saúde”, avalia.
Em relação ao anúncio de 100% de proteção contra internações para tratamento de casos moderados e graves, o epidemiologista, que também é pesquisador da Fiocruz, se mantém reticente. “Houve sete casos no grupo que tomou placebo, contra zero no grupo que tomou a vacina. Não há dados estatísticos suficientes”. O pesquisador compara o cenário com dois candidatos a eleições. Um deles tem 28% das intenções de voto e o outro, 26%. A margem de erro, ou intervalo de confiança, é de 4 pontos percentuais para mais ou para menos. “Neste exemplo, os candidatos estão empatados. Não há como afirmar quem ganha. É o mesmo no caso desses 7 a 0. Os intervalos de confiança estão totalmente sobrepostos”, afirma.
WhatsApp Image 2021 01 15 at 10.20.53O professor Herbert Guedes, do Instituto de Microbiologia Paulo de Goés, concorda. “O número de casos graves foi muito pequeno no estudo. Estatisticamente não há como ter certeza do dado. Quando passarmos à fase 4, que é a de vacinação para amplo número de pessoas, é que vamos poder comparar e ter clareza sobre isso”, diz ele, que é especialista em vacinas e imunização. Para Guedes, uma vacina com 50% de eficácia já é uma ferramenta muito importante. “Vai nos ajudar a sair deste momento de emergência. Os dados em relação aos casos graves podem indicar uma tendência que, se confirmada, será algo fantástico. O que queremos é salvar vidas”, afirma.
Clarissa Damaso, professora do Laboratório de Virologia Molecular do Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho, reforça que o Brasil precisará de uma cobertura vacinal grande, bem acima dos 70%, para gerar a chamada ‘imunidade de rebanho’. “Precisamos de ampla cobertura para controlarmos a pandemia”, alerta. “O ideal seria começar a imunização para todos, mas infelizmente será preciso fazer escolhas porque não teremos vacinas suficientes”, completa a virologista.

VACINA ESTERELIZANTE
Uma estratégia de vacinação bem estabelecida precisa do maior número de dados possível e, até agora, nenhum dos estudos disponibilizou informações suficientes para se saber, por exemplo, se os imunizantes são ou não do tipo esterelizante. Ou seja, se garantem que o indivíduo vacinado não transmita mais o vírus ou se agem apenas contra o desenvolvimento da doença em pessoas infectadas.
“Se tivermos respostas de que alguma vacina evita a transmissão do vírus, pode-se pensar em estratégias interessantes de imunização, combinando dois tipos. Por exemplo, destinar uma vacina para grupos que mais circulam na cidade e focar outra, que proteja mais contra casos graves, em idosos e pessoas com comorbidades”, sugere o epidemiologista Paulo Nadanovsky. “Isso pode reduzir bastante o tempo de saída da pandemia”, acredita o pesquisador. “Mas, para isso, precisamos de mais vacinas e de mais informação”.
Para a professora Clarissa Damaso, a única forma de saber se uma vacina bloqueia a transmissão do vírus na fase dos testes clínicos seria fazendo o acompanhamento dos voluntários com swab recorrentemente, para ver se eles teriam o vírus nas vias aéreas. “Isso demandaria mais tempo. Sobretudo num país como o nosso, que já não está conseguindo testar sua população, atrasaria muito a vacina”, explica a professora.
Mas, caso não haja o bloqueio do vírus, esta não será uma exclusividade das vacinas contra a covid-19. Há vacinas contra o sarampo e a poliomielite, por exemplo, que também não bloqueiam a transmissão dos vírus, apenas impedem o desenvolvimento das doenças. Exatamente por isso, quando a cobertura vacinal cai, essas e outras enfermidades consideradas erradicadas voltam a surgir. Portanto, distanciamento social, uso de máscaras e higienização das mãos continuarão sendo necessários, mesmo após a vacinação. “Ainda precisaremos de estratégias para proteger os grupos que não estarão imunizados, como crianças, adolescentes e gestantes, já que os testes ainda não foram realizados nesses grupos”, afirma a docente.

BRASIL NO FIM DA FILA
Até o momento, 51 países já iniciaram a vacinação contra a covid-19. Mas o Brasil ainda não tem data nem plano para que isso ocorra. Na última segunda-feira (11), o ministro da Saúde, general Eduardo Pazuello, afirmou que a imunização dos brasileiros acontecerá “no dia D, na hora H”. Dois dias depois, voltou atrás e afirmou que a vacina começará a ser distribuída ainda em janeiro. E em encontro com prefeitos, nesta quinta-feira (14), o general disse que a vacinação pode começar na quarta-feira que vem (20). Diante de tantas incertezas, dois milhões de doses da vacina da AstraZeneca deverão chegar nos próximos dias, vindas da Índia. Essas doses são capazes de imunizar menos de meio por cento da população.
Além da AstraZeneca, que tem a Fiocruz como produtora do imunizante no Brasil, o governo federal firmou acordo com o Instituto Butantan. As duas instituições já solicitaram à Anvisa a autorização para uso emergencial das vacinas. Segundo a agência, cerca de 20% das informações encaminhadas ainda precisam de complemento. O andamento dos processos é atualizado diariamente. Já a Pfizer e a Janssen ainda não pediram o uso emergencial, mas as documentações vêm sendo analisadas em processo de submissão contínua.

Fiocruz quer entregar 30 milhões de doses em fevereiro

Apesar do erro que levou a AstraZeneca e seus parceiros a refazerem os testes da fase 3 – foram aplicadas duas doses inteiras em um grupo de voluntários e uma dose e meia em outro grupo –, a Fiocruz já começou a desenvolver o imunizante. A documentação está sendo analisada pela Anvisa. De acordo com a agência, nenhum dado deixou de ser enviado, mas cerca de 18% ainda precisam de complementação. A expectativa é que a Anvisa finalize a análise dos documentos ainda esta semana e autorize o uso da vacina a partir do dia 18. E a Fiocruz estima que possa entregar 30 milhões de doses no mês que vem.
Como o estoque inicial ainda será baixo, especialistas discutem o uso das vacinas que estiverem disponíveis em uma dose só ou em duas doses mais espaçadas, com intervalos de até três meses. A estratégia ajudaria a ampliar o alcance da primeira dose a um grupo maior de pessoas. “Como vacinologista, sempre defendo duas doses, porque amplificam a resposta imunológica”, acredita o professor Herbert Guedes. “A estratégia pode funcionar e garantir algum grau de imunização a um número maior de indivíduos”, considera. “Mas é preciso que tenham sido feito estudos que respondam ao percentual de imunização da primeira dose. A decisão precisa se basear em dados”.

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