FSOU2793Foto: Fernando SouzaA UFRJ abriu com chave de ouro sua Semana de Integração Acadêmica, Artística e Cultural (Siac). Até o dia 27 de outubro serão apresentados 6.655 trabalhos de mais de 30 mil autores: um aumento de 18% nos trabalhos de pesquisa e de 12% nos de extensão. A mesa “Mulheres na Ciência” foi o pontapé inicial e debateu a atuação feminina na produção do conhecimento. As professoras Giovanna Xavier, Dani Balbi e Fernanda Cruz falaram sobre suas trajetórias acadêmicas até se firmarem enquanto pesquisadoras na maior universidade federal do país.

“Só pode existir universidade se ela produz investigação profunda, se ela é constituidamente democrática e livre, se ela se questiona a todo o tempo”, afirmou a pesquisadora Dani Balbi, da Escola de Comunicação da UFRJ. Em sua fala, ela defendeu a autonomia das pesquisas realizadas nas universidades públicas e o papel das ciências humanas.

 “Em Ciências Humanas, a ciência básica se transforma em ciência aplicada com políticas públicas. Para que isto ocorra, é preciso investimento público, financiamento e vontade política de implantar essas políticas”. Citou como exemplos os estudos que levaram à constituição de cotas raciais no ensino público.

Fernanda Cruz, do Instituto de Biofísica, foi vencedora do prêmio Para Mulheres da Ciência, da L’Oréal Brasil. Professora do Laboratório de Investigação Pulmonar (LIP), ela estuda tratamentos menos invasivos para pacientes que sofrem com doenças respiratórias graves. “A asma mata seis pessoas por dia no Brasil. É uma das doenças que buscamos tratar e curar”, afirmou a docente. O prêmio, no valor de R$ 50 mil, foi recebido no ano passado para custear sua pesquisa.

“Sou suburbana, moradora de Ramos. Meus irmãos foram para a área de exatas e eu fui para a área do cuidado em Medicina. Um ano depois do fim do meu curso, concluí meu doutorado, pois fiz o programa MD-PhD ainda durante a graduação e cursei o doutorado ao mesmo tempo”, lembrou a jovem pesquisadora. 

“Logo depois fui para o pós-doc. A UFRJ nos dá oportunidades ímpares. A universidade pública é muito importante para nossa constituição”, contou. “Eu amo a pesquisa, amo a docência, amo estar com meus alunos. Há um ano tenho orgulho de dizer também que sou professora desta casa”, disse. 

A docente afirmou que começar a carreira na UFRJ com uma verba para sua pesquisa foi muito importante neste momento de cortes de recursos. “Eu, a garota suburbana que sonhava em fazer medicina, ganhadora de um prêmio desta importância. Eu trabalho com células tronco e o conselho de um pai de célula tronco para sua filha é: ‘querida, você pode ser o que você quiser’. É só uma questão de tempo e oportunidade”.

Giovana Xavier, da Faculdade de Educação, falou sobre a transferência dos saberes a partir da tradição oral, do ouvir e contar histórias de mulheres negras. Esta, aliás, é a síntese do livro que a docente lançou no mesmo dia, logo após a mesa da qual participou. “Você pode substituir mulheres negras como objeto de estudo por mulheres negras contando sua própria história” é o primeiro livro autoral da pesquisadora. 

“É um resgate deste protagonismo que existe, na prática, mas muitas vezes é apagado. É um livro que fala sobre vários temas a partir das perspectivas e experiências de mulheres negras”, explicou em entrevista à TV AdUFRJ. A sub-representação acontece, inclusive, dentro da academia, segundo a docente, que lançou a plataforma “Preta Dotora”, em 2014, e formou o Grupo de Estudos e Pesquisa Intelectuais Negras, no mesmo ano, na UFRJ. “De aproximadamente 400 mil docentes universitários no Brasil, pouco mais de 64 mil são professores negros”, afirmou.

A reitora Denise Pires de Carvalho abriu a conferência defendendo a importância de falar nas mulheres cientistas.  “Mais de 50% da produção acadêmica no Brasil é feminina. Somos metade da força de trabalho nesta universidade, mas não temos o destaque que é justo”, disse. A reitora aproveitou a ocasião para cobrar do poder público mais investimentos para a pesquisa nacional e um “Ministério de Ciência, Tecnologia, Inovação e Comunicações fortalecido”. “Permanecer pública, gratuita, de qualidade, laica e inclusiva é uma política institucional da UFRJ e que deve se confundir com uma política de Estado, para que nosso país se desenvolva plenamente”, finalizou a reitora. 

Ivana Bentes, pró-reitora de Extensão e grande anfitriã da Siac, afirmou que é um desafio fazer um evento deste porte num contexto de cortes de investimentos em educação e ciência. “É, sem dúvidas, uma atividade de resistência. A universidade resiste produzindo conhecimento, compartilhando saberes”, afirmou.
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