Do alto do Morro do Sumaré, um novo sinal sonoro começou a percorrer o Grande Rio, levando conhecimento, cultura e serviço público à população. No tradicional radinho a pilha, no carro ou na caixa do som, é a Rádio UFRJ FM que está no ar, na frequência 88,9 MHz.
A rádio universitária já funcionava desde 2019 na internet, mas a recente entrada no “dial” representa a realização de um sonho para gerações de estudantes e servidores. “É uma grande emoção ouvir essa rádio, depois de tantas décadas de luta. Isso começou com o ativismo estudantil nos anos 80”, afirmou o diretor do Núcleo de Rádio e TV da UFRJ, professor Marcelo
Kischinhevsky.
Marcelo ainda era aluno da Escola de Comunicação, quando participou da primeira tentativa, com o nome de Rádio Livre, em 1989. Um pequeno transmissor funcionava no centro acadêmico da ECO, com antena fixada no telhado do Palácio Universitário. Rebatizada como “Interferência” em 1992 e, após aproximadamente 20 anos de transmissões, a “emissora” foi fechada pela polícia, acusada de operar sem concessão oficial.
“O sonho de fazer uma rádio educativa cabia em uma caixa de sapatos, onde ficava o transmissor de 20 watts de potência, feito por um estudante da Escola Politécnica”, disse Marcelo. “Hoje, temos um transmissor de 20 kW, mil vezes mais potente, com esse sinal lindo, cristalino, que a gente está ouvindo”, completou.
O lançamento oficial das transmissões aconteceu em 3 de julho, no Fórum de Ciência e Cultura. A grade é formada em parceria com a Empresa Brasileira de Comunicação (EBC). “Temos quatro horas diárias de programação retransmitida da Rádio MEC AM, mais a Voz do Brasil. Nas outras 19 horas, é a programação da Rádio UFRJ, que é construída a partir de chamadas públicas”, afirmou Marcelo.
Hoje no site da Rádio UFRJ, há mais de 60 programas hospedados. “É uma diversidade muito grande de conteúdos. Não só da área de Comunicação. Há conteúdos
feitos pela Medicina, pela Filosofia, pelo Direito, pelo Serviço Social, pela Escola de Música. A gente espera ter esse papel de agregador de conteúdos da universidade e também de parceiros, porque a chamada pública não é só voltada para a comunidade acadêmica”, explica o diretor do Núcleo de Rádio e TV.
“O ouvinte pode esperar uma rádio muito viva, muito transparente”, esclarece Marcelo. “E já estamos com a sétima chamada aberta até setembro, para composição da grade de programação do ano que vem”.
MOMENTO HISTÓRICO
O reitor Roberto Medronho celebrou o momento. “É um momento histórico para a nossa UFRJ. Precisamos cada vez mais levar informação útil e relevante para a
sociedade”, disse. “A universidade não pode ser uma torre de marfim, voltada para sim mesmo. A universidade tem que estar junto com o povo, tem que estar junto com o dia a dia da população”.
A capacidade de alcance de uma rádio universitária foi destacada pela coordenadora do Fórum de Ciência e Cultura, professora Christine Ruta: “A importância dessa rádio é permitir que o conhecimento produzido na nossa universidade chegue mais longe. Com linguagem acessível, responsabilidade e proximidade com a vida das pessoas”, contou. “O rádio tem uma força única. Mesmo em tempos de redes sociais, o rádio no Brasil alcança quase 80% das pessoas nas grandes regiões metropolitanas”.
CRESCIMENTO
O lançamento da Rádio UFRJ faz parte de um movimento de expansão da comunicação pública no Brasil. “Nos últimos
dois anos e meio, a Empresa Brasileira de Comunicação (EBC) inaugurou 67 estações de TV e FM, sendo 52 só neste primeiro semestre de 2026. Essas estações cobrem mais de 30 milhões de pessoas”, informou o integrante do conselho diretor da Agência Nacional de Telecomunicações e ex-aluno da Escola de Comunicação da
UFRJ, Octavio Penna Pieranti.
O crescimento da rede pública, para Octavio, impulsiona a economia e fortalece a democracia. “A implantação de
cada emissora mobiliza um ecossistema muito amplo nas diversas localidades, gera empregos, estimula economia,
fomenta a participação social, ajuda no combate à desinformação e forma novos profissionais”, disse. “Mais que isso, garante pluralismo e diversidade. E, dessa forma, fortalece a democracia”.
O diretor geral da EBC, Thiago Regotto, valorizou o empenho de todos que lutaram para a implantação da rádio da universidade. “Bons projetos podem demorar, podem enfrentar dificuldades, mas quando muitas pessoas acreditam nele, encontram sua voz. E essa voz a partir de hoje atende pelo nome Rádio UFRJ FM, 88,9 MHz. Parabéns a todos que nunca desistiram desse sonho”, concluiu.
ENTREVISTA | MARCELO KISCHINHEVSKY
DIRETOR DO NÚCLEO DE RÁDIO E TV DA UFRJ
Foto: Fernando SouzaCaderno D: O que representa essa mudança da Rádio UFRJ para a FM?
Marcelo Kischinhevsky: Na web, há um número restrito de ouvintes. Agora é uma nova realidade com a qual vamos lidar e esperamos atender às expectativas da audiência. Estaremos focados nos públicos jovem e adulto jovem. Temos que trabalhar pelas futuras audiências. O rádio sempre será importante na vida das pessoas, desde que se mantenha atualizado. Esperamos contribuir para isso.
Em tempos de falta de orçamento na universidade, como foi possível lançar a rádio?
Tivemos emendas parlamentares que nos permitiram adquirir os equipamentos de transmissão e alguns equipamentos de estúdio, que estão armazenados, por enquanto.
Como os programas são produzidos, nessas primeiras semanas?
A Rádio é desenvolvida pelo núcleo de Rádio e TV, um órgão suplementar do Fórum de Ciência e Cultura. Como ainda não temos um estúdio próprio, estamos gravando na Central de Produção Multimídia da Escola de Comunicação. A gente ainda não consegue fazer programas ao vivo. O sonho de consumo é que nosso estúdio fique no equipamento cultural do Novo Canecão para podermos fazer entrevistas com os artistas que se apresentarão lá. Para termos também esse espaço formativo. Uma rádio universitária não é só comunicação pública e educativa. Mas é também um espaço de formação de futuros profissionais.
Professores da UFRJ podem participar?
Professores podem e devem participar. Fazemos chamadas públicas. Estamos na sétima chamada pública para compor a grade de programação do ano que vem. O que a gente espera das propostas é que tenham aderência aos parâmetros técnicos e aos parâmetros editoriais da Rádio UFRJ, atendendo a uma lógica de diversidade, de inclusão, de vozes muitas vezes silenciadas pela mídia comercial.





