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ELEONORA ZILLER
PROFESSORA DA FACULDADE DE LETRAS E EX-PRESIDENTA DA ADUFRJ

Estive em mais um Conad (Conselho Nacional de Associações de Docentes do ANDES), em São Luís, de três a cinco de julho. Alguns amigos me perguntam como ainda tenho paciência para tanto, mas a resposta é simples: precisamos muito de um bom sindicato. Com todos os problemas, rachas e burocratismos, nossa carreira, e a própria universidade pública que ainda hoje está de pé, é resultante de muitas batalhas coletivas travadas nas últimas décadas. Mas, então, qual o problema?

Havia dois pontos cruciais para serem debatidos no Conad: como o sindicato deve se posicionar nas eleições para presidente em outubro, e a constituição de uma comissão para construir propostas para a organização do próximo congresso. O primeiro é reprise de filme ruim: em nome de uma autonomia frente a governos e partidos, o ANDES escolhe um posicionamento genérico sobre o primeiro turno das eleições. É ruim porque a decisão demonstra exatamente o contrário do que ela declara: subordina o seu posicionamento a disputas partidárias internas do ANDES.

Foto: Eline Luz/Imprensa Andes-SNA diretoria e a maioria do plenário do ANDES parecem não compreender que a questão central no momento não é a avaliação do Lula ou as contradições do PT, até porque talvez sejamos a categoria profissional mais frustrada com o atual governo. Os anos de bonança do período Lula/ Haddad geraram uma enorme expectativa que esteve longe de ser cumprida. O ponto central, que ficou fora do debate, é se iremos jogar toda a nossa força desde o primeiro turno para derrotar a extrema direita ou se vamos nos iludir que estamos diante de um processo eleitoral normal.

Os interesses externos são gigantescos, o jogo é pesado, e dessa vez entra em campo de forma explícita (e, de certa forma, também inédita) a intervenção do governo norte-americano. Por isso, achávamos que o ANDES deveria ter um papel central na construção de uma mobilização dos sindicatos e associações científicas para garantir uma votação expressiva, e quiçá no primeiro turno, na única alternativa que temos nesse momento capaz de impor uma derrota significativa à familícia.

Perdemos por apenas dois votos. Ou seja, a decisão foi ficar encolhido. O ANDES vai ficar “paradinho”, como em 2022.

ORGANIZAÇÃO DO CONGRESSO

Em relação à possibilidade de pensar alternativas para a organização do próximo congresso, patinamos na mesmice de sempre, formando uma comissão majoritariamente comprometida com a manutenção das coisas como elas estão. E como elas estão?

Há décadas convivemos com uma ideia de democracia sindical no Congresso do ANDES que a cada ano se mostra mais contraditória e pouco eficiente. Desde a inscrição de textos e propostas de resolução até o processo de votação, é encenado um “ritual metodológico” que tem como princípio básico garantir a aprovação das teses da diretoria, e não o debate e a organização das grandes questões, muitas consensuais, de interesse da categoria. Em resumo, como isso se dá:

1. Cria-se a mística do debate pela base, facilitando a inscrição de propostas de resolução que, por serem inúmeras, pulveriza a discussão, gerando imensos cadernos de textos, com centenas de páginas. A restrição começa aqui: apenas uma militância aguerrida se debruça sobre a totalidade de contribuições.

2. Criam-se grupos de discussão, que são formados teoricamente por um sorteio aleatório. A ordem dos textos a serem votados é decidida arbitrariamente, de modo que cada grupo terá uma sequência diferente de textos a serem discutidos. Dessa forma, diz o “método”, se garante que todos os textos sejam debatidos em pelo menos em um grupo.

3. Parece democrático, ninguém escolhe seu grupo, ninguém escolhe o que vai discutir. Mas só parece. Os grupos possuem uma formação “aleatória”, ninguém se conhece. Mas em todos os grupos temos ao menos um representante da diretoria, que leu, estudou, mapeou todos os textos e sempre apresenta uma orientação para a votação.

4.Os textos são numerados, aqueles que não possuem destaques são imediatamente aprovados, sem qualquer discussão. Os que recebem destaques são debatidos e votados. Parece democrático porque as teses minoritárias, com ao menos 30% dos votos, irão à plenária para serem votadas.

5. São horas e horas de discussões e votações de destaques, só que você está colocado num grupo com pessoas que não escolheu, discutindo temas que também não escolheu, e o que é pior desse “método democrático” é que as grandes questões consensuais, as grandes tarefas nacionais, são votadas em segundos.

6. Com essa organização, um representante de uma Associação que apresentou uma proposta de reorganização da carreira pode ser “sorteado” para um grupo que sequer vai debater a sua proposta, que será debatida em outro grupo, sem a presença de alguém de sua delegação, e o projeto poderá ser rejeitado sem que ninguém tenha conseguido defendê-lo.

7. Conclusão: o grande Congresso do ANDES se organiza em torno das disputas das diferenças e de forma a garantir o controle de todo o processo por parte da diretoria, e não em torno da construção das grandes pautas nacionais, debatidas por quem entende do assunto, ou por quem viajou quilômetros para debatê-las.

Tudo isso acontece em extenuantes jornadas de 12 a 14 horas de discussão, num emaranhado de questões organizadas por um “supermétodo” que paira acima de todos. Sim, já foi pior! Antes, as reuniões nem tinham teto para acabar e entravam madrugada adentro. Muitas mudanças pontuais foram conquistadas pelas bancadas minoritárias, mas já passou da hora de entendermos que esse sindicato precisa de mudanças, de muitas mudanças.

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