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ERIK GIUSEPPE BARBOSA PEREIRA Professor da Escola de Educação Física e Desportos

FÁBIO VASCONCELOS SOUSA Programa de Pós-graduação em Educação Física

SANDRO HENRIQUE PINTO DA SILVA Programa de Pós-graduação em Educação Física

DIEGO RAMOS DO NASCIMENTO Grupo de Estudos em Corpo, Esporte e Sociedade da EEFD

A Copa do Mundo de Futebol costuma ser apresentada como a principal celebração das identidades nacionais no cenário esportivo internacional. Durante algumas semanas, bandeiras, hinos e símbolos nacionais ocuparam o centro das atenções, reforçando a ideia de que a competição representa um encontro entre diferentes povos. Entretanto, por trás dessa aparente exaltação das fronteiras nacionais, a Copa também revelou processos sociais que transcendem os limites dos Estados, especialmente aqueles relacionados às migrações e à globalização.

A realização da Copa do Mundo de 2026, sediada conjuntamente por Canadá, México e Estados Unidos, torna essa discussão ainda mais relevante. De um lado, as recentes políticas migratórias e restrições de entrada adotadas pelo governo estadunidense suscitaram debates sobre mobilidade internacional, desigualdades no acesso à circulação e os limites impostos à universalidade de um evento que se pretende global. De outro, a própria composição das seleções participantes evidenciou como as migrações contemporâneas transformaram as noções de pertencimento nacional. Cada vez mais, jogadores representam países distintos daqueles em que nasceram ou mantêm vínculos familiares, culturais e afetivos com múltiplos territórios, resultado de trajetórias marcadas por deslocamentos, diásporas e processos de naturalização.

Nesse sentido, a Copa constituiu um observatório privilegiado para compreender algumas das tensões centrais do mundo contemporâneo. Enquanto governos reforçaram mecanismos de controle sobre a circulação de determinadas populações, o futebol expôs a crescente interdependência entre sociedades e a formação de identidades transnacionais. Assim, este texto propõe refletir sobre duas dimensões da relação entre migração e Copa do Mundo: os impactos das restrições migratórias associadas à realização do torneio nos Estados Unidos e a influência da globalização na redefinição das nacionalidades e dos pertencimentos dos jogadores que disputaram a competição.

Esse torneio de proporções globais evidenciou tensões contemporâneas relacionadas com a realização de megaeventos esportivos e a implementação de políticas migratórias restritivas. O recrudescimento da política migratória dos EUA para esse evento pôde ser observado a partir da realização de inspeções ostensivas a delegações como no caso do Uzbequistão e do Senegal, bem como na negação de visto a torcedores, dirigentes, integrantes de comissões técnicas e até mesmo a um árbitro somali da FIFA que estava devidamente credenciado para trabalhar no evento. O governo Trump, por meio de uma proclamação de proibição e limitação de entrada (travel ban), decretou proibições totais ou parciais de entrada nos EUA para cidadãos de 39 países e restringiu a emissão de vistos especificamente durante o período da competição alegando riscos à segurança nacional.

Nessa conjuntura, uma pergunta se faz mister: como conciliar a governança da mobilidade em uma competição esportiva de grande magnitude como a Copa do Mundo com a rígida arquitetura do controle de fronteiras entre países? Diferentemente das migrações de longo prazo, o fluxo gerado pelo megaevento configura-se como uma intensa mobilidade internacional temporária que provoca modificações significativas nas dinâmicas urbanas locais, com estimativas apontando para a mobilização de milhões de turistas ao longo do período do torneio, o que acaba por se configurar em um desafio adicional para todos os envolvidos na organização da competição.

O projeto de universalização do futebol promovido pela FIFA tem como pressuposto o compartilhamento de um espaço globalizado, no qual o futebol atua como um veículo de integração cultural e congraçamento entre povos no qual esteja garantida a livre circulação de todos os atores envolvidos na realização do evento. Nesse contexto, ficou imediatamenteestabelecido um cenário de contradição entre a autonomia das organizações transnacionais e a soberania das nações, principalmente quando a configuração em questão envolve políticas migratórias e segurança nacional. Se, por um lado, a FIFA prega uma universalidade que pressupõe garantia de livre acesso aos países-sede para as nações classificadas, em oposição a isso as exigências relacionadas com a segurança interna dos EUA estipularam obstáculos que se contrapõem frontalmente a esses ideais de multiculturalismo e coexistência. Essa assimetria revelou, infelizmente, que o megaevento esportivo passou a constituir-se também em um palco de disputas de poder onde burocracia e ideologia condicionam os fluxos de mobilidade global ao sabor da política externa da superpotência anfitriã.

Um olhar mais atento sobre as últimas Copas já apontava um aumento consistente na participação de jogadores nascidos no exterior em seleções nacionais, com uma diversidade crescente de países de origem. Este movimento pode ser explicado pela noção de corredores migratórios, em que a escolha de um atleta por outra bandeira costuma ser o resultado de fluxos históricos entre pares de países. Federações passaram a identificar e convocar com mais proatividade jogadores com dupla ou múltipla cidadania (caso do Marrocos atraindo marroquinos nascidos na Europa), e as regras de elegibilidade da FIFA reconfiguram o significado de "seleção" a cada edição. O futebol, como lembra a literatura, mantém uma lógica territorial baseada nos estados-nação, mas combina essa lógica com hibridismos culturais e multiterritorialidades. E essa combinação, mais do que uma contradição, é o seu modo contemporâneo de ser.

Em um cenário no qual quase 25% dos jogadores representam países diferentes daqueles em que nasceram, o futebol internacional contemporâneo constitui-se como um espaço privilegiado de negociação de identidades nacionais em um mundo globalizado. Observar a Copa de 2026 foi, em última instância, contemplar uma fotografia ampliada das sociedades que a produzem. Indagar a legitimidade das escolhas de convocação é exercício saudável, e perguntar até que ponto uma federação esportiva representa um povo e não apenas uma estratégia esportiva é questão democrática, e não apenas futebolística. Mas a alternativa não precisa ser o essencialismo: seleções sempre foram construções, ainda que por outros mecanismos, e o que se presencia em campo é menos a dissolução do futebol como expressão de identidade nacional e mais a sua reinvenção, um processo mais complexo, contraditório e, talvez por isso mesmo, mais fiel ao mundo que o produz.

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