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Quem é essa mulher
que canta como quem dobra um sino
Queria cantar por meu menino
que ele já não pode mais cantar

Angélica, de Chico Buarque

Da esquerda para a direita, Hildegard, Ana Cristina, Zuzu Angel e StuartA canção de Chico Buarque é devastadora porque trata de uma angústia universal: a aflição da mãe que perde o filho, mas não pode velar o rebento porque sequestraram a história e o corpo de seu menino. Foi assim com Zuzu Angel, a talentosa estilista que inspira os versos de Chico e que enfrentou a ditadura militar em busca de respostas para o sumiço do seu primogênito, Stuart.

“Mamãe dizia: ‘a história do meu filho ainda vai estar nos livros de história’”, contou Hildegard, irmã de Stuart, e importante jornalista que zela pelo legado da mãe e do irmão. Foi ela quem representou Stuart na diplomação póstuma organizada no início de julho pelo Instituto de Economia da UFRJ e pelo Centro Acadêmico do IE. “Mamãe estaria muito orgulhosa com essa cerimônia linda e emocionante. Mamãe era uma visionária”.

Zuleika de Souza Netto nasceu em Curvelo (MG), em 5 de junho de 1921. Criada em Belo Horizonte, descobriu ainda menina o prazer de costurar. Fazia roupas para primas e amigas. Em Belo Horizonte conheceu o norte- -americano Norman Angel Jones. Casaram-se em 1943 e iniciaram uma vida marcada por mudanças. Viveram alguns anos na Bahia, onde nasceu o primeiro filho, Stuart Edgar Angel Jones, em 1947. Mais tarde, já no Rio de Janeiro, nasceriam Ana Cristina e Hildegard Beatriz.

A residência da família nunca foi apenas uma casa de Ipanema. Era também oficina, ateliê e ponto de encontro. Os filhos cresceram entre rolos de tecido e máquinas de costura. O pequeno negócio, conhecido como "Zuzu Saias", começou quase sem pretensão. As clientes chegavam por indicação, atraídas por uma mulher que fazia exatamente o contrário do que ditava a moda da época.

Enquanto a elite brasileira copiava Paris, Zuzu buscava inspiração na identidade nacional. Bordava anjos, borboletas, galinhas, araras e flores brasileiras. Usava rendas nordestinas, chitas, bambu, pedras mineiras, conchas e fuxicos. Defendia que o Brasil não precisava imitar ninguém para ser elegante. Sua moda era brasileira por convicção. Essa originalidade abriu as portas de Nova York, onde passou a vestir atrizes como Joan Crawford, Kim Novak e Liza Minnelli.

“Zuzu tem uma trajetória única na história da moda brasileira e mundial”, resume Ronaldo Fraga, famoso estilista que se define como discípulo de Zuzu. “Qual é o sentido de fazer mais um vestido? Nós já temos roupas para 200 anos, então você tem que fazer uma roupa que fale. E Zuzu Angel fez roupas que cantaram, dançaram, murmuraram, manifestaram, denunciaram”.

Zuzu mudou a moda e a maternidade. Separada do marido num tempo em que o divórcio era proibido, a estilista criou os filhos se desdobrando entre o trabalho no ateliê e os cuidados com as crianças. Era uma família unida. O acervo preservado pelo Instituto Zuzu Angel reúne bilhetes, desenhos e cartões feitos pelos três filhos para a mãe. Stuart escrevia pequenos recados; Hildegard desenhava; Ana Cristina assinava cartões de aniversário e Natal.

A rotina doméstica dos Angel mudou junto com o Brasil. O golpe militar de 64 atravessou os dias e noites da família liderada pela mulher de cabelos claros, sempre com vestidos florais. Stuart estudava Economia na Universidade Federal do Rio de Janeiro. Ali aprendeu a importância de defender a democracia. Entrou para o Movimento Estudantil, e em 1968, após o endurecimento do regime pelo Ato Institucional nº 5, ingressou no Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8), organização que defendia a luta armada contra a ditadura.

Até aquele momento, Zuzu não se metia em política. Chegou a ter desavenças com o filho sobre a militância do rapaz, carinhosamente apelidado por ela de Tuti. Ele já vivia na clandestinidade e a mãe temia pelo destino. O medo foi aumentando, Tuti rareando as visitas, até que na manhã de 14 de maio de 1971, Zuzu recebeu o telefonema que mudou para sempre sua vida, conforme relato dramático mostrado no belíssimo filme Zuzu Angel, de Sérgio Rezende.

“Paulo caiu”, disse a voz do outro lado da linha. “Quem é Paulo?”, indagou Zuzu, sem compreender que aquele era o codinome de Stuart. “Vá logo para a PE (Polícia do Exército) para tentar salvá-lo. É para lá que eles costumam ir”, insistiu a voz.

Não deu tempo. Zuzu passou cinco anos atrás do filho. Fez o impossível. Percorreu quartéis, ministérios, delegacias e gabinetes. Em todos os lugares recebia a mesma resposta: Stuart nunca estivera preso. Mentira.

Stuart foi preso por agentes do Centro de Informações e Segurança da Aeronáutica (CISA) e seu calvário nas mãos dos militares foi detalhado para Zuzu em carta recebida de Alex Polari de Alverga, sobrevivente da repressão e companheiro de cárcere de Stuart na Base Aérea do Galeão. Polari descreveu as violentas sessões de tortura e contou que o amigo foi submetido a um suplício que se tornaria um dos símbolos da brutalidade da ditadura: teve a boca presa ao escapamento de um jipe militar, enquanto o veículo era acelerado.

O corpo jamais foi entregue à família. O testemunho de Alex Polari transformou a busca de Zuzu. Ela já não procurava um filho desaparecido. “Mamãe dizia que já não lutava só pelo seu filho. Lutava pelo filho das outras mães. Lutava por todas as mães que estavam sofrendo o mesmo que ela”, contou Hildegard, entre lágrimas, na cerimônia de diplomação de Stuart na UFRJ. “E ela conseguiu. Depois que ela começou a denunciar o que aconteceu com Stuart, os militares fecharam o centro de tortura do Galeão”, contou a irmã de caçula, convencida de que a luta muda a vida.

Zuzu criou uma forma de luta parecida com a de seu ofício. Criativa e surpreendente. A estilista percebeu que a fama conquistada na moda poderia tornar-se uma poderosa arma política. Escreveu cartas a ministros, parlamentares, religiosos, diplomatas e jornalistas. O momento decisivo ocorreu em setembro de 1971, durante um desfile na residência oficial do cônsul brasileiro em Nova York. Quem esperava uma coleção tropical encontrou uma mulher vestida de preto, em luto.

As modelos cruzaram a passarela usando vestidos bordados com anjos feridos, pássaros aprisionados, tanques de guerra, soldados, sóis atrás de grades e manchas vermelhas que simbolizavam o sangue derramado pela repressão. Ao final, Zuzu distribuiu aos convidados documentos denunciando o desaparecimento de Stuart e os crimes da ditadura brasileira.

A coragem de Zuzu amplificou a covardia de seus inimigos. Passaram a perseguí-la. Zuzu acreditava estar permanentemente seguida por carros suspeitos e recebia telefonemas anônimos Pouco antes de morrer, deixou cartas e avisos. Repetia que, se aparecesse morta, teria sido assassinada pelos mesmos assassinos de Stuart.

Na madrugada de 14 de abril de 1976, seu carro foi fechado na saída do Túnel Dois Irmãos, perdeu o controle e despencou da pista. Durante décadas, a versão oficial sustentou que tudo não passara de um acidente automobilístico. Em 2014, as investigações conduzidas pela Comissão Nacional da Verdade reconheceram que Zuzu Angel foi vítima da violência de Estado, perpetrada contra opositores e familiares de perseguidos políticos durante a ditadura.

Zuzu nunca se despediu de Stuart. Mas sua luta produziu algo que a repressão não conseguiu destruir: a memória em forma de coragem. “Corajoso era o meu filho Stuart. Eu só tenho a legitimidade”.

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