Foto: TÂNIA REGO /AGÊNCIA BRASILUma pesquisa recente do Grupo de Estudos de Novos Ilegalismos (Geni) da UFF é basilar para demonstrar a ineficácia das grandes operações policiais como forma de enfrentamento ao crime organizado no Rio de Janeiro — diagnóstico central da Rede Artigo 5º. Divulgado no final do ano passado, o mais recente relatório do Mapa Histórico dos Grupos Armados mostra que, ao fim de 2024, mais de 4 milhões de habitantes da região metropolitana do Rio de Janeiro — 35% da população e 18% da área urbanizada da região — estavam sob controle ou influência desses grupos, notadamente o Comando Vermelho e as milícias.
Mais alarmante que esses números é a constatação de que esse controle ou influência vem ganhando cada vez mais espaço ao longo dos anos. A pesquisa revela que a área sob domínio dos grupos armados cresceu 130,4% entre 2007 e 2024, enquanto a população subjugada aumentou em quase 60%. “A política centrada em operações policiais se mostrou absolutamente ineficiente. A expansão do Comando Vermelho, que tem hoje o maior percentual dos territórios controlados, manteve um padrão muito estável de crescimento ao longo de toda a série histórica”, observa a pesquisadora Carolina Grillo, do Geni/UFF.
Se o Comando Vermelho manteve um padrão estável de crescimento, as milícias foram o grupo armado que mais cresceu entre 2007 e 2024. Os territórios sob seu controle aumentaram 315% (chegam a 103 quilômetros quadrados) e, se somados controle e influência, o crescimento foi de 501% (168 quilômetros quadrados). O CV teve um aumento de 46,4% dos territórios sob seu controle, e 45,1% dos territórios sob seu controle e influência somados, no mesmo período.
CONTROLE E INFLUÊNCIA
A pesquisa da UFF, feita em conjunto com o Instituto Fogo Cruzado e com o Disque-Denúncia, estabelece diferenças entre controle e influência de áreas onde atuam os grupos armados. Para exercer controle é preciso três condições: obter recursos econômicos de mercados legais ou ilegais no território; ditar normas de conduta e padrões de comportamento dos moradores; e sustentar esse domínio por meio da força.
Já a influência, segundo o estudo, “é uma espécie de controle insuficiente ou intermitente”, sob o qual as mesmas condições do controle aparecem de forma parcial, irregular ou com menor densidade, mas ainda assim produzem impacto real na vida das pessoas. “A diferença se revela decisiva para refinar a leitura da cidade: se o controle marca as áreas onde o domínio é consolidado e contínuo, a influência indica frentes de expansão, zonas de disputa e territórios em que o poder armado se infiltra pelas frestas da atuação estatal”, destaca a pesquisa.
O SALTO DAS MILÍCIAS
Os pesquisadores identificam o período entre 2016 e 2020 como o de maior expansão dos milicianos. Naqueles anos, a área total sob controle ou influência desses grupos cresceu em 90 quilômetros quadrados, dos quais 54 em controle e 36 em influência. É o período que o estudo chama de “a grande expansão”.
Foto: Arquivo pessoal“Na Zona Oeste, por exemplo, as milícias têm uma característica de colonização. Elas avançam sobre territórios que não estavam sob o domínio de grupo armado algum. E têm o padrão de controlar mercados de infraestrutura urbana e de atuação muito forte no setor imobiliário, na grilagem de terras da União ou de proteção ambiental, com construções e loteamentos irregulares. As milícias coordenaram o processo de expansão urbana na Zona Oeste da capital e na Baixada Fluminense”, explica Carolina Grillo.
A influência das milícias se dá, por exemplo, na extração de recursos por meio da extorsão a determinados mercados, sem um controle ostensivo e armado. É a imposição de monopólios, que as facções do tráfico também passaram a explorar, com uso da coerção e da força. “Isso vai desde a venda de farinha de trigo para comerciantes até o controle do gás de cozinha e de empresas fornecedoras de acesso à internet, entre outros serviços. Há também uma precariedade de atuação das agências regulatórias nessas regiões. O fato de haver mais territórios sob a influência dos milicianos do que das facções do tráfico mostra que as facções dependem de um controle armado mais ostensivo”.
A pesquisadora pontua que as milícias têm períodos de expansão e retração, e são mais impactadas pelas políticas de repressão direcionadas, como investigações e trabalhos de inteligência de órgãos como a Polícia Federal e o Ministério Público, que procuram identificar os elos dessas organizações com órgãos de Estado ou atacar suas bases econômicas. “Esse tipo de ação tem um efeito muito maior sobre essas organizações do que a política centrada em operações policiais”, diz ela.
Outra pesquisa do Geni/UFF, em parceria com o Unicef e o Instituto Fogo Cruzado, divulgada no último dia 26 de março, mostra um dos mais recorrentes e cruéis impactos do domínio dos grupos armados e da política de operações policiais na vida dos habitantes da região metropolitana do Rio de Janeiro. Segundo o estudo “Percursos interrompidos: efeitos da violência armada na mobilidade de crianças e adolescentes no Rio de Janeiro”, ao menos 188.694 crianças e adolescentes da rede municipal do Rio de Janeiro tiveram seus trajetos casa–escola afetados por interrupções no transporte público causadas pela violência armada entre janeiro de 2023 e julho de 2025.
O estudo analisa como a violência armada interfere na mobilidade urbana e compromete o acesso de crianças e adolescentes a direitos básicos, como a educação. Ao cruzar registros de interrupções no transporte público — ônibus, trens, metrô e BRT — e dados de violência armada provenientes de diferentes sistemas de monitoramento, o levantamento mostra que o deslocamento diário deixou de ser previsível em parte da cidade.
Foram 2.228 interrupções registradas — 786 em 2023; 852 em 2024; e 590 até julho de 2025. Das 4.008 unidades escolares ativas em 2024, cerca de 95% delas (3.825 escolas) registraram ao menos uma interrupção do transporte público em seu entorno no período analisado. O bairro da Penha, na Zona Norte, registrou o maior número de eventos, com 633 interrupções no período analisado. O total equivale a 176 dias sem circulação de transporte público. A região foi o palco da chacina de 28 de outubro do ano passado, que mobilizou a criação da Rede Artigo 5º.
Para Carolina Grillo, que também participou desse estudo, os reflexos para os estudantes vão além dos percursos interrompidos: há uma piora de desempenho dos alunos que estão em escolas situadas em territórios controlados. E também uma maior taxa de abandono escolar. O estudo revela que a principal causa de interrupção de transporte em dias letivos é por barricadas (32,4% dos casos), e a segunda, as operações policiais (22,7%). “Essas duas principais causas estão diretamente relacionadas à dinâmica do controle territorial armado e são interligadas”, observa a professora da UFF, que fez graduação, mestrado e doutorado na UFRJ, e foi orientanda do saudoso professor Michel Misse, falecido em agosto do ano passado.





