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A semana começou agitada na UFRJ. O início do ano letivo de 2026 trouxe expectativas, anseios e já apresenta inúmeros desafios. Bandejões com funcionamento prejudicado pela falta de pagamento a terceirizados e uma infiltração na cisterna do edifício Jorge Machado Moreira afetaram os primeiros dias de aula. As atividades, no entanto, foram normalizadas ainda ao longo desta primeira semana — os terceirizados, por exemplo, receberam os salários atrasados.

A volta às aulas coincidiu também com a Semana da Mulher, um momento de reflexão sobre as interdições ainda impostas ao gênero feminino. Bancos vermelhos foram instalados nos campi como símbolos do combate ao feminicídio. O assassinato de mulheres é o mais alto grau de uma escala de violências que ainda permeiam o dia a dia das brasileiras.

Na academia não é diferente. “Ainda precisamos mostrar nossa competência, impor nossa presença para sermos respeitadas”, desabafa a professora Angela Brêtas, ouvidora da Mulher da UFRJ. A instância foi criada em janeiro de 2023 como marco institucional no combate à violência de gênero na universidade. “Sermos professoras não nos isenta das violências a que todas as mulheres são submetidas. A universidade não é uma ilha”.

Em sala de aula, os desafios acompanham as mudanças sociais. Os ataques virtuais vêm ganhando espaço na universidade, de acordo com a ouvidora. “O ambiente digital está sendo cada vez mais utilizado para agredir professoras, fazer ameaças, humilhá-las”, aponta Angela Brêtas. “A suspeita é de que sejam alunos, mas não temos provas e esse é outro problema. Não é fácil rastrear perfis e e-mails falsos. Os agressores estão protegidos pelo anonimato e pela tela”, lamenta a docente, que também é pesquisadora na área de Educação.

A masculinidade tóxica incentivada por perfis “red pills” e “coaches de masculinidade” conquista adeptos cada vez mais jovens. “Precisamos criar um movimento pedagógico para lidar com isso”, avalia a professora. “Esse não é só um problema das mulheres, também afeta muito os homens. Gera, por exemplo, comportamentos de risco, aumento da depressão, do suicídio”, exemplifica.

RESPEITO E EQUIDADE
A academia é uma instituição que possui grande presença feminina — na UFRJ, as mulheres correspondem a 49% do corpo docente. Apesar disso, professoras negras ainda são minoria no ensino superior. Dados do Censo Nacional da Educação Superior de 2023 indicam que elas são apenas 7,5% dos mais de 397 mil professores universitários em atividade no país.

“Dentro do campo da luta das mulheres, temos especificidades que atingem as mulheres negras. As universidades são espaços criados para os homens, brancos, heterossexuais”, afirma a ouvidora da Mulher.

Pró-reitora de Graduação, a professora Maria Fernanda Quintela admite que ainda há um longo caminho a ser trilhado pelas mulheres na carreira docente, mas acredita que na esfera do ensino esses desafios estão menos estabelecidos. “Nossa carreira é multifacetada, mas acredito que hoje, no âmbito do Ensino, esses desafios são menos presentes”, acredita a professora. “Temos enorme presença na universidade e somos pontuadas com isonomia com os homens nas nossas avaliações para progressões, nessa área de Ensino”.

Ela não pode dizer o mesmo na Pesquisa e na Gestão. “Acredito que vamos melhor no Ensino e na Extensão, mas o ‘efeito tesoura’ realmente ainda é muito presente em outras esferas da nossa carreira”, reconhece. “Por isso são extremamente importantes as políticas públicas voltadas ao combate à desigualdade de gênero”, reflete a pró-reitora.

Para a professora Giovana Xavier, da Faculdade de Educação, o maior desafio das professoras universitárias carrega o paradoxo de ser tão simples quanto complexo: o direito à plena existência. “A professora universitária que, em vez de se abandonar, decide priorizar-se, ainda é vista como alguém que não leva o trabalho a sério”, critica.

“Da mesma forma, profissionais que estabelecem limites claros no trabalho, como não responder mensagens de madrugada ou nos fins de semana, não trabalhar nas férias ou limitar participações em bancas, comissões e orientações, seguem sendo rotuladas como difíceis, arrogantes ou inadequadas”, avalia. “Por isso, acredito que nosso desafio mais genuíno seja também existencial: criar formas emocionais, sociais e espirituais de vida em que a potência de realização e o prazer de sermos nós mesmas prevaleça”.

Para Giovana, esse desafio se apresenta de maneira diferente para as docentes negras. “Eu trilho diariamente um caminho de autorreconhecimento de minha própria humanidade, complexidade, singularidade e também dos meus limites. Sustentar uma carreira acadêmica autêntica exige um enorme investimento de energia, além da capacidade de se desapegar de expectativas externas, estereótipos e tentativas constantes de enquadramento”, diz.

“Garantir que a palavra ‘pessoa’ exista plenamente na experiência de sermos mulheres negras na universidade é, ao mesmo tempo, nosso maior desafio e um de nossos maiores legados para a Ciência e para as futuras gerações”, conclui a docente da Faculdade de Educação.

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