Uma pesquisa do Observatório Nacional da Violência contra Educadores mostra dados alarmantes da violência física e simbólica à qual professores, da educação básica ao ensino superior, estão submetidos em todo o país. Mais de três mil educadores responderam ao questionário aplicado eletronicamente em todas as regiões brasileiras. Cerca de 90% responderam já ter vivenciado ou conhecer quem vivenciou violência física ou censura em sala de aula. Quase 60% já foram vítimas diretas.
Os dados foram apresentados durante aula inaugural do Programa de Formação Profissional em Ensino de História da UFRJ (ProfHistória). O evento aconteceu no Salão Nobre do IFCS/IH. O professor Fernando Penna, diretor da Faculdade de Educação da UFF, coordena o observatório responsável pelo estudo. “Perseguir e expor educadores se tornou uma forma de ganhar capital financeiro e político no Brasil”, afirmou ele, ao lembrar que gravações de professores vão parar nas redes sociais como conteúdos monetizados. “Além disso, tivemos parlamentares que foram eleitos por expor educadores”.
A amostra analisada indicou que 61% professores do Ensino Básico foram vítimas de violência, enquanto no Ensino Superior, o percentual é de 55%. Na rede EBTT, 62% responderam ter sido vítimas diretas de ameaças e censuras. “Fica claro que este é um fenômeno que está espalhado pelas nossas instituições de ensino”, observou Fernando Penna. “A violência está atravessando o trabalho do docente. O saber profissional do professor se tornou menos importante do que evitar os temas polêmicos em sala de aula”.
A Região Sul lidera os casos de ataques a docentes, com 64% dos professores vítimas diretas de violência. A Região Sudeste figura em segundo lugar, com 62%. O Centro-Oeste aparece em terceiro lugar, com 57%. O Nordeste aparece com 53% dos docentes vítimas de violência e, na Região Norte, 52% responderam ter passado por violência na docência.
Censura e perseguição ideológica são as violências mais comuns vivenciadas pelos educadores, de acordo com os resultados da pesquisa. Os números mostram que 73% dos entrevistados responderam que foram agredidos por questões políticas, enquanto 53% disseram que foi por questões de gênero e sexualidade.
CENSURA AUMENTA EM ANOS ELEITORAIS
Outro achado da pesquisa diz respeito ao momento em que essas violências são mais praticadas. Os picos coincidem com anos eleitorais (veja gráfico na página 9). “Elas crescem a partir de 2010, pioram em anos eleitorais, se tornam recorrentes e permanecem altas. Estamos em ano eleitoral. A probabilidade de termos um novo pico de violências é bem alta”, afirmou Fernando Penna.
Para o docente, garantir a segurança de educadores nas escolas e universidades é um compromisso que precisa ser assumido por toda a sociedade. “O desafio coletivo e político de todos nós é garantir a segurança para que os professores sigam trabalhando conforme sua formação, sem medo de abordar os temas que fizeram parte de sua formação”, defende ele.
A pesquisa apresentada pelo professor da UFF tem o objetivo de subsidiar os agentes políticos. “O Observatório atua no sentido de realizar recomendações para elaboração de políticas públicas voltadas a reduzir a violência contra os professores”, explicou. “Fazem parte de seu conselho consultivo sindicatos e federações nacionais, entidades científicas e associações”, concluiu o docente. O relatório completo com os dados da pesquisa pode ser acessado aqui.
VIOLÊNCIA E EXTREMA DIREITA
De acordo com Ynaê Lopes, professora de História da UFF, muito da violência observada na pesquisa e no dia a dia de professores de todo o país tem relação direta com o recrudescimento da extrema direita brasileira. “Parte dessa violência é também uma resposta à diversidade que vem ganhando espaço nas instituições de ensino”, afirmou.
Em sua análise, a violência tem um contexto conjuntural. “Houve 253% de aumento da violência contra professores no Brasil. Isto é projeto político e está embebido no crescimento da extrema direita”.
A docente fez um apanhado histórico desde o século XIX e concluiu que a educação foi instrumentalizada como elemento de manutenção do racismo e da desigualdade social no Brasil. “Em 1854, um artigo proibia o acesso de meninos com doenças contagiosas e escravizados à escola. Havia, ainda, um controle pesado sobre quem eram as pessoas aptas e não aptas a ensinar no país”, disse. “Aproximadamente 75% da população era analfabeta naquele momento. A educação era controlada pela Igreja Católica e era para poucos”, lembrou a pesquisadora.
Ynaê Lopes destacou também a Lei Saraiva, de 1881, que determinava que o voto fosse realizado apenas por pessoas alfabetizadas. “O acesso à escola vai definir quem pode votar no Brasil”, observou.
Com a abolição da escravatura, em 1888, a população negra fica livre no papel, mas segue sem liberdades individuais garantidas. “Não há nenhuma política pública a partir de 14 de maio de 1988, um dia após a assinatura da Lei Áurea, portanto, que garanta o acesso da população negra à educação”.
Já na Era Vargas, a professora Ynaê destaca que o Brasil passa a absorver variados segmentos da população, mas de forma desigual. “Aqui, de novo, a educação será um pilar fundamental. É ela que vai atualizar a ideia falaciosa de harmonia racial no Brasil”, disse. “A escola foi construída para manter as desigualdades. A eugenia passa a ser o princípio norteador da educação e da saúde no Brasil”.
Antes de 2010, a professora explicou que o período mais agudo de violência contra professores foi a ditadura militar. Desde a redemocratização, a educação vem se transformando. “A educação passa a ser instrumento do compromisso pela liberdade, igualdade e democracia”, disse. “Esses avanços geram reações. Os ideais básicos de civilidade estão sendo questionados. Não por acaso, as tensões vão estourar nas escolas”.
Diretor de Relações Étnico-raciais e Pautas Racistas da Associação Nacional de História e coordenador do ProfHistória, o professor Amilcar Pereira mediou o encontro e revelou que os casos que chegam à associação são muito preocupantes. “São muitos os casos de ataques, sobretudo a professores de História quando tratam a temática de História e Cultura Afroindígenas”, contou.
O docente pediu vigilância dos movimentos ligados à educação. “Há um projeto de lei em tramitação que pretende acabar com a obrigatoriedade do ensino de história afroindígena. Precisamos barrar esse processo”, disse.
Ele se referiu ao Projeto de Lei 1007/2025, da deputada federal Clarissa Tércio (PP-PE), que tramita na Câmara e propõe tornar opcional o ensino de história e cultura afro-brasileira e indígena, com a alteração da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB). As leis que instituíram os conteúdos obrigatórios são de 2003 e 2008.
Depoimento | Valéria Borges
Professora perseguida pelo ‘Escola Sem Partido’
“Eu tinha um aluno gay. A escola, em 2017, era um antro bolsonarista. Na época, eles ainda eram chamados de ‘coxinhas’, pois não existia a noção estabelecida do bolsonarismo. Esse aluno, além de gay, era drag queen e estava se sentindo acuado por conta do clima do Brasil e da escola. Certo dia, eu estava dando aula sobre fascismo, falando sobre as características, e ele levantou a mão para falar que tudo aquilo que eu descrevia era muito parecido com o Bolsonaro.
Naquele momento, eu minimizei a figura do Bolsonaro e disse a ele que o maior problema eram as pessoas que o seguiam: misóginas, machistas, racistas, homofóbicas. No final daquela aula, soube que um aluno me gravou.
O áudio foi parar na internet. As milícias digitais compartilhavam dizendo que eu havia atacado um aluno. A versão era que o que eu falei era para agredir a um aluno, tiraram de contexto. Carlos Jordy era vereador nessa época e encabeçava, junto com Flávio Bolsonaro, uma forte campanha nos municípios pela aprovação do Escola Sem Partido. Ele queria palco para sua audiência pública sobre o tema. O palco foi essa gravação não autorizada e Jordy passou de vereador a deputado federal com esta plataforma.
A minha vida profissional foi revirada, a minha família ficou com medo. Passei a ser conhecida na cidade de Niterói. As pessoas me paravam na rua para me falar que viram ameaças, ou que eu deveria sair da escola, ou que deveria ser demitida.
Fui chamada ao Conselho Tutelar, sofri processos, sofri perseguição de grupos políticos. Havia ameaças à minha vida. Todas as informações sobre mim estavam na internet.
Venci todos os processos. Tive muito apoio de colegas, partidos políticos. Aquele momento passou, mas deixou marcas. Adoeci, precisei de acompanhamento psiquiátrico, tive síndrome do pânico laudada, depressão, passei a fazer uso de remédios controlados e me tornei insulinodependente.
De lá para cá, aquele bolsonarismo explícito de gritar ‘mito’ nos corredores não existe mais, mas há consequências graves. Muitos colegas hoje estão apanhando. Estão acontecendo coisas horríveis nas escolas. A maioria das atitudes agressivas parte de meninos embebidos pela machosfera, que torna meninas e professoras as maiores vítimas. Esse movimento começou lá com o bolsonarismo e se fortaleceu. Quanto a mim, não tenho mais medo de falar, mas sei que muitos colegas evitam certos temas. Os professores até hoje estão autocontidos.”





