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Foto: Alessandro CostaA última visita da diretoria da ADUFRJ a unidades acadêmicas tratou de um problema sensível e muitas vezes invisível: o assédio moral. Prática que tem como característica gerar repercussões não só no ambiente de trabalho, mas na vida e na saúde da vítima. O encontro ocorreu na Escola de Química, no dia 22. A unidade, referência no Brasil no ensino e na pesquisa nas áreas de Engenharia Química, de Alimentos, Bioprocessos e Química Industrial, tem um corpo docente em renovação, mas que sofre uma rotina de pressões. Jovens docentes e mulheres são os mais afetados.
Os estudos sobre assédio moral no ambiente acadêmico são diversos e corroboram o que os professores da EQ sentem na prática. É o que apontou, por exemplo, a pesquisa “Assédio moral e outras violências laborais na UFRJ”, conduzida pela professora Alzira Guarany, da Escola de Serviço Social. Os números foram apresentados com exclusividade pelo Jornal da ADUFRJ, em março deste ano.
De acordo com o levantamento, 74% dos entrevistados declararam já terem vivenciado situações de assédio moral. Desses, 67% são mulheres. Segundo o estudo, o superior hierárquico encabeça a lista dos principais agressores: 54,12%. A imensa maioria das vítimas (84,4%) declarou que o assédio sofrido desencadeou problemas de saúde mental como insônia, ansiedade, depressão, e outros distúrbios.
“Estamos aqui para escutar vocês. Essas reuniões nas unidades são muito importantes para o nosso trabalho”, afirmou a presidenta da ADUFRJ, professora Ligia Bahia, na abertura do encontro. A docente também informou aos professores que a diretoria elabora – e quer a ajuda dos professores sindicalizados – uma proposta de carreira que retome, por exemplo, o ano sabático. “Queremos atuar na direção de promover o bem-estar dos professores em vários níveis e prevenir as violências simbólicas no ambiente de trabalho”, completou o vice-presidente, professor Michel Gherman.
A professora Ana Maria Rocco questionou o recebimento de uma série de documentos, nos últimos meses, com orientações que por vezes amordaçam a atuação docente e ameaçam a liberdade de cátedra e política. “Tenho recebido várias cartilhas dizendo que não posso fazer uma série de coisas e não consigo comprovar se são documentos oficiais. Mas me sinto intimidada enquanto cidadã”, relatou.
Outro relato trazido pela docente foi sobre um recente caso de assédio moral no ambiente de trabalho envolvendo um professor recém-admitido. “Ele veio conversar comigo muito abalado. Eu também fui assediada muitas vezes, durante toda a minha vida na universidade”, declarou. “Fui a várias instâncias e ouvi de alguém que eu era muito forte, porque outras pessoas, nessa situação, se suicidam”, disse. “O que a ADUFRJ pode fazer sobre isso?”, questionou a docente.
Ligia Bahia contou que a diretoria prepara um encontro com a Pró-reitoria de Pessoal para apresentar as demandas surgidas nas reuniões de unidade. Entre os temas estarão o assédio, insalubridade, condições de trabalho. O encontro está previsto para o final de agosto. “Estamos muito preocupados com essa situação, mas a gente precisa que esta seja uma solução institucional”, avaliou. Michel Gherman complementou: “A gente perdeu brilhantes professores que saíram da universidade por conta do assédio. Podemos ajudar a instituição a se atualizar, a ser mais rápida nessa resposta”.
A professora Karen Signori fez um desabafo: “O estabelecimento de hierarquias no fazer docente é uma porta para o assédio. A universidade é plural. Eu trabalho com alimentos, eu gosto de Extensão, de sala de aula. Não tem lugar para todo mundo na Pesquisa, mas eu sofro ameaça de não chegar a titular”, disse. “A pessoa que se mata no noturno, que está na sala de aula, não é valorizada. Muito do assédio vem de quem é da pesquisa e tenta inviabilizar quem não é”, revelou. “Eu não sou egressa da UFRJ e por isso demorei ainda mais para entender os caminhos aqui”, criticou.
O esforço de reunir docentes em diferentes unidades ao longo do primeiro semestre do ano foi elogiado pelo professor Ricardo Medronho, ex-diretor da ADUFRJ. Professor emérito da UFRJ, ele reconheceu que é preciso discutir o tema do assédio com seriedade. O docente também elogiou a iniciativa da diretoria de discutir o tema da carreira. “O ano sabático é muito importante para a atualização dos professores. Isso já existiu em resolução da UFRJ, na época do reitor Horácio Macedo, e se perdeu. Seria ótimo retomar esse ano sabático. Outra iniciativa interessante seria construir um intercâmbio docente, entre instituições, para que os professores enriqueçam suas práticas”, sugeriu.

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